Mácleim Carneiro

Crime anunciado (Parte II)

O resultado é uma desigual ocupação do espaço, aliado aos fatores sociais, a falta de investimentos nas cidades da Zona da Mata.

1 de julho de 2022 por Mácleim Carneiro

 

 

Eu era criança, lá em Murici, e lembro bem da catástrofe que se abateu sobre São José da Laje em 1969. Todas as cidades ao sul da Laje, no curso do rio Mundaú, sofreram enchentes que provocaram perdas e danos. E o que foi e é feito preventivamente nessas cidades desde então? Nada! Absolutamente nada! Portanto, o que vimos em 2010 foi mais um crime anunciado. É evidente que, se existe crime, há que haver vítima(s) e malfeitor. Faz-se desnecessário dizer a quem cabe os respectivos papeis em Alagoas. Aliás, como sempre acontece nesses casos, é bem mais fácil apontar a natureza e os fenômenos naturais, como cangaceiros celestiais a serviço de um Deus entrópico. Mas não é bem assim. Como mostrou uma nota pública da Associação dos Geógrafos Brasileiros, AGB, seção Recife, à época.

A nota esclareceu que:

“Ao longo de vários anos, a monocultura da cana de açúcar transformou o espaço da Zona da Mata do Nordeste, em um espaço de “confinamento da pobreza” e degradação das relações sociais. O latifúndio da cana, não só deteriorou as condições sociais dos trabalhadores ao longo de vários anos, como também causou graves crimes ambientais, dentre eles, a completa destruição da Mata Atlântica e das matas ciliares, alteração de leitos de rios e seus afluentes, construções de barragens e diques, poluição dos cursos d´água, corte de encostas e muitos outros crimes. Assim, o resultado é uma desigual ocupação do espaço, aliado aos fatores sociais, a falta de investimentos nas cidades da Zona da Mata, bem como a não existência de uma articulada rede de prevenção de catástrofes naturais no território nacional.”

Bom Exemplo

Abro aqui um parêntese, para uma historinha na qual suponho ser um bom exemplo, que poderia ser seguido Mundaú acima. Certa vez, eu e os músicos que estavam em turnê comigo, ficamos alojados em um abrigo antiaéreo, construído durante a Segunda Guerra Mundial, em Montreux, Suíça. Os hotéis estavam lotados e iríamos fazer duas apresentações no Montreux Jazz Festival Off. Pois bem, fiquei impressionado com o estado de conservação do abrigo e seus equipamentos. Perguntei se era usado com frequência. Disseram-me que não, só em casos especiais como aquele. Tinha sido uma solicitação da organização do festival, que é um evento significativo para a cidade de

Mas, como esse fato pode servir de exemplo? A princípio, pode parecer que absolutamente nada se encaixa com a tragédia de 2010. Porém, levando-se em consideração que uma nova guerra mundial independe de fatores climáticos sazonais, que uma guerra é algo bastante cognitivo e que o fim da Segunda Guerra Mundial foi em 1945, ou seja, há 77 anos, podemos concluir que: a manutenção em perfeito estado de conservação daquele abrigo, em um país que se manteve neutro durante as guerras, é um admirável exemplo de organização preventiva. Exatamente o oposto do que acontece aqui, com as nossas catástrofes anunciadas, ano após ano.

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Crime anunciado

24 de junho de 2022 por Mácleim Carneiro

Enchente em Murici | Cortesia

Não! Ninguém pode ter a noção exata do que aconteceu nas cidades devastadas pela tromba d’água que atingiu as populações ribeirinhas dos vales do Mundaú e Paraíba, em 2010. Não! Ninguém pode ter a percepção física do sofrimento sem ter visitado as ruínas, os escombros, a desgraça, a tristeza e o desconsolo daquele povo.

A solidariedade dos que estavam de longe e ajudaram com donativos foi muito, extremamente, muito importante. Foi o que manteve de pé a esperança para aqueles que viram a moradia, negócio, pertences significativos, veículos, pessoas amigas, parentes, planos, coisas de uma vida inteira ruírem à sua volta. Diante de tanta destruição, a solidariedade se eleva e retroalimenta-se a um grau do sofrimento interior. Aconteceu com quem teve o interesse de ver bem de perto, in loco (com todos os cinco sentidos), o tamanho da tragédia. A não ser que a criatura não tivesse o mínimo de sensibilidade e, como víamos nos noticiários, encontrasse na desgraça alheia uma oportunidade de auferir vantagens em ano eleitoral.

Mundaú Inclemente

Quando as águas do Mundaú baixaram e deram condições de acesso a quase todas as ruas da minha cidade natal, fui ver o que de fato havia acontecido com o cenário e personagens de uma época importante da minha história de vida. Voltei ao berço, à minha incubadora, fui a Murici. Era domingo e chovia forte, como se fosse prenuncio de que ali ainda não se permitia o passado, tudo era o momento cruel, real e duradouro, que, a contragosto daquela gente, tatuava para sempre um futuro incerto e duvidoso. Ainda à beira da pista, a cena periférica antecipava o conteúdo interior. Centenas de desabrigados, misturados a restos de mobílias encharcadas e lixo, cercavam, sôfregos, as pessoas solidárias, que levavam pão e leite, para acontecer, digamos assim, o café da manhã.

Enchente em Murici | Cortesia

Não tentarei descrever o que vi e vivenciei ao chegar ao ponto crítico, ao coração bombardeado e esfacelado de Murici. Em resumo, diria que as águas destruíram quase tudo. Não foram seletivas! Assim, desde os mais pobres aos mais remediados, rio abaixo, o Mundaú foi inclemente e inundou de perdas imensuráveis inúmeras pessoas. Algumas, amigas de outrora. Outras tantas, não. Particularmente, levou a casa em que nasci e fui feliz. Levou prédios e signos que habitei e habitaram a minha infância interiorana. Levou, também, uma saudade que insiste em recriar rastros impossíveis de perceber onde há lama.  Enfim, rio abaixo, também deságua no mar a minha memória afetiva.

