Mácleim Carneiro

Crise moral

Foto: Divulgação

Frans Krajcberg (foto) foi um artista que produzia esculturas a partir de troncos e raízes que restam dos incêndios que destroem as florestas brasileiras, para transformá-las em pasto.

Em entrevista, dois anos antes de sua morte, ele foi direto ao ponto:

“É preciso falar sobre a destruição do planeta. E é preciso falar sobre cultura. Estamos passando por um momento difícil, tem um vazio de arte, não se pronuncia mais a palavra cultura. É uma crise mundial, mas no Brasil parece estar aprofundada. Porque aqui também se trata de uma crise moral”.

Sinceramente, procuro um ponto de discordância e não encontro. E isso foi dito em 2015. De lá pra cá, a lama só aumentou!

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Cacimbão do Mundaú

Sempre fui assim, porque, instintivamente, me dei conta de que a cautela apodrece em forma de covardia.

 

 

Um sujeito como eu, em minha terra de origem, à beira do Mundaú, pode ser facilmente identificado como um engole corda, cacimbão ou coisa que o valha. São pechas usadas pela sabedoria popular, que reconhece os símiles movidos a provocações. Sempre fui assim, porque, instintivamente, me dei conta de que a cautela apodrece em forma de covardia. Sou assim, porque meus embates sempre são em torno das ideias e não passam disso! Portanto, ninguém melhor do que eu para concordar com o que escreveu Norman Mailer, na carta para Max Gissen, em dezembro de 1951: “O crítico está submetido a um requisito moral. Pode escrever sobre um livro sob qualquer ponto de vista, mas tem com seus leitores e com o livro a obrigação de separar as ideias do livro das suas, e juntar o aviso de que sua reação ao que é criticado deve ser vista nesse contexto. Sem esse recato, toda integridade some da crítica, e só se produz propaganda.”

Esse trecho da carta de Norman Mailer é perfeito para ilustrar o que vem a seguir. Porém, ousarei substituir uma só palavra. No caso, caberá melhor a palavra “bobagem”, ao invés de “propaganda”. Refiro-me ao que, certa vez, escreveu um dublê de Jornalista e DJ, uma espécie de Andy Warhol provinciano, um incenso adocicado da modernidade oca! Com todo respeito que dedico aos ícones da arte Pop, é claro! Lá, na resenha que o tal escreveu, sobre o disco Dueto Urbano, para do Caderno B do jornal Gazeta de Alagoas – numa época em que a editoria do B era completamente avessa às produções locais e aculturada pelos modismos além fronteiras –, ele mandou esta provocação: “Letras insossas, melodias pouco inspiradas, vocais frágeis e arranjos repletos de clichês. Chega até a lembrar alguns dos artistas da MPB alagoana, embora boa parte desses careça da saudável despretensão do Dueto Urbano.”

Pois bem, é claro que engoli a corda! E veja que coisa interessante: sendo eu um propositor da MPB (com toda idiossincrasia que essa sigla carrega), se fizesse vistas grossas à grosseria, estaria sob o crivo da conivência silenciosa, que ratifica os fatos. Se não, ao ser um cacimbão da beira do Mundaú, certamente, caí na vala comum, aberta pela generalização contida no comentário do nosso Andy Warhol tupiniquim. É evidente que a segunda opção me foi bem mais confortável. Principalmente, levando-se em consideração a origem da crítica, propaganda, bobagem ou coisa que o valha, cujas referências comparativas, por certo, foram inspiradas no saco vazio em que regurgita grande parcela da modernidade oca e sampleada.

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Por Mácleim Carneiro

Carrapicho olímpico

Olhava para a pista do Cepa e via os jovens que a utilizavam.

 

 

Houve um tempo, no qual eu praticava minha corridinha diária no que talvez tenha sido uma pista de atletismo do Cepa. Assim, apesar de não ser atleta, me arriscava diariamente a uma contusão, pela quantidade de buracos que pareciam competir com o mato e os carrapichos, que avançavam e estreitavam a tal pista, denunciando o descaso. E, pasmem, o campeão paraolímpico Yohansson também treinava lá. Pois bem, além do descaso com o patrimônio público, o que chocava mesmo era a irresponsabilidade cometida contra crianças e jovens humildes, que poderiam encontrar na prática esportiva um escape, uma válvula de saída, um presente-seta para o futuro, capaz de torná-los cidadãos de cabeça erguida. Contudo, será que existe o interesse em construirmos um Estado, um país de cidadãos de cabeça erguida? Não é o que parece ser!

Lembro-me que, à época, me permiti usar da minha parca parcela sociológica de ocasião, tão em voga nos veículos de comunicação. Para tanto, bastava dar uma olhada na tal pista de atletismo do Cepa e seu entorno. Olhava para a pista esburacada, com os jovens descalços e desnutridos, treinando num esforço inglório, literalmente, correndo mais riscos do que eu que, ao menos, tinha um plano de saúde. Olhava e tentava entender qual a lógica daquela realidade.

A comparação, a partir de uma simples observação mais atenta, tornava-se inevitável ao entendimento da lógica dos governantes, que desnivelam o que deveria ser preponderantemente nivelado. Olhava para a pista do Cepa e via os jovens que a utilizavam. A ruína e a precariedade da pista não combinavam com o frescor, vontade e determinação dos jovens. Sobretudo, se um é meio e o outro fim. Por isso, retrocedemos e fracassamos como país!

Desabafo

Era a época das olimpíadas de Londres. Se me fosse pedido fazer um resumo sobre o Brasil, naquela Olimpíada, ou melhor, o desempenho dos atletas brasileiros nos jogos, eu diria que foi isso: a pista de atletismo esburacada e a piscina vazia do Cepa; a falta de investimentos na base da formação intelectual e desportiva das nossas crianças; o Diego Hypólito caindo de bunda no tablado; a premonição do compositor Assis Valente, lá nos anos 40, com a canção Brasil Pandeiro; a essência positivista, todos por um, de alguns esportes coletivos; a real impossibilidade de medalha da maioria dos atletas, que não tiveram e não têm a sorte de nascer em berço confortável e carregam a cruz da irresponsabilidade estrutural do poder público, tornando-os reféns das políticas desonestas, para os setores básicos da cidadania; o choro {por que será que os atletas brasileiros choram tanto?} no desabafo do judoca negro, que, naquelas Olimpíadas, sem patrocínio sequer para ter uma academia onde treinar, pedia desculpas ao país por só ter conseguido um quarto lugar, quando o país é que deveria pedir desculpas e perdão a ele.

Acho melhor não tecer mais qualquer comentário, até porque não sou sociólogo de ocasião e é triste lembrar que, à época, tive que admitir o comentário de um reacionário calhorda, Diogo Mainardi, quando escreveu: “Os meus atletas preferidos são os que chegam desacreditados aos jogos e, confirmando todos os prognósticos, perdem logo de cara”. Tal afirmativa sempre fará sentido enquanto não mudar esse eterno faz de conta brasileiro, esse engodo nacional. Pelo menos, esses atletas não servem à hipocrisia e dividendos políticos.

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Por Mácleim Carneiro

A FONTE QUE NÃO SECA

Tela de Pedro Cabral

Tela de Pedro Cabral

Os 204 anos da Emancipação Política de Alagoas é um marco político, mas será que também serve como marco histórico para definir, cronologicamente, a musicalidade alagoana? Bem, Jorge de Lima, em seu livro Calunga, publicado em 1935, faz referência ao livro Viçosa das Alagoas, de Alfredo Brandão Filho, de onde retirou a seguinte explicação: “O vocábulo cambembe serve hoje na Viçosa para designar o povo baixo do campo. Tal designação é recebida quase como uma afronta, vendo-se, portanto, que ela pertenceu a uma raça que se degradou. Segundo penso, a palavra cambembe é uma corruptela de caamemby, vocábulo indígena que se decompõe em casa, mato, e memby, flauta, gaita ou buzina. Literalmente a tradução será: mato de gaitas, de buzinas ou flautas. Desta etimologia depreendem que os cambembes deveriam ser um povo amigo de músicas. É bem possível que haja alguma identidade desses índios com os bardos dos caetés, os quais, conforme relata Ferdinando Diniz, acompanhavam os guerreiros nas pelejas, incitando-os com seus cantos. Ainda hoje entre os caboclos descendentes dos cambembes encontram-se exímios tocadores de pífano.”

IMO INDÍGENA

Como encontraremos ainda em Calunga, de acordo com Jorge de Lima, a subtribo dos cambembes espalhou-se no mundo. Pois bem, como alagoano, também faço parte dela e entendo que muito da nossa musicalidade, tão rica e plural, tem origem no cerne atávico à nossa geografia histórica, povoada pelos povos das flautas, das danças, dos ritmos, loas e cantos de guerra. Então, quem será capaz de afirmar que a música produzida hoje em Alagoas não é tão somente o prolongamento, uma extensão do que nos originou musicalmente? Será coincidência o fato da cidade de Marechal Deodoro ser um celeiro nacional de músicos de instrumentos de sopro, e Viçosa ter no Esquenta Mulher, do Mestre Bia, um dos ícones da cultura alagoana, ou será apenas uma referência meritória e direta ao povo cambembe e caeté? As bandas de pífano, do litoral à Zona da Mata, não ecoam em sua originalidade musical, em sua formação singular, os sons ancestrais dos que nos precederam há muito mais de 200 anos?

IMO ÁFRICA

Então, o que somos começa bem antes da efeméride, mas também, começa quando somos, de modo musical e cultural, o caldo da principal etnia trazida para o Brasil, os bantos, o povo que durante o período colonial brasileiro, ocupava a maior parte do continente africano ao sul do Equador. Musicalmente, embora muitos não tenham interesse em saber e se perceber como tal, somos resultado dos batuques nos atabaques que ressoam nossa miscigenação, em cujas veias vagueiam o sangue e o cerne da base biológico-musical banto, irmanada em Angola, Benguela, Cabinda, Maputo, Congo e Alagoas, queira ou não nossas elites. Alguém admite negar que somos um povo que tem a grandeza do coco, que provavelmente tenha surgido na zona de fronteira entre Alagoas e Pernambuco, nas serras ocupadas no século XVIII pelo revolucionário Quilombo dos Palmares, e que a partir dessa região espalhou-se por todo o Nordeste, onde recebeu nomes e formas coreográficas diferentes?

