Mácleim Carneiro

Retrospectiva do não acontecido

Foto: Reprodução

É claro que sabemos ser uma mera questão de convenção, aferição, divisão, ou o que quer que signifique essa equação elaborada para contar de modo racional os segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. O fato é que me parece ser um tanto metafísica (não no sentido do princípio do ser, mas do princípio do tempo) essa adequação sensorial, ao que chamamos de ano velho e ano novo. Provavelmente, isso sempre irá existir e vem se repetindo desde que, nas diversas culturas, os respectivos calendários foram inventados.

Para tal propósito estipulador e demarcatório, é que se justificam os mesmos, pois a simples observação dos fenômenos relativos ao nosso sistema solar estabelece o que seria uma continuidade infinita, pela repetição sistemática dos ciclos. Sendo assim, na existência de tal enquadramento, por longo tempo, folhinhas ainda terão o poder de determinar, cronologicamente, nossa existência neste plano. Não da para fazer de conta que tal fato não influencia o comportamento de pessoas como eu que, embora já tenha tentado abster-me de tal espectro, até agora, ainda não fui capaz de ignorá-lo totalmente. Aliás, sob determinado ponto de vista, para que ignorá-lo?

Pensando bem, se eu resolvesse ignorar o que determina o calendário convencional e minha percepção do tempo fosse intrinsecamente singular, e não mais plural, não faria sentido algum esta proposta de fazer uma retrospectiva do não acontecido. Acho que, ao contrário do que todo mundo faz e do que muita gente pensa, uma retrospectiva do não-acontecido pode ser tão rica e farta em conteúdo quanto aquelas que comumente fazem as revistas e TVs, no final de cada ano. Além disso, uma retrospectiva do que não aconteceu sugere o que poderia ter acontecido e, mais do que isso: o que poderá acontecer. Mesmo admitindo-se que o futuro pode não mais existir a qualquer momento. Mesmo assim, planos e metas são ferramentas necessárias ao presente!

Causa e Efeito

É óbvio que, independente da mudança de algarismos no calendário, as coisas continuarão a não acontecer e vice e versa. Uma sempre estará em função da outra, como causa e efeito! Assim, a retrospectiva do não acontecido, embora nada tenha acontecido, terá no que lhe precedeu o fato gerador do que não aconteceu. Ou seja: ela também será feita de fatos, pois o não acontecido, por si só, também se torna um fato. Cavoucar o que não aconteceu é tão significativo (e às vezes doloroso) quanto vasculhar a memória das coisas concretas.

Quando o prometido não foi realizado, agrega o desconforto e a frustração (pessoal ou coletiva) do objetivo não concretizado. Exibe a mentira em suas diversas proporções; aponta a negligência e, sobretudo, fragmenta a confiança em pedacinhos difíceis de colar. No entanto, apesar de tudo, o não acontecido traz, na maioria das vezes, a magia da possibilidade, que a esperança estabelece, embora eu não ouse discordar de Nietzsche, quando ousou dizer que a esperança é o maior dos males!

A verdade é que o tempo escapa e já não sobra espaço para minha pretensa retrospectiva. Para que não paire nenhuma dúvida sobre esta verdade, valho-me, mais uma vez, do que escreveu Nietzsche e que me parece extremamente pertinente, ao observar que a verdade é um erro sem o qual não conseguimos viver, e os inimigos da verdade não são as mentiras, mas as convicções!

Espero, assim, ter sido capaz de esclarecer a minha surpresa diante da impossibilidade de cumprir o que eu vinha prometendo ao longo deste escrito. Pois bem, foram tantas as minhas convicções que, ao final, conseguiram apenas justificar o título lá em cima e transformar esta retrospectiva em algo, literalmente, não acontecido. Por via das dúvidas, um ano novo maravilhoso para você, onde não seja mais preciso gritar FORA BOLSONARO!!

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Por Mácleim Carneiro

Então é Natal

Afinal, esse é o tempo necessário para que os reclames da mídia consigam o efeito projetado pelos marqueteiros.

 

 

 

Então é Natal, e tudo que envolve esta data se estabelece! No trânsito, se estabelece o caos. Parece que de uma hora para outra os carros procriaram como Gremlins, e são conduzidos por cérebros apressados, impacientes, que parecem dizer a cada barbeiragem: É Natal para você, seu fdp!… Dante, quando descreveu o inferno, não foi capaz de imaginar que no futuro, na era moderna, nos dias que antecedem o natal, as cavernas do consumismo, os super mercados ou qualquer birosca que venda algo que se possa definir como objeto de consumo natalino, fariam seu inferno parecer apenas um parque de diversões. Também, quem mandou inventarem os três reis magos e essa mania de dar presentes? Por falar nisso, se não vemos no próximo a cara de Jesus, não vejo sentido algum no presente de Natal. O simbolismo se mistura ao apelo do merchandising e no final a história é essa: seu rei mandou fazer assim… Do contrário, quem não faz o que seu rei mandou fica fora do script, que determina a troca de presentes e o sacrifício do peru (refiro-me à ave, é claro), que morre de véspera para a véspera. A não ser que o cidadão seja realmente um excluído. Aliás, são exatamente estes os que mais se parecem com Jesus e, paradoxalmente, são justamente esses que ficam a ver navios na noite de natal, sem peru, sem presentes, sem nada.

Culpa Cristã

Então é Natal, e o verão, com seu stress térmico, também se faz presente! Somos brasileiros e essa é só mais uma oportunidade que o clima do nosso país tropical nos oferece para provarmos que o espírito da generosidade natalina também se estabelece e nos envolve com a dádiva da compaixão. Então, no primeiro sinal, nessa época do ano, não nos furtamos a baixar o vidro do carro (com ar condicionado) e deixamos escapar um pouco do nosso conforto e espírito natalino, em forma de caridade e algumas moedas para o Jesus pedinte daquele sinal.

Então é Natal, e estamos impregnados pelo espírito de solidariedade, que prevalece. Mas, nada além de uma semana, no máximo duas, não mais que três! Afinal, esse é o tempo necessário para que os reclames da mídia consigam o efeito projetado pelos marqueteiros, e nos leve às compras e nos traga a consciência tranquila da obrigação cumprida, quando nos tornamos, mesmo que por um breve período, seres sensíveis às vicissitudes alheias. Ufa, ainda bem que logo logo chega o réveillon e aí quem for podre que se quebre, não precisaremos mais demonstrar solidariedade nem minimizar a culpa cristã, por meio da caridade natalina.

Espírito Natalino

Então é Natal, e as festas de comemoração pipocam! Toda festa de comemoração que se preze não pode faltar o tal do amigo secreto e suas malas-sem-alça. Uma delas, quando sabemos a quem vamos ter que presentear. A outra, quando ganhamos o presente. Mas o bom mesmo dessas festas é que sempre tem alguém que extravasa a vontade de dizer tudo o que pensa do outro, depois que o teor etílico embaça o cérebro e o frágil espírito natalino vai para o beleleu.

Então é Natal, e só pode ser obra do tal espírito natalino a minha capacidade de suportar a Simone cantando a versão brasileira de happy x mas, todos os dias, quando até John Lennon se emputece! Sem falar nas propagandas e os jingles que viram árvores de natal com aquelas musiquinhas e seus sinos irritantes.

Então é Natal, e há muito tempo nada muda nessa época. Há mais de 30 anos a Globo continua apresentando o Roberto Carlos como atração de final de ano e ele, o rei fanho, segue cantando a mesma coisa de sempre: “Quando eu estou aqui” … Porém, este ano, para mim, algo realmente mudou. Agora tenho certeza de que uma das coisas mais ho ho ho do natal, Papai Noel, realmente existe! Afinal, a Polícia Federal está aí para provar essa teoria, mesmo que seja um fascista escroto, com o saco cheio de dinheiro público, para comprar a hipocrisia das elites e o apoio da polícia.

Assim, tomado de assalto por uma generosidade esquisita e repentina, desejo um feliz natal a todos vocês, que perderam tempo lendo até aqui esta atividade do meu pobre espírito natalino!

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Por Mácleim Carneiro

Guerrilha Cultural

O sururu é um molusco emblemático. Busca na lama a sua subsistência e com ela se une para dela retirá-lo.

 

Divulgação

Em 2004 havia um tema que, no meio artístico-cultural, sua real existência avolumava-se, gerando encontros, discussões (contra e a favor), futuros projetos e diversos artigos na mídia impressa. Pois é um desses artigos, mais precisamente uma visão poética e tão lúdica quanto o próprio manifesto, que peço permissão para transcrevê-lo na íntegra. Trata-se de uma análise bastante particular e reveladora do compositor Sóstenes Lima, para melhor entendimento sobre a essência do Manifesto Sururu.

“O manifesto sururu é uma leitura, dentre muitas possíveis, a depender do foco e de quem observe, do momento atual vivenciado nas artes alagoanas, especialmente na música. Percebe-se nele a busca de uma universalidade permeada com elementos marcantes próprios, que gerem e proporcionem a identidade do que aqui se produz. Uma cara própria. Alagoana. Busca-se o novo, ainda correndo o risco dessa busca esbarrar no provincianismo ou no bairrismo. São demais os perigos desta vida, já diziam. Percebe-se, entretanto, o desejo de algo ainda maior e mais profundo. Talvez esse desejo possa encontrar no sururu a sua representação. O sururu é um molusco emblemático. Busca na lama a sua subsistência e com ela se une para dela retirá-lo. Extrai do mangue o seu alimento. Na lama se reproduz. Bebe uma mistura rica proporcionada por condições e elementos ímpares, cuja fusão resulta num algo desconhecido, intrinsecamente belo, ainda que fora dos padrões aceitáveis ou impostos. Sintetiza beleza na busca do seu sustento concomitante com a capacidade de também sustentar. Mistério próprio do ambiente lacustre nas proximidades do mar.