Por mais espaço virtual que essa mídia ofereça, não suportaria tanto tempo tendo que ter páginas e páginas onde a dor e o relato de penosas perdas se acumulariam e, ad infinitum, chegaríamos à próxima catástrofe anunciada que, infelizmente, sabemos, virá e deu uma mostra disso, com as chuvas intermitentes, que provocaram enchentes em Murici, durante esses dias molhados de junho, 12 anos após a tragédia de 2010. Portanto, não que eu seja anódino ao virar o foco para o outro lado do rio, porém, alguns questionamentos são pertinentes, ainda factuais e cabíveis aqueles cujos atos implicam em responsabilidades na dimensão de tais calamidades. Até para que (eis uma utopia) se levados a sério e a cabo, sejam desnecessários num futuro bem próximo.

Assim sendo, sem mais delongas, no próximo escrito, continuarei com esse miolo de pote.

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Universo em movimento

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.

18 de junho de 2022 por Mácleim Carneiro

 

Quando o escritor português José Saramago, único Prêmio Nobel da língua portuguesa, foi cremado, no dia 20 de junho de 2010, em Lisboa, um grande vazio não se fez apenas na literatura mundial. Esta, um dos legados de Saramago, estará sempre ao nosso alcance, por meio dos seus livros e escritos, porém, o Saramago pensador contemporâneo, de extrema e ácida lucidez, sem papas na língua, sem medo de por os pingos nos is, este, faz uma falta eterna, principalmente, num mundo regido pela hipocrisia e múltiplas intenções.
Não há mais nada que eu possa dizer, além do meu sentimento de perda, que persiste até agora. Por isso, trago para os nossos 14 leitores um dos legados deixado por ele: o discurso que proferiu ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, na Academia Sueca.

José Saramago

“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: “José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira”. Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava… No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: “E depois?”. Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: “Não faças caso, em sonhos não há firmeza”.

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.”

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Sanidade à música brasileira

Fica a certeza de que a arte em seus encantos é plena, emocionalmente cativante, e nos torna mais humanos.

11 de junho de 2022 por Mácleim Carneiro

Dessa vez, por absoluto acaso, deixei para ouvir o álbum Achados & Perdidos, do compositor Luiz Millan, após fazer uma rápida pesquisa e descobrir um belo vídeo documentário https://www.youtube.com/watch?v=T6YzVPqnI4A, onde diversas personagens falam sobre esse belíssimo trabalho. Lá, encontrei depoimentos que definem, com palavras absolutamente assertivas, essa nova pérola da música brasileira. “Música acolhedora, espiritual e profunda; uma preciosidade de disco, repertório e arranjos; MPB arte; estética da beleza; uma tribo que se preocupa com harmonia, melodia e letras”, são observações pinçadas do documentário, facilmente ratificadas por mim, após a audição de absoluto deleite e algumas surpresas maravilhosas.

Uma delas, foi “reencontrar” a cantora e compositora paulistana Giana Viscardi, como uma das protagonistas desse trabalho, e lembrar que a conheci na Europa, mais precisamente em Lausanne (Atelier Volant) e logo após no Montreux Jazz Festival, onde estávamos em turnê e tive o prazer de assistir aos seus shows, nos mesmos locais em que eu também me apresentaria. A outra boa surpresa foi saber que o documentário foi dirigido e produzido pelos meus queridos amigos Moisés Santana e Beto Previero, respectivamente. Além disso, e que não chega bem a ser uma surpresa, foi constatar que o psiquiatra Luiz Millan entra fácil no rol de talentos da medicina, que tem, por exemplo, Aldir Blanc, Capinam, Dalto, Zé Dantas e, internacionalmente, o uruguaio Jorge Drexler, só para citar alguns.

Protagonismos

O fato é que a magia começa em ‘Morungaba’ (Moacyr Zwarg e Luiz Millan), que abre o álbum de maneira envolvente, a bordo de um samba swingado, com a flauta de Léa Freire guiando os caminhos, para que sigamos hipnotizados até o fim e desembarquemos cientes de que vivenciamos um achado. Logo na primeira, temos a certeza de que estamos diante de algo a ser degustado com envolvimento e nenhuma parcimônia. Fica explícita, também, a perfeita consonância entre os timbres da Giana Viscatdi e Luiz Millan, num duo que será repetido em diversas faixas adiante. ‘Madrugada’ (Luiz Millan e Michel Freidenson) vem em seguida, como um belíssimo tema instrumental, onde o cello de Adriana Holtz e o violão de Camillo Carrara são tão protagonistas quanto a flauta de Léa Freire. Sim, se a música também vale por mil palavras, esse tema descreve, imageticamente, a atmosfera de uma madrugada serena e feita para contemplação.

Giana volta maravilhosa, dizendo que “setembro despertou o azul da manhã”, em ‘Choro Para Lisboa’ (Maurício Detoni e Luiz Millan). Junto com ela, o próprio Detoni divide o protagonismo do canto e mostra que também é “bom de bico”, assoviando como se o assovio fosse parte indissociável do chorinho com um quê de canção. ‘Samba da Pergunta’ (Pigarilho e Marcos Vasconcellos) começa com uma introdução imponente, numa atmosfera de suspense, que chama o fruidor a abstrair-se da contemplação pura e simples e interagir com interrogações e suposições sobre o que virá depois. E o depois nos reserva uma bossa jobiniana deliciosa, que nos conduz magicamente até ao solo inspiradíssimo do violão de Camilo Carrara e, mais além, finda quase que na mesma intenção da atmosfera introdutória.

Apuro Estético

O tema instrumental ‘Achados & Perdidos’ (Luiz Millan e Moacyr Zwarg), que dá título ao álbum, confirma uma das percepções mais interessantes desse trabalho: o amálgama ou a não diferença entre música cantada e música instrumental, quando ambas têm apuro estético em seus fundamentos. Luiz Millan nos revela, indiscutivelmente, essa possibilidade, onde a musicalidade mana intensamente e se estabelece sem a necessidade de hermetismos decifráveis apenas por quem é do métier. Léa Freire (flauta), Bruno Soares (Flugel), Edu Ribeiro (bateria), Sylvinho Mazzucca (baixo), Camilo Carrara (violão), formam um dream team, sob a batuta dos arranjos maravilhosos e o piano airoso e minimalisticamente classudo de Michel Freidenson. Tanta musicalidade e talento juntos, traduzem sofisticação e elegância sonora, para cada faixa desse belíssimo trabalho!

