Muito antes de se transformarem em documentos históricos, eles foram processos judiciais. Hoje, décadas depois, ações envolvendo grandes personagens e episódios marcantes do futebol brasileiro permanecem preservadas nos arquivos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), formando um acervo que ultrapassa o interesse jurídico e se consolida como um retrato da memória nacional.
Entre as milhares de páginas armazenadas estão casos que mobilizaram o país, como o furto da Taça Jules Rimet, disputas sobre direito de imagem de ídolos da Seleção Brasileira, conflitos judiciais entre grandes jogadores e o sequestro do pai de Romário às vésperas da conquista do tetracampeonato mundial.
Para o diretor da Divisão de Gestão de Documentos do TJRJ, Gilberto de Souza Cardoso, esses processos revelam muito mais do que decisões da Justiça.
“Temos algumas raridades no nosso acervo e, em tempos de Copa do Mundo, podemos dizer que guardamos uma coleção de processos envolvendo a competição e jogadores que marcaram a nossa história”, afirma.
Segundo ele, os documentos preservam aspectos sociais, culturais e emocionais que ajudam a compreender diferentes momentos vividos pelo país.
“Os autos mostram não apenas o crime, mas também a relação afetiva dos brasileiros com a Copa do Mundo”, destaca. “São registros que revelam a trajetória do futebol, das mulheres, da escravidão e de tantos outros temas. Histórias vivas que só os processos judiciais conseguem contar.”

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Entre os episódios mais emblemáticos está o furto da Taça Jules Rimet, troféu conquistado definitivamente pelo Brasil após os títulos mundiais de 1958, 1962 e 1970. A peça foi roubada da antiga sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no centro do Rio de Janeiro, em dezembro de 1983, e jamais foi recuperada.
Curiosamente, o próprio processo enfrentou uma espécie de desaparecimento dentro do arquivo judicial. Durante anos, permaneceu sem identificação precisa, dificultando sua localização entre milhares de documentos preservados pelo tribunal. Os autos registram toda a investigação policial e a condenação dos envolvidos.
Outro conjunto de processos guarda uma disputa que ajudou a fortalecer o direito de imagem no esporte brasileiro.
Em 1988, a publicação do álbum de figurinhas “Heróis do Tri”, produzido sem autorização dos atletas homenageados, levou ex-jogadores campeões mundiais, como Jairzinho, Carlos Alberto Torres, Altair, Amarildo, Moacir, Joel e José Ferreira Franco, a recorrerem à Justiça contra a CBF e a Editora Abril.

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A chefe de serviço Marileia Salazar considera esse um dos documentos mais relevantes do acervo.
“Trata-se de um dos processos mais icônicos do nosso acervo, tanto pela relevância histórica quanto jurídica”, afirma. Segundo ela, as decisões contribuíram para consolidar a proteção ao direito de imagem dos atletas e influenciaram mudanças que seriam incorporadas posteriormente à Lei Pelé. “Isso é história. Esses processos ajudaram a garantir aos jogadores o direito sobre a própria imagem.”
As disputas entre craques também deixaram registros importantes.
O acervo conserva, por exemplo, a ação movida por Zico contra Romário em 1999, após declarações e caricaturas consideradas ofensivas exibidas pelo ex-atacante em um estabelecimento comercial. A Justiça reconheceu o dano moral em favor de Zico, tornando o caso um dos exemplos mais conhecidos envolvendo conflitos entre grandes ídolos do futebol nacional.

Romário e Zico | Reprodução
Para a historiadora e auxiliar de documentação do tribunal, Tainara Weber, preservar esses registros significa aproximar a sociedade da própria história.
“Como torcedora do Internacional e amante do futebol, é muito gratificante trabalhar com registros que ajudam a dar visibilidade e preservar a memória das Copas e de seus protagonistas. Eles mostram como os arquivos contribuem para compreender a relação entre o esporte e a sociedade brasileira.”
Um dos processos mais dramáticos preservados pelo TJRJ registra o sequestro de Edevair de Souza Faria, pai de Romário, ocorrido em maio de 1994.
Na época, o atacante era o principal nome da Seleção Brasileira e atuava pelo Barcelona. O crime aconteceu poucas semanas antes da Copa do Mundo dos Estados Unidos. Os sequestradores exigiram o pagamento de US$ 7 milhões pelo resgate.
O episódio provocou enorme comoção nacional. Romário chegou a declarar publicamente que abandonaria a Seleção caso o pai não fosse libertado, colocando em dúvida sua participação no Mundial.

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Depois de seis dias de buscas, a polícia localizou o cativeiro em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, resgatando a vítima sem pagamento de resgate. O caso mobilizou forças de segurança, dominou o noticiário da época e, segundo relatos históricos, chegou a despertar o interesse de lideranças do tráfico carioca, admiradoras do jogador.
Com o pai em segurança, Romário embarcou para os Estados Unidos, onde foi protagonista da campanha que levou o Brasil ao tetracampeonato mundial.
Mais do que registrar sentenças, os documentos preservados pelo Tribunal de Justiça ajudam a reconstruir momentos decisivos da história do futebol brasileiro. Em cada processo estão reunidos depoimentos, provas, decisões e narrativas que revelam como o esporte ultrapassa as quatro linhas e se mistura à cultura, ao direito e à própria memória do país.
*Com Agência Brasil






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