quinta-feira 22 de fevereiro de 2024

Nem oito nem oitenta

15 de fevereiro de 2024 4:37 por Mácleim Carneiro

Foto: Reprodução/Instagram

O 8º lugar da Beija-flor foi expressivo, também, como quebra de paradigma do número 8, que no Tarô significa equilíbrio.

Como todos sabem, o alcaide Jotaglacê enterrou 8 milhões dos maceioenses no Carnaval do Rio de Janeiro desse ano. É muito dinheiro para o pífio desequilíbrio do resultado final.

Aliás, o número 8 representa ainda duas forças: a energia que vem da terra e sobe para o universo e a energia que desce para ser descarregada na terra.

No desfile da Beija-flor, percebia-se, claramente, uma ala branca de energias negativas.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Óh quarta-feira ingrata

14 de fevereiro de 2024 10:53 por Mácleim Carneiro

César Rodrigues

Da última vez que falei com o Leonardo Arecippo, ele estava na fase das pesquisas, para escrever um livro sobre os antigos festivais universitários de música.

Desde então, e já faz um tempo, não sei se ele concluiu esse importante trabalho.

Porém, o Facebook, em suas lembranças, me trouxe, por exemplo, essa imagem (foto), onde estão ao fundo o Felix Baigon, o Zé Barros, agachado, e, em primeiro plano, o saudoso César Rodrigues, grande vencedor de festivais, com seu timbre de voz poderoso e afinado.

Eram os anos 1980 e as páginas encardidas dos jornais registram um tempo que ficou para trás.

No +, MÚSICA BOA EM SUA VIDA!????????????

Maclein e Nelsinho no III Festival Universitário de Música

Som na Faixa

25 de janeiro de 2024 9:30 por Mácleim Carneiro

Reprodução

Com quase dois anos de atraso assisti a minissérie ‘Som na Faixa’ (originalmente, The Playlist), baseada no livro Spotty Untold, dos jornalistas Sven Carlsson e Jonas Leijonhufvud, cujo tema é a criação da principal plataforma de streaming Spotify.

Sim, é um relato de ficção, porém, fundamentado em fatos reais, onde os suecos Daniel Ek e Martin Lorentzon são as personagens principais, que decidiram revolucionar a indústria musical, lá no começo dos anos 2000, e criaram mais um truste, mais um braço do cartel da indústria musical.

Aparentemente, tudo o que aparece na tela tem a ver com o que de fato ocorreu na vida real.

Porém, o capítulo final foi dedicado à fictícia cantora Bobbi T, interpretada pela atriz e cantora sueca Janice Wakander, no papel de porta-voz de artistas como eu.

Para não me alongar e sem querer dar spoiler, a minissérie revela, detalhadamente, o que os fatos confirmam: o Spotify acabou fazendo um acerto com as grandes gravadoras, para resolver a questão da propriedade do uso dos fonogramas, dos royalties, onde todos eles acabaram ganhando, menos, mais uma vez, os artistas e produtores das obras.

Ou seja, o tal “novo modelo de negócio” contempla os mesmos de sempre, menos os músicos que, dessa vez, passaram a perder ainda mais do que antes.

Sem dúvidas, indico aos meus colegas da música, com algumas ressalvas e a clareza de que essa história está muito longe de um desfecho a nosso favor.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!! ????????????

Nigromantes caetés

20 de janeiro de 2024 8:13 por Mácleim Carneiro

 

Divulgação

 

Resenhar o trabalho instrumental de três dos mais hábeis músicos aquarianos, significa que a Depois do Play começa o ano com o pé direito. Refiro-me ao EP ‘Música Ginga Brasileira’, da banda alagoana Nigros, que, embora tenha sido gravado entre os anos de 2022 e 2023, só em fevereiro será lançado pelo selo Poliphonia. Porém, eles já deram uma palinha do que vem por aí, quando subiram para as plataformas do streaming musical o single da faixa ‘Isca de Malícia’, em novembro do ano passado, durante as comemorações do mês da Consciência Negra.

Do latim nigru, como elemento de formação que exprime a palavra negro, o trio formado por Dinho Zampier (teclado e sintetizador), Ykson Nascimento (baixo) e Rudson França (bateria), foi buscar o nexo e a identidade pertinentes ao nome da banda, repleto de simbolismos e significados, que traduzem muito bem a música feita e proposta por eles nesse trabalho. Curiosamente, Nigro também é o nome de uma marca de panelas que, metaforicamente, teria todo sentido e utilidade, diante da mistura de sabores proposta pelo trio, que perpassa a musicalidade do berço africano, com seus batuques orgânicos e ancestrais, até chegar aos gêneros mais elaborados, como referências da música negra do Brasil e de alhures.

Power Trio

Em nossa latitude aquariana, são poucas, raras e boas as incursões e ousadias pelo universo da música instrumental. Entretanto, o resultado dos álbuns instrumentais, lançados no aquário, é altamente satisfatório. Mesmo que os rastros sejam curtos, conseguem ser marcantes o suficiente para iluminar os caminhos dos que se propõem a segui-los por esse gênero tão singular! Certamente, Dinho Zampier, que além de assinar os teclados e programações, assina a produção muitíssimo bem resolvida desse trabalho, sabe dos caminhos e atalhos e de como um power trio (formato de banda de rock popularizado na década de 1960) pode soar poderoso por si só ou em camadas.

Portanto, ele soube como ninguém escolher, para estreia fonográfica da Nigros, convidados que agregaram imenso valor à sonoridade da banda. Especialmente, pelo calor swingado de um naipe de metais, formado por Natan Oliveira (trompete e pífano), Ely do Sax (sax tenor), Jota Edson (trombone) e Siqueira Lima (trompete). Além disso, a já famosa e frutífera parceria entre Dinho Zampier e Cris Braun foi ratificada na faixa ‘Cafuné’ (D. Zampier), onde Cris faz os vocalizes e, quando o samba se faz mais samba, ela é exclamativa e manda o alerta: “segura o cafuné”!