Na sequência, aparece ‘Brazil com S’ (Rita Lee e Roberto de Carvalho), cantada por Giana Viscardi e Luiz Millan, com o sax tenor pra lá de aconchegante do Tato Cunha. É uma das quatro músicas, registradas nesse álbum, que não tem a autoria do compositor paulista, coisa que ele exercita pela primeira vez em um registro fonográfico. As outras, são: ‘Samba da Pergunta’ (Pigarilho e Marcos Vasconcellos), ‘Não Pode Ser’ (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) – gravada no segundo álbum do Marcos Valle, O Compositor e Cantor, e aqui respeitada sua essência e o arranjo original de Eumir Deodato –, e ‘Outro Cais’ (Eduardo Gudin e José Costa Neto), uma das mais belas obras do cancioneiro brasileiro e da lavra dessa dupla de compositores fantásticos.

Batuta Sensorial

E o desfile sofisticado de preciosidades prossegue, até nos depararmos com ‘Queimada’ (Plínio Cutait e Luiz Millan), arrebatadoramente amazônica em sua estrutura harmônica e melódica, cujo arranjo é tão surpreendente e fiel ao que os compositores provocam, como seguramente devem ser as surpresas que uma floresta nos reserva, em sua imensidão de vidas pulsantes e altivas. Sem dúvida, um dos pontos altos (e são vários) desse belíssimo álbum! Destaque-se a interpretação dos músicos, a bateria do Edu Ribeiro, como que guiados não por uma partitura, mas por sentimentos regidos pela batuta sensorial da emoção.

O conjunto dessa obra-prima, Achados & Perdidos, é finalizado pela décima quarta faixa, ‘Luzes da Cidade’ (Luiz Millan e Moacyr Zwarg), outro tema instrumental, com sabor de uma breve e suave despedida do inesquecível. Ao final, fica a certeza de que a arte em seus encantos é plena, emocionalmente cativante, e nos torna mais humanos. Daí, não importa se para encontrá-la tenhamos que ter a capacidade de nos perder. Como bem nos diz Luiz Millan e sua obra imprescindível à sanidade da música brasileira.

SERVIÇO
Achados & Perdidos, Luiz Millan

Plataformas digitais: Apple Music, Spotfy, Deezer, YouTube, Tidal, Juno, Amazon Music e Itunes Apple.

Plataforma física: Em CD, pelo site tratore.com.br, Americanas, Submarino e na loja Pop, em São Paulo.

Preço: R$ 29,90

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Valentine’s Day

Algumas pessoas nascem, crescem, não reproduzem e morrem sem ter experimentado esse gostinho.

10 de junho de 2022 por Mácleim Carneiro

 

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Certa vez, recebi um e-mail de uma amiga comentando que não sabia o que fazer no dia dos namorados. Ela, obviamente, sem namorado, dizia estar em dúvida se iria recolher-se às cobertas ou se apelaria para cicuta. Aliás, afirmava ser esta uma conclusão dela e de mais duas amigas. Pois bem, pela primeira vez percebi que de todas essas datas, criadas para o comércio faturar, o Dia dos Namorados talvez seja a data mais cruel, para quem não tem o objeto dos apelos da mídia. Pai e mãe, por exemplo, são inerentes a todo ser humano, mesmo que o ser tenha sido gerado em uma proveta. Portanto, tê-los, antes de tudo, é uma questão biológico-natural. Ao passo que a conquista de uma namorada ou namorado depende de uma infinidade de questões e contextos, que vão desde uma unha encravada até ao merecimento cristão-religioso. Assim, algumas pessoas nascem, crescem, não reproduzem e morrem sem ter experimentado esse gostinho.

Pois é aí que reside a crueldade dessa data. Aliás, a crueldade em questão, mesmo que por outro enfoque, é longeva e tem origem, provavelmente, na antiga festa romana de Lupercalia. Nos últimos dias da Roma antiga, os lobos ferozes vagavam próximo às casas. Os romanos convidaram um de seus deuses, Lupercus, para manter os lobos afastados. Por isso, um festival era oferecido para a honra de Lupercus. No inicio do festival de Lupercalia os nomes das meninas romanas eram escritos em pedaços de papel e colocados em frascos. Cada homem escolhia um papel. A menina cujo nome era escolhido devia ser sua namorada durante aquele ano.

Percebe agora de onde vem a crueldade?

Padre Visionário

Digamos que, em tempos mais recentes, quando o cristianismo era uma religião de fraudas, o imperador Claudius II ordenou que os soldados romanos não se casassem. Claudius acreditava que, como homens casados, seus soldados iriam permanecer em casa, com suas famílias, ao invés de lutar nas guerras. Até que fazia sentido. Quem, a não ser os americanos, russos e israelenses, trocaria o conforto do lar e uma mulher carinhosa por uma guerra? Se bem que conheço alguns amigos que não titubeariam se tivessem que escolher entre uma boa guerra – em todos os sentidos – a ter que ficar em casa, enfim…

Quando tudo parecia perdido, alguém foi contra a ordem do imperador. Mas, quem teria sido? Sim, só poderia ter sido um padre visionário. O esperto padre Valentine casava secretamente os jovens, pois, malandro que era, entre outras coisas, já antevia os lucros que a igreja obteria ao longo dos séculos, com a instituição do casamento e toda sua cadeia lucrativa. Ah, não podemos esquecer que o padre Valentine foi preso, condenado à morte e executado justo no dia do feriado de Lupercalia.

Percebe agora por que que o casamento tem um quê de sacrifício?

Assim, em homenagem ao nosso bom padre Valentine, o feriado transformou-se no Valentine’s Day, que, aqui no Brasil, é comemorado como o Dia dos Namorados. Para os que pretendem se casar, não pense que o desfecho dessa história foi tão trágico como parece. Após sua morte, o padre Valentine foi promovido a santo. Portanto, a moral da história é a seguinte: case-se e torne-se um santo(a), nem que seja em homenagem ao padre!

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Tanatofobia do estabelecido

Apesar de estranho, é até compreensível que continuemos insistindo no mesmo erro e padecendo do mesmo mal.

3 de junho de 2022 por Mácleim Carneiro

Tenho a impressão de que facilmente encontraremos os pilares dos segmentos toscos da nossa construção social que, obviamente, seria um contrassenso se fossem únicos. Como ponto de partida, capaz de justificar a eidética da raiz comportamental do alagoano típico, basta observar, ao longo dos séculos, os vários exemplos de personalidades talentosas, cuja originalidade de suas propostas e luz própria os obrigou ao autoexílio, pois, para a estrutura provinciana, a independência dos que assumem propostas diferentes dos modismos bitolados, de fato, deve incomodar. Até porque, aparentemente, expõe a incapacidade coletiva para o entendimento e acolhimento de algo propositivo, com conteúdo de real valor e, paradoxalmente, desperta na mediocridade um processo tanatofóbico do estabelecido.

