Estado de Presença

3 de janeiro de 2026 2:27 por Da Redação

Mácleim Carneiro. Foto: Divulgação.

Por Mácleim Carneiro*

A Depois do Play acontece quinzenalmente e calhou que a última resenha de 2025 foi publicada antes do Natal. Sendo assim, só agora, na primeira semana de 2026, estamos fazendo a nossa singela prestação de contas aos nossos 14 leitores. Quem nos acompanha, sabe que eu não sou chegado a retrospectivas, listas troncas ou coisas do gênero, pois sou adepto do estado de presença, que implica no agora, sem olhar para o que ficou para trás e tampouco o que nos reserva o futuro. No entanto, essa minha elucubração aplica-se unicamente a um ponto de vista estritamente pessoal, jamais ao propósito do meu trabalho para a Depois do Play.

Impreterivelmente, em 2025, nossas resenhas vieram à luz com a precisão do cocorocó de um galo de terreiro anunciando um novo amanhecer. Propusemos aos nossos leitores e leitoras a possibilidade de conhecerem alguns álbuns de artistas e compositores, que não se encaixam no quadradinho mediocrizante dos canais da TV aberta e nem das rádios comerciais escravas do jabá. Dessa forma, tentamos não navegar no mar das mesmices vazias, que assolam o streaming e se reproduzem como gremlins, vendendo aos incautos e acríticos água com açúcar, como se fosse licor, num oceano de náufragos em profusão.

Outro Lado Da História

Assim sendo, a cada mês foram publicadas, no mínimo, duas resenhas sobre álbuns de artistas locais e de alhures. De tal modo, que tivemos 25 álbuns resenhados em 2025, sob a perspectiva de uma análise compromissada com a crítica desprovida de pessoalidade, onde o prazer da fruição, com atenção e respeito, foi a tônica para trazê-los ao conhecimento dos nossos leitores, sobretudo, como dicas de algo bom e partilhável. Na verdade, esse trabalho tem sido realizado a muitas mãos que, junto comigo, fazem a Depois do Play e fortalecem em mim a certeza de que ninguém é ou faz nada sozinho!

Contudo, dessa vez, quero fazer diferente e trazer, em forma de imensa gratidão, o outro lado dessa história: aqueles e aquelas que são a razão maior para continuarmos nessa faina. Refiro-me aos nossos leitores e leitoras singulares e especiais! Por isso, longe de qualquer cabotinismo besta, tenho a honra de partilhar alguns feedbacks, pela simples razão de que merecem foco e luz, pois, em 2025, a cada publicação da Depois do Play, vivificaram a brasa e a chama de que não estamos escrevendo ao léu, nem pregando ao próprio eco.

Sem Redundância

Portanto, agradeço imensamente à professora e contrabaixista Ana Rosa, que nos escreveu sobre a resenha do álbum ‘Canção do Mar do Silêncio’, do grupo Noise Viola, publicada em outubro de 2025: “Amei o Título (Mar do Silêncio Invertido), o tema e sua resenha, que me acrescenta e desperta a minha curiosidade de aprendiz”. Ao mestre Antonio Adolfo, que, do alto de sua gentileza, sempre tem um tempinho para nos dar um retorno. Ele escreveu sobre a resenha do álbum ‘Meu Pife Meu Amigo’, do grande Chau do Pife, publicada em setembro de 2025: “Que história maravilhosa a do Chau do Pife. Suas revelações são maravilhosas! Você é um embaixador da boa música, da música de Alagoas… Detalhe: gostei do “útero apolíneo” (Teatro Deodoro). Tenho vontade de ouvir todos esses músicos”!

De São Paulo, o querido Beto Privieiro, da Tambores Comunicação, nos escreveu sobre a resenha do álbum ‘Sambadeira’, da alagoana Telma César, publicada em dezembro de 2025: “Seu estilo prende a gente até o fim, impossível não ler. Pena que esses talentos alagoanos não sejam conhecidos por aqui. Ou eu não conheço. Meus ídolos ainda são os mesmos, acho que é isso”. Já o produtor carioca Carlão Andrade, comentou sobre a resenha do álbum ‘Carnaval’, do mestre Antônio Adolfo, publicada em julho de 2025: “Que beleza de resenha, companheiro. Sempre muito sensível e correta. Uma escrita fluente e agradável, sem jamais ser redundante”.

Mácleim Carneiro, obra do artista plástico Pedro Cabral.

Não Custa Sonhar

O músico e compositor paulistano Jean Karfunkel poetizou sobre a resenha do álbum ‘A Música em Pessoa’, publicada em dezembro de 2025: “Você sabe como ninguém sintetizar esse universo, que a informação sublima, deixando o coração suspenso nas entrelinhas”. O professor e compositor alagoano Luís Belo, nos retornou sobre a resenha do álbum ‘Obstrução Samba’, do Wado, publicada em agosto de 2025: “Excelente! Vou escutar com a curiosidade aguçada pelo texto”. O jornalista, compositor e parceiro José Luiz Pompe, opinou sobre a resenha do álbum homônimo da Lucy Muritiba, publicada em julho de 2025: “A prata da casa destilando brilhos! Brilhante também o texto que nos impulsiona a conhecer a obra”.

Quem, impreterivelmente, nos dá um feedback é o flautista e professor Mário Lima, que comentou sobre a resenha do álbum ‘Retirante Cósmico’, do guitarrista Rafa Moraes, publicada em novembro de 2025: “Mais um do aquário que você apresenta em forma de resenha bem desenhada. Gratidão por apresentar o ‘Retirante Cósmico’, como saga nordestina, que vale a viagem musical de pau-de-arara”. O médico e amigo Pedro Advincula escreveu sobre a resenha do álbum ‘Live in Frankfurt’, do Nelson Faria, publicada em junho de 2025: “Obrigado pelo seu texto/aula. Não custa sonhar, quem sabe um dia teremos em nosso país uma Frankfurt Rádio Bigband”? Por fim, pois o espaço é exíguo, a produtora e fomentadora cultural Weldja Miranda foi extremamente gentil, ao comentar sobre a resenha do álbum ‘Clareira’, do grupo Filpo e a Feira, publicada em outubro de 2025: “A Depois do Play me torna repetitiva, porque sempre afirmo e reafirmo sobre o que aprendo e conheço através de suas resenhas. Adorei a introdução poética, que me deu curiosidade de onde você queria chegar”.