IMO EUROPEU

É manifesto que outro ramo do núcleo da nossa ancestralidade musical tem âncora incontestável na colonização europeia, imposta ao nosso encanto tropical e repleta de balda e virtudes, para o bem e para o mal. De acordo com o docente e pesquisador da UFAL, Nilton da Silva Souza, […] “o mapeamento musicológico dos arquivos musicais de Alagoas passa pelo acervo da música sacra, da música erudita, da música semierudita, das composições instrumentais para banda de música e das composições instrumentais para piano.” Ele afirma ainda que: “Um estudo mais detalhado aponta para manifestações musicais voltadas quase exclusivamente para fins religiosos, seja durante o culto católico, a missas ou a novena, ou mesmo durante as procissões e festas religiosas.” E revela uma curiosidade: “Em termos musicais, o Estado de Alagoas pôde ser dividido em sete polos de ação de grupos musicais: Baixo São Francisco; Maceió e Orla Lagunar; Zona da Mata; Litoral Norte; Litoral Sul; Agreste; e Sertão. Dessa forma, o Baixo São Francisco foi o primeiro polo de desenvolvimento musical considerável, haja vista a criação das primeiras Sociedades Musicais e bandas de música em Alagoas.” Tudo, claro, sob o ponto de vista de uma elite dominante que ignora, por exemplo, que a música dos terreiros também é originária e representativa de um culto sagrado, portanto, sacra.

Não tenho qualquer base antropológica ou científica para afirmar, portanto, suponho que o amálgama dessas três vertentes citadas, do núcleo originário da musicalidade alagoana, resulta, também, na riquíssima cultura popular, que muitos denominam de folclore, cuja diversidade musical e rítmica há séculos motiva e dá vida aos seus brincantes. Porém, não é por se tratar de uma efeméride de 200 anos que não possamos ressaltar uma questão atávica e embrionária da nossa herança colonialista, atrelada ao amargo social, paradoxalmente implícito à cana-de-açúcar, seus senhores de engenho e às práticas patronais de uma elite que pouco evoluiu em seus conceitos e preconceitos. Aliás, fazendo uma precária arqueologia histórica, na tentativa de manter as coisas em perspectiva, sabemos que, nas melhores rodas, nos ufanamos de ser o Estado que possui o maior número de folguedos populares do Brasil, que temos a maior diversidade cultural e toda essa verborragia, que parece apenas servir para o pavoneamento intelectualoide de alguns e, logo em seguida, é relegada a meros dados estatísticos, que cumprem seu propósito informativo nos lampejos da vaidade alagoana. Raramente, somos transparentes o bastante para nos posicionarmos diante dos fatos e admitirmos que, com exceção de alguns atores sociais abnegados pelo universo dos folguedos populares e seus brincantes, continuamos a não dar a devida atenção social e política às classes menos favorecidas da nossa população. E parece que mais 200 anos não serão suficientes para compreendermos, que é justamente nelas, que se mantêm vivas as tradições da nossa cultura.

Afinal, por definição, somos a “terra dos marechais” e não dos guerreiros, pastoris e fandangos. Cultuamos o bélico e não o lúdico. Aclamamos fardas, paletós e não as fitas, adereços e espelhos. Reverenciamos o senhor de engenho e seu poder amargo, e não o pisador do pagode com seu trupé e canto agridoce. Portanto, a demagogia política de há muito detectou o quanto essas pessoas são vulneráveis e indefesas, apesar da força arrebatadora do trupé nos ritmos marcados por instrumentos não-sofisticados. Apesar dos cantos e loas nas vozes ásperas e expressionistas que emanam do profundo abissal daqueles que, de berço, trazem a cultura popular pululando em suas veias. Enfim, é triste saber que a penúria deles pode estar perversamente conectada ao nosso bem-estar por mais de 200 anos.

Tela de Pedro Cabral

Tela de Pedro Cabral

Conhecidas as bases da nossa pirâmide musical, sem mais delongas, temos que dar um salto cronológico até à modernidade do século XIX e à contemporaneidade do século XXI, lamentando a impossibilidade do aprofundamento no vasto e rico universo que cada tópico já exposto é capaz de nos proporcionar. Afinal, nada mais prazeroso do que o autoconhecimento que a realidade histórica nos proporciona. Se o século XIX foi considerado o século de ouro dos grandes compositores mundiais de música erudita, Alagoas também foi contemplada com o nascimento em Satuba, em 1896 (mesmo ano de nascimento do também alagoano Jararaca), do seu maior expoente, o compositor, maestro e arranjador Hekel Tavares, cuja obra vem sendo revisitada por inúmeros intérpretes e obtendo o reconhecimento inevitável. Já no século XX, os anos 40 foram bastante efervescentes musicalmente, com inúmeras formações de jazz band, sob nítida influência americana, no clima da 2ª guerra mundial, onde a sociedade alagoana se reunia em matinês e soirées dançantes. No final dos anos 40, mais precisamente em 1948, é inaugurada a Rádio Difusora com uma vasta programação musical ao vivo e os memoráveis programas de calouros, coisa que o Haroldo Miranda já fazia no Cinema Capitólio, com um programa de auditório aos domingos, repleto de calouros e cantores expoentes da cena musical daquela época. Era a famosa época de ouro do rádio e o bom é que ainda chegamos a tempo de também protagonizá-la.
O final dos anos 70 e começo dos anos 80, do século passado, com a onipresença dos festivais de música, que dominavam a cena nacional e local, com uma produção musical riquíssima e como válvula de escape para as circunstâncias terríveis de um regime ditatorial em vigor no nosso país, os festivais foram determinantes para o surgimento de alguns artistas que hoje são, digamos assim, a velha guarda da atual cena musical alagoana. Sou um dos remanescentes dessa época e, nesta condição, um observador privilegiado do que aconteceu ao longo dos anos na nossa ainda pueril realidade. Chegamos à contemporaneidade com avanços e retrocessos, com êxitos individuais e coletivos, com acertos e erros, talvez, não assimilados, mas com a certeza de que se, provavelmente, tudo começou lá atrás, com os cambembes, o fim não saberemos qual será, pois, haverá um fim? Creio que não, posto que a fonte que gerou Hekel Tavares, Augusto Calheiros, Jararaca, Jacinto Silva, Tororó do Rojão, Juvenal Lopes, Roberto Becker, João do Pife, Beto Batera, Mestre Verdelinho, Mestra Hilda do Coco, só para citar alguns dos ícones, e mais uma plêiade de artistas, intérpretes, compositores e músicos maravilhosos e contemporâneos, essa fonte não seca, nem secará por, pelo menos, mais 200 anos.

*Fotos das talas do artista Pedro Cabral
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Mácleim (23/09/2021)

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Por Redação

Beatles forever

A noite estava linda e sem qualquer ameaça de chuva. O que por um segundo me fez pensar, egoisticamente: poxa, bem que a lona poderia ter furos, só para que eu pudesse usufruir uma visão romântica das estrelas.

 

Quebrei o meu retiro espiritual-etílico, dei um tempo na leitura de 1822, e fui ao circo. Só para melhor contextualizar este lero. Devo dizer que estava eu de férias no reino do King Sauaçuhy, o qual fica em um ponto equidistante entre o próprio reino e o resto do planeta. Mais ao norte do reino, localiza-se o que alguns chamam carinhosamente de Parispueira. A título de informação, esta pequenina cidade, no litoral norte de Alagoas, segundo alguns paripueirenses, agora está maravilhosa. Mas, o que será que aconteceu? Simplesmente, afirmam eles, o atual prefeito tem feito a coleta do lixo regularmente. Parece, e de fato é, muito pouco para tanta euforia. Quando a obrigação ganha ares de virtude, algo está errado!

Mas, voltemos ao espetáculo, ou melhor, ao circo. Ele, o Circo África do Sul, por sua vez, encontrava-se em um ponto equidistante entre o reino de Sauaçuhy (o único lugar onde ainda existe Mesbla) e a agora asseada Paripueira. De tão pequenino e escondido num rebentão, as margens da BR 101 Norte, descobri-o por acaso. Armaram-no tão inclinado que, por mais forte que seja a chuva, o declive da lona (diga-se de passagem, sem furos), portanto, de todo o circo, não possibilitaria cair um pingo sequer dentro do mesmo. Isso, me impressionou.

A noite estava linda e sem qualquer ameaça de chuva. O que por um segundo me fez pensar, egoisticamente: poxa, bem que a lona poderia ter furos, só para que eu pudesse usufruir uma visão romântica das estrelas sob a lona de um circo pra lá de mambembe. E lá fui eu, após previamente ter sido informado que o espetáculo começaria às 20 horas. Fui pontual, mas o espetáculo não! Dentro do circo rolava um som daquele forró-de-plástico, nos píncaros dos decibéis, que nem o Cícero Almeida aguentaria, fazendo jus à proporcionalidade – alagoanamente comprovada – música ruim, volume elevado. Pois bem, baseando-me em minha pontualidade, imaginei que não haveria espetáculo àquela noite, pois o circo estava às moscas. Daí, perguntei a um rapaz (que descobri depois ser o “domador” do bode) se o espetáculo aconteceria, mesmo se eu fosse o único espectador. Ele disse que sim e que começaria entre 20h30min e 21 horas, mas que era assim mesmo e logo logo a plateia começaria a chegar. Perguntou se eu queria entrar e esperar lá dentro. Informou, também, que depois eu pagaria a entrada, como algumas pessoas que já haviam entrado para esperar sentadas. Agradeci a gentileza e, de imediato, refleti: se aquela música lá dentro já estava quase me fazendo desistir, imagine então a tortura que seria mais próximo dela. Quem me conhece sabe que música ruim me torna vítima da pior sinestesia.

Procurei um lugar mais confortável no meio-fio e resignei-me. Na melhor das hipóteses eu esperaria de trinta minutos a uma hora. Aproveitei para observar as pessoas – crianças e pré-adolescentes, na grande maioria – que, aos poucos, cumpriam a profecia do domador do bode. Enquanto eu esperava, perdi a conta de quantas vezes um rapaz (que vim saber depois ser o “Garotinho Aroldo”, o equilibrista) subia no poste da rede elétrica, para cutucar uma gambiarra que insistia em provocar blecautes no circo inteiro. Quando dei por mim, o meio-fio estava lotado e eu ouvindo diálogos, tipo: “Por que você chamou meu irmão de filho da puta? A mãe dele é a mesma minha…”, disse, com jeito furioso, uma menina gordinha encarando um moleque que tinha a cabeça desenhada como a do Neymar, à época, jogador do Santos.