Desemburrecer

Portanto, apesar de estranho, é até compreensível que continuemos insistindo no mesmo erro e padecendo do mesmo mal. De Jorge de Lima ao Mestre José Pereira (que, sem guarida, levou daqui seu Caboclinho Sete Flechas e hoje é o mais famoso caboclinho de Pernambuco), passando por Graciliano Ramos, Lêdo Ivo, Octavio Brandão, Hekel Tavares, Jacinto Silva, Djavan, Hermeto, Fernando Melo, Martha Araújo, Nise da Silveira, Sadir Cabral, Jofre Soares, Edgar Braga, Arthur Ramos e tantos outros alagoanos originais e talentosos, ainda não desemburrecemos e, como os animais quando arrelhados com tapa olho, permanecemos com a visão reduzida e só valorizamos nosso umbigo através da visão e opinião alheias.

Porém, existe uma singular exceção, cuja originalidade (se é que podemos chamar assim) é reconhecida e aclamada pela hipocrisia provinciana. Essa, facilmente extrapola nossas fronteiras, adquirindo a rejeição nacional. Sim, são eles mesmos! Acertou quem pensou nos políticos alagoanos. A verdade é que somos uma poderosa “usina” de gerar fatos e políticos dignos da expressão a que chegaram os poderes constituídos em Alagoas e, certamente, na proporção exata ao merecimento das consciências de aluguel. Aliás, a temporada já está começando!

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Vanguarda, Eu?

Entendo que não cabe ao artista a tarefa de financiar o acesso ao conhecimento por eles produzido, porém, esse acesso deve ser direito de todos

27 de maio de 2022 por Mácleim Carneiro

Reprodução

Ao ler o artigo, Pirata é a Mãe!, escrito pelo pesquisador de políticas culturais e escritor Leonardo Brant, encontrei alguns questionamentos, sobretudo, sob o ponto de vista aparentemente contextualizado pela modernidade, os quais levaram-me à ideia de trazer para os nossos 14 leitores as perguntas formuladas na abertura do artigo.

Pois bem, são estas as perguntas: “O que é pirataria? Quem são os verdadeiros usurpadores do conhecimento alheio? Quem a pirataria beneficia? E quem atinge? Podemos considerar piratas crianças e jovens que compartilham arquivos, se apropriando do conhecimento gerado por nossa civilização? Quem é o autor de uma obra remixada? Existe obra 100% original? Como sobreviverá o artista diante da proliferação da dita “pirataria”? E a indústria cultural, é necessária numa época de compartilhamento de dados pier-to-pier?”

Diáspora Globalizada

Portanto, suponho que essas perguntas, bastante pertinentes no agora, também já existiram lá atrás, formuladas sobre outro prisma, porém, com os mesmos significados. Deste modo, de fato, não temos novidades! A diáspora foi a globalização, palavra-conceito, que parecia atual e modera. Aqueles que produzem à margem da estrutura formal, nunca tiveram esse tipo de preocupação. E, de certa forma, sempre estiveram na vanguarda do que se discute aqui. Particularmente, nunca obtive lucro financeiro com as minhas produções independentes (discos). Retornos, reconhecimento, satisfação; sim!

Entendo que não cabe ao artista a tarefa de financiar o acesso ao conhecimento por eles produzido, porém, esse acesso deve ser direito de todos. Portanto, como citou Leonardo Brant em seu artigo, “faz-se necessária a discussão do papel do Estado e do mercado na defesa desses interesses contraditórios.”

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Uma Imensa Saudade

Se tocava, era com tal delicadeza, alegria e emoção, que a ninguém passava outro sentido que não fosse harmonia, intimidade, carinho e interação.

13 de maio de 2022 por Mácleim Carneiro

Beto Batera.

 

No dia 11 de maio de 2010, aos 60 anos, um dos personagens mais marcantes e inesquecíveis da música alagoana disse adeus e modulou para outra partitura, uma linha a mais no pentagrama, sempre em tom maior. Porém, antes disso, viveu intensamente, não usou pausas, estava sempre em play, em fusas e semínimas. Deu à vida o mesmo ritmo de felicidade com o qual, magistral e talentosamente, dominava seu instrumento de trabalho e emoção. Nele, exerceu toda a dinâmica que a vida lhe ofertou. Neles, o instrumento e a vida, os contratempos tinham a precisão de suas baquetas.

Habita um paradoxo no instrumento que ele amava: é do gênero feminino (embora instrumento) e fragmentado em peças bem distintas. Para alguns, é preciso bater, golpear para obter respostas. Para outros, as partes nunca formam um todo. Para ele, Beto Batera, não era assim! Se tocava, era com tal delicadeza, alegria e emoção, que a ninguém passava outro sentido que não fosse harmonia, intimidade, carinho e interação. Ele e ela eram um todo, onde o amalgama tornava-os células rítmicas vivas e pulsantes. Assim, conduziam-se por caminhos, por artérias que só eles sabiam aonde chegar. Assim, hipnotizavam os demais, como o flautista e sua flauta mágica.

BBC de Londres

Certa vez, há 200 anos, fui visitá-lo em um hospital, após ele ter se arrebentado todo, em mais um dos seus vários acidentes de moto. Ao encontrá-lo todo engessado e com uma das pernas içada por uma espécie de guincho, cheia de ferros, parecendo uma antena de TV, daquelas que habitavam os telhados das casas, tentei demonstrar minha consternação pelo seu estado. Não tive tempo, ele foi logo dizendo: “Maquilem (ele me chamava assim), agora tô pegando até a BBC de Londres!”

Lembrei desse episódio em seu sepultamento, onde grande parte dos músicos, aqui do aquário, estiveram lá para prestar a última homenagem ao mestre e ícone da música alagoana. Pois bem, percebi que não caberia amargura. Não, sendo o Beto quem foi: um ser humano fantástico, que o tempo todo nos ensinava que a vida deve ser vivida intensamente, e que ser feliz, cada um ao seu modo, é o que importa. Saudade, sim! Uma imensa saudade! Replico o que escreveu a minha amiga Mavi: se não bate o coração, que batam outros sons onde ele possa brilhar. E mais, afinando o escrito como quem afina um instrumento, “que o Beto descanse em jazz”, como escreveu a minha miga Cidinha.