Na verdade, não sei onde quero ou devo chegar, só sei que quero desejar um auspicioso Ano Novo, repleto de criações e inovações musicais, a todos e todas que interagiram e prestigiaram o nosso trabalho, aqui no jornal O DIA! Que em 2026 possamos, por meio do talento, criatividade e trabalho, fortalecer às Artes, à Cultura e à dignidade humana!

Nota desimportante, aos nossos 14 leitores e leitoras: em janeiro, darei merecidas férias de mim! Todavia, voltarei depois do carnaval, com novidades na Depois do Play.

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(*) Jornalista, músico, cantor, compositor e escritor

Dos livro que li

14 de dezembro de 2025 10:22 por Da Redação

Por Mácleim Carneiro*

 São 140 páginas que o leitor irá consumir em dois tempos, como quem reúne amigos e amigas em qualquer cidadezinha do interior, para uma tarde de prosa na calçada da porta de casa, acomodados naquelas cadeiras de balanço coloridas, feitas de fios de plástico que parecem macarrão, curtindo a brisa e o tempo moroso. Este livro é tão leve e saboroso, que dá até para imaginar, entre um assunto e outro, um pastelzinho de fubá, como aperitivo.

É assim que se desenvolve a prosa do autor e jornalista Marcelo Firmino, num tom coloquial, com a simplicidade envolvente de quem vivenciou os fatos narrados por ele. Porém, apesar do seu protagonismo, o autor não carrega um pingo sequer nas cores da arrogância nem do cabotinismo, tão comuns à certas autobiografias. Pelo contrário, os acertos e desacertos, narrados na primeira pessoa, adquirem tons absolutamente semelhantes, na medida em que o autor relata os fatos de maneira isonômica, sejam êxitos ou rebordosas.

Registro Iconográfico

Os causos narrados por Marcelo Firmino obedecem a uma cronologia apropriada e vão formatando sua evolução profissional, dentro e nos meandros do jornalismo em Alagoas. Sobretudo, numa época difícil para o exercício dessa profissão, onde a liberdade de expressão era duramente cerceada por uma cruel ditadura militar, que ceifou vidas e vozes.

Outra abordagem expressiva deste livro é o mister prestado por Marcelo Firmino à memória de alguns dos maiores ícones do jornalismo alagoano, na figura de, por exemplo, Dênis Agra, Freitas Neto e tantos outros. Homens e mulheres que alicerçaram a construção do sindicalismo e da luta de classe por direitos meritórios a essa profissão tão significativa à “formação da consciência cidadã e responsabilidade social”.

Além disso, em o ‘Gato Gordo Além do Telhado’, iremos encontrar algo que já não existe mais: a descrição, por meio dos fatos, do clima, da camaradagem e algumas discórdias, é claro, que fervilhavam o ambiente das redações dos jornais e demais veículos de comunicação do aquário. De quebra, Marcelo Firmino ainda nos oferta um belo e importante registro iconográfico, com alguns momentos e personagens que fizeram a história e o brilhantismo do jornalismo alagoano da era moderna.

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(*) Jornalista, cantor e compositor.

Dos livros que li

30 de novembro de 2025 11:32 por Da Redação

 

Por Mácleim Carneiro

O Silêncio das Tartarugas: e outras crônicas para desacelerar (Hayton Rocha)

 

A crônica é um gênero literário muito interessante! Entre outros predicados, ela é essencialmente personalística, e não estou me referindo unicamente ao estilo de cada autor. Essa característica imprime personalidade autoral, evidentemente, porém, a crônica tem algo que vai além e diz muito mais sobre quem a escreve do que o que foi escrito. É como alguns instrumentos e seus músicos geniais, fica fácil saber quem é quem pela embocadura e expressão do saxofonista, ou pela mão direita do violonista…

 

Recentemente, ao tecer comentários sobre o livro de crônicas do Ricardo Mota, ‘Da Buarque de Macedo ao dia seguinte’, escrevi que entendia o Brasil como um país ainda tolerável, porque somos muito bem servidos de bons cronistas. Se eu fosse citar alguns, mesmo que fosse só os geniais, iria cair numa falha de memória imensa. Hayton Rocha, autor de ‘O Silêncio das Tartarugas’ (editora Astra), foi uma daquelas boas surpresas, com absoluta condição de ratificar o meu ponto de vista.

 

Ler, num curto espaço de tempo, praticamente num fôlego só, um cronista após o outro, clareou-me a percepção sobre essa questão personalística, que envolve a crônica e seus autores. Então, não foi difícil identificar o quanto foi perceptível da personalidade de um e do outro. Embora, a variedade de assuntos seja imensa e infinita, como escreveu o genial e inesquecível Luís Fernando Veríssimo: “A principal matéria-prima para a crônica são as relações humanas. O modo como as pessoas se amam, se enganam, se aproximam ou se afastam num ambiente social definido. Ou qualquer outra coisa”.

 

Em cada um dos cinco temas (Silêncio e sonhos; Memória e raízes; Encontros e ironias; Crítica ao convívio social e Visões e reflexões), que o autor apresenta em ‘O silêncio das tartarugas’, o leitor irá encontrar pitadas de humor, reflexões a partir do seu empirismo profissional, 10 excelentes conselhos para uma vida saudável e tranquila, dados por uma operária do sexo aposentada, uma dúzia de arquétipos que servem como carapuças a qualquer um e, sobretudo, muitas citações musicais, que arejam as crônicas e contextualizam épocas e conceitos, como só a boa música brasileira sempre foi capaz de ofertar. Aliás, como escreveu William Shakespeare: “A arte é o espelho e a crônica da sua época”.

 

Rubens Braga foi perfeito ao brincar com o conceito da palavra ‘crônica’ e o seu duplo sentido: para doenças e para o gênero literário. Escreveu ele: “Se não é aguda, é crônica”. Neste caso, ‘O Silencio das Tartarugas’ é crônica e das boas, sim senhor!

 

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Dos livros que li

Por Mácleim Carneiro 

O São João em Alagoas: De festejo pré-moderno a espetáculo pós-tradicional (Bruno César Cavalcante)

 

Aos que percebem e são críticos do que se tornou, ou foi levada a tal condição, as festas juninas em Alagoas, sobretudo, no aquário da era Jotaglacê, em apenas 77 páginas, Bruno César Cavalcante nos oferta argumentos analíticos, históricos e esclarecedores, para que possamos entender como chegamos até essa bagaça excludente do entretenimento mercadológico eleitoreiro.