A bilheteria abriu e as pessoas começaram a comprar os ingressos. Depois que quase todo mundo já havia entrado (eu resistia bravamente a um contato mais próximo com aquela música que, na proporção inversa ao volume, baixava cada vez mais de qualidade), fui comprar o meu bilhete, que custou dois reais e dava direito a uma cartela de bingo. Evidentemente, o meu ingresso era para o “poleiro” (arquibancada), pois as cadeiras custavam três reais e eu havia observado que estavam posicionadas ao lado do picadeiro – que nada mais era do que um pedaço de lona de caminhão estirada no meio da ladeira. Como o terreno era agudamente inclinado, as cadeiras tinham inclinação lateral, percebe? Aliás, fui informado, pelo próprio artista que fazia a boneca maluca (aquela desengonçada, que é jogada de qualquer jeito no chão) e que por ora atuava como vendedor de maçãs do amor e pipoca de isopor, que devido à inclinação do terreno e os calombos e tocos sob a lona do picadeiro, por motivo de segurança, sua apresentação estava suspensa naquela temporada.

Finalmente, adentrei ao África do Sul e procurei um lugarzinho no poleiro, que me pareceu mais seguro. Explico: é que as tábuas que faziam a arquibancada, de tão finas e maleáveis, pareciam elásticas, com a molecada pulando de tábua em tábua, para cima ou para baixo. Escolhi um cantinho que me proporcionasse uma fuga segura, no segundo degrau, bem próximo à saída. Como previ, ninguém se ariscou a comprar ingressos para as cadeiras. E nada do espetáculo começar. O poleiro já estava lotado. E nada do espetáculo começar. Nisso, acontece uma cena bem representativa de onde estávamos e do quanto a cidadania do povo brasileiro ainda está por ser construída. A menina gordinha, aquela que encarou o generiquinho do Neymar, foi comprar uma maçã caramelada. No momento em que o atual vendedor de guloseimas, o boneca maluca em estand by, lhe entregava o pedido, num vacilo, a maçã foi ao chão de terra e, claro, rolou obedecendo à lei da gravidade. Resultado, ficou parecendo uma maçã à milanesa. Daí, numa rápida negociação, o que parecia um problema virou solução para ambos. Ele, reduziu o preço e se livrou da “maçã quente e empanada”, ao invés de oferecer outra. Ela, com uma delicadeza tal, que eu não havia percebido momentos antes, lá no meio-fio, aceitou prontamente a negociata e tentava limpar a maçã sem perder o caramelo.

“Senhoras e senhores, vai começar o espetáculo! O circo África do Sul, uma organização Mário Nelson, apresenta nossa primeira atração. O Garotinho Aroldo! Sucesso! No perigoso número da corda bamba.” Aliás, durante as apresentações o apresentador falava o tempo todo, a palavra sucesso! Até para o bode Beatles. Sim, esse é o nome do único animal do África do Sul, embora o sugestivo nome do circo nos remeta às savanas e seus leões e afins. “Esse é o sonho das organizações Mário Nelson, um circo com grandes animais. Mas, até agora, só temos o bode Beatles”, me confidenciou o boneca maluca. Na sequência, pois o espetáculo não pode parar, o apresentador pergunta: “Vocês gostam de mulher? Tá fraco, mais alto!” E anuncia Luana, uma moreninha magrinha, de bunda empinada, que se esforçava para piorar o que os baianos inventaram, numa coreografia repetitiva onde a bunda sem Luana faria o mesmo efeito. Já Luana sem a bunda, não. Quando começou a apresentação do palhaço Jurubeba, com suas rimas chulas e déjà vu, passei o meu talão de bingo para uma menina que estava do meu lado, disse adeus, e fui embora de volta a 1822, convicto de que, ao que parece, o povo brasileiro precisa de muito mais do que pão e circo.

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Por Mácleim Carneiro

DESAFINARAM O PIXINGUINHA

A janela do Projeto Pixinguinha não era para ser pulada nem tomada de assalto. Era apenas uma bela janela, por ser ela, ao mesmo tempo, sala que se iluminava em convidados e anfitriões.

Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha

O tempo não é linear! “A linearidade do tempo é uma invenção Ocidental”, de acordo com a saudosa Lina Bo Bardi. E, como tal, invenção não significa descoberta. Por isso, as lembranças são cristalinas, a sensação é a mesma. Lembro-me, como se fosse hoje, da alegria de ter sido selecionado para fazer a abertura de um dos shows do Projeto Pixinguinha, em 1986. Naquela época, a participação de artistas locais, quando da passagem das caravanas do Pixinguinha, chamava-se “janela”. E como era apropriado esse nome… Por ela, vislumbrei inúmeras possibilidades. Quase todas de foro íntimo, quase sempre validadas pelas percepções intuídas em mim, que careciam de uma janela para se mirar. E lá estava ela, aberta de fora para dentro e, principalmente, de dentro para fora. A janela do Projeto Pixinguinha não era para ser pulada nem tomada de assalto. Era apenas uma bela janela, por ser ela, ao mesmo tempo, sala que se iluminava em convidados e anfitriões.

Shows no Teatro Deodoro, sempre lotado, foram os meus primeiros contatos ao vivo, com artistas brasileiros e suas criações maravilhosas. Hoje, grande parcela deles é referência da musicalidade deste país, catapultados que foram pela criatividade, talento, conteúdo poético-musical e, por que não, pelo Projeto Pixinguinha. Desde 1977, com um hiato de 7 anos, a essência do Projeto Pixinguinha foi mostrar ao Brasil, ‘que não conhece o Brasil’, o seu genuíno e melhor produto tipo exportação. Em paralelo, e isso não pode ser dimensionado, fomentou em músicos, intérpretes e compositores, aquela imprescindível vontade e certeza, às vezes adormecidas, de que é possível sim, de que através do Projeto Pixinguinha as possibilidades de fato existiam. E o que era melhor: na contramão da mediocridade.

Workshop de Sonhos

Da minha primeira participação, como janela, até a caravana de 2006 (a última do Projeto Pixinguinha), com o grupo vocal Nós Quatro e o músico mineiro Ezequiel Lima, percebi claramente que só um projeto como o Pixinguinha era capaz de proporcionar a inversão dos papeis. Dessa vez, era eu quem provava ser possível. Como aconteceu em São Leopoldo (RS), por exemplo. Lá, após o show, fizemos um workshop. A Celinha Vaz, com o Nós Quatro, fez uma bela demonstração de como se constrói arranjos vocais maravilhosos. O Ezequiel deu uma aula sobre contrabaixo, seu instrumento. Eu, falei sobre minha trajetória, minha construção diária, tijolinho por tijolinho. E depois… Bem, depois, aconteceu um momento que traduz com clareza uma das façanhas do Projeto Pixinguinha. Dois jovens me disseram que seus pais viviam pegando no pé deles, por causa da música, e que eles estavam dispostos a largar tudo e abandonar seus sonhos. Porém, depois do que viram e ouviram, não iriam mais abrir mão do que queriam ser. Iriam ser músicos, sim senhor!

Desconstrução

No entanto, aconteceu a desconstrução de tudo isso. Desafiando a lógica, de onde menos se esperava sair algo inútil, inutilmente aconteceu. Custou-me crer que a mediocridade de rapina não tinha mais limites. Desconsiderando toda uma história de acertos, construída por muitos, avançou com a gula pegajosa da mesmice e tomou de assalto a Funarte. Em 2008, o edital do Projeto Pixinguinha teve tradução, com exatidão, no texto do Paulo César Feital, que transcrevo e partilho-o com você, pedindo permissão para fazer do que ele escreveu, a minha sincera e absoluta forma de protesto, sempre!

“Consternado, testemunho o assassinato com resquícios de crueldade do Projeto Pixinguinha. O corpo jaz abandonado no hall da Funarte, velado pelos próprios sicários. Em paga pela vergonha, oferecem dois CDs por estado e alguns “capilés”. É triste! É deprimente e melancólica a quase nula reação da classe musical do país. Salvo a matéria do Hermínio, no Globo, a crônica do Claudio Jorge no próprio blog e algumas reações isoladas, ouve-se em cada esquina a insatisfação de músicos, cantores e compositores, mas, nada que se efetive concretamente.
Os matadores, após desovarem o corpo, hipocritamente, ainda roubaram à identidade do morto e conservaram o nome do projeto na vergonha que inventaram.

Esse defunto ainda é Lázaro: pode ser ressuscitado!

É o momento de abandonar o silêncio.”

Se o grande Paulo César Feital afirmou que o defunto ProjetoPixinguinha ainda era Lázaro, esqueceu de um ponto crucial: no Brasil, Lázaros culturais não ressuscitam.

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Por Mácleim Carneiro

Cortinas para o futuro

Do foyer à coxia, do palco à plateia, do proscênio aos camarotes, a música dos alagoanos se fez presente.

 

Teatro Deodoro

 

Não é preciso ser oriental para apropriar-se de um profundo sentimento de respeito, carinho e admiração aos que atingiram a longevidade. Não, não é preciso! O tempo – e tudo que lhe é implícito – nos orienta ao rumo certo. Ao sermos capazes de acumular grãos de conhecimentos e transformá-los em sabedoria prenhe de passado, fortalecemos o presente como uma ampulheta, cujo espaço-tempo se refaz a cada inversão, materializando a lógica imperceptível à moldura do imaterial. Aos que ultrapassaram os umbrais dos séculos com altivez e dignidade, centenários de cenas que moldaram a história em tantas outras histórias e fragmentos devida, e aos que a eles se amalgamam através de infinitos atos e compassos, lhes rendemos homenagens! Pois foi assim que o Theatro Deodoro passou a pertencer ao seleto grupo de úteros longevos e férteis de novidades e inquietações. Não poderia ser diferente. Afinal, ele tem em seu frontispício o diretor do coro das musas, Apolo, permanentemente a nos dar boas-vindas.

Privilégio

Aos que povoam tal universo, e mesmo aos que o orbitam, o privilégio em tê-lo de portas abertas é real e incalculável. Cronologicamente, encontrei-o quando sua trajetória já me fazia percebê-lo como meta, sonho a ser alcançado, abrigo futuro, êxtase de uma longa jornada individual em busca da tão sonhada musculatura artística. Porém, humanamente, desde a primeira vez em que fui ungido pelo liquido sensorial desse útero de inquietações, hibrido por natureza, onde não repousa paradoxos, foi desnecessário ater-me às questões cognitivas, para intuir a importância do Theatro Deodoro na construção do nosso caráter artístico e cultural. Sobretudo, pelo o que me era evidente: sua imensa possibilidade em causar transformação em cada artista ou fruidor, posto que não se entra e se sai do Deodoro sem um novo valor agregado, algo que não tínhamos antes ou desconhecíamos ter.