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O esperto e o otário

Me dirigi até ao veículo e quando o tal “cidadão” supôs que eu iria falar com ele, simplesmente, recolhi a lata de refrigerante jogada por ele.

6 de maio de 2022 por Mácleim Carneiro

 

Certa vez, pensei com os meus botões: não dá mais! Desisto! Vou seguir o conselho que o Celso Brandão deu ao Fernando Fiúza, quando este voltou a morar em Maceió, depois de uma temporada na Europa. Daí, tentei criar a minha cidade, o meu aquário, na tentativa de relaxar em relação à realidade.

Desisti, porque o que percebia era uma metástase social avançada. Por mais que se tentasse um tratamento de choque, nada a faria retroceder, de tão enraizada, de tão introito ao comportamento que expressa a falta de noção de cidadania do alagoano nato. Isso, sem falar nos de alta-periculosidade, eleitos ou não. Refiro-me, sobretudo, aquele que anda nas ruas, como eu. Aquele, cuja noção de cidadania vai do lixo jogado nas calçadas, nas ruas, nas praças, à recondução do Collor à vida pública.

Por mais paradoxal que possa parecer (em qualquer país civilizado, seria), era no CEPA, um dos maiores complexos de educação da latino-américa, que eu vivenciava, diariamente, aquilo que ainda me revolta a todo instante. Se eu quisesse, a cada dia teria um absurdo fato novo para contar. Todos, absolutamente todos, por essa triste perspectiva. Pois bem, certa manhã, ao chegar ao local onde eu me exercitava, vi um carro estacionado, com a porta do motorista entreaberta, e dele saltou uma lata vazia de refrigerante. Apurei a visão e percebi que o responsável pelo ato banal, mas vergonhoso, era um senhor bem mais velho do que eu.

Lixo Simbólico

 


Já cansado de, por vezes repetidas, alertar aos jovens alunos do CEPA, para a necessidade de se ter o mínimo de cidadania, dessa vez, apenas me dirigi até ao veículo e quando o tal “cidadão” supôs que eu iria falar com ele, simplesmente, recolhi a lata de refrigerante jogada por ele. Sem qualquer palavra, fui até um dos montes de lixo, que eram facilmente encontrados em vários pontos daquela instituição, e depositei a lata de refrigerante. No caso, o mais próximo, estava a aproximadamente dez metros do veículo. Aliás, sempre tive a lamentável percepção de que o lixo que se acumulava no CEPA tinha um simbolismo evidente: espelhava o (des)compromisso do Estado com a educação pública.

Voltei à minha atividade física, no mesmo local de onde eu tinha total visão do veículo e do tal “cidadão”. Pelo que percebi (como sempre acontecia), de nada adiantou a minha atitude, a não ser pelo fato de ter colocado a lata no monturo. Compreendi que aquele senhor não foi capaz de apreender nada. Se algo foi formulado em sua mente, deve ter sido: Todo dia nasce um novo otário. Enquanto houver babacas como esse, vou continuar jogando lixo na rua.!

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Dois Olhos Negros

Aliás, bastaria um pouquinho só de bom gosto e sensibilidade, para aquela jovem (de prováveis olhos negros) abstrair e até se perceber musa para aquela canção.

29 de abril de 2022 por Mácleim Carneiro

 

Passava um pouco das 16 horas de uma de sexta-feira qualquer. Chequei em casa e assim que entrei ouvi um som, uma música bastante familiar. Daquelas que escuto diariamente fazendo a programação musical da Rádio Educativa FM. Estranho, pensei, tinha certeza que não havia deixado o rádio ligado e, além do mais, me pareceu distante, fora do meu apartamento. Procurei de onde vinha e tive uma grata e raríssima surpresa: era de um rádio na piscina do condomínio vizinho ao meu prédio.

Foi felicidade instantânea! Para mim, é raro observar, que não seja em ambientes ou pessoas comuns a mim, alguém fruindo o trabalho que faço lá na Educativa. A cena era essa: um cara de mais ou menos uns 36 anos, dentro da piscina e com um rádio sintonizado na Educativa FM. Tudo bem, era ele e somente ele, não havia mais ninguém, porém, para mim, aquela cena foi a glória! Sobretudo, por se tratar da piscina daquele condomínio, território livre e fértil para a música da pior espécie que se pode imaginar, sempre associada ao volume altíssimo e torturante.

Musa Improvável

Não sei como me contive para não gritar, da janela do apartamento, um obrigado! Valeu! Parabéns!… Ou qualquer coisa que reforçasse naquele sujeito o quanto era significativa a sua escolha e opção musical. Daí, a cada música nova eu ia até a janela para tentar perceber qual a reação do cara. Mas, como tudo que é interessante logo acaba, numa dessas minhas idas à janela, percebi que havia chegado duas jovens, uma loira e uma morena. Ato contínuo, a morena, de cabelos negros, foi até ao aparelho de rádio e mudou de estação, sintonizando na bagaça costumeira aos diais comerciais e jabaseiros. Justo quando o Lenine cantava ‘Dois Olhos Negros’. Aliás, bastaria um pouquinho só de bom gosto e sensibilidade, para aquela jovem (de prováveis olhos negros) abstrair e até se perceber musa para aquela canção.

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Realce de Imaginação

Um ser, qualquer que seja o ser, traduz-se pela história contida em si e contada em outros.

23 de abril de 2022 por Mácleim Carneiro

 

 

Quem o visse caminhando com a fragilidade dos passos lentos, em paradoxo à rapidez do tempo em contramão, sequer imaginaria que aquela construção humana, em ruínas, continha solidez na solidão. Fora erguido lentamente, em contraponto ao imediatismo do caráter atual. Um ser, qualquer que seja o ser, traduz-se pela história contida em si e contada em outros. Aquele, ser, era o resultado de um passado erguido em convicções e valores. Hora, metamorfoseados em décadas de desconstrução da própria humanidade. Antes; ética. Depois; rapina. Ontem; crítica. Hoje; resignação. Dentro; absurdas certezas. Fora; inexatidão. Ele; caminhos. Eu; admiração!

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Para um plano superior

Mestre Nelson foi um homem tocado pelos deuses apolíneos, porque o destino havia reservado uma mudança de rumo para ele.