 

A partir deste livro, ficará fácil fundamentarmos todo o nosso empirismo retórico e a insatisfação com a descaracterização das festas juninas no aquário.

 

Portanto, trata-se de um livro fundamental para pessoas como eu, que, apesar de não ser um saudosista e muito menos conservador, percebo claramente o proposital esgarçamento cultural de algumas tradições inerentes à essa época festiva, tão significativa para o povo nordestino.

 

Bruno César, por meio de várias referências literárias e obras documentais, volta até o século XIX e, a partir de lá, começa a desvendar todas as características desses festejos que, através dos tempos, foram sofrendo transformações e até mesmo sucumbindo, como práticas dessas festas. A exemplo das batalhas de fogos e busca-pés, que já foram a atividade central dos festejos juninos.

 

Outro ponto importante, que o autor traz à luz, é a questão da tradicionalidade “não passar de uma discursividade de motivações políticas e eleitoreiras imediatas, distante de espelhar um programa de política cultural, ou seja, da elaboração de um produto cultural próprio a ser estimulado e promovido.”

 

E nos revela, por meio do sociólogo britânico Anthony Giddens, que “as tradições são sempre propriedades de grupos, comunidades ou coletividades”, e que “as tradições não são uma característica do comportamento individual do modo como os hábitos o são.”

 

Após demonstrar como os coletivos artísticos são relegados a um segundo plano ou até mesmo excluídos da circularidade cultural, inclusive geograficamente, o autor afirma, categoricamente: “como tal, são incapazes de fazer frente à forma autocrática de gestão pública na esfera institucional das políticas culturais.”

 

Por fim, foi extremamente prazeroso ratificar o que escreveu o professor Rafael de Oliveira, sobre a prosa do autor, no prefácio de ‘O São João em Alagoas’: “Seu estilo narrativo consegue deixar explícitos os processos políticos, econômicos e sociais que deram alicerce às transformações vivenciadas pelas festividades juninas; sua prosa produz imagens que evocam memórias afetivas nos leitores.” O livro já está na praça e foi lançado durante a 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, pela Edufal.

 

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Obrigado Campeão

15 de setembro de 2025 7:53 por Da Redação

Mácleim Carneiro e Hermeto Pascoal. Foto: Cortesia.

Por Mácleim Carneiro*

Não por mera coincidência, temos a tendência em associar a palavra “gênio” aos grandes nomes do passado, porque, de fato, suas obras foram e serão eternas e geniais.

 

No entanto, raramente temos essa mesma possibilidade de nomenclatura para criadores contemporâneos, sem cair na banalidade desmedida dessa expressão, tão imprecisa hoje em dia.

 

O Campeão, o Mestre, o Bruxo de Lagoa da Canoa foi uma rara exceção.

 

Hermeto Pascoal foi a prova viva de que ainda podemos identificar gênios contemporâneos.

 

Não, não cheguei a fazer parte do círculo de amizades do genial alagoano Hermeto Pascoal. Embora, todas às vezes em que nos encontramos, ele alegremente me chamava de conterrâneo.

 

Porém, tenho a honra e o privilégio de, agora, diante da realidade de sua partida, poder relembrar de alguns bons momentos de interação com esse ícone da música mundial.

 

Momentos aqui no aquário, onde tive a oportunidade de entrevistá-lo (foto), por mais de uma vez, ou quando participamos do Programa do Jô e depois de um show no Centro Cultural São Paulo.

 

Ou até mesmo em sua residência, no Jabour, onde ele me contou que, após a apresentação no Jô, onde tocamos a música Internet Coco, as pessoas falavam para ele: “Hermeto, gostei daquela música sua, que você tocou com aquele pessoal de Alagoas”. Então, ele me disse que respondia: “Não, aquela música não é minha”. E completou: “Mas se estão achando que a música é minha é porque a música é boa”.

 

Terei sempre a lembrança física do genial Hermeto, todas às vezes em que eu tocar o meu Takamine, made in Japan, que adquiri dele, após ele ter trazido de uma de suas turnês pela Terra do Sol Nascente.

 

Todavia, paradoxalmente, não procurarei lembrar do Campeão, do alagoano genial, pois, como ele mesmo disse, em uma fala que tenho gravada na abertura da música Batuta, no disco Internet Coco: “Eu nunca esqueço disso porque não procuro lembrar. Quem procura lembrar é porque já esqueceu”.

 

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(*)É jornalista, músico, cantor e compositor

Refestelança na Taboca

13 de setembro de 2025 3:46 por Da Redação

 

Por Mácleim Carneiro* 

Nas comemorações dos 107 anos do Teatro Deodoro, em 2017, o Patrimônio Vivo de Alagoas, Chau do Pife, lançou, no palco do grande útero apolíneo, o álbum ‘Meu Pife, Meu Amigo’. Era o 4º álbum deste artista talentoso e músico intuitivo que, aos 55 anos de carreira, há muito ninguém mais o conhece como José Prudente de Almeida. Contudo, todo mundo conhece a história desse artista popular e seus detalhes pitorescos. O que talvez poucos saibam é a origem do apelido Chau. De acordo com ele, “tinha um senhor já de idade, no município de Boca da Mata, dessas pessoas que andam pelo mundo só, aí o nome dele era Chau. Aí tiraram o nome dessa pessoa e botaram o nome em mim. Era Zé do Pife e aí ficou Chau, e não teve jeito mais.”

 

Particularmente, acredito na possibilidade da existência de uma genética musical, de uma carga de ancestralidade, sobretudo, em músicos de tamanha expressividade e musicalidade à flor da pele, como é o caso do Chau do Pife. O pai dele tinha uma banda de pife e tocava nas novenas do interior de Alagoas. Portanto, o mestre que ele hoje é, tem origem embrionária. Arrisco supor que ele sempre foi assim, desde o começo, um exímio encantador das tabocas de sete furos. Ele nasceu para isso e cresceu sabendo que apenas a vida seria sua escola evolutiva, pois os deuses da música já haviam lhe concedido o sopro e o dom apolíneo.

 

Fiéis Escudeiros

 

Neste disco, musicalmente falando, temos o mais do mesmo de sempre. Só que o mais do mesmo, em se tratando de Chau do Pife, é refestelança, daquelas de você botar o disco para tocar do começo ao fim e se deixar levar Nordeste a dentro, pelo encantamento sonoro do Mestre das duas oitavas. Ou deitar numa rede, amanhecendo o dia, ligar o radinho de pilha e ouvir qualquer um dos temas de ‘Meu Pife, Meu Amigo’, vendo o tempo passar suwingado e embalado pela simbiose perfeita entre os amigos em questão e o cheiro do café coado direto no bule.