Como as cidades que possuam a peculiaridade encontrada em Maceió. Reveste-se do ar prenhe de maresia das restingas. É movimento silencioso uma vez que a sua síntese se dá no subterrâneo da lagoa-mãe. Nasce das suas entranhas, das suas vísceras silenciosas e escuras. E subverte-se em cores, sons e estado de alma. Contradiz-se. De um lado a periférica ferida e a chaga da miséria explícita, do caos social e da desigualdade. De outro, o colorido e festivo universo dos delírios litorâneos, com suas cores, estética, comportamento, padrões e fantasias ditados e absorvidos por uma elite que insinua e traveste beleza adoçada ao sabor da cana e embotada pela embriaguez da água ardente, qualquer que seja a sua composição. Que desbota. Que desdenta. Que não dessedenta. Que engana. Em meio a tudo isso, como elemento simbólico, a cidade é cortada ao meio pelo Salgadinho. Berço de sua origem e marco de sua desigualdade. Massapé-maçai-ok-Maceió. Alagoas do norte e do sul. Monumento megalítico imponente. Sambaqui testemunha de um passado antropofágico. É o manifesto atitude. É testemunho. Ser sururu, alagoano de cara a cara com o seu tempo, lançando ao mundo o desafio próprio de quem conhece os caminhos tortuosos do Mundaú. É também impreciso, embora seja preciso nesse momento. Momento de fome. De comer os símbolos, os ensinamentos dos mestres da cultura popular, de devorar as cores dos folguedos, todos os azuis e encarnados. E o branco, da necessária paz. É tempo também de resgate. Resgate da dívida imensa e terrível da devastação da nação Caeté, sob o pretexto da deglutição do Bispo, dívida agravada pelo sangue negro jorrado nos troncos dos engenhos e que necessita ser purgada. Dívidas alimentadas na devassidão do senhorio. Na obscenidade da velha e da nova senzala – a favela. Mas não se busca tal pagamento em atitude rancorosa. Busca-se a beleza afro-caeté. Mestiça. Mulata. Cafuza. Confusa, por assim dizer. Como Jaraguá e sua anterior opulência. Com a sua decadência. Com o simbolismo da placa de homenagem à rapariga desconhecida de uma de suas ruas. Chocante memorial que expõe nossos preconceitos e desafia o manto do nosso tradicional conservadorismo religioso. A convivência outrora harmônica dos prostíbulos ao lado dos trapiches e armazéns.

Ser sururu é, sobretudo, saber-se forte e com uma história para contar. Sururu de capote. Que não foge à luta. Saber-se brava gente sururu que resiste. Saber da possibilidade de se travar uma guerrilha cultural. Contra ninguém. A favor da alma. Isso tudo é o manifesto. Assim o entendo. O corpo e o gesto. A sombra e o suor. Os prazeres. Os estertores. Os mártires. De Calabar a Zumbi. A dignidade da infância morta nas calçadas da prostituição e nos inferninhos do mercado. E ditas tantas coisas, a possibilidade do erro e do equívoco, mas sempre a grandeza de ter tentado. E a oportunidade é aqui e agora. Viva a viva cultura alagoana!”

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Por Mácleim Carneiro

Memória Afetiva

enquanto a vice-prefeita, à época, dava entrevistas em defesa da casa, que estava prestes a ser demolida, a Prefeitura de Maceió expedia o alvará de demolição.

 

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Quem já andou em estradas vicinais, margeadas por canaviais, sabe que o sentido de localização é extremamente dificultado quando, ao voltarmos logo após a colheita, a paisagem se mostra completamente mudada pelo corte da cana. Para quem vivência este tipo de experiência, ocorre apenas um estranhamento e não a sensação de perda do que seria uma memória afetiva.

Saiamos dos canaviais e cheguemos à “modernidade” urbana do nosso aquário, afinal, preciso ater-me aos fatos ocorridos lá pelos idos de 2006. Lembro-me, que a mídia local noticiou (com direito a entrevistas de autoridades frágeis em argumentos e ações) a demolição audaciosa de um belo exemplar arquitetônico da cidade de Maceió, a Casa Rosada, localizada na Praia de Pajuçara. Com ela, ruiu também parte da nossa memória afetiva!

Casta Poderosa

Infelizmente, por um contexto civilizatório-cultural, pouquíssimos habitantes do nosso aquário foram capazes de atinar para a gravidade do fato. Mesmo assim, foi essa minoria que se rebelou contra a demolição. A imensa maioria dos aquarianos não era (e continua a não ser) dotada de cidadania e percepção suficientes, para o entendimento do que seja memória afetiva, sobretudo, no contexto urbano. Assim, a força que teriam ao protestar contra a demolição, permaneceu anestesiada pela ignorância. Existia e ainda existe uma terceira vertente, que habita o nosso aquário: a casta poderosa e escrota, onde o que lhes sobra em avareza lhes falta em escrúpulos. São exatamente essas pessoas, detentoras do poder político e econômico, que subjugam os demais setores da sociedade, pela imposição da “força da grana que destrói coisas belas.”

Em 2001, o Conselho de Cultura deu um parecer respondendo ao pedido de tombamento da Casa Rosada, feito pela UFAL (Universidade Federal de Alagoas), reconhecendo que a casa era um exemplar de valor arquitetônico e cultural, mas que a responsabilidade sobre tal questão cabia ao município. O município, por sua vez, reconheceu que a casa se enquadrava na lei municipal Nº 4545, (lei municipal de proteção às edificações de importância histórico-arquitetônico-cultural), porém, por obra e graça desses mistérios que acontecem na calada da noite, enquanto a vice-prefeita, à época, dava entrevistas em defesa da casa, que estava prestes a ser demolida, a Prefeitura de Maceió expedia o alvará de demolição. O resultado deste imbróglio deu no que deu.

Capitalismo Babaca

A pergunta é: quem amarelou na Casa Rosada? Uma boa dica seria observar quais as autoridades envolvidas naquela negociata (que poderiam impedir a demolição e fizeram exatamente o contrário), certamente por uma daquelas felizes coincidências do destino, foram os privilegiados proprietários dos melhores apartamentos do empreendimento imobiliário “ítalo-alagoano”. Embora eu reconheça que essa possibilidade é de uma obviedade pueril, pois esse tipo de gente não costuma ser tão óbvia em suas transações, por uma questão de assepsia. Aliás, guardadas as devidas proporções, o que diria o tal empresário italiano (que, segundo soube-se, à época, não entendia o porquê de tanta reclamação) se alguém, caído de pára-quedas, chegasse a Roma com grana no bolso para comprar até consciências e, com a sensibilidade característica do capitalismo babaca, resolvesse demolir um pedacinho do Coliseu?

Na verdade, babaca mesmo sou eu, que estou aqui perdendo tempo na tentativa inútil de recordar um fato depois da porta arrombada. Ou melhor, literalmente, demolida! Ainda mais quando sei que, no estágio atual da humanidade, a construção da vida está muito mais no poder dos fatos do que das convicções.

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Por Mácleim Carneiro

Bonde Errado

“Não se deve baixar o nível do poema, e sim elevar o nível das massas”.

O mercado do show business era e ainda é sedutor e acenava com o ímã da ascensão rápida e glamourosa que, além da fama (o que é completamente diferente de reconhecimento), tem todas as vantagens financeiras e, para alguns, este é o fim capaz de justificar todos os meios. Uma vez que o artista resolve submeter-se à lógica dos departamentos de marketing, sua escolha, do ponto de vista artístico, tem que ser com a mínima possibilidade de erros. Do contrário, ainda do ponto de vista artístico, voltar atrás, posteriormente, será um passo ainda mais errado.

Quando o artista é talentoso e capaz de produzir uma obra que tenha merecimento artístico, porém, rende-se ao apelo da via fácil e torna-se conhecido através de uma obra de conteúdo apenas consumista e servil aos propósitos do mercado, fica extremamente difícil, depois, arrepender-se e dizer que foi engano, que se deixou iludir e essas baboseiras todas, que por mais que tente explicar não consegue convencer, pois o seu filme já estará queimado.

Como Diria Maiakovski

Tem também aquele que faz o processo inverso e, nesses casos, embora tenha um grau de resistência menor do público alvo (afinal, estará baixando o nível), ainda assim, ele terá sua credibilidade abalada e a perda do respeito, que havia conquistado, pois ficará evidente a picaretagem com fins mercadológicos. E aí não há como deixar de dar razão ao Maiakovski, quando escreveu: “Não se deve baixar o nível do poema, e sim elevar o nível das massas”.

Toda essa lógica, para mim, sempre foi bem clara e já vi ser estabelecida em diversos artistas, que não vale a pena citá-los. Contudo, poder observar e analisar a reação do público, com relação a esses movimentos de malandragem, tão de perto, como certa vez aconteceu no nosso aquário, foi bastante interessante. Refiro-me ao dublê de ator-compositor Maurício Mattar, que em 2014 baixou acusticamente na nossa praia. Em várias entrevistas, para a divulgação do seu show no teatro do Marista, ele fez uma espécie de mea-culpa, dizendo que a responsabilidade de ter se projetado como um latin-lover meloso era, em parte, das gravadoras e de sua ingenuidade. Dizia ainda que era um verdadeiro compositor de MPB, por sua real formação e citou até, como justificativa, ter estudado filosofia. E mais: apesar do seu disco, à época, ser o sétimo de sua carreira, o título era “Meu Primeiro Disco”, como se fosse o suficiente para qualificar a sua repentina guinada. Se tudo que ele falou era verdade, então ele era uma nova espécie de transgênico, ou seja, recebeu genes de outra espécie e sofreu alterações em seu código genético musical.

Nem Por Milagre

Bem, o fato é que o resultado prático desse engodo foi o fracasso de público nas duas apresentações do transgênico no aquário. Claro, não poderia ser diferente e isso sim era plenamente justificável. O público, que era fã do latin-lover, não foi porque não era muito chegado, nem tinha cabeça para o tipo de música que ele dizia fazer, à época. Já o público que ele pretendia convencer da mudança, simplesmente não acreditou, porque tinha embasamento musical suficiente para não ser enganado por esse tipo de conversa fiada. Para “arreMattar” esse samba do crioulo doido, a produção dos shows anunciava, para fazer a abertura dos mesmos, dois artistas locais, que tinham exatamente as características musicais que o mutante tentava renegar.

Subestimar a capacidade de avaliação do público, nunca foi atitude inteligente. Tentar mudar da água para o vinho, só se for milagre! Principalmente, quando não se tem cacife nem para vinagre. O entendimento desse mecanismo faz do artista, que é realmente comprometido com a sua verdadeira expressão, em momento algum abrir mão de sua essência e jamais correr o risco de pegar o bonde errado.

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Por Mácleim Carneiro

A Voz, Para o Dono da Voz (parte II)

Os executivos das grandes companhias de disco começaram a botar as mãos na cabeça.

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De volta ao tema da semana passada, tivemos momentos bem animados no tal debate. Por exemplo, a vaia que levou Torquato Mariano, quando, achando que todo mundo era otário, ou para provocar mesmo, comentou que em seu departamento na EMI não se falava em jabá.