Teatro Deodoro

Uma tarefa impossível seria a busca do distanciamento necessário à imparcialidade tão próxima da razão. Admito minha incapacidade em ser imparcial com o Theatro Deodoro. Assim, arisco-me à vulnerabilidade, como qualquer artista quando exposto à luz da ribalta. E como ser imparcial com algo tão gênese, tão quente e acolhedor, como suponho ser um útero? Antes, prefiro a noção do privilégio. De me supor um privilegiado! Portanto, extremamente grato, haja mérito ou não. O fato é que não é apenas o espelho dos camarins que me revela tal privilegio, ao me por de cara com a vocação e sina. É bem mais simples, embora múltiplo. Não tenho dúvidas; admito o privilégio porque tantas vezes experimentei sensações e emoções diversas que, até então, só o Theatro Deodoro poderia me proporcionar. Atuei nos bastidores, atuei como artista, e, principalmente, atuo como fruidor. São emoções diferentes, intensas e na proporção exata a cada atividade. Poder estar sob os prismas palco e plateia, luz e sombra, provocador e provocado, sempre sob o manto histórico que habita cada palmo do Theatro Deodoro, é realmente um privilégio.

Cordão Umbilical

Tantas e quantas histórias eu poderia contar aqui. Algumas, vividas por mim. Outras que resistiram ao tempo, através da mais antiga das tradições. Todas, no entanto, tendo como cenário os diversos encontros e desencontros no arcabouço pulsante do mais importante e significativo equipamento para expressão da cultura alagoana. Do foyer à coxia, do palco à plateia, do proscênio aos camarotes, a música dos alagoanos se fez presente. Na contagem: um dois três e…, que precede as canções, a música produzida em Alagoas encontrou ressonância pela caixa cênica da casa apolínea e projetou-se plateia a fora, até chegar aos corações. Histórias outras que antecedem às batidas de Molière, quando o teatro se prepara para a vida, também povoam o imaginário dionisíaco.

Não me interessa as incertezas do amanhã, pois sei que em qualquer época a estética singular da música alagoana, pela diversidade que lhe é peculiar, continuará a ser alimentada e fortalecida pelo grande útero apolíneo do Theatro Deodoro. As pessoas, o tempo, atuam e passam. Ele permanecerá. Em essência, não carecemos romper o cordão umbilical com a gênese. Então, que se abram as cortinas para o futuro.

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Por Mácleim Carneiro

Resenha publicada hoje, 21, na coluna “Depois do Play”, do jornal O DIA

NASCIMENTO NO XIRÊ
Apraz-me apreciar um trabalho, no qual é perceptível a realização conceitual. Em outras palavras, um trabalho artístico, sobretudo fonográfico, que foi pensado e gestado a partir de um conceito pré-definido. Gosto da ideia onde o conceito estabelece os parâmetros, de tal maneira que logo torna-se compreensível à primeira audição. ‘Força de Mulher’, segundo álbum da cantora e compositora alagoana Mel Nascimento, certamente, tem essas características bem evidentes. Embora, o ecletismo de ritmos e gêneros, que formata o repertório do álbum, possa parecer um tanto paradoxal. Porém, a questão conceitual vai além dessas peculiaridades. Até porque, como a própria Mel Nascimento já declarou, esse álbum é uma espécie de encadeamento do que ela vinha fazendo em seus projetos: “Sempre com três frentes em sua temática: a música autoral alagoana, a resistência negra e o empoderamento da mulher.”

Aos 13 anos, Mel Nascimento começou sua lida na seara da música, cantando em coros, como a Camerata Pró Música de Alagoas. Depois, enquanto conquistava o seu bacharelado em canto, foi vocalista de um grupo que teve uma trajetória bastante exitosa na cena aquariana, o grupo Malacada. Certamente, Mel Nascimento não é uma artista de queimar etapas e sabe da importância em criar musculatura musical, para que o desenvolvimento de sua arte não retroaja. Por isso, ela também atuou como backing vocal para vários artistas alagoanos, em gravações e shows. Assim, foi construindo sua trajetória, fazendo shows em nossa latitude e além fronteiras. Mel Nascimento impressiona pela forte postura cênica e potência vocal, cujo timbre intenso e singular está inteiramente ajustado ao repertório e ao discurso de suas inquietações musicais e sociais. Além disso, ela trafega em vários gêneros da música negra, que vão do samba ao funk, passando pelos ritmos de matizes africanas.

Evocação dos Orixás
‘Força de Mulher’ é um álbum bem representativo de todas essas potencialidades e características da artista alagoana, tendo como pano de fundo – que em vários momentos assume o protagonismo – o intenso discurso do empoderamento feminino e resistência das minorias pelas lutas sociais atávicas ao povo brasileiro! ‘Meu Zambelê’ (Toni Edson) abre o álbum batendo asas e voando com Juó e Macacauá, apresentando a tônica de toda negritude e força que permeiam esse trabalho. A começar pela introdução, nas convenções que se repetem várias vezes, como a avocar a atenção para algo que está para acontecer e requer foco. Expressões originárias do linguajar da nossa ancestralidade africana povoam a letra e nos reconecta com o que nos é embrionário, trazendo, à memória, palavras como: assuncê, supapo, aguacê, zambelê, saracuteia e encerrando com xirê, uma palavra iorubá, que significa roda ou dança utilizada para evocação dos Orixás. Portanto, nada mais apropriado para acender os trabalhos.

Sem dar fôlego ao ouvinte, ‘Força de Mulher’ (Arnaud Borges e Mel Nascimento), música que dá título ao álbum, tem em sua atmosfera rítmica um quê de calmaria, porém, como as que precedem tempestades, implícita na força dos atabaques e dos versos que dizem: “Luto com a força de Dandara / Com braços de mulher Quilombola / E trago na voz a luta / Que mostra minha força e minha cor.” Na sequência, ‘Meu Belo Mandacaru’ (Gustavo Gomes e Mirian Monte) põe os pés no Sertão nordestino e o arranjo na hibridez das distorções das guitarras, amalgamadas ao ritmo regional, numa globalização de gêneros tantas vezes experimentada por tantos. Embora estejamos abaixo da linha do equador e Cuba seja um pontinho acima dela, a salsa está bem ali, na faixa 4 ‘O Grito’ (May Honorato) e no dadivoso passeio em gêneros musicais, que esse trabalho proporciona!

Discursos Variados
Em ‘Negra Soul’ (Arielly Oliveira) chegamos à metade do repertório, composto de dez músicas. Para cada uma delas, praticamente, um compositor(a) diferente. Isso demonstra a diversidade e a coletividade desse trabalho, que, não por acaso, é fruto de um financiamento coletivo. É em ‘Negra Soul’ que o lugar de fala do empoderamento da mulher negra e sua ancestralidade se faz presente: “Minha cor, black do gueto soul / Sinta a África em ti, sinta a África em ti.” Aqui, o contrabaixista Misael Dantas, que assina a direção musical do álbum, firma sua participação como músico, num longo solo de contrabaixo, que termina em fad out. Daqui por diante, até chegar à última faixa do álbum, os discursos vão variando e também as preferências rítmicas, passando por uma grata surpresa em ‘Pagode de Canto de Parede’ (Telma Cesar), como se fora uma taieira estilizada, sem os tempos fortes do tambor, de letra inteligente e bem aos moldes da Telminha.

Diante de tantos lançamentos de músicas para boi dormir, pastéis de feira que não se sustentam em pé sem os modismos regurgitados, Força de Mulher, Mel Nascimento e o seu compromisso em reunir a maior quantidade possível de mulheres compositoras, revigora-nos a certeza de que a tal pós-modernidade oca jamais será hegemônica, e nos fiúza a convicção de que a fonte que gerou, por exemplo, Mestra Luiza Simões, Mestra Maria Benedita, Mestra Maria do Padeiro e Mestra Hilda não secará tão cedo! Ah, e para não parecer que eu sonegaria essa informação, esse álbum foi pré-selecionado para o Grammy Latino. Sinceramente, torço para o êxito nesse sentido, embora, soe para mim como o Oscar. Ou seja, não é sinônimo do que eu assistiria!

SERVIÇO
Força de Mulher, Mel Nascimento
Plataformas digitais: Spotfay, Deezer, YouTube, Apple Music, Amazon Music
Plataforma física: Em pencard, pelo fone 82 996141658
Preço: 30,00

Por Mácleim Carneiro

HISTÓRIAS EMBRIAGADAS

Zé Cachoeira e sua orquestra faziam ensaios fechados e secretos, feito os times pequenos fazem com seus treinos, para valorizar suas derrotas.

 

 

Particularmente, as histórias que vivi ou presenciei nos carnavais são sempre histórias embriagadas. Embriagadas não apenas de um saudosismo saudável, mas, embriagadas, literalmente, de porres que duravam os três dias do frege. Apenas uma vez tentei fechar as portas do meu parco espírito carnavalesco. Aí, a melancolia foi mais rápida, entrou por uma fresta e instalou-se confortavelmente em mim. Assim, por apenas uma vez e pra nunca mais, o meu carnaval foi melancólico o bastante para que eu não pudesse esquecer de mim.

Embora Recife e Olinda já tenham feito parte do meu roteiro carnavalesco, é dos carnavais em Murici, no ocaso da minha adolescência, que tenho as melhores e mais divertidas lembranças. Naquela época, havia os bailes durante as noites de Momo. Tinha os que aconteciam no clube da cidade, para a “sociedade muriciense”, mas tinha também os que eu nunca deixei de frequentar, no Farinheiro. Lá, havia a figura emblemática do Zé Cachoeira e sua orquestra, titular absoluto dos carnavaisno Farinheiro.

Zé Cachoeira

Pois bem, durante o ano inteiro, Zé Cachoeira e sua orquestra faziam ensaios fechados e secretos, feito os times pequenos fazem com seus treinos, para valorizar suas derrotas. Com exceção dos músicos, a única chance que tínhamos de ver Zé Cachoeira em ação era no carnaval do Farinheiro. Só para contextualizar, o Farinheiro, claro, era um imenso galpão onde se vendia farinha aos domingos, mas durante os dias de folia se transformava, com bandeirinhas e confetes pendurados na estrutura enferrujada do teto, no salão popular, onde o muriciense excluído, que não podia frequentar o Campo Grande Esporte Clube, fazia sua festa.