Tchau do Pife. Reprodução

Ressalte-se que ele está muitíssimo bem acompanhado por alguns dos seus fiéis e não menos talentosos escudeiros de outras e tantas jornadas, como Irineu Nicássio e o já saudoso Xameguinho (acordeon), Naldo Buchudo (zabumba), Xexéu (triângulo), Pezão (cavaquinho) e o bamba Van Silva (contrabaixo). Temos aí uma formação que vai além do clássico trio convencional que, a rigor, é tudo o que o Mestre precisa. Ocorre que a sonoridade alcançada se adequou à musicalidade do Mestre, e proporcionou a cama sonora e o conforto para que ele pudesse deitar e rolar nas 12 faixas do disco. E assim, em ‘Meu Pife, Meu Amigo’, abriu-se uma janela auditiva para os caminhos do forró pé de serra, forró repenicado, xote e até um samba de latada, nos moldes refinados de Josildo Sá.

 

Música Virtuosa

 

Em todo o projeto gráfico, não há referências a qualquer patrocinador, mecenas ou coisa que o valha. Subtende-se, pois, que o esforço para realização e produção deste trabalho coube ao artista. Portanto, conjeturo que as dificuldades, sobretudo financeiras, devem ter sido enormes! Então, a partir dessa premissa, cabe um questionamento: é incompreensível que um artista tão significativo para a cena musical de Alagoas, ao se propor fazer um novo álbum físico, cuja formatação engloba não apenas a parte musical, mas também arte gráfica, não ter, por merecimento, um cuidado caprichoso de uma expertise profissional que lhe proporcionasse um projeto gráfico relativo à sua música. Até porque, ele já recebeu tratamento caprichado anteriormente, por exemplo, no álbum ‘Ninguém Anda Sozinho’.

Tchau do Pite. Reprodução

Chau do Pife merecia pacote completo! Sua música, de tão rica e verdadeira, desequilibra o todo e revela, sem querer, que o invólucro de um produto que ficará como legado à posteridade, não teve o devido cuidado estético à altura de um grande artista. E não se trata de querer muito, porque o muito será sempre a música virtuosa deste músico iluminado. O próprio Chau sabe disso, quando diz: “A pessoa não é feliz só por dinheiro, a pessoa é feliz amanhecendo o dia.”

 

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Serviço

MEU PIFE, MEU AMIGO

Disco físico: pelo fone (82) 996961007 e pelo Mercado Livre.

(*) É jornalista, músico, cantor e compositor

Sincretismo das Canções

19 de agosto de 2025 12:12 por Da Redação

Divulgação

Por Macléim Carneiro* 

Bem no comecinho dos anos 2000 eu procurei o meu primo Juninho, leia-se Sonic Jr., para trabalhar no que seria um primeiro esboço do álbum Esses Poetas. Durante o processo, compreendi que aquela linguagem dos bits eletrônicos, que o Juninho dominava como ninguém, não seria adequada à proposta das poesias musicadas. Porém, é daquela época, que tomei conhecimento do artista Wado, por meio de um simples comentário do Juninho: ”você conhece o trabalho do Wado? Esse cara vai dar o que falar!”

A previsão do Juninho não poderia ter sido mais certeira. Aliás, muito mais do que dar o que falar, Wado nos deu o quê ouvir! Com o recente lançamento do álbum ‘Obstrução Samba’, são 16 álbuns lançados em 24 anos de carreira. Ou seja, desde quando em 2001 ele trouxe à luz o ‘Manifesto da Arte Periférica’, botando as cartas na mesa e respaldando a bola de cristal do Juninho, temos uma perene e prolífera produção musical do catarinense radicado no aquário. E, como se não bastasse, ele ainda tem atuado como artista visual, realizando três exposições exitosas.

Nicho da Maturidade

Apesar de geograficamente estarmos na mesma latitude, só agora, resenho um álbum solo dele. Não que a sua música tenha passado despercebida por mim, ao longo do tempo. Não foi isso! Gosto bastante de alguns álbuns e canções de sua lavra. Por exemplo, gosto da sonoridade formatada para o álbum ‘A Farsa do Samba Nublado’, lançado em 2004, que tem na música ‘Tormenta’ uma pedra angular, com toda a força do riff rítmico e sua poética escatológica. Da mesma forma, gosto do álbum ‘Coração Sangrento’, Wado e Zeca Baleiro, resenhado recentemente para a Depois do Play. Porém, a orbe e o apelo estético dos álbuns lançados por ele, ao longo de sua carreira exitosa, não me credenciavam a opinar sobre algo que eu não tinha intimidade fruitiva, sem arriscar incorrer em erros de avaliação, por absoluta falta de referências e traquejo com o gênero e linguagem da música feita por este compositor tão singular!

 

Dito isto, só agora resolvi aventurar-me ao universo do seu novo álbum ‘Obstrução Samba’, porque entendo ter, a meu favor, o fato de já poder encontrar ferramentas no amadurecimento profissional e pessoal, bem como perceber que, assim como o seu público amadureceu cronologicamente, a música feita por Wado também se adequou ao novo nicho da maturidade. Mesmo assim, é um instigante desafio, pois sou um sujeito da primeira pessoa analisando o trabalho de um artista que costuma referir-se a si mesmo na terceira pessoa. Ou seja, não terei a facilidade do autodistanciamento pessoal.

 

Encadeamento Sonoro

 

Como sou alguém que tem ao menos um dos pés no século passado, trago comigo uma percepção de espaço e tempo um tanto analógica, digamos assim. Portanto, eu diria que esse é um álbum que leva em conta o imediatismo fugaz do streaming, das redes sociais e suas audiências, onde parece ser impróprio e fora de padrão a audição de algo que alcance, por exemplo, “excêntricos” três minutos de áudio ou dois parágrafos de texto. Como Wado parece ter traquejo, bom tráfico e sabe lidar com esses ambientes multimídias, sabiamente, nenhuma das faixas vai além de módicos 2 minutos e 45 segundos, e quase a metade delas tem pouco mais de 1 minuto. Logo, é um álbum absolutamente sem excessos e sintético, no sentido da escolha dos synths utilizados pelo alagoano Jair Donato, como encadeamento sonoro, que proporciona unidade e coerência entre as canções.