22 de abril de 2022 por Mácleim Carneiro

 

Mácleim Carneiro, Hermeto Pascoal e Nelson da Rabeca. Foto: Lídia Bernardes

O senhor Nelson dos Santos, que aos 54 anos desejou ser músico, pouco tempo depois tornou-se Nelson da Rabeca (foto: Hermeto Pascoal, Nelson da Rabeca e eu), aqui e alhures! Hoje, é um dia triste para mim, pois, durante a madrugada, ele fez a sua última viagem, como Patrimônio Vivo de Alagoas e ícone da nossa cultura popular, cuja história e origem, como cortador de cana, todo mundo conhece de cor e salteado.

Em determinado momento, tive a sorte e o privilégio de poder ter uma historinha particular sobre esse artista, que cativava a todos pela singeleza, pureza d’alma e essência musical. Ocorre que fui o primeiro a fazer uma matéria de TV com o então desconhecido Nelson da Rabeca, após ter lido uma matéria no jornal Gazeta de Alagoas, sobre um senhor que tocava e vendia rabecas na Praia do Francês.

Fizemos a entrevista e mostramos o processo de fabricação de suas rabecas, tudo sob a sombra generosa de uma frondosa árvore, que lhe servia de oficina e varanda da casinha de taipa e chão batido. Esse foi o lado prático e objetivo da matéria, porém, o que me tocou profundamente foi o lado humano, o empirismo rudimentar daquele homem meigo e sua história de vida.

Mestre Nelson foi um homem tocado pelos deuses apolíneos, porque o destino havia reservado uma mudança de rumo para ele. Talvez, tardiamente. Para nós, a tempo do merecido reconhecimento e de termos a noção do quanto a simplicidade, candura e até mesmo a inocência podem significar veracidade ao imo musical de um homem que ia buscar na alma o que produzia e nos contemplava.

Siga em paz, Mestre Nelson da Rabeca, encantado e encantando, no plano superior, os que lhe serão gratos e fãs, como eu sou!

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Sexta Santa na Rocinha

Cristo e sua história são, na era moderna, cada vez mais, produtos com alto poder de faturamento comercial. Tudo é uma questão comercial no planeta americanizado.

15 de abril de 2022 por Mácleim Carneiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O amadurecimento proporcionado pela constante procura em priorizar o intelecto, aliado ao fator cronológico inerente à existência, desembaçam o ponto de vista libertário que, aliás, só o entendemos como tal após conquistá-lo. Este, por sua vez, possibilita um novo enfoque e avaliação de velhos dogmas e tradições, quase sempre arraigados à nossa cultura cristã-milenar. A conquista dessa nova visão, geralmente, acontece de dentro para fora e de forma bastante particular, posto que resultante da ótica pessoal de cada indivíduo. Portanto, acho que envelhecer, de forma lúcida, tem suas vantagens. Mesmo que este processo teime em trazer a reboque, como apêndice, certa nostalgia do passado.

Embora eu não tenha mais nenhuma sintonia com as tradições católicas e suas restrições, proibições e deveres, que celebram a morte e a ressurreição de Cristo, a lembrança de um tempo onde praticávamos uma saudável subversão a esses dogmas ainda me deixa reflexivo à época. Era divertido, em plena Sexta-feira Santa, irmos jogar futebol às escondidas e conscientes de que estávamos fazendo algo proibido para aquele dia. Nos divertíamos com a caretice (tudo bem, nessa época nem existia essa gíria) das pessoas que, compenetradas e com cara de jejum, caminhavam aos bandos rumo ao alto do Cruzeiro (em Murici) e, ao nos verem jogando futebol, nos repreendiam com impropérios, que iam de pecadores a maloqueiros! Ainda dessa época, era a sensação deliciosa de escutar pelo rádio a encenação da Paixão de Cristo. Eu viajava na interpretação dos atores radiofônicos e em toda aquela dramaticidade. A sonoplastia, com trovões, portas rangendo, o som cruel das chibatadas em Jesus e a voz de Deus, cheia de reverber, parecia realmente vir do além, com todo poder que lhe era conferido. Tudo isso tinha um fascínio especial sobre mim!

Porres Homéricos

Mais tarde, na adolescência ou pré-adolescência, a grande provocação era tomar porres homéricos, garrafões e mais garrafões de vinho de péssima qualidade, numa maratona que começava na sexta-feira e só terminava no Domingo de Páscoa, com toda ressaca passível de arrependimentos. Claro, para compensar, o tira-gosto era, evidentemente, peixe. Pelo menos, até que aparecesse o Zito (um caçador afamado de Murici) com algum tipo de caça. Aí, qualquer tatu, paca ou veado, que caísse na rede, digo, na panela, era peixe. Engraçado… Não me lembro existir todo esse apelo comercial das lojas e fábricas de ovos e coelhos de chocolate, que invade os lares e toda a mídia, no afã de vender cada vez mais e torna-se assim o principal motivo e objetivo da Páscoa.

Na verdade, tudo está contextualizado. Cristo e sua história são, na era moderna, cada vez mais, produtos com alto poder de faturamento comercial. Tudo é uma questão comercial no planeta americanizado. Quer faturar no cinema? Filma-se a crucificação de Cristo, com o derramamento de litros de hemoglobina (como disse Franco Zefirelli) e têm-se lotações esgotadas nas salas de exibição. Quer faturar com a encenação da Paixão de Cristo? Contratam-se atores globais e: plin-plin no caixa da bilheteria. Porém, aconteceu um fato que eu não consegui entender e pôs em xeque uma velha assertiva: se o Brasil é mesmo um país abençoado por Deus, por que os traficantes da Rocinha roubaram a cena em plena Sexta-feira Santa de 2004, ano em que este escrito foi escrito? E por que, agora, temos um desgoverno dessa magnitude, tempo em que esse escrito foi revisado?

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Árvore-Mãe

Só alterava sua inabalável solidez em raros momentos, quando o vento raivoso insistia em desafiá-la, para uma dança que sempre acabava em chuva.

8 de abril de 2022 por Mácleim Carneiro

 

 

Era mais uma daquelas tardes calmas e serenas do bairro. Na rua principal, um passarinho piruetava no ar. Subia e descia em círculos, era um balé sinuoso, de aspirais em torno da copa de uma velha árvore centenária. Esta, por sua vez, permanecia inalteradamente estática; insensível às piruetas do pequeno pássaro. Sempre fora assim, anos a fio. Só alterava sua inabalável solidez em raros momentos, quando o vento raivoso insistia em desafiá-la, para uma dança que sempre acabava em chuva. Ela nunca conseguiu aprisionar o vento, por mais que para isso usasse todos os seus enormes galhos, como tentáculos. Tudo era calmaria no bairro, na rua, no ar. Até que um som seco e certeiro, vindo das trevas, estremeceu a velha e centenária árvore-mãe.