Eu não perdia uma noite no Farinheiro! E só arredava o pé depois da primeira facada no salão ou quando já não aquentava mais ouvir “Sapo não lava o pé / Não lava o pé porque não quer / Mora na beira da lagoa / Não lava o pé, não lava o pé, porque não quer.” É que, embora ensaiasse o ano inteiro, Zé Cachoeira só sabia essa marchinha. Quando muito, improvisava longas fermatas de surdo e tarol, com os foliões arrastando os pés em círculo pelo salão e, certamente como eu, esperando em vão por Vassourinha.

Por Eliana Sá Angelo

EL DIA QUE ME QUEIRAS

a Casa de Cultura Latino-Americana (CCLA), em 2019, vivia um dos seus melhores momentos. Salas cheias, a procura maior que a demanda, professores e alunos empolgados com as boas-novas do mercado.

 

 

Quem chega ao prédio da antiga reitoria, situado em frente à Praça Sinimbu, centro de Maceió, não percebe de imediato a claridade solar que ilumina o simpático e arborizado pátio interno. E mais: tal claridade se harmoniza em perfeita sintonia com o que acontece em seu entorno criativo, onde a música e o teatro convivem lado a lado com o ensino de possibilidades mais que lúdicas. Possibilidades que só o aprendizado de uma nova língua é capaz de oferecer. Nesse contexto, a Casa de Cultura Latino-Americana (CCLA), em 2019, vivia um dos seus melhores momentos. Salas cheias, a procura maior que a demanda, professores e alunos empolgados com as boas-novas do mercado. Principalmente, para quem optava pelo espanhol, como escolha de uma nova língua. Para quem não sabe, esta é a terceira língua mais falada no mundo. Hoje, 450 milhões de pessoas falam o espanhol como idioma nativo, só perdendo para o Mandarim Chinês.

Mas o que está por trás de tanta procura pela língua românica da Península Ibérica? As opiniões são várias, porém, convergentes. Para a professora de espanhol e, à época, coordenadora da CCLA, Eliane Barbosa, a maior percepção do significado do MERCOSUL e as reais possibilidades de trabalho na área do turismo, principalmente na rede hoteleira de Alagoas, eram os motivos mais que suficientes para o curso de espanhol ter tido um acréscimo considerável em sua procura. Cerca de 850 alunos estavam matriculados. Um contingente bastante heterogêneo, pela faixa etária, que ia dos 12 anos até a terceira idade e, também, pelas atividades individuais. Donas de casa, secundaristas, advogados, acadêmicos, professores do ensino médio, todos dispostos a chegar até o fim dos sete semestres necessários para obtenção do diploma.

Opiniões e Esperanças

O aluno de espanhol, e acadêmico de ciências biológicas, Carlos Correia, dizia que as viagens e os estudos foram os motivos principais que o impulsionou a escolher a língua espanhola. No entanto, algo interessante lhe chamou atenção, logo nas primeiras aulas. Para ele, caiu o mito, comum a quase todo brasileiro, de que falar espanhol é fácil, até mesmo pela proximidade com a língua portuguesa. “O espanhol tem uma história embutida, não é uma língua fria como o inglês”, observava ele. Já a professora de espanhol Delia Ortiz, que também era presidente da Associação dos Professores de Espanhol de Alagoas (APEAL), chamava atenção para um fato interessante: “O Estado de Alagoas não tem professores de espanhol suficientes. Há uma necessidade de se criar grupos específicos para suprir a demanda. Por certo, a oferta de trabalho irá atrair os estudantes de letras para o espanhol.”

Foi-se o tempo em que o idioma originário do norte da Espanha e, posteriormente, levado para as Américas, entre os séculos XV e XIX, dependia da expansão do Império Espanhol para crescer. Não queremos ser o México (que tem a maior população de falantes de espanhol), mas também não precisamos mutilar o español ou castellano, uma das seis línguas oficiais das Nações Unidas, como fez, certa vez, aquele alagoano ignóbil em sua ridícula expressão, “duela a quem duela”. Portanto, só depende de você. A Casa, certamente, estará de portas abertas.

No +,MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

Por Mácleim Carneiro

CIVÍLIZAÇÃO: ANTES TARDE DO QUE NUNCA

O palco italiano do Deodoro se encaixou como uma luva justíssima, é bem verdade, para as quatro famílias de instrumentos e o seu polegar condutor, Luiz Martins.

 

Irina Costa. Fonte: Divulgação

 

Coube a mim, enquanto crítico para o jornal Gazeta de Alagoas, assistir ao show “Orquestra é o Maior Barato’, que marcou a estreia e a criação da Orquestra Filarmónica de Alagoas, Ofal.

O palco italiano do Deodoro se encaixou como uma luva justíssima, é bem verdade, para as quatro famílias de instrumentos e o seu polegar condutor, Luiz Martins.

Desde a sua origem histórica, as orquestras filarmônicas nasciam como associações musicais formadas por apaixonados pela música e que não precisavam, necessariamente, ser músicos profissionais.

A coisa mudou e na atualidade uma orquestra filarmônica equivale à uma orquestra sinfônica. O que as diferencia é o aspecto burocrático de suas constituições institucionais e a quantidade de componentes.

Ou seja, se denominou sinfônicas as orquestras mantidas por instituições públicas, e filarmônicas as subsidiadas por instituições privadas, filantrópicas.

E é aí que entra o valor e a bravura intrínsecos à criação da Ofal. Seus músicos, ou pelo menos a grande maioria deles, criaram uma cooperativa e trabalham em regime cooperativista.

Aos que ainda não aderiram, fica o apelo, até mesmo pelo ponto de vista civilizatório e seus aspectos peculiares à vida intelectual, artística e material de uma sociedade ou grupo de pessoas que, heroicamente, estão capinando uma vereda evolutiva a ser desbravada na aridez do nosso aquário.

Enfim, foi um concerto histórico para o processo civilizatório do povo alagoano. Que as atividades da Ofal retornem muito em breve.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!🎶🎶🎶

Por Mácleim Carneiro

DEPOIS DO CARNAVAL (Parte II)

E assim foi feito e assim o show aconteceu. Sem dúvida, acho que essa foi uma forma inusitada, uma maneira insólita de o próprio artista pagar para fazer o seu show.

 

Continuando o post anterior, sem maiores delongas, voltemos ao causo que se assucedeu, antes do show no Jofre Soares. Ocorre que estávamos bem tranquilos e animados no camarim, minutos antes da hora marcada para o início do show, quando, com uma expressão de tristeza e até de dó, o meu querido amigo-irmão Felix Baigon – à época funcionário do SESC – veio nos comunicar que o show não poderia mais acontecer. Tomados de assalto, pela surpresa inesperada, ficamos por alguns segundos sem ação, boquiabertos pelo inusitado. Saindo do torpor insólito e momentâneo, eu quis saber o motivo da impossibilidade, até então completamente improvável e impensável. Foi então que o Baigon nos explicou que, de acordo com o regimento do SESC, para que um espetáculo com bilheteria acontecesse no Jofre Soares, seria necessário que o mínimo de 10% dos ingressos disponíveis tivesse sido vendido. Explicou, ainda, que a capacidade do Jofre Soares era de 120 lugares e que, portanto, 10% seriam doze ingressos, e até aquele momento, faltando minutos para o início do show, só haviam sido vendidos oito.

Para ser sincero, a princípio eu não acreditei no que estava acontecendo, parecia algo surreal, a queda da Alice ao fundo do poço, um soco no estômago, daqueles que deixam a gente sem ar. Já recuperado, graças ao espírito apolíneo que sempre nos socorre, imediatamente, eu disse: tudo bem, eu compro os quatro ingressos que faltam para atingir a cota mínima. E assim foi feito e assim o show aconteceu. Sem dúvida, acho que essa foi uma forma inusitada, uma maneira insólita de o próprio artista pagar para fazer o seu show. No entanto, mal sabia eu que esse seria também o combustível incandescente, que abasteceria o nosso orgulho a partir daquele momento e durante toda a nossa turnê pela Europa.

Fizemos o show para as oito pessoas com o mesmo ímpeto, com a mesma garra e respeito, como se estivéssemos tocando para o teatro lotado, ou uma massa receptiva em praça pública. A partir dali, criamos um grito de guerra que daríamos antes de cada show da turnê europeia. Reuníamo-nos em círculo, como fazem os jogadores de futebol, e gritávamos em uníssono: “Aqui pra Maceió!” Sim, claro, acompanhado do gestual respectivo. Mas não passava de um desabafo, uma vingança boba, pelo fato de o público do aquário ter ignorado a nossa ‘despedida’.

Foi no SESC Centro, após esse episódio, que também caiu a ficha de que nem sempre cabe ao artista a responsabilidade direta ou o ônus pela falta de público nos espetáculos. Como sempre, e no caso citado foi assim, tínhamos feito como manda o figurino: divulgação em todas as mídias, entrevistas em programas de rádio e TV, boca a boca e etc. Então, onde estaria o nó da questão? Bem, esse é um longo assunto que não cabe aqui nem agora. Apenas citei, porque ficou como um dos resultados práticos daquela noite inesquecível.

Enfim, este foi só um dos vários episódios que vivenciei na Instituição SESC Centro, que tanto contribuiu para a minha busca do crescimento e aprimoramento pessoal e artístico. Torço para que os deuses apolíneos continuem a fortalecê-la, como fomentadora da cultura produzida em nossa latitude, capaz de gerar consciência crítica e, sobretudo, estimular jovens que, como eu era, tenham a oportunidade de criar musculatura artística e alimentar a alma em suas dependências físicas, além de vislumbrar novas perspectivas e oportunidades, por meio dos projetos culturais e do corpo técnico dessa querida Instituição. Que daqui a mais vinte anos tenhamos novas histórias para contar, tendo o SESC Centro como referência histórica e emocionada da contínua formação cultural do nosso povo.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

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Por Mácleim Carneiro

DEPOIS DO CARNAVAL (Parte I)

Creio que muito e muitos teriam se perdido pelo caminho se não fosse a Instituição SESC, alimentando a chama criativa dos nossos artistas.