 

Todas as dez faixas são parcerias com o compositor mineiro Momo, que fez parte, assim como Wado, da primeira formação da banda Fino Coletivo. São músicas de espírito festivo, que nos remete a rituais sincréticos e formatam um trabalho solar e alegre por essência. Aliás, o próprio Wado declarou: “Esse é, sem dúvida, o meu melhor disco em muitos anos. É alto-astral, dançante, feito para a galera curtir e gastar sandália.” Wado foi gregário e trouxe para todas as músicas, participações especiais: Fábio Trummer (banda Eddie), Marina Nemesio, João Menezes, Junio Barreto, Priscila Tossan (ex AfroReggae), Janu, Alvaro Lancellotti (Fino Coletivo), Rogerio Dyaz e Adriano Siri (Fino Coletivo). Eles e elas traduzem um elenco plural, porém, bem dosado, assim como as levadas que vão do Ijexá e frevo baiano, passando por sambafunk, sambalanço, marchinha e até uma ciranda interrompida, formatando e dando vida à cartela de cores quentes e diversas, que constituem o mosaico colorido e sonoro deste instigante e coeso trabalho.

‘Obstrução Samba’ acrescenta ainda mais lógica ao DNA musical que Wado tem fortalecido ao longo de sua carreira. De acordo com ele, esse título foi inspirado no documentário ‘As Cinco Obstruções’, dos cineastas dinamarqueses Lars Von Trier e Jørgen Leth, que, em sua essência, mostra o desafio e a tarefa de refazer o que foi feito, cada vez com uma “obstrução” ou obstáculo diferente. Porém, ao contrário do que o título do álbum sugere, aqui, o samba foi desobstruído da obrigação em manter-se fiel à tradição, capaz de engessá-lo ao feitio originário. Neste trabalho, o samba e suas derivações ficaram livres e reestruturados para assumir o jeito Wado de fazer e refazer o que lhe é natural.

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Serviço
Obstrução Samba, Wado
Plataformas digitais: Spotify, Apple Music, Deezer, Tidal, Amazon Music e Youtube Music

 

(*) Macléim é jornalista, cantor e compositor. 

Novela da Globo

1 de julho de 2025 6:25 por Da Redação

 

Reprodução

Por Mácleim Carnerio*

Lá, nos meados dos anos 1980, três jovens senhores se reuniram para ensaiar uma apresentação que fariam no Circo Voador. Um, era baixista. O outro, percussionista. O terceiro, era o canário do trio e gerente de um estúdio de ensaios. O ensaio foi marcado para acontecer numa tarde modorrenta de um sábado carioca, onde o samba corre solto nos botequins, faça chuva ou faça sol.

Pois bem, assim que o baixista chegou, ainda nervoso e apreensivo, foi logo contando que havia sido parado numa blitz da PM e que os policias ficaram desconfiados da bag do seu contrabaixo. Provavelmente, achando que nela poderia ter um fuzil. O que não era nada difícil de imaginar, pelas características do baixista e da bag.

Enquanto escutava os detalhes do ocorrido, o percussionista tirava de um pote um tanto de cannabis sativa e construía um pujante baseado, para o trio abrir os chacras e o ensaio rolar psicoativo e fluentemente flutuante. Quando os três já estavam finalizando o processo das tragadas profundas e fumegantes, eis que toca o interfone do estúdio.

Surpresos com a intercorrência, pois naquele dia o estúdio só seria usado por eles e, além disso, o estúdio situava-se na última casa de uma rua sem saída, portanto, só ia lá quem tinha o que fazer, imediatamente, rolou um clima de suspense no ar. Diga-se de passagem, já bastante afumado e denunciador. Na posição de gerente do estúdio, o canário da banda foi atender ao interfone. Segundos depois, um tanto aflito e assustado, anunciou: É a Polícia!

Reprodução

Criou-se um caos instantâneo, elevado à potência dos efeitos primitivos da cannabis. A primeira providência foi abrir todas as janelas, enquanto o percussionista, desesperadamente, jogava o seu precioso potinho num resto de Mata Atlântica, que margeava o estúdio. Por sua vez, o baixista, também desesperadamente, espargia em profusão um spray de Bom Ar em todo o ambiente e repetia nervoso: “Tá vendo, eles vieram atrás de mim. Eles vieram atrás de mim!”

Providências tomadas, o gerente tentava manter a calma, pois era ele quem iria subir a extensa rampa, que dava acesso ao estúdio, para falar com os policiais que o aguardavam na rua. Foi o mais longo trajeto da sua vida. A cada passo ele torcia para que o vermelho nos olhos ainda não fosse suficiente o bastante para denunciá-lo de vez. Sem falar nas consequências trabalhistas. Finalmente, ele abriu a porta e deu de cara com dois policiais e uma viatura, para o seguinte diálogo:

– Boa tarde, pois não…
– Boa tarde, senhor! É aqui que vai ter a gravação de uma novela da Globo?
– Aqui? Não!
– É que nós temos uma solicitação da Rede Globo, para interditar essa rua.

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(*) É jornalista, cantor e compositor 

O cheiro precede a torta

21 de junho de 2025 9:17 por Da Redação

 

Marcos Suzano e Fred Martins. Foto: Divulgação

 

Ouvi a expressãoum mais um é sempre mais que dois’, pela primeira vez, na canção ‘Sal da Terra’, que está no álbum ‘Contos da Lua Vaga’, lançado em 1981 pelo Beto Guedes. Portanto, lá se vão mais de 40 anos que concordo plenamente com essa frase acertada, sobretudo, porque alguns artistas brasileiros, como é o caso do Fred Martins e do Marcos Suzano, ao dualizarem seus talentos em musicalidade, ratificam com sobra a assertiva do mineiro de Montes Claros.

Aliás, Marcos Suzano tem histórico e know how em protagonizar álbuns duo, com artistas que dominam seu instrumento de ofício. Acho até que ele tem olho clínico para tal, pois não é à toa que o álbum ‘Olho de Peixe’, Lenine e Marcos Suzano, lançado em 1993, é um belíssimo exemplo do amálgama entre elementos e signos da percussão brasileira com o violão, um instrumento rico em harmonias e também percussivo. Seguindo essa trilha exitosa, o álbum ‘Barbarizando Geral’, Fred Martins e Marcos Suzano, lançado pela Biscoito Fino, já nasceu antológico e jamais envelhecerá.