Outro bom momento foi o bate-boca entre Otto e, novamente, o Torquato. Otto defendia a pirataria. Torquato, por sua vez, fugia da questão básica que era o preço alto das gravadoras e enfocava apenas a questão legal. Aliás, uma das questões era por que as gravadoras não numeravam os discos que comercializavam? Seria uma ótima forma de controle. O problema é que, assim, os artistas também teriam como conferir as vendas dos discos, e aí…

O que fazer com a programação das emissoras de rádio e televisão? Surgiram algumas sugestões, que valeram como ponto de partida. Muri Costa defendeu a descentralização nos departamentos dos diversos segmentos da mídia, substituindo a figura do diretor de programação (no caso das rádios) por um conselho de representantes de todos os setores ligados à produção e consumo musical. Convenhamos que ficaria mais difícil, senão bem mais caro, a prática do jabá.

Polêmicas

Este tema era tão polêmico, que circulou nos jornais do Rio, à época, artigos com opiniões as mais diversas, sobre o que ficou devidamente esclarecido no debate. O artigo mais infeliz de todos foi o artigo “O rádio só toca o que os ouvintes querem ouvir”, do senhor Rubens Campos, então diretor de mercado do Sistema Globo de Rádio que, ao tentar negar a existência do jabá, só conseguiu confirmar os altos interesses que estão por trás de quem paga e de quem recebe o jabaculê. Este senhor, saiu em defesa do pagode, do axé e do sertanejo-brega (todos, segmentos reconhecidamente praticantes do jabá), escrevendo a seguinte pérola: “São manifestações criativas de grupos da sociedade brasileira, que não tiveram oportunidade de acesso às escolas de música renomadas, não fazem parte da elite da zona sul do Rio ou dos jardins de São Paulo e são de uma geração que não abraçou causas políticas relevantes”. Ora, este senhor esqueceu, propositadamente, os artistas que têm o mesmo perfil social traçado por ele e, no entanto, não tocam nas rádios nem estão na tv porque o que fazem é música de qualidade estética, ética e cultural. No mesmo artigo, sem o menor pudor, justificava: “Os ouvintes pedem as músicas que viram na TV e os temas das novelas”. E ainda perguntava, na maior cara de pau: “Será que na TV e nas novelas também existe jabá?” Ora, tenha paciência… É esse tipo de gente que tinha as rédeas do mercado. São pessoas que estariam melhor situadas dirigindo uma fábrica de carros ou geladeiras, porém, nunca, jamais, em tempo algum, com o poder de interferir de forma tão nociva na música brasileira.

Houve um ponto que conseguiu unanimidade. Foi o entendimento geral de que a única saída para mudar o quadro seria o fortalecimento dos selos. À época, os selos eram a única porta aberta para os artistas que não se enquadravam nos padrões do mercado. Era, também, por meio deles que se podia chegar ao conforto da produção, distribuição e divulgação, prática comum às grandes gravadoras.

Música Ruim É Como Chifres

Finalmente, a questão da Internet e do MP3. A Internet como uma boa alternativa para comercialização de discos. A venda através da rede já se mostrava uma opção real. O formato MP3, que nada mais é do que a tecnologia de transferência de som pela Internet, já estava bastante difundido e provocava mudanças. Os executivos das grandes companhias de disco começaram a botar as mãos na cabeça. Pela primeira vez, estavam diante da possibilidade de a voz pertencer ao dono da voz.

Debates serão sempre bem-vindos e acabam sendo importantes, pois tornam-se fóruns legítimos para o exercício da democracia, gerando polêmicas saudáveis, que podem nos levar a refletir sobre questões e conceitos como o desta frase dita pelo Muri Costa: “Música ruim é como chifre. Botam na sua cabeça sem você querer.” Que, pelo menos, debates como aquele possam proliferar na proporção exata e necessária ao fortalecimento da boa música brasileira.

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Por Mácleim Carneiro

Pluralidade singular

Recentemente, assisti à uma live onde o mestre Antonio Adolfo foi entrevistado por jovens e, em alguns momentos, outros jovens convidados do mediador interpretaram canções do entrevistado. Não que eu tenha me surpreendido, mas foi curioso ver jovens tão bem-informados sobre o trabalho e a trajetória do grande Antonio Adolfo. De maneira geral, demonstraram embasamento sobre a música brasileira e seus grandes ícones. Ficou evidente que Antonio Adolfo era um desses ícones e ídolo para aqueles jovens. Claro, a interação do mestre com a rapaziada foi perfeita!

Apropriei-me desse fato, como preâmbulo, apenas para ratificar a jovialidade e frescor que Antonio Adolfo nos apresenta em seu mais recente álbum, ‘Jobim Forever’, lançado nas plataformas digitais e, sobretudo, no mercado americano, onde é possível encontrar a versão física, em CD. Aliás, Jobim Forever está concorrendo ao Grammy Latino, indicado em cinco categorias, entre elas a de melhor álbum de Jazz Latino. Além disso, nos últimos anos, Antonio Adolfo tem sido pródigo e generoso para com a humanidade, lançando um novo álbum a cada ano, desde 2013. Sempre com a qualidade, esmero e viço impressionantes, que caracterizam o trabalho do consagrado músico brasileiro, autor de Sá Marina, Teletema e tantos outros sucessos. Certamente, o êxito em cada lançamento lhe é facultado pelo talento e pela experiência adquirida ao longo de sua impressionante trajetória fonográfica. Afinal, desde o seu primeiro álbum, Antonio Adolfo & A Brazuca, de 1969, até ao atual Jobim Forever, são cerca de 35 títulos, sem contar os singles, EPs e compilações.

Dessa vez, em Jobim Forever, como o próprio nome sugere, Antonio Adolfo presta homenagem à obra do magnífico Antonio Brasileiro, o que já é sugerido a partir da capa genial, em letras garrafais, num superlativo que abrange os dois grandes Antonios. Internamente, como fantástico conteúdo, encontraremos nove músicas de Antonio Carlos Jobim, a maioria composta nos anos 1960. “O impacto da novidade foi na década de 1960. Quando eu era adolescente, comecei a aprender piano e me tornei profissional, embevecido por aquela atmosfera musical mágica do Rio de Janeiro da época, onde a qualidade e quantidade das músicas de Jobim reinaram. Musicalmente, aqueles anos impactaram muito! Quando fui ver, já estava fechando o repertório com predominância nos anos 1960. E fechei com essa ideia toda do momento mágico musical e a qualidade da obra, que também impactou o Brasil e o mundo.” Assim definiu Antonio Adolfo o fato de, com exceção de Estrada do Sol e A Felicidade, as demais músicas serem colhidas nos anos 1960.

The Girl From Ipanema (Jobim e Vinicius, 1962) abre o álbum com a suavidade e malemolência das sinuosidades femininas, delicadamente flutuando sobre as ondas de Burle Marx, num eterno desfile pelas calçadas de Ipanema, ora atraída pelo sax tenor de Marcelo Martins, ora pelo piano de Antonio Adolfo. Wave (Tom Jobim, 1967) dá sequência a mesma pegada do arranjo de Garota de Ipanema, só que pontuada pelos solos de Lula Galvão (guitarra) e o trombone de Rafael Rocha, arrematados pelo piano do mestre, até chegar ao grand finale, Sozinho! Na sequência, A Felicidade (Jobim e Vinicius, 1959), de cara, traz uma novidade: Zé Renato à capela, com os versos “Tristeza não tem fim / Felicidade sim”, como introdução, retornando num segundo momento, numa brincadeira de pergunta e resposta com o piano, após o belo improviso de Jesse Sadoc (trompete), que passa a bola para Antonio Adolfo, numa tabelinha perfeita, que antes passa por Jorge Helder (contrabaixo), que aplica uma pegada afrosamba em sua gravidade.

Delicadeza e Fragrância Musical
Toda delicadeza dos arranjos maravilhosos de Antonio Adolfo tem prosseguimento em Insensatez (Jobim e Vinicius, 1961), onde o trompete do Sadoc e a flauta de Marcelo Martins se irmanam, reforçando toda a atmosfera dessa bossa, que nos conduz ao sublime. Favela – O Morro Não Tem Vez – (Jobim e Vinicius, 1963), eleva um tantinho a atmosfera em sua síncope, mas o clima continua altamente agradável e favorável ao encantamento, que vai nos envolvendo pelos flancos do arrebatamento musical, proposto por Antonio Adolfo. Sempre com alguma novidade de arranjo, como os fraseados, por exemplo. E, assim, suavemente, como em Inútil Paisagem (Jobim e Aloysio de Oliveira, 1963), nem nos damos conta de que já estamos além da metade do álbum, tal é a fragrância musical que nos envolve e nos conduz a algum tipo de plenitude e satisfação incondicional à fruição desse trabalho.

Água de Beber (Jobim e Vinicius de, 1961) ganha mais originalidade, sobretudo, se compararmos aos tantos outros arranjos tradicionais, já desgastados ou repetitivos, para esse clássico. Amparo (Jobim,1969), prepara o ouvinte ao inexorável final do álbum, com uma tocante introdução em piano solo, emocionante e carregada de melancolia, na citação de Por Toda a Minha Vida, (Jobim e Vinicius, 1959). Ao mesmo tempo, traz de algum lugar, onde habita a emoção, uma beleza que nos eleva a um patamar de nuvens, confortáveis nuvens de um território imaginário às admiráveis canções. Aqui, Antonio Adolfo nos garante a poderosa possibilidade dessa viagem.

Para finalizar, Estrada do Sol (Jobim e Dolores Duran, 1958) está para o álbum assim como a cena final de Tempos Modernos, do Chaplin, onde ele caminha com Paulette Goddard, no The End, por uma estrada ao amanhecer, em direção a um futuro incerto e esperançoso. Aqui, pela estrada Jobim Forever, chega-se ao lugar onde as coisas belas, doces e suaves existem e aguardam o andarilho fruidor. O magistral solo de Lula Galvão, bem como o não menos empolgante solo de piano do mestre, calçado pelo conforto do naipe de metais, parecem dizer que Antonio Adolfo propõe encerrar esse belíssimo trabalho, trilhando uma estrada que nos direciona à aura de genialidade das canções jobinianas, porém, lapidadas pelos arranjos e performances dos que sentem absoluta afinidade com o compositor e sua obra.