 

Sesc Centro, em Maceió

Quando o Guilherme Ramos, gentilmente, me pediu para escrever as minhas memórias sobre o SESC Centro, que completaria 20 anos de bons serviços prestados, de imediato pensei que não seria tarefa tão difícil assim. Afinal, ao cabo dos anos 90, muito do que realizei musicalmente teve o SESC Centro como casa acolhedora, notadamente o Teatro Jofre Soares, onde fiz alguns shows e até a gravação do álbum ‘Ao Vivo e Aos Outros’. Além, claro, de ter alimentado minh’alma por diversas vezes, como plateia e fruidor de bons espetáculos ali apresentados.

Nesse sentido, ressalte-se que a Instituição SESC, de maneira geral, cumpriu uma tarefa essencial para manter viva e ativa a produção cultural aquariana, pois eram tempos difíceis, com a nossa principal casa de espetáculos, Teatro Deodoro, fechada para reformas, que se estenderam por intermináveis anos. Ainda não tínhamos o Centro de Convenções e, portanto, não existia o Teatro Gustavo Leite. O SESC supriu essa lacuna com inúmeros projetos e uma equipe técnica criativa e abnegada ao fazer cultural. Creio que muito e muitos teriam se perdido pelo caminho se não fosse a Instituição SESC, alimentando a chama criativa dos nossos artistas. Sobretudo, em um momento tão crítico e nebuloso, pelo ponto de vista das hostes governamentais.

Apesar da inoperância dos órgãos oficiais de fomento à cultura, mesmo assim, foi um tempo bom e efervescente, pois era o tempo dos inesquecíveis Festivais de Música do SESC, o saudoso FEMUSESC, alento de talentos que tinham ali uma verdadeira chance para o exercício do que propunham fazer e dar vida. Minha gratidão à Instituição é imensurável e eterna! Tive a honra e a glória de vencer dois dos festivais (o primeiro e o terceiro), em noites memoráveis no Jofre Soares, com canções que depois foram levadas à mostra de Maringá, como consequência do resultado do Festival e que, agora, estão armazenadas em discos lançados pelo SESC Centro e são registros de uma época e da memória musical do que estava sendo produzido em nossa latitude. Aliás, os discos são mais uma contribuição do SESC Centro aos artistas da cena local e à sociedade em geral. Especialmente, como apontamento material da criativa diversidade musical contemporânea, que alimentava tanto aos festivais como, posteriormente, às mostras de música do SESC.

Além das minhas participações nos festivais, fiz alguns shows no Teatro Jofre Soares. Um deles, o show ‘Depois do Carnaval’, gerou um disco gravado ao vivo, que acabou se tornando o álbum Ao Vivo e Aos Outros. Porém, um show em especial eu não esquecerei jamais. Sua história é muito peculiar e, talvez, única. Dessas que ficam no anedotário para a posteridade e volta e meia, aqui-acolá, a gente relembra nos momentos em que os causos estão em pauta numa roda de amigos. Entendo que o ocorrido é pertinente a este escrito, porque não foi um caso isolado, que diria respeito só a mim ou a banda que me acompanhava. Eu não teria o que contar se o fato não tivesse acontecido com uma participação tripartite, digamos assim. Primeiro, a minha, como sujeito da questão. Depois, o púbico, como protagonista direta e indiretamente. Por fim, a própria Instituição SESC Centro, por fazer cumprir o seu regulamento de maneira imparcial e assertiva.

Hoje, com o natural distanciamento cronológico, que o tempo proporciona, o ocorrido tem até o seu lado cômico. Contudo, no calor dos acontecimentos, foi um tanto dramático, porém, solucionado da melhor maneira que eu poderia conceber, sem maiores prejuízos para ninguém, a não ser ao meu parco capital financeiro que, diga-se de passagem, nem o tempo consegue transformar para melhor. O fato é que era um sábado, nos idos de 1998, e tínhamos um show para ser realizado no Tetro Jofre Soares. Seria uma espécie de despedida, pois no dia seguinte estaríamos embarcando para Europa, em uma turnê de quarenta e cindo dias e vinte e nove shows. Estávamos afiados e no afã de apresentar ao público do aquário o mesmíssimo show que faríamos em nossa turnê pelo velho continente. Pois bem, todos os músicos da banda maravilhosa, assim como eu, estávamos empolgados para a primeira viagem internacional. Não posso citar a banda sem deixar de nomear, com um prazer imenso e gratidão infinita, os músicos que acreditaram na nossa proposta e estavam comigo e hoje são testemunhas dos fatos que relembro agora. Alcântara (Trompete), Carlos Ezequiel (bateria), Everaldo Borges (sax e flauta), Ronalso Cirino (percussão), Norberto Vinhas (guitarras) e Van Silva (contrabaixo) formavam um time de talentosos músicos, que me proporcionavam aquele conforto especial e a segurança necessária ao bom desempenho da função.

*Continua no próximo post

No +,MÚSICABOA EM SUA VIDA!!!

 

Por Mácleim Carneiro

Tempos Modernos

Tudo não passou de uma reles cópia do conceito já utilizado nas partituras de John Cage

 

Cena 1: Festival de Cinema de Penedo

O público começa a chegar. Terá início a avant-première do filme que, a partir dessa sessão, estará em cartaz nos melhores cinemas do ramo. Aparentemente heterogêneos, os cinéfilos merecem sim, sob o ponto de vista coletivo, o rótulo de ‘público cabeça’, cujo destaque vai para a individualidade excêntrica de cada expectador.

Cena 2: Nouvelle Vague Caeté

Começa o filme. Toca mais um celular. Espirros, tosses, pipocas ruidosas em bocas ávidas, tudo dentro da normalidade de uma sessão que se convencionou chamar de cinema de arte. Créditos na tela, trilha sonora apoderando-se do sistema sound round, personagens sendo apresentados em movimentos frenéticos da câmera estilosa do diretor. Lentamente, a atenção do público vai sendo capturada e, lá pelos vinte minutos de projeção, já não se ouve mais o barulhinho irritante dos sacos de pipoca sendo assediados por mãos gulosas. Talvez, os sacos já estejam vazios e descartados ou o filme finalmente conseguiu alimentar outros sentidos lúdicos/gustativos.

Cena 3: Choque

A exibição é interrompida abruptamente, com um corte seco de imagem e som. Aliás, mais do que seco, o corte foi sertânico, satânico, enfim… A tela ficou cega e muda. Por quase três minutos não se via nem se escutava absolutamente nada, a não ser um chiado intermitente, com pequenas e bruscas variações de frequência.

Cena 4: Suspense

Plateia passivamente calada e absorvida pela visão do nada, projetado na tela. Ligados no que não acontecia ou no que poderia acontecer, os cinéfilos, como que paralisados, vêm, ou melhor, apenas sentem os minutos passarem à revelia dos seus cérebros que, na condição pouco reveladora da sala escura, sabe-se lá o que pensavam.

Cena 5: Blá Blá Blá

Fim da sessão e burburinhos à saída do cinema. Comentários da plateia dividida em opiniões e expressões gestuais. Uns, procuram justificar uma modernidade forçada. Outros, estão perdidos entre a realidade e a fantasia, na procura da originalidade, o que provoca opiniões nonsense. Um senhor de barbicha, afaga-a dramaticamente e sentencia: “A anticontextual e pouco ortodoxa ideia do diretor, em expor nosso livre pensamento, propondo uma interação factual com o filme, durante a predominância do vazio, foi um avanço para a sétima arte caeté. Daqui por diante, a exemplo do cinema-novo, o cinema alagoano terá, definitivamente, o seu lugar no pódio das vanguardas pós-modernas”. De imediato, foi contestado pelo amigo: “Bobagem, tudo não passou de uma reles cópia do conceito já utilizado nas partituras de John Cage.” Enquanto isso, a mocinha moderninha e descolada desiste de procurar alguma coisa no mochilão e esclarece para a ‘thurma’: “Demorou mermão, foi chocante, tá ligado? Hiper irado e totalmente conceitual a ausência de imagem e som, tá ligado? Se liga aí, quebrou o barato da cena anterior, careta e entediante.”

Cena 6: Final(mente)

Cinema vazio. Copos de refrigerante e sacos de pipoca abandonados, secos, murchos, esquecidos, prontos para a reciclagem. Corta a cena para a sala de projeção e o técnico, meio que injuriado e resignado, comenta com olanterninha: “Assim não dá, pô! Já falei, se não concertarem logo a porcaria desse projetô (sic), daqui pra frente vai ser sempre essa merma fulerage (sic). Ainda bem que essa galera ficou pianinho e eu não acendi a luz”. Dito isso, deu um chute na velha maquina, pegou a revista Playboy de sempre, apagou a luz da cabine e foi embora.

No +,MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

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Por Mácleim Carneiro

SOLANGE E A AVENIDA

O jogo já não era lúdico, era uma roleta russa

 

 

Ela pareceu-me apreensiva e altamente fugaz. Nervosamente, esgueirava-se ao rés do chão, rente ao pé do muro, com passos curtíssimos, mas suficientes para estar sempre adiante de mim. Não foi minha intenção aparecer em sua vida, muito menos nesta bela manhã de sol do segundo dia do mês de novembro. De repente, lá estava eu, como coadjuvante de um epílogo nunca ensaiado. Nem ela nem eu nos esperávamos. Nem ela nem eu nos pretendíamos. Nem eu nem ela iríamos supor qualquer fim. Eu não tinha, não queria e nem pedi esse direito.

O que por curto tempo pareceu um jogo lúdico, uma brincadeira – como alguém que jamais alcança a própria sombra –, subitamente foi interrompido por ela. Talvez, sei lá, tenha achado que, de tão desproporcional era a minha presença, fugir aos poucos não seria mesmo a eterna solução. Talvez, por isso, me acenasse repetidas vezes tantos nãos. O fato é que, surpreendentemente, ela resolveu dar um fim ao nosso flerte e, num movimento inesperado, apartou-se da segurança ao pé do muro, cruzou a calçada e decidiu atravessar a avenida mais movimentada do Aquário.


Roleta Russa

Eu jamais teria a coragem e ousadia dela. Foram momentos de tensão. Pensei em filmar aquela cena, não tinha como. Pensei em gritar, não tinha porquê. Ajudá-la, não daria tempo. Os automóveis passavam velozes e insensíveis ao nosso drama. Torcer, torcer, apenas torcer, para que a travessia insana desse certo, era o que me restava ao devir. Foram segundos em que tudo parou. A exceção dos carros e dela!