Polirritmia

Sou daqueles que entendem: tudo o que nasce a partir de um conceito já tem meio caminho andado. Portanto, o EP ‘Música Ginga Brasileira’, seguramente, nasceu a partir de um belíssimo e intenso conceito: música negra alagoana/brasileira, feita por músicos negros caetés. Começando pelo conceito do que seja um EP, apenas seis faixas são ofertadas para o nosso deleite. ‘Banzo’ (D. Zampier) abre os trabalhos e faz jus ao significado da palavra, que lhe dá título. Ela tem uma tristeza melancólica em sua argumentação melódica e rítmica, arrematada pelo trompete de Natan Oliveira, inspiradíssimo no que já nos revelara Miles Davis. Na sequência, ‘Da Janela Pro Quintal’ (Ykson Nascimento e D. Zampier), o groove do contrabaixo de Ykson Nascimento é quem guia o trio pelos caminhos que, mais uma vez, são iluminados pelos improvisos do teclado de Zampier e do trompete, com surdina, de Natan Oliveira.

Em ‘Isca de Malícia’ (D. Zampier), aparece pela primeira vez o naipe de metais, alternando cama e melodia, dando o clima e a sensação de que a Black Rio passou por aqui e a Pantera Cor de Rosa (pelo fraseado sintetizado do teclado) seguiu sambando e funkeando até o fim do tema. Como que para anunciar que já estamos próximos ao replay da audição, ‘Afrobykson’ (Ykson Nascimento), além da nomenclatura autoral do baixista, brinca com a divisão e provoca uma interessante polirritmia, que arruma a casa para a curta e sincopada melodia do pífano de Natan Oliveira. Nossa oitiva chega ao fim, com a sexta e última faixa ‘Muvuca à Olivetti’ (D. Zampier). Por certo, uma bela e dengosa homenagem ao grande e saudoso maestro, arranjador, tecladista e produtor musical Lincoln Olivetti, onde o pífano dialoga com os metais e com as sonoridades propostas pelos teclados de Zampier.

Eu até poderia encerrar essa resenha de supetão, sem fade out, como terminam a maioria das faixas do EP ‘Música Ginga Brasileira’. Porém, antes, é preciso dizer que não tenho dúvidas de que esse trabalho marca a estreia e o porvir de uma jornada exitosa de três músicos talentosos, que se uniram em Nigros, para nos brindar com esse belo trabalho e ratificar que as ideias estão soltas pelo ar!

SERVIÇO
Música Ginga Brasileira, Nigros
Link para o single Isca de Malícia:
https://open.spotify.com/album/2bUwQmbdylccAIKx3qwtSq

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Dos livros que li – Tudo é Rio (Carla Madeira)

 

Não resisti ao canto da sereia e logo que terminei a leitura do Véspera, o terceiro romance da escritora mineira Carla Madeira, mergulhei fundo no seu primeiro sucesso editorial, o romance Tudo é Rio, lançado em 2014. Agora, só falta A Natureza da Mordida, publicado em 2018, mas esse é outro assunto.

Quando digo que mergulhei fundo, é porque, metaforicamente, foi como um mergulho em apneia, daqueles que você demora o máximo de tempo possível contemplando as belezas submersas e só volta à tona quando é imperativo respirar. Aí, você respira, enche os pulmões de ar e mergulha novamente, ávido para retornar às belezas e mistérios de um mundo habitado por personagens intrigantes e por uma realidade ilusória e magnética.

Triângulo Amoroso

Pois bem, bastaram-me dois desses mergulhos, para que eu desse cabo da leitura de mais um envolvente romance dessa escritora que, certamente, já tem o seu lugar garantido entre os autores de musculatura da literatura brasileira contemporânea. Esse é um daqueles livros que você pode indicar sem medo de causar qualquer tipo de decepção ou desencanto. Por isso, concordo plenamente com o que escreveu Martha Medeiros, em uma das orelhas do livro, referindo-se à habilidade da autora em “conduzir a trama para longe do lugar-comum e dominar o erotismo – ela narra o explícito sem ser vulgar, ela perturba e fascina, é atrevida e lírica”.

A trama, gira em torno do triângulo amoroso entre marido, mulher e uma prostituta, com variantes e férteis percepções individuais e coletivas, onde cada personagem revela faces e facetas desconhecidas, porém, previsíveis no escopo das aptidões e idiossincrasias humanas. Todavia, o que mais me encanta nesse belo romance é a inquestionável capacidade do refinamento da síntese poética, que volta e meia se revela no urdimento da prosa da autora.

Encanta-me frases assim: “Não disse nada, apenas ganhou a rua tentando caber no mundo”. Ou, ainda: “O perdão não muda o passado. O passado é eterno”. Por isso, depois de conhecer a obra de Carla Madeira, meu passado não carece de perdão, pois coube-me o mundo.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dos livro que li – Véspera (Carla Madeira)

Carla Madeira é uma autora mineira, que largou um curso de matemática e se formou em jornalismo e publicidade. Véspera é o seu terceiro livro, lançado em 2021, após o considerável sucesso do primeiro tudo É Rio (2014) e o não menos exitoso A Natureza da Mordida, lançado em 2018.

 

Véspera, é um romance envolvente, daqueles em que o leitor vai sendo enredado pela habilidade narrativa da autora e pela construção minuciosa das personagens. As 278 páginas são facilmente consumidas, pelo vai e vem do núcleo dos personagens, que se revezam brilhantemente em capítulos distintos. Esse tipo de estrutura funciona muitíssimo bem, posto que conduzida por uma escritora do naipe de Carla Madeira, uma artífice das palavras, que sabe capturar o leitor, como as redes capturam o peixe em alto mar.

 

Logo nos primeiros capítulos, a autora demonstra toda sua criatividade, usando as personagens bíblicas, Caim e Abel, como referências no desenrolar da trama, na qual, o pai, para se vingar da esposa, registra em cartório os nomes bíblicos para os filhos gêmeos, frutos de uma precária união matrimonial. A carga emocional que todos carregam, a partir da escolha do pai, para os nomes das crianças, tenciona o romance do começo ao fim.