SERVIÇO
Jobim Forever, Antonio Adolfo
Plataformas digitais: Spotify, Apple Music, Youtube Music, Deezer, iTunes,Napster…
Plataforma física: Em CD, pelo link httpps://www.amazon.com/Jobim-Forever
Preço: $ 14,64

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Por Mácleim Carneiro

Mundaú Lambeu o Rio (Parte II)

Mundaú lambeu o Rio de Janeiro e cumpriu sua missão! A essência do Projeto Alagoas de Corpo e Alma era forte.

Fonte: www.ebiografia.com

Dando continuidade à escrita das minhas lembranças sobre o Projeto Alagoas de Corpo e Alma, no escrito da semana passada determinados aspectos positivos do projeto não foram devidamente abordados. Propositadamente, foquei apenas na minha área de atuação no projeto. Meu objetivo foi fazer uma avaliação crítica-construtiva, apesar do tempo já pretérito.

Tenho a consciência tranquila de que fiz a minha parte, atuando como artista e expondo abertamente a minha opinião, baseada única e exclusivamente nos fatos ocorridos, com os quais embasei meus comentários e posicionamentos. Porém, o meu objetivo, ao voltar ao tema Projeto Alagoas de Corpo e Alma, até por uma questão de reconhecimento do mérito, é externar o meu entendimento da magnitude daquele projeto.

Pela primeira vez, na história recente de Alagoas, tivemos a rara oportunidade de ver um governo que, as vezes timidamente e outras vezes não, dedicou atenção à nossa produção cultural, seus equipamentos arquitetônicos e veículos de divulgação. Isso, sem dúvida, foi um avanço estimulante, considerando-se a cegueira de outrora e o que tivemos pós governo Ronaldo Lessa. A simples mudança de atitude já mostrava ser capaz de refletir, beneficamente, até na própria autoestima dos artistas, que viviam e produziam aqui no aquário.

Planejamento e Essência

Avaliar, erroneamente, o Projeto Alagoas de Corpo e Alma, como desperdício de dinheiro público, seria uma clara demonstração de total ignorância das inúmeras possibilidades de retornos positivos, que só os investimentos em projetos culturais são capazes de gerar. No caso específico, o governo de Alagoas, à época, em sintonia com os conceitos modernos que regiam o mercado, foi em busca de parcerias, para captação de recursos e obteve da Petrobrás o aporte financeiro capaz de viabilizar o Alagoas de Corpo e Alma, versão Rio de Janeiro.

Particularmente, não consigo planejar com eficácia nem mesmo a minha lista de compras no supermercado, mas sei que um bom planejamento, capaz de encaixar cada coisa em seu respectivo lugar, produz resultados positivos. Principalmente, se tratando de expressões artísticas. Foi assim na apresentação do Canecão (artistas certos, no palco certo), foi assim no teatro Glauce Rocha, com o espetáculo. ‘O Acendedor de Estrelas’ que, ao final, o público aplaudiu de pé por longos minutos, aos gritos de bravo!

Pois foi assim que Mundaú lambeu o Rio de Janeiro e cumpriu sua missão! A essência do Projeto Alagoas de Corpo e Alma era forte. No entanto, não invalidava o fato de ter sido necessário humildade, para que pudéssemos avaliar melhor a própria alma e possibilitarmos o fortalecimento do corpo, ou vice-versa.

 

 

Por Mácleim Carneiro

NATÁLIA MOTTA

 

NATÁLIA MOTTA

Ela é uma artista que, à época da nossa entrevista, ia contra tudo o que se imaginava que uma jovem, com apenas vinte anos, poderia fazer em termos de música, sobretudo, em Alagoas.

O nome dela é Natália Motta (foto) e, talvez, alguns dos nossos 14 leitores já tenham ouvido falar nela sim.

A entrevista foi realizada em setembro de 2007. Tenho poucas informações sobre Natália Motta desde então, mas, ao que parece, ela não atua mais como cantora lírica.

O que é uma pena, pois o seu entusiasmo e dedicação a uma futura carreira promissora eram grandes, e podem ser traduzidos em suas próprias palavras:

“Eu quero sonhar e fazer com que o meu sonho aconteça.”

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!🎶🎶🎶

Por Mácleim Carneiro

Mundaú lambeu o Rio.

Os artistas de Alagoas deram conta do recado direitinho e confirmaram a tese de que a música produzida em Alagoas tem qualidade suficiente para se garantir

 

 

 

Essa é uma história que poderia ser contada em vários e vários atos. Aqui, será descrita em dois! A saga do ‘Projeto Alagoas de Corpo e Alma’, versão Rio de Janeiro, teve desde o glamour da noite de abertura no Canecão (que já não existe mais) ao pé na lama do Pavilhão de São Cristóvão. Vou ater-me à minha área de atuação (música) no projeto, até porque não sou e nem pude ser onipresente. Assim, não estive nos diversos eventos do ‘Projeto Alagoas de Corpo e Alma’, onde Mundaú lambeu o Rio, lá pelos idos de 2004.

O espetáculo no Canecão foi quase perfeito! Tudo correu conforme o combinado. Casa lotada e o show acontecendo com a precisão exigida pela diretora do espetáculo, Leila Pinheiro. Os artistas de Alagoas deram conta do recado direitinho e confirmaram a tese de que a música produzida em Alagoas tem qualidade suficiente para se garantir, sem apêndices, em qualquer lugar do mundo. Aliás, os comentários que rolaram após o show diziam que a primeira parte do espetáculo (onde os artistas alagoanos se apresentaram) foi muito mais interessante que a segunda, só com os “artistas convidados”.

Pérolas Aos Porcos

Por falar em convidados, tivemos particularidades interessantes neste quesito. Diante da negativa do Djavan em participar de um projeto que envolvia artistas alagoanos, a organização do evento solucionou a questão a partir do óbvio, farmacologicamente falando. Na impossibilidade do original, recorreu-se ao genérico. Pois foi exatamente isso o que fizeram. Estava lá o Jorge Vercillo que, em público, justificou sua “profunda” ligação com Alagoas, dizendo ter sido em Maceió que ele se sentiu, pela primeira vez, um artista de verdade, ao ser solicitado a dar um autógrafo. Quanto aos convidados da plateia, sobraram queixas para todos os lados. Embora o Canecão tivesse capacidade para mais de mil e quinhentas pessoas, não foi possível conseguir alguns poucos convites para profissionais ligados à música e indicados pelos artistas alagoanos. Essas pessoas poderiam ter proporcionado retornos profissionais aos nossos artistas.

Tudo bem, o Canecão foi um sonho que passou rápido, como tudo tem que passar. Porém, precisava sair direto do sonho para cair num pesadelo chamado Pavilhão de São Cristóvão? Artistas que têm trabalhos refinados, como a Leureny Barbosa, a Wilma Miranda e o Duo Fel, por exemplo, tiveram que se apresentar, ou melhor, se expor num ambiente surreal e totalmente inadequado ao perfil dos seus trabalhos. A feira de São Cristóvão, à época, era um lugar onde o forró de plástico, de péssima qualidade, do tipo que o próprio Luís Gonzaga – que dá nome ao que chamam de Centro de Tradições Culturais – não teria saco de aquentar e ficaria emputecido, era o objetivo cego e único do público que frequentou os três dias de apresentações dos artistas alagoanos. Ou seja, uma tremenda roubada. Vendo a Leureny cantar naquele lugar, qualquer pessoa de sensibilidade, portanto, sã, não teria outra opção senão fazer esse tipo de comentário: eis uma artista maravilhosa jogando pérolas aos porcos. Com todo respeito às pessoas, sem qualquer tipo de preconceito, apenas uma questão de semântica ilustrativa.

Prefiro entender como insensibilidade amadorística a escolha daquele lugar. Em determinados momentos, de tão inadequado que era, chegava a ser hostil e arriscado para alguns artistas, que tentavam mostrar seus trabalhos honestamente. Não estou, absolutamente, querendo ser o ingrato, do tipo que cospe no prato que comeu. Sei, perfeitamente, avaliar a fundamental importância que teve o Projeto Alagoas de Corpo e Alma na divulgação e tentativa de abrir novos horizontes para a produção cultural de Alagoas. No entanto, erros de avaliação existiram e por mim foram apontados, no intuito de um Mundaú límpido e sem tibornas, para lamber o mundo, como nos versos de Jorge de Lima.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

Por Mácleim Carneiro

O outro lado das moedas

Imagem: Divulgação

Certa vez, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet escreveu: “Não pretendo enunciar a verdade única e definitiva, nem procuro fazê-lo. Quero somente é provocar a gente, quero levantar problemas, fazer com que meus leitores tomem consciência de certos problemas e passem a refletir a respeito.” Acho seu escrito bastante apropriado, como prólogo, para o que pretendo rabiscar aqui. Uma vez que o que trago para reflexão são algumas perguntas e questionamentos básicos, que foram deixados ao léu, sabe-se lá porque e por quem, os quais, suponho, nunca foram postos à mesa em que se assentavam e comungavam, fraternalmente, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de Alagoas (Sindjornal) e a Braskem.

A título de contextualização: a Braskem S.A. patrocina alguns prêmios no Brasil e até em outros países. Porém, todos no âmbito cultural. Então, cabe aqui a primeira pergunta: por que Alagoas era o único Estado em que a Braskem patrocinava um prêmio jornalístico, e nunca deu a mínima para quem propunha patrocínio para projetos culturais? Seria mérito exclusivo do Sindjornal? Ou será que o silêncio velado interessava em especial a uma indústria que, em Alagoas, tem muito mais a esconder do que revelar? Sim, porque basta uma simples pesquisa na Web, para sabermos que, das 31 unidades espalhadas pelo Brasil, é aqui, no nosso aquário, que a Braskem tem ou tinha a unidade mais problemática em termos de localização e reincidência de acidentes. Portanto, o tal prêmio – a expensas de um ladino e velado cala-boca – era mesmo uma verdadeira pechincha, para uma empresa do porte da Braskem, cujos tentáculos chegam a países como os Estados Unidos, México, Venezuela, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Holanda e Cingapura.

Nada Escrito Ou Cochichado

Ainda bem que existem as exceções, pois detesto generalizar. Contudo, quantos jornalistas, de olho no prêmio ou não, fariam reportagens investigativas, reveladoras e consistentes, sobre os acidentes acontecidos na Braskem ou o que estava acontecendo em suas minas e que só agora todos sabemos a extensão do estrago e do drama social? Eis uma pergunta de resposta precária, pois basta o leitor acessar a maioria dos sites noticiosos da Web, e dos periódicos Alagoanos, para perceber que a cobertura sempre foi pífia, sobre os acidentes que aconteciam na unidade do Pontal da Barra. Quando muito, se limitavam à versão emitida pelos comunicados da própria empresa.