Violão da Pesada

Antes de tecer comentários específicos sobre este belíssimo trabalho, nada melhor do que colher e trazer depoimentos dos protagonistas: Fred Martins declarou que este álbum foi inspirado nas “catástrofes civilizatórias que a gente está vivendo intensamente, que foram ficando claras e mais nítidas, não só no Brasil, mas no mundo inteiro”. Quanto ao conceito sonoro do álbum, ele afirmou: “Eu quis usar um violão dos anos 1960, que é um violão que identifica a música brasileira, que o João Gilberto usou, que o Baden usou, que muita gente usou e que é essa sonoridade clássica e frágil da bossa e da MPB. Esse violão que se adapta à percussão, porque ele tem pouco médio. Eu quis trazer essa ideia de uma certa tradição formada a partir da bossa, que se junta e se casa com esses sons raros que o Suzano traz, que cria um mundo amoroso com a tradição, mas também vendo as coisas de hoje”.

Por sua vez, Marcos Suzano corrobora a fala do Fred e acrescenta: “Principalmente, quando é um violão bem tocado. Para mim, é fácil. A única questão que se apresenta é procurar uma sonoridade que não seja datada, tão tradicional, mas que tenha um toquezinho. Eu dei sorte, porque o Fred toca um violão da pesada”. Pegando o fio da meada, Fred Martins arremata: “Os mais jovens não estão tendo acesso a essa inteligência acumulada do tempo, e o tempo é o senhor das coisas e dos saberes. Na música não é diferente! Eu me tornei mais brasileiro quando saí do Brasil. A gente tem uma coisa que identifica o Brasil, para nós e para o mundo, que é a música popular. É muito forte! É um pouco um dever manter essa chama acesa”.

Guernica Escatológica

Esclarecidas causas e efeitos, ‘Barbarizando Geral’ é a prova inequívoca de que Fred Martins, desde o álbum ‘Guanabara’ e depois o belíssimo ‘Ultramarino’, vem depurando sua música e se autodepurando, como se fora um vinho alentejano ou da Rioja, latitudes nas quais ele e sua música têm encontrado abrigo, desde que em 2010 cruzaram a ponte Rio-Niterói e deixaram o Brasil, rumo à Europa. Desde então, Fred Martins tem produzido uma música extremamente contemporânea, sem a necessidade de ser rotulada.

Como diria o cartunista romeno Saul Steinberg, ”a arte precede a técnica, assim como o cheiro precede a torta”. Portanto, impregnado dessa lógica, está o álbum ‘Barbarizando Geral’, que em dez faixas revela o quanto o que lhe precede está implícito ao presente e inexoravelmente ao futuro. A começar pela capa, com desenhos do próprio Fred Martins, uma espécie de Guernica escatológica e monocromática, onde, certamente, a arte precede à técnica. Além disso, as letras das canções são crônicas críticas e bem-humoradas, porém, certeiras e diretas ao cerne das questões políticas e sociais, que tecem e revelam a cena contemporânea do Brasil e alhures.

Escrachada Ironia

A faixa que abre os trabalhos e o titula, ‘Barbarizando Geral’ (Fred Martins), é a mesma na qual Fred Martins chama para si toda a responsabilidade do samba e sua fala, a começar pela introdução do violão limpíssimo e muito bem executado pelo compositor. Ele, de cara, avisa: “Com tanta gente crente / Que cretinamente é contra o diferente / Os velhos ratos do mercado vão seguir barbarizando geral.” Em seguida, o introspectivo bandoneón de Marin Sued, em ‘Além do Qualquer’ (F. M. e Manoel Gomes), logo na introdução, mostra-nos que não se trata de um samba qualquer! Daí a percussão de Suzano resolve muitíssimo bem, em prol dessa compreensão.

Em ‘Senzala’ (F.M. e André Sampaio), os timbres dos teclados de Sacha Ambak tencionam ainda mais as impossibilidades geradas pelo sofrimento e covardia das taras brancas, e o banzo dos atabaques da introdução nos alerta para um dos mais belos momentos desse trabalho, em polirritmia, melodia e emoção! Na sequência, como para amenizar a dor, a fina e escrachada ironia acontece no samba ‘Ahmed’ (F.M. e Roberto Bozzetti), que tem a participação especialíssima do MPB4, escolhidos a dedo, para ilustrar a letra inteligente e bem construída, onde, sonora e tacitamente, ratifica toda a importância histórica do grupo vocal para as canções buarquianas. ‘Dois Chicos’ (F.M. e Roberto Bozzetti) dá prosseguimento à parceria, ao samba e ao tema anterior: Chico Buarque de Holanda.

Crônica De Uma Época

Nada como uma debochada marcha-rancho, para pôr na roda ‘Aquele demônio / De nome Messias’. Assim é ‘O Rancho da Seita Suicida’ (F.M. e Marcelo Diniz), que, sem subterfugio, aponta o dedo para o rei nu: Um bloco macabro suicida / Desfila na rua / Na epidemia / Na frente vai o genocida. Ressalte-se o auxílio luxuoso de um aprazível cânone, no belo timbre e participação especial da cantora brasileira, radicada em Lisboa, Nani Medeiros. Sim, a música compromissada com a arte também funciona como retrato e crônica de uma época e circunstância. Assim é o samba lascivo de ‘Madame Maldade’ (F.M. e Roberto Bozzetti), em sua crítica muitíssimo bem-humorada, sobre a soberba e preconceitos de uma classe dominante, que foi escancarada nos últimos tempos de mitos, rebanhos e o seu legado infame, em verde e amarelo.

Abalou’, ‘Este Amor Tem Nome’ e ‘Trama’ são as três últimas pérolas, que finalizam este belíssimo trabalho da maneira que começou. Ou seja, com Fred Martins assinando a plena autoria dos sambas e chamando para si não só a responsabilidade do que nos oferta, mas também todos os aplausos e reverências para mais uma obra imprescindível à credibilidade da música brasileira e à ‘desarrazoada razão’.

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Barbarizando Geral, Fred Martins e Marcos Suzano
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Saudade, Força e Fé

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Se você sair às ruas e perguntar a qualquer transeunte de quem é ‘Morena Tropicana’, ‘Pelas Ruas Que Andei’ ou ‘Cabelo No Pente’, de imediato terá a resposta: Alceu Valença! Sim, a resposta estará correta, porém, certamente, o nome Vicente Barreto, parceiro em todas elas, não será citado. O que me lembra de certa vez em que fui assistir a um show do Flávio Venturini e, na minha juvenil ignorância, fiquei surpreso ao saber que Espanhola era de sua autoria. A minha falta de conhecimento tinha como base a desinformação proposital do principal veículo difusor de música, à época, o rádio. São raríssimas exceções, os locutores que anunciam a autoria das canções. Nas rádios comerciais, isso nunca acontece e a justificativa, de tão absurda, chega a ser uma excrecência!