 

Os vários núcleos de personagens se conectam entre si e fazem o todo da trama ser criativo, inteligente, envolvente e muito bem urdido. A certa altura do romance, a autora coloca em cena o abandono de uma criança de apenas seis anos de idade, deixada pela própria mãe na calçada de uma grande avenida. Esta, por sua vez, é casada com Abel, um dos gêmeos. Aliás, o que não falta nessa turma toda são problemas psicológicos, que delineiam a criação dos personagens.

 

Porém, engana-se quem pensar que Véspera é um romance duro, seco e frio. A prosa poética de Carla Madeira fica evidente no trato refinado das palavras e nas frases bem elaboradas e precisas. ”Tenho pra mim que o grande talento dele é a curiosidade, além do senso de humor, que é de longe a melhor inteligência que se pode ter.” Ou quando escreve: “A confirmação de uma suspeita é sempre um excesso de realidade”. Nesse caso, para mim, a suspeita sobre Véspera tornou-se uma deliciosa realidade!

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Retroexpectativa

Divulgação

Desde meados de 2021, quando começamos a publicar a coluna Depois do Play, que ao final de cada ano fazemos um rápido balanço, um tipo de retrospectiva, uma espécie de prestação de contas aos nossos 14 leitores. Portanto, ao findar este ano bastante significativo, no qual tivemos um abjeto atentado à nossa democracia, mas pulamos essa fogueira e voltamos a respirar ares de liberdade e desenvolvimento democrático, social e econômico, onde a produção musical brasileira tomou novo fôlego e nos brindou com alguns álbuns arrebatadores! Não poderíamos deixar de ter o nosso retrovisor particular, para que a Depois do Play, a partir dos rastros dessa caminhada em 2023, continue firme no propósito de olhar adiante, sem perder de vista nossas referências pretéritas.

Por conseguinte, como a nossa publicação é quinzenal e tem a precisão do cocorocó de um galo de terreiro anunciando um novo amanhecer, tivemos 24 resenhas publicadas ao longo de todo esse ano de 2023. Assim, os nossos 14 leitores tiveram a possibilidade de conhecer os lançamentos de artistas e compositores, que são fora da curva e não se encaixam no quadradinho mediocrizante dos canais de TV aberta, bem como no mar de mesmices que assolam o streaming e se reproduzem como gremlins, vendendo aos incautos acríticos água com açúcar, como se fosse licor.

Exceção Para Mim Mesmo

Dessa maneira, a cada mês foram publicadas no mínimo duas resenhas sobre álbuns de artistas locais e de algures. De tal modo que, em janeiro, tivemos os álbuns ‘Bossatômica’, lançado pela banda alagoana Divina Supernova e o álbum instrumental ‘Som Das Cordas’, do violonista alagoano, de Pão de Açúcar, Wilbert Fialho. Fevereiro, continuou numa pegada híbrida, com os álbuns ‘Dinho Nogueira e Zé Barbeiro Ao Vivo em Paris’, um trabalho instrumental do grande violonista alagoano Zé Barbeiro, radicado em São Paulo há bastante tempo, além do belíssimo álbum ‘Alto Grande’, do violeiro e escritor paulista Paulo Freire, em seu mais perfeito amálgama entre o causo e a música.

Passada a folia, em março tivemos uma exceção aberta para mim mesmo. Por isso, transcrevi os escritos do encarte do meu mais recente álbum, ‘H’cordas’, lançado naquele mês. Depois, tivemos o interessantíssimo álbum instrumental ‘Dorsal’, do jovem guitarrista pernambucano Ítalo Sales. Em abril, trouxemos o álbum homônimo ‘Almateia Duo’, criado pelo compositor e pianista carioca Ricardo Duna Sjöstedt e pela cantora e compositora Ana Cecilia Mamede. Apresentamos, também, o guitarrista, compositor, arranjador e autor de livros didáticos Fernando Corrêa, com o seu álbum instrumental e homônimo.

Resiliência

Em maio, ocorreu uma pequena pausa. Feriamos e demos um pulo fora do país e um refresco aos nossos 14 leitores. Porém, durante as quadras juninas, voltamos com a corda toda e foram três publicações na Depois do Play. A primeira, sobre o primeiro álbum de jazz produzido em latitude aquariana, o excelente ‘The Magic Hour’, do já extinto grupo Brasil Modern Jazz Quarteto. Depois, abrimos mais uma exceção, para uma homenagem póstuma ao nosso saudoso e querido Carlos Moura, com o texto ‘Estrela Cor de Areia’, onde dizíamos que, agora, o meu querido amigo tornou-se uma estrela cor de areia! Por fim, fechamos o mês de junho com a resenha sobre o maravilhoso álbum ‘Aluê’, que podemos dizer ser o primeiro disco brasileiro do grande percussionista Airto Moreira.

Seguimos resilientes em nosso propósito, para que em julho apresentássemos o interessantíssimo álbum da banda alagoana Herocoice, que se intitula ‘Trabalho Novo’. Depois, tivemos a banda Mopho, com o seu quarto álbum ‘Brejo’, lançado em 2017. Tivemos ainda o álbum instrumental ‘Cavaquinho Azul’, com a imaginação criativa do músico, compositor e cavaquinista Salomão Miranda. Ultrapassada a metade do ano, o mês dos gostos e desgostos foi pródigo, nas resenhas dos álbuns ‘Zé’, do artista paulistano Zé Eduardo, cheio de alagoanidade em conceitos, arranjos e seis músicos nutridos pela sustança do sururu, e o álbum ‘A Cor do Céu Mudou’, da banda Dharma, um tipo de filho temporão da banda de rock alagoana.

Estímulo Único

Setembro foi o mês no qual passaram por aqui o belíssimo álbum ‘Bossa 65’, cujo subtítulo é Celebrating Carlos Lyra and Roberto Menescal, mais uma pérola do mestre Antonio Adolfo! Também tivemos a resenha sobre cem outras resenhas, que foram escritas por cem outros autores e foram compiladas em um único volume, cujo título é bem específico: ‘1979 – O Ano Que Ressignificou a MPB’. Já na reta final do corrente ano, duas bandas alagoanas preencheram o mês de outubro: o terceiro registro do power trio Necro, com o álbum ‘Adiante’, e o interessantíssimo álbum ‘Frectivo’, da alagoaníssima Xique Baratinho. O mês de novembro foi camarada e nos concedeu tempo e espaço para três resenhas: o álbum ‘UNA – Zéli Silva Convida’, do contrabaixista Zéli Silva, recheado de convidados singulares; o álbum ‘Tesouros’, lançado pela cantora paulista Renata Finotti, e a resenha do álbum homônimo ao show ‘Aqui Alagoas’, do mestre Ibys Maceioh. Finalmente, dezembro chegou e para encerrar com claves de sol, fá e dó, tivemos a resenha sobre o genial álbum ‘Duo + Dois’, comemorativo dos 40 anos de carreira do Duofel.