Posso estar enganado, mas a exceção para tamanha leniência foi uma única matéria, feita pelo jornalista José Roberto Miranda, para o semanário A Semana, mostrando como estavam desassistidas as vítimas da explosão em um dos acidentes, e quais eram de fato as políticas de segurança da empresa. Nada mais foi dito, escrito ou cochichado. Afinal, quantos arriscariam serem barrados no “Oscar” do jornalismo alagoano? E se uma ovelha desgarrada resolvesse encarar, será que tal matéria concorreria em pé de igualdade com as demais? Ou ainda, será que, sequer, poderia ser inscrita no Prêmio? É evidente que os promotores e patrocinadores do tal Prêmio poderiam argumentar que não existia qualquer clausula no edital que proibisse matérias adversas à Braskem. Claro, precisaria? Dariam um tiro no pé dessa magnitude? Quem aceita a alienação em relação ao patrocinador já aceitou as regras do jogo! E isso é um direito inquestionável, posto que de foro íntimo. Não cabe aqui fazer qualquer juízo de valor nem gostaria de fazê-lo, cada um sabe onde o calo aperta.

Epílogo

Ao iniciar este escrito com um prólogo, que considerei apropriado, a lógica pede um epílogo também no mesmo tom. Para tanto, fui encontrá-lo no Portal Terra de Notícias, postado no dia 23 de maio de 2011, às 20:55h, por alguém que assinou como Paulo – Triunfo- RS, e fez o seguinte comentário sobre o acidente na unidade da Braskem de Maceió, naquele ano. Transcrevo, abaixo, ipsis litteris.

“Isto se chama somente uma coisa, ganância, esta empresa quer ser a primeira no mundo. Primeira em mutilar trabalhadores, primeira em contaminar o meio ambiente.

Foi comprando tudo que vem pela frente, onde está o tal de CADE?

É a Odebrecht acima de tudo.”

Imagino o que ele não diria sobre o que está acontecendo agora, essa tragédia provocada pela irresponsabilidade dessa empresa e de tantos cumplices sob seus auspícios.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

 

 

 

Por Mácleim Carneiro

Cacimbão do Mundaú

Sempre fui assim, porque, instintivamente, me dei conta de que a cautela apodrece em forma de covardia.

 

 

Um sujeito como eu, em minha terra de origem, à beira do Mundaú, pode ser facilmente identificado como um engole corda, cacimbão ou coisa que o valha. São pechas usadas pela sabedoria popular, que reconhece os símiles movidos a provocações. Sempre fui assim, porque, instintivamente, me dei conta de que a cautela apodrece em forma de covardia. Sou assim, porque meus embates sempre são em torno das ideias e não passam disso! Portanto, ninguém melhor do que eu para concordar com o que escreveu Norman Mailer, na carta para Max Gissen, em dezembro de 1951: “O crítico está submetido a um requisito moral. Pode escrever sobre um livro sob qualquer ponto de vista, mas tem com seus leitores e com o livro a obrigação de separar as ideias do livro das suas, e juntar o aviso de que sua reação ao que é criticado deve ser vista nesse contexto. Sem esse recato, toda integridade some da crítica, e só se produz propaganda.”

Esse trecho da carta de Norman Mailer é perfeito para ilustrar o que vem a seguir. Porém, ousarei substituir uma só palavra. No caso, caberá melhor a palavra “bobagem”, ao invés de “propaganda”. Refiro-me ao que, certa vez, escreveu um dublê de Jornalista e DJ, uma espécie de Andy Warhol provinciano, um incenso adocicado da modernidade oca! Com todo respeito que dedico aos ícones da arte Pop, é claro! Lá, na resenha que o tal escreveu, sobre o disco Dueto Urbano, para do Caderno B do jornal Gazeta de Alagoas – numa época em que a editoria do B era completamente avessa às produções locais e aculturada pelos modismos além fronteiras –, ele mandou esta provocação: “Letras insossas, melodias pouco inspiradas, vocais frágeis e arranjos repletos de clichês. Chega até a lembrar alguns dos artistas da MPB alagoana, embora boa parte desses careça da saudável despretensão do Dueto Urbano.”

Pois bem, é claro que engoli a corda! E veja que coisa interessante: sendo eu um propositor da MPB (com toda idiossincrasia que essa sigla carrega), se fizesse vistas grossas à grosseria, estaria sob o crivo da conivência silenciosa, que ratifica os fatos. Se não, ao ser um cacimbão da beira do Mundaú, certamente, caí na vala comum, aberta pela generalização contida no comentário do nosso Andy Warhol tupiniquim. É evidente que a segunda opção me foi bem mais confortável. Principalmente, levando-se em consideração a origem da crítica, propaganda, bobagem ou coisa que o valha, cujas referências comparativas, por certo, foram inspiradas no saco vazio em que regurgita grande parcela da modernidade oca e sampleada.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

Por Mácleim Carneiro

Carrapicho olímpico

Olhava para a pista do Cepa e via os jovens que a utilizavam.

 

 

Houve um tempo, no qual eu praticava minha corridinha diária no que talvez tenha sido uma pista de atletismo do Cepa. Assim, apesar de não ser atleta, me arriscava diariamente a uma contusão, pela quantidade de buracos que pareciam competir com o mato e os carrapichos, que avançavam e estreitavam a tal pista, denunciando o descaso. E, pasmem, o campeão paraolímpico Yohansson também treinava lá. Pois bem, além do descaso com o patrimônio público, o que chocava mesmo era a irresponsabilidade cometida contra crianças e jovens humildes, que poderiam encontrar na prática esportiva um escape, uma válvula de saída, um presente-seta para o futuro, capaz de torná-los cidadãos de cabeça erguida. Contudo, será que existe o interesse em construirmos um Estado, um país de cidadãos de cabeça erguida? Não é o que parece ser!

Lembro-me que, à época, me permiti usar da minha parca parcela sociológica de ocasião, tão em voga nos veículos de comunicação. Para tanto, bastava dar uma olhada na tal pista de atletismo do Cepa e seu entorno. Olhava para a pista esburacada, com os jovens descalços e desnutridos, treinando num esforço inglório, literalmente, correndo mais riscos do que eu que, ao menos, tinha um plano de saúde. Olhava e tentava entender qual a lógica daquela realidade.

A comparação, a partir de uma simples observação mais atenta, tornava-se inevitável ao entendimento da lógica dos governantes, que desnivelam o que deveria ser preponderantemente nivelado. Olhava para a pista do Cepa e via os jovens que a utilizavam. A ruína e a precariedade da pista não combinavam com o frescor, vontade e determinação dos jovens. Sobretudo, se um é meio e o outro fim. Por isso, retrocedemos e fracassamos como país!

Desabafo

Era a época das olimpíadas de Londres. Se me fosse pedido fazer um resumo sobre o Brasil, naquela Olimpíada, ou melhor, o desempenho dos atletas brasileiros nos jogos, eu diria que foi isso: a pista de atletismo esburacada e a piscina vazia do Cepa; a falta de investimentos na base da formação intelectual e desportiva das nossas crianças; o Diego Hypólito caindo de bunda no tablado; a premonição do compositor Assis Valente, lá nos anos 40, com a canção Brasil Pandeiro; a essência positivista, todos por um, de alguns esportes coletivos; a real impossibilidade de medalha da maioria dos atletas, que não tiveram e não têm a sorte de nascer em berço confortável e carregam a cruz da irresponsabilidade estrutural do poder público, tornando-os reféns das políticas desonestas, para os setores básicos da cidadania; o choro {por que será que os atletas brasileiros choram tanto?} no desabafo do judoca negro, que, naquelas Olimpíadas, sem patrocínio sequer para ter uma academia onde treinar, pedia desculpas ao país por só ter conseguido um quarto lugar, quando o país é que deveria pedir desculpas e perdão a ele.

Acho melhor não tecer mais qualquer comentário, até porque não sou sociólogo de ocasião e é triste lembrar que, à época, tive que admitir o comentário de um reacionário calhorda, Diogo Mainardi, quando escreveu: “Os meus atletas preferidos são os que chegam desacreditados aos jogos e, confirmando todos os prognósticos, perdem logo de cara”. Tal afirmativa sempre fará sentido enquanto não mudar esse eterno faz de conta brasileiro, esse engodo nacional. Pelo menos, esses atletas não servem à hipocrisia e dividendos políticos.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

Por Mácleim Carneiro

A FONTE QUE NÃO SECA

Tela de Pedro Cabral

Tela de Pedro Cabral

Os 204 anos da Emancipação Política de Alagoas é um marco político, mas será que também serve como marco histórico para definir, cronologicamente, a musicalidade alagoana? Bem, Jorge de Lima, em seu livro Calunga, publicado em 1935, faz referência ao livro Viçosa das Alagoas, de Alfredo Brandão Filho, de onde retirou a seguinte explicação: “O vocábulo cambembe serve hoje na Viçosa para designar o povo baixo do campo. Tal designação é recebida quase como uma afronta, vendo-se, portanto, que ela pertenceu a uma raça que se degradou. Segundo penso, a palavra cambembe é uma corruptela de caamemby, vocábulo indígena que se decompõe em casa, mato, e memby, flauta, gaita ou buzina. Literalmente a tradução será: mato de gaitas, de buzinas ou flautas. Desta etimologia depreendem que os cambembes deveriam ser um povo amigo de músicas. É bem possível que haja alguma identidade desses índios com os bardos dos caetés, os quais, conforme relata Ferdinando Diniz, acompanhavam os guerreiros nas pelejas, incitando-os com seus cantos. Ainda hoje entre os caboclos descendentes dos cambembes encontram-se exímios tocadores de pífano.”