A larga avenida tem três faixas de rolamento. O jogo já não era lúdico, era uma roleta russa. Para minha surpresa, o que parecia impossível estava acontecendo. Mais uma vez, rápida e com passos curtíssimos, ela avançou decidida. Acabara de se livrar do primeiro automóvel – acho que por um golpe de sorte – e alcançara a segunda faixa de rolamento quando, bruscamente, parou. Como se fora um toureiro, por um triz, livrou-se do segundo, do terceiro e do quarto automóvel. Ela jamais saberá que naquele momento ilustrou um paradoxo pertinente à vida; ao que passa e permanece.

 


Terceira Faixa

Eu, embora paralisado, percebi que começava a sorrir de alegria, pois ela dava um show de agilidade e suspense. Sim, agora eu tinha certeza: ela iria completar a travessia. Chegaria ao canteiro central e seria bem capaz de olhar mais uma vez para mim, nem que fosse só para mais um aceno de nãos. Acho até que ela também pensou a mesma coisa que eu. Só não sabia que a Avenida não perdoa, nunca daria a chance de pensar durante o ato de sua travessia. Antes, talvez. Depois, só com a sorte dos sobreviventes. O fato é que ainda restava a terceira faixa a ser vencida, portanto, mais uma oportunidade para a avenida insensível. Foi o que bastou!

Todos nós teremos nosso dia de finado. Por ironia, o segundo dia do mês de novembro foi o de uma lagartixa ousada e tola, que largou o pé do muro e, num exibicionismo fatal, definiu seu tempo. No entanto, muito mais que o feriado nacional, foi ela quem me fez refletir sobre o inexorável. Sei lá, acho que nome dela era Solange.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

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Por Mácleim Carneiro

TRATO CUMPRIDO

Mesmo que parecesse ser tarde demais, não o era para mim

O poeta Gonzaga Leão

Quando tive a ideia de musicar poetas alagoanos, eu não sabia quase nada sobre a poesia caeté e seus autores. Com exceção dos ícones e de alguns poetas amigos e próximos, encontrava-me diante de um oceano de possibilidades, porém, como um navegador inexperiente numa boca de barra, que precisa saber o ponto certo para apontar a proa do barco e atravessar sem correr o risco de naufragar, antes de alcançar o mar. Diante da minha limitação, que impossibilitaria chegar aonde cheguei com o ‘Esses Poetas’, por sorte, tive a cautela dos que têm a apreensão da responsabilidade inerente ao manejo de algo tão intenso, delicado e precioso como são a poesia alheia e o mar. Assim, socorri-me da compreensão e generosidade de dois amigos e grandes poetas, Sidney Wanderley e Otávio Cabral, que me prestaram uma espécie de consultoria e foram quadrantes, astrolábios precisos, na aventura mar adentro da poesia alagoana!

Foi assim que fui apresentado à obra do grande Gonzaga Leão, cada vez mais querido em mim! Lembro-me, também, que o conheci pessoalmente de forma casual, na Iluminuras – uma agradável aventura empresarial do meu querido poeta viçosense! Para minha felicidade, logo soube que Gonzaga e eu dividíamos a beira do mesmo rio, o Mundaú, e só não éramos vizinhos fronteiriços, porque Branquinha, município equidistante entre Murici e União dos Palmares, delimitava, ao norte, o mestre com toda a tradição poética de sua terra natal, e, ao sul, um propositor sem tradição nenhuma, todavia afoito o suficiente para, humildemente, ousar despertar a música contida na poesia maravilhosa de um poeta maior.

Anjo Corré

De posse do delicioso e precioso ‘Casa Somente Canto Casa Somente Palavra’, além de alguns poemas inéditos, que o Sidney Wanderley me emprestou, nunca me pareceu tão justa a metáfora “um oceano de possibilidades”, bem como nunca foi tão cruel e difícil o processo da escolha. Li, reli, treli tudo até optar por Ao Meu Anjo da Guarda, que me fisgou pelos versos: “Só volta de madrugada / Asas debaixo dos braços / Cheirando a puta e a cachaça”. À época, era um soneto inédito, que só foi lançado no último livro do poeta, ‘Tijolo sobre tijolo, palavra sobre palavra’, coincidentemente, em 2012, mesmo ano do lançamento do álbum ‘Esses Poetas’. Até então, eu não fazia a menor ideia do que esse anjo torto, generoso e cúmplice, iria me proporcionar musicalmente e, posteriormente, toda felicidade e emoção que me ofertaria, já em conluio dadivoso com esse mero propositor. Assim, nasceu uma bossa matreira, com a malemolência de um anjo comparte e corré, além, claro, da minha honrosa parceria com o querido e saudoso mestre Gonzaga Leão.

Gonzaga Leão

O tempo passou e não tive mais nenhum contato presencial com o poeta, apenas por telefone, durante a fase de liberação dos poemas para a gravação do ‘Esses Poetas’. Porém, mesmo por telefone, sempre foram momentos de extrema gentileza e profunda generosidade dele, sobre tudo, ao dar o seu aval para a nossa parceria, demonstrando um sincero consentimento de felicidade e aprovação, após ouvir a gravação de Ao Meu Anjo da Guarda. Mas o poeta e seu anjo ainda me reservavam um momento de extrema emoção e, dessa vez, ao vivo e em cores.

Emoções na Ribalta

Quando do lançamento do ‘Esses Poetas’, no Teatro Deodoro, fiquei sabendo, por meio da minha querida conterrânea Edilma Bomfim, que o poeta se encontrava bastante debilitado e, certamente, não poderia comparecer ao show de lançamento. No entanto, prestes a entrar no palco, fui informado que ele estava na plateia e que fizera o sacrifício de se fazer presente ao lançamento do álbum, que sequer ele havia recebido ainda, pois embora tivéssemos marcado algumas vezes para a entrega, até a sua morte isso nunca aconteceu! Lembro-me, nitidamente, que fiquei bastante emocionado ao saber do seu comparecimento e tamanha deferência e generosidade para comigo. Então, após apresentar Ao Meu Anjo da Guarda, com a participação mais que especial da minha diva Leureny Barbosa, pedi que a luz de plateia fosse acesa, para que o público e eu visualizássemos o poeta e pudéssemos aplaudi-lo e agradecê-lo pela honrosa presença e pelo tanto da sua obra ali ofertada.

Mas a história não acaba aqui! Continuamos a marcar encontros, que nunca aconteceram, para que eu pudesse lhe entregar o ‘Esses Poetas’, devidamente autografado. Até que, seis anos após o lançamento do álbum e da minha emoção no Teatro Deodoro, outros sentimentos se fizeram em mim, também de maneira marcante. Dessa vez, postumamente! Mesmo que parecesse ser tarde demais, não o era para mim! Foi quando, finalmente, reencontrei o poeta pela última vez, placidamente adormecido e cercado de suas poesias, sonetos e pessoas que lhes foram queridas em vida. Sim, eu estava no velório do Poeta Luiz Gonzaga Leão, para minha última homenagem particular, sincera e silenciosa. Enfim, pude cumprir o nosso trato tantas vezes combinado. Entreguei o ‘Esses Poetas’ à sua companheira, absolutamente convicto de que o poeta se tornara imortal!

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Por Mácleim Carneiro

180 GRAUS

Um cheiro insuportável de fezes, que lembrava uma pocilga ou o que tem na cabeça de alguns produtores

Lembro-me que nas vezes em que participei do Montreux Jazz Festival Off, percebi que a mesma estrutura de som, que havia nas salas principais do festival, também era disponibilizada para os palcos onde aconteciam os shows do Montreux Off. Ou seja, artistas de menor expressão tinham, no palco e no back stage, as mesmas condições técnicas que as estrelas do festival.

Corta! Voltemos à nossa dura e cruel realidade.

Recordo-me, também, que numa sexta-feira, 31 de março, do ano de 2006 do calendário cristão, um dia antes do primeiro de abril, ou seja, ainda não era o dia da mentira, os artistas que faziam o show Alagoas de Corpo e Alma foram convocados para uma apresentação na Praça dos Martírios. Aliás, nome mais que apropriado ao que lá aconteceu.

Diferenças Perniciosas

Nos foi dito que faríamos a abertura da noite para o carioca Jorge Aragão. Até aí tudo bem. Chegando lá, no horário combinado, descobri que havia dois palcos (o que já era estranho) com enormes diferenças entre eles. Diferenças gritantes, que iam muito além da música que foi apresentada em ambos. Ao menos, para mim, ficou evidente a diferença maldosa, resultante da conceituação de valores errôneos, que ainda se repetem hoje em dia, e que são estabelecidos no trato ao artista de fora em detrimento ao artista local.


Um palco ficava de frente para o outro. Um, a zombar do outro! Um, de tão despreparado, chegava a ser desrespeitoso com quem fosse utilizá-lo. O outro, era imponente, tinha camarim e era equipado com toda estrutura para o bom desempenho de qualquer artista. Chegava a ser pernicioso vê-lo, lá, intocável, literalmente intocável, para os pobres artistas locais. Fiquei imaginando o que se passava na cabeça tosca desses produtores a serviço da gestão pública. Que tipo de indelicadeza e insensibilidade permite que artistas como Nelson da Rabeca, Tororó do Rojão (de saudosa memória), Leureny, Wilma Miranda, só para citar alguns, com uma longa lista de serviços prestados à cultura de Alagoas, não merecessem sequer um camarim e ficassem ao relento, expostos ao público, antes de suas apresentações, sentados em uma arquibancada suja, num local infecto, com um cheiro insuportável de fezes, que lembrava uma pocilga ou o que tem na cabeça daqueles tais produtores?

Mico Pela Última Vez

Enquanto isso, no outro palco, um enorme camarim irretocável e intocável, certamente, com todo o conforto necessário para qualquer artista se sentir respeitado. Como se não bastasse tanta humilhação pública, as condições técnicas do nosso palco eram surreais. Por exemplo, eu já estive em festinhas de aniversário de crianças, onde a iluminação era mil vezes melhor do que a que tínhamos naquele palco.