Na verdade, quero mesmo é agradecer aos que junto comigo fazem a Depois do Play e fortalecem em mim a certeza de que ninguém é nada sozinho! Por isso, quero agradecer à minha tia e revisora Josete Carneiro, à minha companheira Vera Garabini, que sempre faz a primeira leitura das resenhas, ao jornal O Dia, nas pessoas gentis de Iracema Ferro e Deraldo Francisco, aos talentosos artistas e ao Beto Privieiro e Moisés Santana (Tambores Comunicação), que me abastecem de matéria-prima. Porém, e sobretudo, quero agradecer aos nossos 14 leitores, razão maior e estímulo único e necessário para continuarmos nessa labuta. A todos e todas, um próspero e auspicioso ano novo, com muito mais.

MÚSICABOAEMSUASVIDAS!!!

 

Música perde Carlos Lyra

16 de dezembro de 2023 1:39 por Mácleim Carneiro

Foto: Divulgação

Entendo que acaba de nos deixar um ícone da música brasileira, um compositor de inúmeras pérolas do nosso cancioneiro, que foi um dos pilares da bossa nova e que, certamente, era merecedor de muito mais reconhecimento em vida.

90 anos é tempo suficiente para que um artista, um compositor como ele, tivesse tido todas as homenagens retribuitivas à sua obra e seu legado.

O Antônio Adolfo, em seu último álbum, prestou uma belíssima homenagem ao Carlos Lyra, e sempre afirma a importância que ele teve em sua carreira, quando atuou com ele lá no início, no Beco das Garrafas.

Contudo, como afirmava o Tom Jobim, o Brasil não ama seus artistas…

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Meu sindicato preferido

14 de dezembro de 2023 12:26 por Mácleim Carneiro

Reprodução

Recentemente, um amigo me enviou essa foto do meu registro no Sindicato dos Músicos Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

De acordo com a ficha de filiação, em 1986, eu era Cantor Popular e Tocador de Violão.

De fato, fui mesmo e ralei bastante, porque não queimei etapas, não pulei degraus.

Paralelamente, essa foto me faz lembrar quando me formei em jornalismo e não tive o menor interesse em me sindicalizar, pois sempre achei muitíssimo estranho, por quase 30 anos, o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas aceitar um prêmio jornalístico patrocinado pela Braskem e ser conivente com os fatos escabrosos que aconteciam na planta da fábrica da mineradora e andar de mãos dadas com uma empresa criminosa, que se mostrava como tal desde a sua implantação.

Portanto, ter sido sindicalizado como músico profissional e agora receber essa relíquia particular, me faz refletir que é muito bom ter pertencido ao sindicato de uma classe que, até por ofício, jamais se calará.

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A Ibys o que é de Ibys

Quando surge uma boa ideia e esta é posta em prática, o que resulta é sempre algo positivo. Especialmente, quando tal ideia for relativa ao universo musical e suas possibilidades de encantamento. Com uma ideia na cabeça e muita disposição nas mãos, a produtora Weldja Miranda foi à luta e no Dia Internacional da Mulher, em 2018, homenageou as mulheres, na figura da grande personalidade do rádio alagoano, Floracy Cavalcante. Para tanto, Weldja pensou e produziu um show que também foi uma homenagem e reconhecimento a um dos mais importantes compositores da cena caeté. Um artista íntegro e resiliente em sua proposta musical, merecedor, sem senões, do foco e releitura que a sua música obteve nas vozes das mais expressivas e significativas cantoras da nossa cena, que deram tônus e uma nova perspectiva à obra do incansável Ibys Maceioh.

E assim, aconteceu o show Aqui Alagoas, que, por sua vez, deu origem ao disco homônimo, o qual será o nosso tema de agora. Antes, porém, vale pontuar sobre o mestre Ibys e sua trajetória de mais de quarenta anos “correndo trecho”, como o próprio costuma se referir a propósito de sua carreira artística. Particularmente, Ibys Maceioh sempre foi sinônimo de exímio violonista, com harmonias de difícil execução, repletas de ninhos de aranhas e pestanas complicadas, coisa de quem, à época em que o conheci, era professor do CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical), a famosa escola de música do Zimbo Trio, em São Paulo. Anos mais tarde, eu, também, correndo trecho, não era raro nos encontrarmos nos ônibus da Viação Cometa, indo do Rio para São Paulo ou vice e versa.

Merecida Homenagem

Ibys é um artista sensível, que corriqueiramente usa a palavra “feliz” em quase tudo que escreve e fala. Um ser que tem sempre um sorriso pronto para o desarme de qualquer cara feia, apesar das adversidades e inúmeras barreiras no mister de sua sina e expressão de vida. Adocicado pelos canaviais do Litoral Norte, mais precisamente da terra de Calabar, sua Porto Calvo de origem, Valmiro Pedro da Costa tornou-se Ibys Maceioh por opção, por entender em nosso aquário algo icônico, que lhe conferiria representatividade, mesmo que a recíproca nunca tenha sido verdadeira e nem na mesma proporção da sua escolha. O fato é que só após todos esses anos de fidelidade a tal identidade escolhida, e por iniciativa particular e nunca institucional, lhe foi feita esta justíssima homenagem. Ainda bem, que aconteceu em vida e antes tarde do que nunca! E foi mesmo uma bela e merecida homenagem, abraçada de canto e alma por dez intérpretes maravilhosas e oito músicos extraordinários.