IMO INDÍGENA

Como encontraremos ainda em Calunga, de acordo com Jorge de Lima, a subtribo dos cambembes espalhou-se no mundo. Pois bem, como alagoano, também faço parte dela e entendo que muito da nossa musicalidade, tão rica e plural, tem origem no cerne atávico à nossa geografia histórica, povoada pelos povos das flautas, das danças, dos ritmos, loas e cantos de guerra. Então, quem será capaz de afirmar que a música produzida hoje em Alagoas não é tão somente o prolongamento, uma extensão do que nos originou musicalmente? Será coincidência o fato da cidade de Marechal Deodoro ser um celeiro nacional de músicos de instrumentos de sopro, e Viçosa ter no Esquenta Mulher, do Mestre Bia, um dos ícones da cultura alagoana, ou será apenas uma referência meritória e direta ao povo cambembe e caeté? As bandas de pífano, do litoral à Zona da Mata, não ecoam em sua originalidade musical, em sua formação singular, os sons ancestrais dos que nos precederam há muito mais de 200 anos?

IMO ÁFRICA

Então, o que somos começa bem antes da efeméride, mas também, começa quando somos, de modo musical e cultural, o caldo da principal etnia trazida para o Brasil, os bantos, o povo que durante o período colonial brasileiro, ocupava a maior parte do continente africano ao sul do Equador. Musicalmente, embora muitos não tenham interesse em saber e se perceber como tal, somos resultado dos batuques nos atabaques que ressoam nossa miscigenação, em cujas veias vagueiam o sangue e o cerne da base biológico-musical banto, irmanada em Angola, Benguela, Cabinda, Maputo, Congo e Alagoas, queira ou não nossas elites. Alguém admite negar que somos um povo que tem a grandeza do coco, que provavelmente tenha surgido na zona de fronteira entre Alagoas e Pernambuco, nas serras ocupadas no século XVIII pelo revolucionário Quilombo dos Palmares, e que a partir dessa região espalhou-se por todo o Nordeste, onde recebeu nomes e formas coreográficas diferentes?

IMO EUROPEU

É manifesto que outro ramo do núcleo da nossa ancestralidade musical tem âncora incontestável na colonização europeia, imposta ao nosso encanto tropical e repleta de balda e virtudes, para o bem e para o mal. De acordo com o docente e pesquisador da UFAL, Nilton da Silva Souza, […] “o mapeamento musicológico dos arquivos musicais de Alagoas passa pelo acervo da música sacra, da música erudita, da música semierudita, das composições instrumentais para banda de música e das composições instrumentais para piano.” Ele afirma ainda que: “Um estudo mais detalhado aponta para manifestações musicais voltadas quase exclusivamente para fins religiosos, seja durante o culto católico, a missas ou a novena, ou mesmo durante as procissões e festas religiosas.” E revela uma curiosidade: “Em termos musicais, o Estado de Alagoas pôde ser dividido em sete polos de ação de grupos musicais: Baixo São Francisco; Maceió e Orla Lagunar; Zona da Mata; Litoral Norte; Litoral Sul; Agreste; e Sertão. Dessa forma, o Baixo São Francisco foi o primeiro polo de desenvolvimento musical considerável, haja vista a criação das primeiras Sociedades Musicais e bandas de música em Alagoas.” Tudo, claro, sob o ponto de vista de uma elite dominante que ignora, por exemplo, que a música dos terreiros também é originária e representativa de um culto sagrado, portanto, sacra.

Não tenho qualquer base antropológica ou científica para afirmar, portanto, suponho que o amálgama dessas três vertentes citadas, do núcleo originário da musicalidade alagoana, resulta, também, na riquíssima cultura popular, que muitos denominam de folclore, cuja diversidade musical e rítmica há séculos motiva e dá vida aos seus brincantes. Porém, não é por se tratar de uma efeméride de 200 anos que não possamos ressaltar uma questão atávica e embrionária da nossa herança colonialista, atrelada ao amargo social, paradoxalmente implícito à cana-de-açúcar, seus senhores de engenho e às práticas patronais de uma elite que pouco evoluiu em seus conceitos e preconceitos. Aliás, fazendo uma precária arqueologia histórica, na tentativa de manter as coisas em perspectiva, sabemos que, nas melhores rodas, nos ufanamos de ser o Estado que possui o maior número de folguedos populares do Brasil, que temos a maior diversidade cultural e toda essa verborragia, que parece apenas servir para o pavoneamento intelectualoide de alguns e, logo em seguida, é relegada a meros dados estatísticos, que cumprem seu propósito informativo nos lampejos da vaidade alagoana. Raramente, somos transparentes o bastante para nos posicionarmos diante dos fatos e admitirmos que, com exceção de alguns atores sociais abnegados pelo universo dos folguedos populares e seus brincantes, continuamos a não dar a devida atenção social e política às classes menos favorecidas da nossa população. E parece que mais 200 anos não serão suficientes para compreendermos, que é justamente nelas, que se mantêm vivas as tradições da nossa cultura.

Afinal, por definição, somos a “terra dos marechais” e não dos guerreiros, pastoris e fandangos. Cultuamos o bélico e não o lúdico. Aclamamos fardas, paletós e não as fitas, adereços e espelhos. Reverenciamos o senhor de engenho e seu poder amargo, e não o pisador do pagode com seu trupé e canto agridoce. Portanto, a demagogia política de há muito detectou o quanto essas pessoas são vulneráveis e indefesas, apesar da força arrebatadora do trupé nos ritmos marcados por instrumentos não-sofisticados. Apesar dos cantos e loas nas vozes ásperas e expressionistas que emanam do profundo abissal daqueles que, de berço, trazem a cultura popular pululando em suas veias. Enfim, é triste saber que a penúria deles pode estar perversamente conectada ao nosso bem-estar por mais de 200 anos.

Tela de Pedro Cabral

Tela de Pedro Cabral

Conhecidas as bases da nossa pirâmide musical, sem mais delongas, temos que dar um salto cronológico até à modernidade do século XIX e à contemporaneidade do século XXI, lamentando a impossibilidade do aprofundamento no vasto e rico universo que cada tópico já exposto é capaz de nos proporcionar. Afinal, nada mais prazeroso do que o autoconhecimento que a realidade histórica nos proporciona. Se o século XIX foi considerado o século de ouro dos grandes compositores mundiais de música erudita, Alagoas também foi contemplada com o nascimento em Satuba, em 1896 (mesmo ano de nascimento do também alagoano Jararaca), do seu maior expoente, o compositor, maestro e arranjador Hekel Tavares, cuja obra vem sendo revisitada por inúmeros intérpretes e obtendo o reconhecimento inevitável. Já no século XX, os anos 40 foram bastante efervescentes musicalmente, com inúmeras formações de jazz band, sob nítida influência americana, no clima da 2ª guerra mundial, onde a sociedade alagoana se reunia em matinês e soirées dançantes. No final dos anos 40, mais precisamente em 1948, é inaugurada a Rádio Difusora com uma vasta programação musical ao vivo e os memoráveis programas de calouros, coisa que o Haroldo Miranda já fazia no Cinema Capitólio, com um programa de auditório aos domingos, repleto de calouros e cantores expoentes da cena musical daquela época. Era a famosa época de ouro do rádio e o bom é que ainda chegamos a tempo de também protagonizá-la.
O final dos anos 70 e começo dos anos 80, do século passado, com a onipresença dos festivais de música, que dominavam a cena nacional e local, com uma produção musical riquíssima e como válvula de escape para as circunstâncias terríveis de um regime ditatorial em vigor no nosso país, os festivais foram determinantes para o surgimento de alguns artistas que hoje são, digamos assim, a velha guarda da atual cena musical alagoana. Sou um dos remanescentes dessa época e, nesta condição, um observador privilegiado do que aconteceu ao longo dos anos na nossa ainda pueril realidade. Chegamos à contemporaneidade com avanços e retrocessos, com êxitos individuais e coletivos, com acertos e erros, talvez, não assimilados, mas com a certeza de que se, provavelmente, tudo começou lá atrás, com os cambembes, o fim não saberemos qual será, pois, haverá um fim? Creio que não, posto que a fonte que gerou Hekel Tavares, Augusto Calheiros, Jararaca, Jacinto Silva, Tororó do Rojão, Juvenal Lopes, Roberto Becker, João do Pife, Beto Batera, Mestre Verdelinho, Mestra Hilda do Coco, só para citar alguns dos ícones, e mais uma plêiade de artistas, intérpretes, compositores e músicos maravilhosos e contemporâneos, essa fonte não seca, nem secará por, pelo menos, mais 200 anos.

*Fotos das talas do artista Pedro Cabral
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
Mácleim (23/09/2021)

Por Redação

Beatles forever

A noite estava linda e sem qualquer ameaça de chuva. O que por um segundo me fez pensar, egoisticamente: poxa, bem que a lona poderia ter furos, só para que eu pudesse usufruir uma visão romântica das estrelas.

 

Quebrei o meu retiro espiritual-etílico, dei um tempo na leitura de 1822, e fui ao circo. Só para melhor contextualizar este lero. Devo dizer que estava eu de férias no reino do King Sauaçuhy, o qual fica em um ponto equidistante entre o próprio reino e o resto do planeta. Mais ao norte do reino, localiza-se o que alguns chamam carinhosamente de Parispueira. A título de informação, esta pequenina cidade, no litoral norte de Alagoas, segundo alguns paripueirenses, agora está maravilhosa. Mas, o que será que aconteceu? Simplesmente, afirmam eles, o atual prefeito tem feito a coleta do lixo regularmente. Parece, e de fato é, muito pouco para tanta euforia. Quando a obrigação ganha ares de virtude, algo está errado!

Mas, voltemos ao espetáculo, ou melhor, ao circo. Ele, o Circo África do Sul, por sua vez, encontrava-se em um ponto equidistante entre o reino de Sauaçuhy (o único lugar onde ainda existe Mesbla) e a agora asseada Paripueira. De tão pequenino e escondido num rebentão, as margens da BR 101 Norte, descobri-o por acaso. Armaram-no tão inclinado que, por mais forte que seja a chuva, o declive da lona (diga-se de passagem, sem furos), portanto, de todo o circo, não possibilitaria cair um pingo sequer dentro do mesmo. Isso, me impressionou.