É fato que o público alagoano tem uma resistência natural aos artistas locais, coisas do umbigo, historicamente explicável, atávica e etc, etc, etc… Porém, o fato é que essa situação foi reforçada, naquela noite, e num raio de apenas 50 metros, a exata distância entre um palco e outro. Afinal, era perfeitamente lógico que o público fizesse uma comparação imediata entre a penúria dos pobres artistas locais em contraponto ao palco do artista de fora. Para tanto, bastava apenas uma rotação de 180 graus. De um lado, à visão do desrespeito, da ignorância e da nossa submissão. Do outro, tudo perfeito, tudo como deve ser, com a dignidade necessária para que qualquer artista brasileiro pudesse trabalhar. Daí, imagino qual deve ter sido a conclusão e avaliação do público, ao comparar o nosso show ao show do Jorge Aragão…

Sim, à época, admiti minha culpa. Estive lá e, mais uma vez, resolvi cumprir com a palavra empenhada. Fiz a minha parte! Porém, prometi a mim mesmo que pagaria aquele mico pela última vez.

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Por Mácleim Carneiro

A Dimensão de uma Gota

Gosto da metáfora da água, como instrumento de transformação

 

 

O mundo contemporâneo, sobretudo nos tempos atuais, com essa catástrofe epidêmica que se abateu indiscriminadamente, mas de efeitos socialmente relativados, parece retroceder ao descuidar dos valores básicos ao bem-estar da humanidade. Assim, o carinho deixa de ser importante e a solidariedade não se faz frequente. A fraternidade parece coisa do passado e o amor ao próximo torna-se quase um desconhecido da era moderna. De tal forma que a paz entre os povos e entre nós parece ser sempre ameaçada e frágil, quando deveria ser um agasalho protetor.

Se perdermos o olhar atento aos sentimentos puros de sublimação espiritual, então, para onde caminhar e o que fazer para que a nossa consciência e particularidade imaterial contribuam e tenham o efeito borboleta que sabemos ser, para projetarmos a partir de nós, da nossa paz interior, uma paz planetária?

Gosto da metáfora da água, como instrumento de transformação, pois a água fertiliza, lava, leva e purifica. É espelho e também contemplação. Reflete e propaga nossa imagem e pensamentos e não se deixa aprisionar pelas mãos nuas. Tem volume, quando carece de força; tem leveza, quando é banhar. Façamos, pois, como as águas livres de represas, que chegam à imensidão do mar em comunhão com o universo. Cada gota é imprescindível e tem uma força imensa de transformação, posto que unidas pelo mesmo propósito criam outra dimensão.

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Por Mácleim Carneiro

Colcha de Retalhos

Temos uma juventude talentosa e ávida de conhecimento musical

 

 

 

 

 

Certa vez, escrevi uma espécie de balanço sobre a cena musical alagoana, que foi publicado em 2003, no Caderno de Debates do Conselho de Comunicação N.02. Relendo o escrito percebi que, apesar de passado tanto tempo, a cena aquariana mudou pouco ou quase nada. Continua correndo atrás do próprio rabo, num moto-contínuo circular, que nos coloca uma hora com um pé na lama ancestral, outra hora com os dois pés no limo de sempre, que ceva o velho conceito da corda de caranguejos alagoanos, soltos ao pé da escada.

Resolvi começar o escrito fazendo uma analogia: Imagine um trem com vários vagões, cada um com a sua característica, sonoridade e criatividade próprias. No entanto, esse trem tem circulado em uma espécie de ferrorama, que o leva do nada a lugar nenhum. Eis a visão pessimista da macroestrutura na qual se encontra aprisionada a música contemporânea produzida em Alagoas. Porém, se tivermos (agora já com uma visão mais otimista) como perspectiva a noção de que cada um desses vagões é uma célula particular, e que a qualquer momento poderá se desvencilhar do maquinista e seguir outra trajetória, então, temos pontos positivos a ressaltar, com alguns avanços individuais, mas que pouco ou nada contribuem para o coletivo.

Mercado Pueril

A cena da música alagoana tem sido uma verdadeira colcha de retalhos, feita de alguns acertos e tantos outros desacertos. Música sempre foi, e nos tempos atuais mais ainda, um produto segmentado. Não podemos, para uma melhor compreensão, chegar aos detalhes que formam o todo sem nos determos em alguns pilares básicos dessa complexa estrutura. Então, tomemos como primeira referência os compositores. Afinal, é deles que sai a matéria-prima.

A realidade do pueril mercado alagoano, infelizmente, obriga a grande maioria dos compositores a dependerem de atividades paralelas, para que possam sobreviver financeiramente. São advogados, professores, jornalistas, funcionários públicos, militares, e etc. O paradoxo dessa situação está exatamente no fato de que, na medida em que alguns resolvem não desperdiçar seus talentos, ótimos discos foram lançados no decorrer do tempo. A diversidade destes lançamentos é tão ampla, que vai desde álbuns de proposta totalmente regional e comercial, passando pelo samba, rock, pop, até chegar ao canto coral e ao gospel.

A rapaziada jovem agrupa-se em tribos diferentes e criam bandas e produzem EPs numa quantidade inversamente proporcional à qualidade musical, com algumas exceções, é claro. Os talentosos, certamente, irão permanecer no ofício, chegando até às raízes da nossa cultura musical, para estabelecer uma linguagem que poderíamos chamar de ‘som alagoano’. Temos alguns bons exemplos de bandas que já demonstraram ter o entendimento de que somos um povo de muita musicalidade e, acima de tudo, somos capazes de propor e não simplesmente mimetizar.

 

 

 

 

Cobertor Curto

O fato é que a produção dos nossos artistas tem sido importante para gerar um mercado, ainda que pueril, mas que vinha se expandindo e se profissionalizando a cada disco gravado, a cada show, abrindo novas oportunidades para a contratação de músicos, técnicos de som e luz, artistas gráficos e produtores que, certamente, será reativado após essa pandemia nos dar uma trégua definitiva. Alagoas já dispõe de pelo menos dois bons estúdios de gravação, cuja qualidade técnica é compatível com o que se produz no mercado nacional. Então, o que falta? Simples: falta o escoamento de toda essa fértil produção.

Bem, em rápidas pinceladas, pudemos ver que a música popular tem tido pano para as mangas, mesmo remando contra a maré, mesmo sendo seus artistas tratados com uma desatenção discriminatória, com raríssimas exceções, é claro. Não obstante, e os outros segmentos? O que dizer da música erudita e do folclore (aqui compreendido como o conjunto de manifestações da cultura popular), por exemplo? Somos, talvez, o único Estado do Nordeste que, vergonhosamente, não tem um conservatório de música, apesar de termos uma juventude talentosa e ávida de conhecimento musical. Somos, talvez, um dos poucos Estados do Nordeste que não tem uma Orquestra Sinfônica da qual possamos nos orgulhar. E somos, com certeza, o único Estado que não valoriza na medida exata, com o devido respeito, os nossos verdadeiros artistas da cultura popular, nossos mestres e mestras do folclore alagoano. Se todo balanço tem que apresentar um resultado, então, o da música contemporânea alagoana é este: como cobertor; essa colcha de retalhos é curta demais.

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Por Mácleim Carneiro

Atos e Trilhas

Em qualquer expressão artística híbrida, cada elemento não é uno e sim parte do todo

 

 

 

Foi pelos bastidores que saí da condição privilegiada de fruidor e profissionalmente o teatro amalgamou-se em minha vida. Precisamente, no Teatro Vanucci, Rio de Janeiro, no final dos anos 80. Fui conduzido pelo mestre Antônio Adolfo, que me convidou para trabalhar como sonoplasta do musical infantil “Passa Passa Passará”, com músicas dele e texto da Ana, sua esposa. Naquela época, eu não poderia supor, nem tinha a menor noção, que a partir dali o teatro iria exercer uma significativa importância em minha parca verve criativa e, sobretudo, em minha trajetória profissional. Foi um encontro feliz e inesperado! Fiz toda a temporada do musical e depois continuei como sonoplasta do Teatro Vanucci, em várias montagens que por lá passaram.

De volta ao aquário, os deuses da ribalta, através dos discípulos de Linda Mascarenhas, sob a sigla ATA (Associação Teatral das Alagoas), me proporcionaram o que seria de fato a experiência mais fantástica e inesquecível, só possível pelo contato direto com a essência da nobre arte: a interpretação. De quebra, antes do início de cada espetáculo, pude entender o significado das batidas de Molière. Ao lado de atores talentosos, pacientes, generosos e consagrados na cena alagoana, ousei, morrendo de medo, aceitar o convite do Ronaldo de Andrade, do Otávio Cabral e do Homero Cavalcante, para pisar o palco do Teatro de Arena, interpretando dois personagens do clássico de Maquiavel, A Mandrágora.

Seres Apolíneos e Dionisíacos

É claro que não tive a noção de como eu já havia sido cooptado pelo teatro e de como poderia desbravar novos caminhos pelos urdimentos dessa arte. Porém, logo percebi que como ator teria vida limitadíssima. Tal qual uma hiena faminta, a mediocridade estaria sempre rondando a minha ousadia, porquanto esse não era o meu ofício. O meu papel não estava no palco, talvez, nos bastidores. A temporada da Mandrágora acabou e eu fiquei quieto no meu canto, com a minha música, mais uma vez. No entanto, me sentia realizado, pela sensação de ter vivido um sonho formidável, dentro de um universo mágico, que acabou lentamente, como a cortina que desce ao final de cada espetáculo. Mal sabia eu que o melhor ainda estava por acontecer. Outra vez, generosamente, os deuses da ribalta fizeram chegar um convite tão inesperado quanto o que me havia feito o Antônio Adolfo, lá no começo dessa história. Aliás, foi muito mais do que um convite, era um desafio daqueles que, antes de qualquer decisão, da vontade mesmo é de fugir, e a primeira pergunta que vem à mente é: por que eu?

Pois bem, o meu querido Sávio de Almeida, aquele da Igreja Verde, de Comeram o Bispo Dom Pero Fernando Sardinha… Sim, ele mesmo, o grande dramaturgo alagoano, do nada, me convidou para compor a trilha sonora daquela que viria a ser uma das peças mais premiadas e de maior sucesso do teatro alagoano. Assim, nasceu a nossa primeira parceria, com A Farinhada. Assim, nasceu a descoberta de um espaço onde ouso trafegar, convicto de ter encontrado a possibilidade privilegiada de propor sonoridades capazes de intuir signos sensoriais à nobre arte. Assim, nasceu a minha compreensão da importância que tem a trilha sonora, como elemento construtor no fazer teatro, onde, como em qualquer expressão artística híbrida, cada elemento não é uno e sim parte do todo. Portanto, agora, em mim habita um devir que se estende além do proscênio e se ilumina todas às vezes que, humildemente, tenho a honra de emparelhar o diálogo entre seres apolíneos e dionisíacos.

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Por Redação