Ibys Maceió

Wilma Miranda, Leureny Barbosa, Elaine Kundera, Ana Gal, Mel Nascimento, Ismair Martins, Fernanda Guimarães, Lara Melo, Nara Cordeiro e Irina Costa, acompanhadas pelos músicos Allysson Paz (bateria), Félix Baigon (contrabaixo), Willbert Fialho (violão), China Cunha (percussão), Everaldo Borges (sax e flauta), Jiuliano Gomes (piano e teclados), com as participações especiais de Thiago da Sanfona e Siqueira Lima (trompete), oxigenaram e deram nova expressão e cor à obra de um exímio compositor, cuja especialidade transita entre sambas, boleros, blues e xotes, tudo harmonicamente urdido por belos arranjos funcionais e uma direção musical precisa do mestre Félix Baigon, que já se tornou sinônimo de qualidade e eficiência nos palcos aquarianos.

Manequins da Ribalta

O álbum Aqui Alagoas é o resultado de uma parte do que foi o show homônimo. Um registro de maneira resumida, pois são apenas dez faixas – uma para cada intérprete – escolhidas do repertório de vinte músicas, que compuseram o setlist do show. Este não é um disco feito para constar em prateleiras da livre concorrência de mercado. Não foi feito para isso! Este trabalho funciona mais como um assentamento do que foi realizado em determinado momento e circunstância específica. Não caberia aqui uma avaliação criteriosa e muito menos técnica. Do contrário, correríamos o risco de ter um contraponto tal, que poderia até embaçar a riqueza musical e as peculiaridades do que de fato interessa neste trabalho.

Portanto, fico com o que é relevante e salta aos ouvidos pela diversidade do que encontramos no recorte da obra do Ibys Maceioh e das interpretações performáticas e singulares, que as divas do canto generosamente assinaram para sempre neste trabalho. Sendo assim, desde a abertura do álbum, com a Wilma Miranda cantando ‘Eu Sou o Show’, em um arranjo com assinatura jazzística do Félix Baigon, até a última faixa ‘Aqui Alagoas’, em um arranjo não muito feliz, cantada pela Mel Nascimento, temos um desfile de alta-costura musical, com belíssimas manequins da ribalta, em performances inspiradas e algumas surpresas interessantes, como, por exemplo, Irina Costa cantando o xote ‘Terminada a Tempestade’, com tempero à Gomes de Sá no bacalhau do zabumba.

No + MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Serviço 
Aqui Alagoas, Ibys Maceioh
Plataformas digitais: Apple Music, Spotify, Deezer

 

 

 

 

 

 

 

Dos livros que li – HAI – QUASE (Fernando Sérgio Lyra e Sidney Wanderlei)

6 de dezembro de 2023 9:18 por Mácleim Carneiro

 

Capa dura, quase um livro de bolso, grandioso em suas proporções estéticas ao manejo e estilísticas à leitura, beleza visual e fruição. Vinte e um anos após sua primeira edição, o livro Hai – Quase, essa felicíssima parceria entre os poetas Fernando Sérgio Lyra e Sidney Wanderley (que também comungam a fartura de ípsilones) voltou adulto e vestido para matar. Como se não bastasse a meta linguagem de si mesmo, onde a poesia vai muito além da forma, as belíssimas fotos monocromáticas de Juarez Cavalcante, as fotos coloridas do acervo histórico de Sidney Wanderley e o sóbrio e elegante projeto gráfico e diagramação de Fernando Rizzoto, conferem à essa edição uma maturidade e equilíbrio irretocáveis, se não pensados, ao menos executados com primazia.

O encantamento acontece fluído, página após página, e o “Quase” não se estabelece, posto que o pleno se faz guia, preenchendo os espaços imaginários até onde nem espaços há. Aliás, a apresentação é dupla, pelos moldes acadêmicos e poéticos dos escritos primorosos dos poetas e mestres Hildeberto Barbosa Filho e Fernando Fiúza, paraibano e alagoano, respectivamente, que não deixam margens para qualquer comentário impertinente de leitores afoitos e atrevidos como eu.

Como um jantar de fino trato, onde acontece a entrada, o prato principal e a sobremesa, regado a sabores apetitosos, distintos e complementares, ao final, Sidney Wanderley nos brinda com deliciosas crônicas iconograficamente ilustradas, tudo em porções francesas, que não saciam, mas contentam plenamente, na medida de um porvir. Sem me atrever a mais nenhum comentário, fico com o que escreveu o poeta Fernando Fiúza: “Hai – Quase é um livro leve e azul”.

bert!

 

Ao Tapajós o que é de César

31 de outubro de 2023 4:36 por Da Redação

Paulinho Tapajós (Foto: Fernando Moraes/Folhapress)

Em 2013, no Caderno B, do jornal Gazeta de Alagoas de uma terça-feira, a matéria de capa foi sobre o americano Lou Reed.

E, lá, no referido caderno, numa tirinha espremida num cantinho da página 2, como obituário, estava um dos mais importantes compositores brasileiros, Paulinho Tapajós.

Com todo respeito ao Lou Reed, porém, com mais respeito ainda ao Paulinho Tapajós (foto), a que atribuir tamanha discrepância em detrimento ao que é genuíno e brasileiro?

1- Ao nosso aculturamento, pelo imperialismo da cultura norte-americana, aliás, como fica evidente agora, com essa coisa de hallooween, assumindo assim a nossa condição de subserviência cultural.

2- À ignorância e desinformação dos jornalistas (também em nível nacional) sobre quem foi e qual a importância da contribuição do Paulinho Tapajós à cultura brasileira.

3- Finalmente, à preguiça da editoria e dos jornalistas, que, simplesmente, preferem reproduzir matérias de agências de notícias a ter que botar a mão na massa, como foi o caso.

Não importa! Em qualquer das opções, foi deprimente.

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Plenitude Musical

21 de outubro de 2023 4:06 por Mácleim Carneiro

 

Ricardo Silveira. https://www.instrumentalsescbrasil.org.br

 

Uma das coisas boas de estar de volta ao aquário, é a possibilidade de assistir aos shows promovidos pelo projeto ‘Jazz Panorama ao Vivo’.