Gosto de escrever coisas sem sentido, porque às vezes me cansa o sentido das coisas.

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Vou Jogar Boris no Lixo

3 de abril de 2022 por Mácleim Carneiro

Destilando todo o seu veneno preconceituoso, com sua língua de lagarto afiada, em 2009 Boris Casoy fez um comentário ácido, sobre os desejos de feliz ano novo, que dois garis gravaram para o jornal apresentado por ele na TV: “Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros! O mais baixo da escala do trabalho”, disse o âncora, antes de ser interrompido por uma voz que gritava ao fundo “deu pau!”, para avisar que o áudio estava indo ao ar.

A época, esse lamentável fato me fez lembrar outro, inversamente proporcional. Eu e o músico Jiuliano Gomes fazíamos uma pequena temporada no hotel Brienz, às margens do Lago de Constança, na Suíça alemã, e presenciamos uma cena maravilhosa. Pois bem, era verão e resolvemos almoçar no belo jardim, com vista para o lago e parte da rua onde se localizava o hotel. De repente, estaciona o caminhão de lixo e todos os “lixeiros”, fardados, desceram e se dirigiram para hotel onde estávamos. Normal e naturalmente, sentaram-se à uma mesa ao lado da nossa, tiraram suas luvas e foram servidos com a mesma deferência e gentileza com que nós (e os demais hospedes) estávamos sendo tratados pelos funcionários do hotel.

Fico imaginando o que faria o Boris Casoy numa situação dessas. Provavelmente, diria: “Isso é uma vergonha!”, e se jogaria nas águas geladas do lago. Quanto a mim, apenas ratifiquei o que eu já sabia: quanto mais humilde for a função do ser humano, mais digna de admiração e respeito deve ser. Além, claro, de ter sido inevitável uma comparação com o nosso país e suas esdrúxulas relações sociais.

Sorriso de Amizade

Em tempo: a primeira vez que cumprimentei o gari que limpa a rua pela qual eu passava todas as manhãs, após a minha atividade física no CAGB, ele quase não me respondeu, de tão espantado que ficara. No dia seguinte, insisti, dei bom dia e contei o que eu havia presenciado na Suíça, fazendo-o perceber a importância e dignidade do seu trabalho. E disse mais, se ele era invisível para a maioria das pessoas, elas não valiam a sua atenção. Depois disso, quando ele me via, abria um sorriso de amizade.

Ah, em tempo 2: No dia seguinte, após o seu infeliz comentário, Boris Casoy pediu desculpas no telejornal que apresentava. Porém, não o vi dizer: “Isso é uma vergonha!”. Por fim, em tempo 3: Foi uma delícia saber, tempos depois, que o Boris Casoy foi condenado pela justiça a pagar R$ 21 mil ao gari, alvo de seu infeliz e sórdido comentário.

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Na Rede Vai, Da Rede Vem (Parte II)

Entre os dois lados de cada Rede, há que haver um elo, uma ponte. Nas Redes de Informação, este elo, esta ponte, é o jornalista e suas diversas atribuições.

25 de março de 2022 por Redação

 

 

 

É certo que o conceito de Rede tem sido amplamente discutido, portanto, ainda não pode ser entendido como acabado. Muito menos buscá-lo simplesmente etimologicamente no latim, retiolus, que designa apenas um conjunto de linhas entrelaçadas. Principalmente, quando se sabe que as Redes podem ser observadas sob dois aspectos: o material, que se refere à infraestrutura. E o social, que diz respeito às pessoas. Assim, entre os dois lados de cada Rede, há que haver um elo, uma ponte. Nas Redes de Informação, este elo, esta ponte, é o jornalista e suas diversas atribuições. É na construção dessas pontes (se bem erguidas ou não) que resultam as práticas jornalísticas e suas consequências. Estas, por sua vez, determinam o punho firme, a trama forte e resistente, a varanda de estética perfeita e a função social inerente às Redes de Informação.

Na obra ‘Por Uma Geografia do Poder’, Raffestin afirma que a Rede aparece como fios seguros de uma rede flexível, que pode se moldar conforme as situações concretas e, por isso mesmo, deformar-se para melhor reter. A Rede é proteiforme, móvel e inacabada, e é dessa falta de acabamento que ela tira sua força no espaço e no tempo: se adapta as variações no espaço e as mudanças que advém do tempo. A Rede faz e desfaz as prisões do espaço, tornando-o território. Tanto libera como aprisiona. Portanto, na Rede vai, da Rede vem!

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Na Rede Vai, Da Rede Vem (Parte I)

a emergência do ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social, com seu grupo líder (a juventude metropolitana escolarizada),

19 de março de 2022 por Redação

 

 

 

 

 

 

Atendo-se ao fato de que Pierre Lévy, em seu livro “Cibercultura”, sustenta a tese de que “a emergência do ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social, com seu grupo líder (a juventude metropolitana escolarizada), suas palavras de ordem (interconexão, criação de comunidades virtuais, inteligência coletiva) e suas aspirações coerentes”, temos então o conceito de Rede de Comunicação/Informação reelaborado sob o ponto de vista de um dos vetores contemporâneos. No entanto, não inviabiliza entendermos Rede de Informação como, simplesmente, uma estrutura de origem pretérita e básica para a humanidade, sobretudo, no que cabe chamar de processo humano evolutivo. Em outras palavras, temos a utilização da mídia, da prática jornalística, da Rede, da WEB, como espaço de diálogo, de reelaboração das informações, transformando o conhecimento em instrumento de cibercidadania.

Atualmente, a Rede das tecnologias de informação e de comunicação, tem sido o carro chefe de qualquer análise da sociedade em Rede, tendo a Internet como área de estudo e trabalho. Portanto, as práticas jornalísticas vêm sofrendo mudanças em função dessa nova ordem. Se, historicamente, temos lá atrás, com os gregos, o teatro como um dos primeiros simulacros de mídia, atualmente uma infinidade de suportes podem ser observados como naturais e previsíveis continuidades evolutivas dos primeiros processos de comunicação e informação que, desprovidos de aparato tecnológico, foram e ainda são fundamentais, como princípios em sua origem e fundamentos.