Pois bem, o fato, é que, vivemos num país de deslembranças, onde alguns compositores nascem, produzem e morrem sem serem reconhecidos pela obra que criaram. Não creio que esse seja, explicitamente, o caso do compositor Vicente Barreto, mas é fato que algumas de suas canções são creditadas muito mais aos seus intérpretes e parceiros. Toda essa digressão foi apenas um preâmbulo afirmativo, para demonstrar que compositores da linhagem de Vicente Barreto são tão importantes e significativos ao cancioneiro desse país, como a essência do que eles representam. ‘Na Força e na Fé’ é o 13º álbum de uma carreira exitosa, que posiciona Vicente Barreto de volta às origens e raízes nordestinas, legitimando o fato de que sua música é substanciosamente forte e vital, como um vicejante roçado de mandioca, que afiança alimento, sustança e vida! Esse retorno ao que lhe é cerne, certamente, passou pela afetividade ao que lhe é caro, insubstituível e importante. Daí, as parcerias escolhidas e, sobretudo, a entrega da produção e arranjos ao seu filho Rafa Barreto.

Dimensões Sensoriais

Se é fato que Vicente Barreto frequentava as feiras da pequena Serrinha, no interior baiano – assim como eu também frequentava em Murici –, para ver e vivenciar as apresentações de cantadores de embolada, violeiros repentistas e trios de forró, então, a partir de agora, terão eco as sensações indescritíveis e de puro aprendizado e deleite, compreensíveis aos que, empírica e afortunadamente, vivenciaram-nas sob toldas coloridas e o sol inclemente, que torrava o cocuruto, mas abria infinitas dimensões sensoriais, para o resto da vida e formação musical dos que tiveram a felicidade e a riqueza de uma vida interiorana!

Pois é com o xote “ajustadinho”, ‘Na Força e Na Fé’ (Vicente Barreto e Sonekka), que Vicente dá título a esse precioso álbum e abre os trabalhos falando de saudade, para fazer uma leitura do ponto de partida ao ponto de chegada. Tal leitura, parece ser autodescritiva, mas o interessante é que foi feita sob medida, pelo parceiro Sonekka, que, de cara, já sai na frente para uma possível biografia do baiano de Conceição do Coité. Como num daqueles arrasta-pé em casa de taipa e chão batido, onde a pinga de alambique é só o que tem de beber, e vai direto da goela ao fogo ardente dos possuídos, Vicente sobe um tantinho o andamento, logo na segunda pedra cantada, e traz a participação especial do mestre Mestrinho (perdoem-me a redundância) cantando e ao acordeon, com um quê da expressão saudosa do também mestre Dominguinhos. Estamos em ‘Ziguezague’ (Vicente Barreto e Zeca Baleiro), onde a letra é bem clara: “Quem tem que vagar que vague”.

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Alheios ao Purismo

 

Zeca Baleiro também assina a parceria em ‘Êh Flor’ e ‘Saudade de te Ver, Paraíba’, sempre com letras inteligentes e algumas brincadeiras semânticas, criando boas surpresinhas. Em ‘Saudade de te Ver, Paraíba’, Baleiro protagoniza o canto com Vicente Barreto e faz uma entrada triunfante, numa sequência melódica cromática, ponto alto do xote. Dando encadeamento à prazerosa audição, vem ‘Sementes do Baião’ (Vicente Barreto e Zeh Rocha), cuja letra meio que anuncia uma rabeca no porvir: “A sanfona, a rabeca e a zabumba / A semente do baião se espalhou”. Logo em seguida, ela acontece e é Rafa Barreto rabequiando com intimidade de fazer inveja aos saudosos mestres Nelson e Salustiano.

‘Falando Sério’ (Vicente Barreto e Renato Teixeira), fala de quereres e, sonoramente, diz que é possível sons alheios ao vernaculismo do que se convencionou chamar de pé de serra, onde cabe sim guitarrinhas, samples e efeitos. Já passamos pela metade da viagem proposta por esse belo trabalho, quando a introdução do acordeon de Mestrinho, em ‘Pelas Ruas Que Andei’ (Vicente Barreto e Alceu Valença), sugere um ponto de inflexão no álbum, daquelas que valem ingresso, porém, o ritmo chega rapidinho, certamente, morrendo de inveja do poder que lhe precede. Ressalte-se a participação de Alceu Valença, que é puro respeito ao parceiro, sem se utilizar dos floreios e arroubos interpretativos facilmente encontrados em sua obra.

Influência Moura

Para todo nordestino orgulhoso e saudoso de sua origem, não há como expressar melhor a palavra saudade do que com um (aiiii) bem comprido e alongado, precedendo o substantivo feminino. Isso fica claro em ‘Ilusão Retada’ (Vicente Barreto e Chico César), cuja bela melodia tem, na terça neutra e em outros recursos da influência moura na música regional nordestina, uma dolência melódica que nos conduz até ao refrão, onde o (aiiii) é quase um aboio. Do mesmo modo que iniciou os trabalhos, o álbum finda com mais uma profícua parceria entre Vicente Barreto e Sonekka. ‘Só eu e o Sol’ meio que repensa tudo e admite que não há o que se arrepender do caminho trilhado: “Simbora pro mar, melhor deixar desses cafundó / Quem sabe por lá o amor, pra não ser mais só eu e o sol”. Vai ver que, por isso mesmo, o xote ganhou um swing especial, com direito a congas e uma guitarra um tantinho mais pesada.

Deixei para comentar sobre a capa desse belo álbum por último, pois parece uma pintura, um ato de contrição de fé, sem remissão de pecados. Certamente, é gratidão pela graça de ser quem se é: Vicente Barreto, ato contínuo dos deuses apolíneos a semear belezuras ‘Na Força e na Fé’.

