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A guardiã dos sabores esquecidos: a mulher que desafia a história da comida nordestina

por | 4 abr, 2026

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Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

Entre panelas, memórias e investigação, a trajetória de Adriana Lucena rompe fronteiras entre ciência, tradição e identidade. Ela surge como uma voz inquieta — e provocadora — ao questionar as origens da culinária nordestina e denunciar o desaparecimento de saberes do Semiárido.

Nascida em Natal e sem raízes familiares no sertão, Adriana construiu sua ligação com a região pela experiência. Deixou a carreira no Direito para mergulhar em um trabalho que cruza gastronomia, história e política. “A comida é uma forma de contar histórias”, resume.

Ao longo de mais de duas décadas, ela percorreu comunidades, ouviu mestres da tradição e registrou práticas que resistem fora dos livros. Seu trabalho revela que a culinária sertaneja não é apenas herança portuguesa, como sustenta a narrativa mais difundida. Há, segundo ela, influências diversas — inclusive conexões inesperadas com a Índia e outras culturas.

“Quando você vai a campo, percebe que muita coisa não é adaptação. É criação local, inteligência do território”, afirma.

A pesquisa ganhou forma literária no livro No Rastro dos Vaqueiros, onde transforma ingredientes e receitas em pistas de uma história ainda incompleta. Para Adriana, pratos, técnicas e modos de preparo funcionam como arquivos vivos de um passado pouco documentado.

Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

Saberes em risco

Mas esse patrimônio corre risco. A pesquisadora alerta para o desaparecimento não só de ingredientes, mas de práticas inteiras. Receitas tradicionais deixam de ser feitas, técnicas são substituídas e novos hábitos apagam conhecimentos transmitidos por gerações.

“Não estamos perdendo só comida. Estamos perdendo modos de vida”, diz.

Entre os exemplos estão preparos quase esquecidos e mudanças na forma de produzir alimentos, como a substituição de variedades tradicionais por versões comerciais. Pequenos grupos ainda mantêm essas tradições, mas em escala cada vez menor.

Foto: Luana Thayse / Sebrae RN

Entre tradição e resistência

A atuação de Adriana também dialoga com movimentos como o Slow Food, que defende alimentos “bons, limpos e justos”. Para ela, o conceito vai além do consumo: envolve conhecer a origem dos produtos e valorizar quem os produz.

Sua pesquisa, no entanto, vai além da valorização — ela questiona versões consolidadas da história alimentar brasileira, propondo novas leituras sobre pratos icônicos e suas origens.

Ao fazer isso, Adriana Lucena não apenas preserva memórias: ela reabre debates sobre identidade, território e pertencimento. E mostra que, no sertão, o passado ainda está sendo descoberto — muitas vezes dentro de uma panela.

*Com Agência Econordeste

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