 

 

Filtragem, Triagem e Validação

Portanto, a ideia sugerida pelo próprio Pierre Levy de um possível desaparecimento do Jornalismo (ou pelo menos dos Jornalistas, enquanto intermediários), em função do desenvolvimento da Internet, soa cada vez mais como uma simplificação descabida. Até porque, como citou Dominique Wolton, em texto publicado na revista de produção científica FAMECOS, “a Rede pode dar acesso a uma massa de informações, mas ninguém é um cidadão do mundo, querendo saber tudo, sobre tudo, no mundo inteiro. Quanto mais informação há, maior é a necessidade de intermediários (jornalistas, arquivistas, editores, etc.) que filtrem, organizem e priorizem. Ninguém quer assumir o papel de editor chefe a cada manhã. A igualdade de acesso à informação não cria igualdade de uso da informação. Confundir uma coisa com a outra é tecno-ideologia”.

Ele ainda chama a atenção para a impressionante capacidade da Rede, no que se refere à oferta de Informação e de Bancos de Dados, mas deixa claro que tal massa de Informação requer, e cada vez mais, processos profissionais de filtragem, triagem e validação. Portanto, as características do Jornalismo na Web aparecem como continuidade e potencialização e não, necessariamente, como rupturas com relação ao jornalismo praticado em suportes anteriores. Se, de fato, observarmos o que constitui o Jornalismo na Web (interatividade, multimidialidade, hipertextualidade, instantaneidade e atualização contínua, memória, personalização), de uma forma ou de outra, todas as características citadas podem ser encontradas em suportes jornalísticos anteriores, como o impresso, o rádio e a TV.

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O Melhor dos Carnavais

Tenho a impressão de que o carnaval acontece sempre de fora para dentro das pessoas.

4 de março de 2022 por Mácleim Carneiro

 

Fonte: www.bahianoticias.com.br

 

Provavelmente, em tempos normais, a pergunta que você mais ouviria seria essa: E aí, como foi seu carnaval? Contudo, com a pandemia ainda em voga, desconfio que não tenha sido bem assim. Porém, tudo isso passa, outras festanças vão acontecer (São João, por exemplo) e serão a bola da vez. Digo isso, porque quando alguém me fazia tal pergunta, em outros carnavais, demandava um certo esforço respondê-la com a mais absoluta verdade: Foi melancólico, reflexivo e abstêmio o meu carnaval. Enfim, basicamente, o que o mais introspectivo dos meus eus havia planejado, por mais anacrônico que isso possa parecer.

Lembro-me, que certa vez, tolamente, tentei isolamento no meio da balbúrdia. Fui para um condomínio onde pululavam à minha volta, noite e dia, fruídos do carnaval em sons e imagens. Ao fechar as portas do meu espírito carnavalesco, a melancolia foi mais rápida, entrou por uma fresta e instalou-se confortavelmente. Assim, meu carnaval foi melancólico o bastante para que eu não pudesse esquecer de mim!

Alegria Induzida

Foi reflexivo, porque, em plena segunda-feira de carnaval, percebi o quanto a modernidade prática foi fundamentalmente providencial. O que seria de mim se esta modernidade não estivesse ao meu alcance e eu, através de uma simples combinação entre uma lasanha pré-fabricada e um microondas programável, não pudesse saciar uma fome específica, resolver deliciosamente um problema e, após uma nova condição de saciedade, retornar à minha leitura, que era a única coisa capaz de amenizar a tal melancolia usurpando-me bem antes de qualquer quarta-feira ingrata.

Finalmente, aquele carnaval foi abstêmio, pois eu queria a possibilidade de, a partir do distanciamento prático e crítico, observar o efeito (as vezes alegórico, outras tantas ridículo) da alegria induzida. Tenho a impressão de que o carnaval acontece sempre de fora para dentro das pessoas. Elas, ou não sabem disso ou se sabem preferem assim e, assim sendo, parecem satisfeitas com tal premissa. Portanto, se assim o é, pois que assim se baste, e tudo bem! Logo, observar o arremedo do arremedo de qualquer coisa, que os foliões faziam sem o menor pudor, foi, sem dúvida, apenas o confirmatório da racionalidade humana e sua carência de válvulas de escape.

Jogo da Poesia

Antes que alguém tenha dó de mim e comece a pensar, por exemplo, como uma pessoa podia ser tão tola deliberadamente? Esclareço: eu também tive bons momentos naquele carnaval. Um deles, quando fora da modernidade e dentro do que eu não sei recebi a visita de alguns amigos, amigas e seus filhos maravilhosos. Além do prazer de tê-los comigo (o que gerou uma pausa necessária à minha solidão), eles me ensinaram o jogo da poesia e, em pleno carnaval, embora volta e meia encurralados pelo barulho ensurdecedor dos carros aloprados e suas músicas pegajosas, estávamos lá, brincando de fazer poesia. De tão simples, a brincadeira pareceu-me genial. Consistia na proposição de um tema e, daí, cada um dos participantes desenvolvia uma estrofe, a partir ou não do que havia escrito o primeiro. O resultado, na maioria das vezes, era bastante interessante. Pelo menos, na minha ótica leiga, quase sempre poderia ser rotulado de poesia. Guardei todos os escritos, pois, talvez, poesia seja o melhor dos carnavais!

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HISTÓRIAS PRA CANTAR (Parte IV)

4 de março de 2022 por Mácleim Carneiro

Certa vez, assisti ao filme Quo Vadis, que tem uma cena na qual Nero aparece tocando sua lira, enquanto Roma é consumida em chamas. Fui dormir e os acordes da lira não saíram da minha cabeça. Na manhã seguinte, para me livrar daquela obsessão, nasceu Outra Canção, que tem em sua introdução o que suponho ser os acordes da lira de Nero. Porém, fundamentalmente, tem a participação imprescindível do grande Fernando Melo, arpejando lindamente.

Pegue aquele fone especial e embarque nessa nossa viagem!

Música: OUTRA CANÇÃO (Mácleim)

Convidado Especial, Fernando Melo

Produção musical: Félix Baigon
Mixagem: Cláudio Guimarães (Estúdio Cláudio Guimarães – RJ)
Masterização: Carlos Freitas (Classic Master – USA)
Produção Executiva: Vera Garabini

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!🎶🎶🎶

 


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