A noite estava linda e sem qualquer ameaça de chuva. O que por um segundo me fez pensar, egoisticamente: poxa, bem que a lona poderia ter furos, só para que eu pudesse usufruir uma visão romântica das estrelas sob a lona de um circo pra lá de mambembe. E lá fui eu, após previamente ter sido informado que o espetáculo começaria às 20 horas. Fui pontual, mas o espetáculo não! Dentro do circo rolava um som daquele forró-de-plástico, nos píncaros dos decibéis, que nem o Cícero Almeida aguentaria, fazendo jus à proporcionalidade – alagoanamente comprovada – música ruim, volume elevado. Pois bem, baseando-me em minha pontualidade, imaginei que não haveria espetáculo àquela noite, pois o circo estava às moscas. Daí, perguntei a um rapaz (que descobri depois ser o “domador” do bode) se o espetáculo aconteceria, mesmo se eu fosse o único espectador. Ele disse que sim e que começaria entre 20h30min e 21 horas, mas que era assim mesmo e logo logo a plateia começaria a chegar. Perguntou se eu queria entrar e esperar lá dentro. Informou, também, que depois eu pagaria a entrada, como algumas pessoas que já haviam entrado para esperar sentadas. Agradeci a gentileza e, de imediato, refleti: se aquela música lá dentro já estava quase me fazendo desistir, imagine então a tortura que seria mais próximo dela. Quem me conhece sabe que música ruim me torna vítima da pior sinestesia.

Procurei um lugar mais confortável no meio-fio e resignei-me. Na melhor das hipóteses eu esperaria de trinta minutos a uma hora. Aproveitei para observar as pessoas – crianças e pré-adolescentes, na grande maioria – que, aos poucos, cumpriam a profecia do domador do bode. Enquanto eu esperava, perdi a conta de quantas vezes um rapaz (que vim saber depois ser o “Garotinho Aroldo”, o equilibrista) subia no poste da rede elétrica, para cutucar uma gambiarra que insistia em provocar blecautes no circo inteiro. Quando dei por mim, o meio-fio estava lotado e eu ouvindo diálogos, tipo: “Por que você chamou meu irmão de filho da puta? A mãe dele é a mesma minha…”, disse, com jeito furioso, uma menina gordinha encarando um moleque que tinha a cabeça desenhada como a do Neymar, à época, jogador do Santos.

A bilheteria abriu e as pessoas começaram a comprar os ingressos. Depois que quase todo mundo já havia entrado (eu resistia bravamente a um contato mais próximo com aquela música que, na proporção inversa ao volume, baixava cada vez mais de qualidade), fui comprar o meu bilhete, que custou dois reais e dava direito a uma cartela de bingo. Evidentemente, o meu ingresso era para o “poleiro” (arquibancada), pois as cadeiras custavam três reais e eu havia observado que estavam posicionadas ao lado do picadeiro – que nada mais era do que um pedaço de lona de caminhão estirada no meio da ladeira. Como o terreno era agudamente inclinado, as cadeiras tinham inclinação lateral, percebe? Aliás, fui informado, pelo próprio artista que fazia a boneca maluca (aquela desengonçada, que é jogada de qualquer jeito no chão) e que por ora atuava como vendedor de maçãs do amor e pipoca de isopor, que devido à inclinação do terreno e os calombos e tocos sob a lona do picadeiro, por motivo de segurança, sua apresentação estava suspensa naquela temporada.

Finalmente, adentrei ao África do Sul e procurei um lugarzinho no poleiro, que me pareceu mais seguro. Explico: é que as tábuas que faziam a arquibancada, de tão finas e maleáveis, pareciam elásticas, com a molecada pulando de tábua em tábua, para cima ou para baixo. Escolhi um cantinho que me proporcionasse uma fuga segura, no segundo degrau, bem próximo à saída. Como previ, ninguém se ariscou a comprar ingressos para as cadeiras. E nada do espetáculo começar. O poleiro já estava lotado. E nada do espetáculo começar. Nisso, acontece uma cena bem representativa de onde estávamos e do quanto a cidadania do povo brasileiro ainda está por ser construída. A menina gordinha, aquela que encarou o generiquinho do Neymar, foi comprar uma maçã caramelada. No momento em que o atual vendedor de guloseimas, o boneca maluca em estand by, lhe entregava o pedido, num vacilo, a maçã foi ao chão de terra e, claro, rolou obedecendo à lei da gravidade. Resultado, ficou parecendo uma maçã à milanesa. Daí, numa rápida negociação, o que parecia um problema virou solução para ambos. Ele, reduziu o preço e se livrou da “maçã quente e empanada”, ao invés de oferecer outra. Ela, com uma delicadeza tal, que eu não havia percebido momentos antes, lá no meio-fio, aceitou prontamente a negociata e tentava limpar a maçã sem perder o caramelo.

“Senhoras e senhores, vai começar o espetáculo! O circo África do Sul, uma organização Mário Nelson, apresenta nossa primeira atração. O Garotinho Aroldo! Sucesso! No perigoso número da corda bamba.” Aliás, durante as apresentações o apresentador falava o tempo todo, a palavra sucesso! Até para o bode Beatles. Sim, esse é o nome do único animal do África do Sul, embora o sugestivo nome do circo nos remeta às savanas e seus leões e afins. “Esse é o sonho das organizações Mário Nelson, um circo com grandes animais. Mas, até agora, só temos o bode Beatles”, me confidenciou o boneca maluca. Na sequência, pois o espetáculo não pode parar, o apresentador pergunta: “Vocês gostam de mulher? Tá fraco, mais alto!” E anuncia Luana, uma moreninha magrinha, de bunda empinada, que se esforçava para piorar o que os baianos inventaram, numa coreografia repetitiva onde a bunda sem Luana faria o mesmo efeito. Já Luana sem a bunda, não. Quando começou a apresentação do palhaço Jurubeba, com suas rimas chulas e déjà vu, passei o meu talão de bingo para uma menina que estava do meu lado, disse adeus, e fui embora de volta a 1822, convicto de que, ao que parece, o povo brasileiro precisa de muito mais do que pão e circo.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!

 

Por Mácleim Carneiro

DESAFINARAM O PIXINGUINHA

A janela do Projeto Pixinguinha não era para ser pulada nem tomada de assalto. Era apenas uma bela janela, por ser ela, ao mesmo tempo, sala que se iluminava em convidados e anfitriões.

Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha

O tempo não é linear! “A linearidade do tempo é uma invenção Ocidental”, de acordo com a saudosa Lina Bo Bardi. E, como tal, invenção não significa descoberta. Por isso, as lembranças são cristalinas, a sensação é a mesma. Lembro-me, como se fosse hoje, da alegria de ter sido selecionado para fazer a abertura de um dos shows do Projeto Pixinguinha, em 1986. Naquela época, a participação de artistas locais, quando da passagem das caravanas do Pixinguinha, chamava-se “janela”. E como era apropriado esse nome… Por ela, vislumbrei inúmeras possibilidades. Quase todas de foro íntimo, quase sempre validadas pelas percepções intuídas em mim, que careciam de uma janela para se mirar. E lá estava ela, aberta de fora para dentro e, principalmente, de dentro para fora. A janela do Projeto Pixinguinha não era para ser pulada nem tomada de assalto. Era apenas uma bela janela, por ser ela, ao mesmo tempo, sala que se iluminava em convidados e anfitriões.

Shows no Teatro Deodoro, sempre lotado, foram os meus primeiros contatos ao vivo, com artistas brasileiros e suas criações maravilhosas. Hoje, grande parcela deles é referência da musicalidade deste país, catapultados que foram pela criatividade, talento, conteúdo poético-musical e, por que não, pelo Projeto Pixinguinha. Desde 1977, com um hiato de 7 anos, a essência do Projeto Pixinguinha foi mostrar ao Brasil, ‘que não conhece o Brasil’, o seu genuíno e melhor produto tipo exportação. Em paralelo, e isso não pode ser dimensionado, fomentou em músicos, intérpretes e compositores, aquela imprescindível vontade e certeza, às vezes adormecidas, de que é possível sim, de que através do Projeto Pixinguinha as possibilidades de fato existiam. E o que era melhor: na contramão da mediocridade.

Workshop de Sonhos

Da minha primeira participação, como janela, até a caravana de 2006 (a última do Projeto Pixinguinha), com o grupo vocal Nós Quatro e o músico mineiro Ezequiel Lima, percebi claramente que só um projeto como o Pixinguinha era capaz de proporcionar a inversão dos papeis. Dessa vez, era eu quem provava ser possível. Como aconteceu em São Leopoldo (RS), por exemplo. Lá, após o show, fizemos um workshop. A Celinha Vaz, com o Nós Quatro, fez uma bela demonstração de como se constrói arranjos vocais maravilhosos. O Ezequiel deu uma aula sobre contrabaixo, seu instrumento. Eu, falei sobre minha trajetória, minha construção diária, tijolinho por tijolinho. E depois… Bem, depois, aconteceu um momento que traduz com clareza uma das façanhas do Projeto Pixinguinha. Dois jovens me disseram que seus pais viviam pegando no pé deles, por causa da música, e que eles estavam dispostos a largar tudo e abandonar seus sonhos. Porém, depois do que viram e ouviram, não iriam mais abrir mão do que queriam ser. Iriam ser músicos, sim senhor!

Desconstrução

No entanto, aconteceu a desconstrução de tudo isso. Desafiando a lógica, de onde menos se esperava sair algo inútil, inutilmente aconteceu. Custou-me crer que a mediocridade de rapina não tinha mais limites. Desconsiderando toda uma história de acertos, construída por muitos, avançou com a gula pegajosa da mesmice e tomou de assalto a Funarte. Em 2008, o edital do Projeto Pixinguinha teve tradução, com exatidão, no texto do Paulo César Feital, que transcrevo e partilho-o com você, pedindo permissão para fazer do que ele escreveu, a minha sincera e absoluta forma de protesto, sempre!

“Consternado, testemunho o assassinato com resquícios de crueldade do Projeto Pixinguinha. O corpo jaz abandonado no hall da Funarte, velado pelos próprios sicários. Em paga pela vergonha, oferecem dois CDs por estado e alguns “capilés”. É triste! É deprimente e melancólica a quase nula reação da classe musical do país. Salvo a matéria do Hermínio, no Globo, a crônica do Claudio Jorge no próprio blog e algumas reações isoladas, ouve-se em cada esquina a insatisfação de músicos, cantores e compositores, mas, nada que se efetive concretamente.
Os matadores, após desovarem o corpo, hipocritamente, ainda roubaram à identidade do morto e conservaram o nome do projeto na vergonha que inventaram.

Esse defunto ainda é Lázaro: pode ser ressuscitado!

É o momento de abandonar o silêncio.”

Se o grande Paulo César Feital afirmou que o defunto ProjetoPixinguinha ainda era Lázaro, esqueceu de um ponto crucial: no Brasil, Lázaros culturais não ressuscitam.