Sua vigésima quarta edição aconteceu na última quarta-feira, no Teatro de Arena, e teve como convidado especial o guitarrista carioca Ricardo Silveira, que, pelo seu vastíssimo currículo, inclusive internacional, dispensa apresentações.

O show foi aberto pelo também guitarrista alagoano Ricardo Lopes, que, gentilmente, estendeu o tapete para o seu xará carioca.

Foi, de fato, uma noite muitíssimo especial, onde Ricardo Silveira (acompanhado dos músicos do Clube do Jazz, Allyson Paz, Félix Baigon e Robson Cavalcante), do alto de sua maturidade musical e técnica apurada, apresentou a música como verdadeira expressão de arte, organicamente executada, com alma, precisão e impressionante domínio do seu instrumento de trabalho. Privilégio dos que atingiram a tão difícil e sonhada plenitude musical.

Aliás, privilégio, também, dos que lá estiveram em sintonia com o que nos foi ofertado.

 

Temas conhecidos, como ‘Portal da Cor’ , uma parceria com Milton Nascimento, ‘Beira do Mar’, da época do icônico álbum High Life, e outros mais recentes, como o impressionante e hipnotizante ‘Tango Carioca’, ratificaram a dimensão e o patamar no qual se encontra o músico Ricardo Silveira e, sobretudo, o compositor.

 

Há que se ressaltar a performance dos músicos do Clube do Jazz, acima citados, que, claramente, facilitaram o conforto do convidado especial àquela noite.

Enfim, foi um espetáculo onde os Deuses apolíneos se fizeram presentes, retificando que a magia acontece quando a música é tratada e posta com o devido respeito e carinho, tão em falta ultimamente, mas que lhe é de direito irrefutável.

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Ricardo Silveira e Feliz Baigon. Foto: Cortesia

 

É Hoje!

18 de outubro de 2023 4:47 por Mácleim Carneiro

 

O Jazz Panorama ao Vivo está de volta ao palco do Teatro de Arena Sérgio Cardoso, hoje, 18 de outubro, a partir das 20h.

Nesta edição, a atração principal é o guitarrista carioca Ricardo Silveira, que tocará acompanhado pelo Clube do Jazz Maceió.

A abertura do espetáculo contará com o guitarrista alagoano Ricardo Lopes, que trará ao público composições de seu novo álbum.

Certamente, haverá um diálogo de Ricardo para Ricardo, amplificado e elevado ao quadrado das guitarras.

Portanto, imperdível! Nos veremos lá!

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Em qualquer mundo

2 de outubro de 2023 9:20 por Mácleim Carneiro

 

Ana Gal. Foto: Vera Garabini

O projeto Primavera no Sobrado, que teve o Clube do Jazz Maceió apresentando Cris Braun, Leureny, Dandara Ruffer, Fernanda Guimarães e a Ana Gal (foto) encerrando-o com todas as chaves do mais valioso mineral terrestre ou dos reinos apolíneos, aconteceu durante todo o mês de setembro, no Café do Sobrado, graças à sensibilidade e bom gosto musical da Eveline, que tem mantido as portas abertas para um tipo de música pouco vista e ouvida por aí.

Falo da música rica e bela em todos os elementos e fundamentos Evelineque qualificam e robustecem a percepção de que podemos passar longe da mediocridade. Em projetos como esse, ela resiste bravamente, apesar da crescente e constante tentativa em silenciá-la. Tal prática, tem se tornado usual nos diversos níveis de gestão pública, passando pela homogeneidade das plataformas de streaming e redes sociais, até chegar aos veículos da mídia hegemônica e mercadológica.

Porém, o que presenciei e vivenciei no Café do Sobrado foi de uma luminosidade e harmonia tais, que pude até vislumbrar um sopro de esperança na tal luz do fim do túnel e, sobretudo, pressentir que tanta qualidade e sensibilidade musical nunca estarão sozinhas, pois sempre haverá um público correspondente e a altura do que lhe é ofertado.

Everaldo Borges, Felix Baigon, Ana Gal, Alyson Paz, Dinho Zampier. Foto: Fernando Andrade

Alyson Paz, Dinho Zampier, Everaldo Borges, Félix Baigon (bem rotulado pela Eveline, como ‘locomotiva do jazz’) e a maravilhosa Ana Gal (foto2) entregaram muito em performance e repertório, que me senti privilegiado e orgulhoso por estar ali. A música e o desempenho de seus protagonistas foram tão mágicos e oníricos, que até imaginei estar no Carnegie Hall ou qualquer outra grande sala de espetáculos desse planeta, afeitas e afins da música por excelência.

Ana Gal, nos criativos duetos com cada um dos músicos, esbanjando técnicas vocais e musicalidade extrema, ou no show de skats, como só as mais belas divas do jazz sabem fazer, ou ainda pela dramaticidade interpretativa e emocional, que ela soube tecer em Esquinas, dando a esse belo blues do Djavan uma interpretação comovente e inesquecível, ratificou-me a certeza de que está pronta e lapidada para brilhar em qualquer mundo ou lugar. Então, que venham novas primaveras, por aqui e alhures!

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O que diria Van Gogh?

Um tanto desconfiado, fui à exposição Van Gogh Live 8K (foto), em um dos shoppings do aquário, que os organizadores denominaram de Exposição Imersiva, como se ao fruidor toda obra de arte não o fosse. Fui, desconfiado, porque achei que nada poderia superar a experiência de quando visitei o museu Van Gogh, em Amsterdam. Por fora, de arquitetura arrojada e modernista (foi inaugurado em 1972), por dentro, reúne a maior coleção de obras do artista e de alguns contemporâneos seus, todos impressionistas.

O fato é que a obra do holandês genial sempre será impressionante, seja lá de que maneira for apresentada. De fato, a exposição está muito bem-montada e é muitíssimo interessante, com exceção de dois fatos, que me chamaram atenção. Aliás, um deles foi bastante incômodo, para mim. Primeiro, as réplicas de alguns quadros de Van Gogh estão expostas sob vidros transparentes, nos quais estão escritos textos (foto 2). Dessa forma, nem a leitura dos textos é totalmente agradável e nem os detalhes das telas podem ser apreciados na íntegra. Do meu ponto de vista, acontece uma dualidade visual e cognitiva de interferência mútua.

