17 de maio de 2021 12:41 por Geraldo de Majella

(*)Texto de Raul Ellwanger
Na madrugada do Restaurante München, na Calle Talcahuano, em Buenos Aires, reunia-se a tradicional roda comilona e etílica em torno de Vinícius de Morais, após seus show nos teatros da Calle Corrientes. Com Toquinho, Mutinho, Azeitona, Maria Creuza, Tenório Jr., Roberto Sion, Simone, Laércio de Freitas (o time variava a cada ano), após o final dos shows rolava aquele papo gostoso. Mais gostoso ainda era para vários de nós que morávamos na Argentina, fosse por exílio (anos setenta), trabalho ou estudo.
Vinícius, de braço com sua namorada, dizia a Ferreira Gullar, que já estava farto de exílio e solidão: “Pô, bixo, larga dessa mania de poesia séria, faz como eu. Olha só, estou me divertindo à pampa, faturando e fazendo uns sambas bem bonitinhos aí com o Tom, o Toco, o Muti, e tal. As moças estão gostando.”
No final da madrugada, íamos todos repousar, tontos e felizes com aquele “pedacinho de Brasil” que os músicos nos traziam por algumas horas.
Após uma dessas soirées, ali pelas sete horas da manhã, ouvi um toc-toc-toc na porta de nosso apartamento. Fui abrir ainda cambaleando, era o Ferreira. Na mão, uma folhinha de papel manuscrita. Me passou o papel e dizia: “Abre, bixo, abre. É mais ou menos assim, tetutuio-tetutuio-tetutúiutááááá, algo assim, telecoteco… Vê se apronta antes do saída do vôo do poetinha”.
Gostei da letra e do convite, passei um café e fui pra cima do texto, pois tinha já o motivo musical: era o “tetututuiotutú” ondulante e incessante que o próprio Gullar cantando me entregara de bandeja. Após muito cigarro e café, com minha esposa Nana gravamos num daqueles k-7, na própria mesa da cozinha. Meio-dia, no hotel, Gullar escutou e passamos a fitinha pro Vinícius.
Foi tudo bem, o texto era redondo, com cadência bem metrificada e a gente sente quando um tema nasce com naturalidade, é como se pedisse passagem, como se já estivesse feito. Maranhão e Peru são lugares de nascimento e moradia de Gullar, enquanto a mudança de nariz já rendeu muitas hipóteses… Seu ritmo alegre suaviza a letra de perdas e exílios. É uma canção muito querida até hoje, a primeira que se tornou conhecida após voltar do exílio.
Te procuro lá
Raul Ellwanger – Ferreira Gullar
Eu não vou te perder
Eu não vou te perder
Eu não vou te perder
Eu não vou te deixar
E não vou te perder ,
não vou te abandonar
Vá você pra onde quiser
que eu te procuro lá
Te procuro te procuro
Te procuro lá
Você pode ir-se embora
Pra bem longe daqui
Pode ir pro Maranhão
Pode ir pro Piauí
Pode ir com rumo certo
Ou ficar ao Deus-dará
Pode parar no Perú
Pode parar no Pará
Pode mudar de babado mudar de sapateado
Pode ficar numa boa, pode bancar a careta
Pode mudar de país, pode mudar de planeta
Pode mudar de nariz, pode ir pro fundo do mar
Que eu te procuro te procuro
Te procuro lá
“Cantata Sete Povos” , discografia, canções, livros, biografias em:
www.raulellwanger.com.br
(Extraido do livro Nas Velas do Violão)
(*) Raul Ellwanger é compositor, letrista, arranjador, cantor, produtor musical e ativista cultural, natural de Porto Alegre, Brasil, Raul Ellwanger tem doze discos gravados e mais de 200 canções registradas por importantes intérpretes, como Elis Regina, Beth Carvalho, Mercedes Sosa, Fafá de Belém, Raul Porchetto, Renato Borghetti e León Gieco. Com canções gravadas em castelhano, alemão, italiano, francês e catalão, conta com parcerias de Paulinho Tapajós, Ferreira Gullar, Jerônimo Jardim, Pery Souza, Washington Benavidez, Mário Quintana e com versões de Pablo Milanês, Raul Porchetto, León Gieco, Tarrago Ros e Alfredo Zitarrosa.
Resistente à ditadura, foi condenado pela Lei de Segurança Nacional em 1971, devendo exilar-se no Chile e Argentina. Ativista dos Direitos Humanos, é membro do Comitê Carlos de Ré da Verdade e Justiça do RS.