No +,MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Por Mácleim Carneiro

Cortinas para o futuro

Do foyer à coxia, do palco à plateia, do proscênio aos camarotes, a música dos alagoanos se fez presente.

 

Teatro Deodoro

 

Não é preciso ser oriental para apropriar-se de um profundo sentimento de respeito, carinho e admiração aos que atingiram a longevidade. Não, não é preciso! O tempo – e tudo que lhe é implícito – nos orienta ao rumo certo. Ao sermos capazes de acumular grãos de conhecimentos e transformá-los em sabedoria prenhe de passado, fortalecemos o presente como uma ampulheta, cujo espaço-tempo se refaz a cada inversão, materializando a lógica imperceptível à moldura do imaterial. Aos que ultrapassaram os umbrais dos séculos com altivez e dignidade, centenários de cenas que moldaram a história em tantas outras histórias e fragmentos devida, e aos que a eles se amalgamam através de infinitos atos e compassos, lhes rendemos homenagens! Pois foi assim que o Theatro Deodoro passou a pertencer ao seleto grupo de úteros longevos e férteis de novidades e inquietações. Não poderia ser diferente. Afinal, ele tem em seu frontispício o diretor do coro das musas, Apolo, permanentemente a nos dar boas-vindas.

Privilégio

Aos que povoam tal universo, e mesmo aos que o orbitam, o privilégio em tê-lo de portas abertas é real e incalculável. Cronologicamente, encontrei-o quando sua trajetória já me fazia percebê-lo como meta, sonho a ser alcançado, abrigo futuro, êxtase de uma longa jornada individual em busca da tão sonhada musculatura artística. Porém, humanamente, desde a primeira vez em que fui ungido pelo liquido sensorial desse útero de inquietações, hibrido por natureza, onde não repousa paradoxos, foi desnecessário ater-me às questões cognitivas, para intuir a importância do Theatro Deodoro na construção do nosso caráter artístico e cultural. Sobretudo, pelo o que me era evidente: sua imensa possibilidade em causar transformação em cada artista ou fruidor, posto que não se entra e se sai do Deodoro sem um novo valor agregado, algo que não tínhamos antes ou desconhecíamos ter.

Teatro Deodoro

Uma tarefa impossível seria a busca do distanciamento necessário à imparcialidade tão próxima da razão. Admito minha incapacidade em ser imparcial com o Theatro Deodoro. Assim, arisco-me à vulnerabilidade, como qualquer artista quando exposto à luz da ribalta. E como ser imparcial com algo tão gênese, tão quente e acolhedor, como suponho ser um útero? Antes, prefiro a noção do privilégio. De me supor um privilegiado! Portanto, extremamente grato, haja mérito ou não. O fato é que não é apenas o espelho dos camarins que me revela tal privilegio, ao me por de cara com a vocação e sina. É bem mais simples, embora múltiplo. Não tenho dúvidas; admito o privilégio porque tantas vezes experimentei sensações e emoções diversas que, até então, só o Theatro Deodoro poderia me proporcionar. Atuei nos bastidores, atuei como artista, e, principalmente, atuo como fruidor. São emoções diferentes, intensas e na proporção exata a cada atividade. Poder estar sob os prismas palco e plateia, luz e sombra, provocador e provocado, sempre sob o manto histórico que habita cada palmo do Theatro Deodoro, é realmente um privilégio.

Cordão Umbilical

Tantas e quantas histórias eu poderia contar aqui. Algumas, vividas por mim. Outras que resistiram ao tempo, através da mais antiga das tradições. Todas, no entanto, tendo como cenário os diversos encontros e desencontros no arcabouço pulsante do mais importante e significativo equipamento para expressão da cultura alagoana. Do foyer à coxia, do palco à plateia, do proscênio aos camarotes, a música dos alagoanos se fez presente. Na contagem: um dois três e…, que precede as canções, a música produzida em Alagoas encontrou ressonância pela caixa cênica da casa apolínea e projetou-se plateia a fora, até chegar aos corações. Histórias outras que antecedem às batidas de Molière, quando o teatro se prepara para a vida, também povoam o imaginário dionisíaco.

Não me interessa as incertezas do amanhã, pois sei que em qualquer época a estética singular da música alagoana, pela diversidade que lhe é peculiar, continuará a ser alimentada e fortalecida pelo grande útero apolíneo do Theatro Deodoro. As pessoas, o tempo, atuam e passam. Ele permanecerá. Em essência, não carecemos romper o cordão umbilical com a gênese. Então, que se abram as cortinas para o futuro.

Por Mácleim Carneiro

Resenha publicada hoje, 21, na coluna “Depois do Play”, do jornal O DIA

NASCIMENTO NO XIRÊ
Apraz-me apreciar um trabalho, no qual é perceptível a realização conceitual. Em outras palavras, um trabalho artístico, sobretudo fonográfico, que foi pensado e gestado a partir de um conceito pré-definido. Gosto da ideia onde o conceito estabelece os parâmetros, de tal maneira que logo torna-se compreensível à primeira audição. ‘Força de Mulher’, segundo álbum da cantora e compositora alagoana Mel Nascimento, certamente, tem essas características bem evidentes. Embora, o ecletismo de ritmos e gêneros, que formata o repertório do álbum, possa parecer um tanto paradoxal. Porém, a questão conceitual vai além dessas peculiaridades. Até porque, como a própria Mel Nascimento já declarou, esse álbum é uma espécie de encadeamento do que ela vinha fazendo em seus projetos: “Sempre com três frentes em sua temática: a música autoral alagoana, a resistência negra e o empoderamento da mulher.”

Aos 13 anos, Mel Nascimento começou sua lida na seara da música, cantando em coros, como a Camerata Pró Música de Alagoas. Depois, enquanto conquistava o seu bacharelado em canto, foi vocalista de um grupo que teve uma trajetória bastante exitosa na cena aquariana, o grupo Malacada. Certamente, Mel Nascimento não é uma artista de queimar etapas e sabe da importância em criar musculatura musical, para que o desenvolvimento de sua arte não retroaja. Por isso, ela também atuou como backing vocal para vários artistas alagoanos, em gravações e shows. Assim, foi construindo sua trajetória, fazendo shows em nossa latitude e além fronteiras. Mel Nascimento impressiona pela forte postura cênica e potência vocal, cujo timbre intenso e singular está inteiramente ajustado ao repertório e ao discurso de suas inquietações musicais e sociais. Além disso, ela trafega em vários gêneros da música negra, que vão do samba ao funk, passando pelos ritmos de matizes africanas.

Evocação dos Orixás
‘Força de Mulher’ é um álbum bem representativo de todas essas potencialidades e características da artista alagoana, tendo como pano de fundo – que em vários momentos assume o protagonismo – o intenso discurso do empoderamento feminino e resistência das minorias pelas lutas sociais atávicas ao povo brasileiro! ‘Meu Zambelê’ (Toni Edson) abre o álbum batendo asas e voando com Juó e Macacauá, apresentando a tônica de toda negritude e força que permeiam esse trabalho. A começar pela introdução, nas convenções que se repetem várias vezes, como a avocar a atenção para algo que está para acontecer e requer foco. Expressões originárias do linguajar da nossa ancestralidade africana povoam a letra e nos reconecta com o que nos é embrionário, trazendo, à memória, palavras como: assuncê, supapo, aguacê, zambelê, saracuteia e encerrando com xirê, uma palavra iorubá, que significa roda ou dança utilizada para evocação dos Orixás. Portanto, nada mais apropriado para acender os trabalhos.

Sem dar fôlego ao ouvinte, ‘Força de Mulher’ (Arnaud Borges e Mel Nascimento), música que dá título ao álbum, tem em sua atmosfera rítmica um quê de calmaria, porém, como as que precedem tempestades, implícita na força dos atabaques e dos versos que dizem: “Luto com a força de Dandara / Com braços de mulher Quilombola / E trago na voz a luta / Que mostra minha força e minha cor.” Na sequência, ‘Meu Belo Mandacaru’ (Gustavo Gomes e Mirian Monte) põe os pés no Sertão nordestino e o arranjo na hibridez das distorções das guitarras, amalgamadas ao ritmo regional, numa globalização de gêneros tantas vezes experimentada por tantos. Embora estejamos abaixo da linha do equador e Cuba seja um pontinho acima dela, a salsa está bem ali, na faixa 4 ‘O Grito’ (May Honorato) e no dadivoso passeio em gêneros musicais, que esse trabalho proporciona!

Discursos Variados
Em ‘Negra Soul’ (Arielly Oliveira) chegamos à metade do repertório, composto de dez músicas. Para cada uma delas, praticamente, um compositor(a) diferente. Isso demonstra a diversidade e a coletividade desse trabalho, que, não por acaso, é fruto de um financiamento coletivo. É em ‘Negra Soul’ que o lugar de fala do empoderamento da mulher negra e sua ancestralidade se faz presente: “Minha cor, black do gueto soul / Sinta a África em ti, sinta a África em ti.” Aqui, o contrabaixista Misael Dantas, que assina a direção musical do álbum, firma sua participação como músico, num longo solo de contrabaixo, que termina em fad out. Daqui por diante, até chegar à última faixa do álbum, os discursos vão variando e também as preferências rítmicas, passando por uma grata surpresa em ‘Pagode de Canto de Parede’ (Telma Cesar), como se fora uma taieira estilizada, sem os tempos fortes do tambor, de letra inteligente e bem aos moldes da Telminha.

Diante de tantos lançamentos de músicas para boi dormir, pastéis de feira que não se sustentam em pé sem os modismos regurgitados, Força de Mulher, Mel Nascimento e o seu compromisso em reunir a maior quantidade possível de mulheres compositoras, revigora-nos a certeza de que a tal pós-modernidade oca jamais será hegemônica, e nos fiúza a convicção de que a fonte que gerou, por exemplo, Mestra Luiza Simões, Mestra Maria Benedita, Mestra Maria do Padeiro e Mestra Hilda não secará tão cedo! Ah, e para não parecer que eu sonegaria essa informação, esse álbum foi pré-selecionado para o Grammy Latino. Sinceramente, torço para o êxito nesse sentido, embora, soe para mim como o Oscar. Ou seja, não é sinônimo do que eu assistiria!

SERVIÇO
Força de Mulher, Mel Nascimento
Plataformas digitais: Spotfay, Deezer, YouTube, Apple Music, Amazon Music
Plataforma física: Em pencard, pelo fone 82 996141658
Preço: 30,00

Por Mácleim Carneiro


Por Redação