Porém, a coisa mais constrangedora e nada a ver da exposição, foi o fato de, ao sairmos da sala mais lúdica e imersiva, onde as projeções em 8K e a música envolvente de Bach, Debussy, Pink Floyd, Ravel, bem como a narração harmoniosa da grande Fernanda Montenegro, ativarem a certeza de que valeu a pena estar ali, damos de cara com a tal cadeira do prefeito Jotaglacê, instalada onde fica a loja com produtos customizados. Portanto, ainda dentro do espaço da exposição, como um todo.

Imagino que pode ter sido até proposital, no sentido de provocar espanto e alguma reflexão, pelo choque inevitável, entre a genialidade de um Van Gogh e mediocridade oca e provinciana de um alcaide “instagramável”.

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Alimentando a alma

28 de setembro de 2023 6:43 por Mácleim Carneiro

Jurandir Bozo. Foto: Blog do Ticianeli

O caldeirão da cultura caeté encontra ambiente propício em latitudes de alta temperatura.

É o caso da cidade de Pão de Açúcar, as margens do velho Chico, no semi-árido alagoano, cuja temperatura ultrapassa tranquilamente aos 40° e dizem que chega a ser a terceira cidade mais quente do país.

Pois bem, foi de lá que veio, como um presente açucarado, o show ‘Cantigas do Sertão’ (foto), com Jurandir Bozo e Os Bambas de Pão de Açúcar, para merecimento do seleto público presente na 15ª edição do Teatro Deodoro é o Maior Barato.

O show foi uma homenagem à família dos Bambas, representada com brilhantismo pelo Mestre Laércio de Bamba e seus irmãos, tradicional família sertaneja, cuja cultura é passada de pai para filho.

Jurandir Bozo, fazendo as honras da casa, em sua fala, disse: “o show é para os que vieram antes de nós”.

A quentura de Pão de Açúcar não tomou conhecimento dos 241 km que nos separa e, àquela altura, apoderou-se do palco para fazer ferver o espetáculo e seu comandante.

Este, generosamente, abriu o baú do métier e nos deu uma aula performática das sutilezas do Coco de Roda.

Jurandir Bozo abriu o coração e revelou sua saudade e gratidão ao Mestre Verdelinho, de saudosa memória, que, entre tantos ensinamentos, e do alto da sua frágil compleição física, deixou um que o gigante Jurandir Bozo não esquece:

“Respeitar o conhecimento do outro”.

Era hora de encerrar a função e ouviu-se o canto um tanto triste e solene que dizia: “retirada meu bem/ acabousse nossa função.”

De lá das plantações de arroz de Pão de Açúcar, inconscientemente, fez-se a despedida com a lama dos alagados introjetada em de cada um, fertilizando e alimentando a alma da cultura popular que nos habita.

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Régua errada

 

Quando concluí os trabalhos do álbum H’CORDAS (foto), procurei um selo que tivesse interesse em lançá-lo.

Assim, por intermédio de um grande amigo, o H’CORDAS começou a tramitar em um selo nacional bastante conhecido.

Tudo parecia estar caminhando bem, com o trabalho sendo bem-recebido e aprovado, até chegar ao que suponho ter sido o departamento de marketing, que foi taxativo:

“Não nos interessa! Esse artista tem pouca visibilidade nas plataformas e redes sociais.”

Ou seja, a quantidade de likes, views e etc. estava aquém dos interesses do selo.

Até então, eu supunha que um selo importante, mas de perfil alternativo, não usaria esse tipo de régua, para avaliar um trabalho.

Daí, além de ficar puto, pensei: para que me serviria mesmo esse selo, se até essa questão eles querem que esteja pronta e sob a responsabilidade do artista?

Particularmente, mandei o selo à merda, pois, embora reconheça os meandros dos tempos atuais, não admito que a música que eu faço seja medida por esse tipo de régua, por mais que eu saiba ser parâmetro para a modernidade oca.

Daí, fechei questão com o que escreveu o compositor e músico Moyseis Marques:

”Antes, o artista era avalizado, seguido e admirado pela sua capacidade técnica, artística, poética e performática. Hoje, o critério é o número de seguidores, views e likes.”

Sinceramente, ainda estou longe de ser convencido de que quantidade pode ser sinônimo de qualidade.

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1979, o ano feminino

25 de setembro de 2023 6:18 por Mácleim Carneiro

 

Quero pedir licença aos 14 leitores da Depois do Play, para sair um tantinho do combinado, pois, ao invés de resenhar um único álbum, como de costume, trago para conhecimento uma resenha sobre cem outras resenhas, que foram escritas por cem outros autores e estão compiladas em um único volume, cujo título é bem específico: ‘1979 – O Ano Que Ressignificou a MPB’. Dito isso, não há como tecer comentários sobre este livro, sem ater-se ao ano que serve de moldura e foco ao objeto primordial desse tomo: a música popular brasileira, revisitada por uma centena de autores em resenhas que analisam e revelam curiosidades de alguns dos mais significativos álbuns lançados à época.

Portanto, 1979 foi um ano repleto de acontecimentos e movimentos políticos, sociais e musicais, que marcaram o tabuleiro instigante daquele Brasil. Ainda sob os auspícios da ditadura militar, foi em 1979 que tomou posse o general João Batista Figueredo, finalmente, como o último presidente oriundo de um regime ditatorial e antidemocrático. Sim, ainda era um tempo tenebroso e cheio de resquícios do nefasto período de opressão e medo, que se apoderou do Brasil por mais de duas décadas. Porém, já se respirava uma leve brisa dos ares democráticos, o que proporcionou, por exemplo, a criação da Associação Nacional de Jornais, para salvaguardar a liberdade de imprensa. Foi em 1979 que Eunice Michiles tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Senado Federal e, em agosto do mesmo ano, foi sancionada a Lei da Anistia.

Obra Instigante

Do ponto de vista musical, 1979 é considerado um ano feminino e feminista, como deixa bem claro o jornalista Célio Albuquerque no amplo e explicativo prefácio, dividido em quatro partes e assinado a quatro mãos: Célio Albuquerque, Washington Santos, Mona Gadelha e Ricardo Soares. Aliás, Célio Albuquerque é o que eu chamaria de um abnegado e competente arquiteto literário, aquele que, a partir do terreno propício, elaborou o projeto, organizou todas as fases e delegou a construção, no caso específico, a uma gama de sensíveis e competentes autores, que traçaram o perfil da música brasileira de uma época, pelo prisma de cem discos lançados sob circunstâncias sociais, políticas e artísticas, que foram determinantes e até, em alguns casos, manipuladoras.

Essa obra é instigante da primeira à última página! E olhe que estou me referindo às 574 delas. É um livro de peso histórico bem mais significativo do que o seu peso em gramas, 790g, além de ser uma ferramenta imprescindível a quem quiser aprofundar o conhecimento sobre a música popular brasileira daquela época, posto que ‘1979 – O Ano Que Ressignificou a MPB’ traça um belo e pitoresco painel “sonoro” e até iconográfico, sobre a música brasileira e seus atores, de norte a sul desse país que ainda pode e tem musicalidade suficiente para voltar a ser levado a sério, como outrora. Até porque, como já disse Paulo César Pinheiro, “o destino das canções não está em nossas mãos. Elas são o que elas quiserem ser.”

Paroxismos

São tantos os fatos pitorescos e curiosos, e tantos os músicos e artistas que escreveram super bem, como, por exemplo, Itamar Assiere, Joyce Moreno, Luís Carlos Sá, Marcos Sabino, Miltinho (MPB4), Moacyr luz, Mona Gadelha, Rildo Hora, Túlio Mourão, que fica a dica, antes de manusear o livro: exercite as mãos, faça um alongamento, como quem vai tocar um instrumento, pois, certamente, você será cognitivamente e emocionalmente envolvido e nem se aperceberá do quanto suas mãos serão exigidas, pela capacidade física de ampará-lo. Aconselho, também, o uso de uma bela rede com varanda, para ter “o arrebatamento garantido ou sua insensibilidade de volta”, como escreveu o jornalista e pesquisador musical Marcelo Pinheiro, na resenha sobre o álbum ‘20 Palavras ao Redor do Sol’, da paraibana Cátia de França.

É possível encontrar até alguns paroxismos, como o escrito do historiador Luiz Américo Lisboa, ao resenhar o álbum ‘Na Quadrada Das Águas Perdidas’, do cantador Elomar: “Elomar é fruto de uma tradição que tem como percussor Catulo da Paixão Cearense. É possível dizer que Elomar é o filho mais novo dessa tradição em que podemos incluir também Guimarães Rosa e Ariano Suassuna.” Mais adiante, na página 256, ao resenhar o álbum ‘Gonzaguinha da Vida’, o jornalista e cineasta Dacio Malta ressalta uma fala ‘bisturística’ do grande e saudoso Gonzaguinha: “Se uma música não é contra nem a favor, ela é por inércia, a favor, o que lhe dá a dupla característica de alienada e alienante.”

Occuilatus Abis

Puxando a sardinha para a brasa caeté, na resenha sobre o álbum ‘Zabumbê-bum-á’, do bruxo de Lagoa da Canoa Hermeto Pascoal, o jornalista curitibano Roberto Muggiati, ao se referir sobre a Noite Brasileira do Festival de Jazz de Montreux, onde ele esteve presente e onde o Hermeto dividia o cartaz com Elis Regina, o jornalista revela e corrige um “erro”, sabe-se lá se proposital ou não, ao ressaltar que: “Em livros publicados depois, André Midani, Marcos Mazola e Nelson Mota – traídos pela memória – dizem que Hermeto “abriu” para Elis. Foi exatamente o contrário, nos dois shows: Elis foi o aperitivo e Hermeto o cartaz principal.”

Repleto de curiosidades, ‘1979 – O Ano Que Ressignificou a MPB’ veio para ocupar uma lacuna infindável, pelo tanto que é e pelo tamanho que tem e representa a música popular brasileira. Como diz Jorge Ben Jor, “occuilatus abis”. Ou seja, literalmente, o que vê bem deriva dele. Aliás, você sabia que o latim é uma língua que o Ben Jor domina? Pois bem, essa é mais uma revelação inesperada desse livro. Por fim, permita-me fazer um agradecimento público, ao meu querido amigo Célio Albuquerque, pelo convite generoso que me fez, quando dos primeiros passos desse belo e exitoso projeto. Aceitei com enorme prazer, todavia, por motivos de saúde, não pude cumprir o prazo de entrega. Porém, como o tempo não para, certamente, outros anos virão!

Serviço
1979 – O Ano Que Ressignificou a MPB, organização Célio Albuquerque
A venda nas principais livrarias virtuais e no site da editora www.garotafm.com.br
Preço médio, R$ 99,00

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Sentimentos de pesar

18 de setembro de 2023 5:34 por Mácleim Carneiro

Fátima Menezes: Instagram do Coretfal

Hoje, o canto coral alagoano, a cena musical de Alagoas e, sobretudo, o Coretfal, amanheceram silenciosos e tristes, com imenso sentimento de perda, pela passagem da maestrina e querida amiga Fátima Menezes.

Se a cena do canto coral em Alagoas é plural e quantitativa, muito se deve a maestrina Fátima Menezes, pelo seu constante empreendedorismo em busca da qualificação artística e musical, não apenas do Coretfal, mas de todo esse segmento.

Certa vez, ela afirmou:

“Ser maestrina é compartilhar a música, as emoções. É envolver todo mundo na melhoria das relações humanas, é crescer, aprender e ser melhor.”

Particularmente, sempre tive uma grande admiração por tudo o que ela era e representava.

Jamais esquecerei de quando, ao chegar ao aeroporto de Recife, vindo da Europa, encontrei com ela e o Coretfal, que também chegavam do velho continente, e ela gentilmente me ofereceu uma carona, no ônibus do coral, até Maceió.

Meus sinceros sentimentos de pesar, extensivos à toda família e ao canto coral alagoano, que teve na maestrina um alicerce fundamental para o que se construiu nesse segmento.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!!