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Na Força e Na Fé, Vicente Barreto
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Mioglobina d’alma

30 de março de 2025 5:31 por Mácleim Carneiro

Reprodução

Quando dois compositores, que produzem com proficiência e abundância impressionantes, unem-se para lançar um álbum em comum e agregar valor à vasta lista de trabalhos lançados individualmente, temos uma fórmula bastante eficiente em acertar o alvo e suas possibilidades exitosas! Ambos, com pouco mais de 20 anos de carreira, acumulam lançamentos individuais que, se somados, tem-se quase que o dobro de anos relativos às suas trajetórias. É claro, que a dinâmica do caminho perene do catarinense mesoalagoano Wado e do maranhense Zeca Baleiro, sem chances para hiatos ou hibernações sazonais, gerou uma expertise produtiva, que desembocou no interessantíssimo álbum ‘Coração Sangrento’ / Wado + Zeca Baleiro.

Baleiro chamou para si a produção desse trabalho, na figura de Sergio Foaud, que assina a produção, arranjos de base, mixagem e masterização. Porém, temos também a pegada sururu do experiente Jair Donato, que fez captações no seu estúdio Donamix, aqui no aquário, e igualmente assina alguns arranjos de base. Ou seja, nesse trabalho, além da parceria e amálgama entre Wado e Zeca Baleiro, há uma combinação de saberes e experiências entre profissionais de latitudes diferentes.

Fluxo Arterial

Todas as músicas foram compostas pela dupla dinâmica e dão continuidade a uma parceria que teve início lá no começo dos anos 2000, com a balada ‘Era’ (Wado e Zeca Baleiro), lançada no álbum ‘O Coração do Homem-Bomba Volume 2’, do compositor maranhense. Entre aquele coração e o de agora, a parceria e amizade de ambos foram fortalecidas a pleno fluxo arterial, sem descompassos coronarianos ou apolíneos. O álbum ‘Coração Sangrento’ está aí para ratificar o diagnóstico: música, como expressão de arte, como ofício e prazer, só acontece de verdade, quando existem ingredientes fundamentais, tipo amizade, admiração mútua e parcerias em prol e em nome dela.

Mergulhando nas nuances do ‘Coração Sangrento’, é perceptível a delicadeza na construção dos detalhes que tecem e tramam os encantamentos desse álbum. Se quisermos, poderemos começar pela capa, com as ilustrações de Moisés Crivelaro, que ressaltam os rostos de Wado e Zeca Baleiro, desenhados em giz cera, sem alusão a nada que remeta a corações e romantismos piegas. Portanto, só as cabeças pensantes, os cérebros da gênese desse trabalho estão representados na capa. Aliás, curiosamente, o projeto gráfico, assinado por Andrea Pedro, tem muita semelhança com a capa do álbum Silk Sonic / Bruno Mars + Anderson . Paak, lançado em 2021, o que não é nada mal como referência de qualidade!

Jogo de Adivinha

A música que abre o álbum é, também, a primeira que foi composta para esse trabalho e a que lhe dá título. ‘Coração Sangrento’ traz as vozes dos protagonistas em uníssono e confortavelmente executadas, no que parece ser a região tonal natural para cada artista. Tudo ornamentado pelo belo arranjo de cordas de Pedro Cunha, como um libelo ao bom gosto, que irá permear todo o álbum! Numa espécie de interlúdio, até a base silencia, para ressaltar que o equilíbrio entre o todo será a tônica desse valioso projeto. Na sequência, ‘Carrossel do Tempo’ é outra balada da dupla, que tem a digital melódica inequívoca do Wado e anuncia que eles querem brilhar com o sol, e brilham! Destaque-se uma guitarrinha de aprendiz, solada por Zeca Baleiro. Em ‘Avatar’, Zeca não apenas começa o canto, como, melodicamente, fica claro o seu DNA, quebrando a sequência anterior, onde a pegada do catarinense era bem evidente. E ele prossegue em ‘Dia de Sol’, escolhendo o assovio como instrumento solo, daquele de fazer inveja até mesmo a quem é capaz de assoviar e chupar cana ao mesmo tempo.

A mesma estratégia da terceira faixa foi usada em ‘Incêndios’, com a volta da estrutura melódica perceptível nas canções próprias do Wado, e a mesma divisão para as intervenções do canto dos dois artistas. É assim que chegamos à metade do álbum: leve e literalmente viajando em sutilezas poéticas, melódicas e sonoras. Aí acontece ‘Congelou’, uma canção de sonoridade onírica, que confunde as fronteiras melódicas que, até então, eram claras e demarcatórias de um ou do outro compositor. Daí, logo em seguida, o afoxé de ‘Quebra-Mar’ restabelece quem é quem! ‘Alma Turva’ desanuvia ainda mais esse um e outro criativo, que, ao longo da audição, sugere um interessante jogo de adivinha, como plus desse instigante trabalho. ‘Zaratustra’, evidentemente, faz referência explícita ao meu guru Nietzsche e, sobretudo, traz alguns fragmentos ressignificados do livro ‘Assim Falou Zaratustra’. E, claro, nada melhor para filosofar, do que um samba com a quadratura das cadeiras dum alemão.

‘Amores e Celulares’ encerra nossa prazerosa audição e coloca em perspectiva o contraditório entre o que reza a poesia e o que emana desse belo encontro de dois artistas maturados em seus ofícios. Se os poetas cantam que “amores são iguais a celulares / as vezes esquecemos em lugares / improváveis de esquecer”, o álbum ‘Coração Sangrento’ não dá a menor chance à essa possibilidade! Uma vez desfrutado, jamais será esquecido em lugar nenhum de esquecer! Metaforicamente, ‘Coração Sangrento’ é tão delicioso como a mioglobina de um filé malpassado! E vai além, muito além, pois alimenta a alma!

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Coração Sangrento, Wado e Zeca Baleiro

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Navegar não é preciso

8 de março de 2025 1:59 por Da Redação

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Em 2012, quando lancei o álbum ‘Esses Poetas’, com poemas musicados de 13 dos mais significativos ícones da poesia caeté, eu sabia que não estava inventando a roda e nem seria o primeiro a usar desse argumento; muito menos que seria o último. Portanto, 12 anos depois, não me passou despercebido o álbum ‘Segunda Navegação’, do compositor alagoano Chico Torres, destemido o suficiente para encarar esse tipo de desafio que, por experiência própria, não é nada fácil. Ele musicou 10 poemas de poetas alagoanos contemporâneos e, para cada faixa musicada, convidou intérpretes femininas daqui e de alhures. De cara, digo que o resultado desse trabalho é tão satisfatório, que não merece passar despercebido ao público local, como passou o Esses Poetas. Então, sem mais delongas, vamos ao que interessa.

‘Porque Ignorar a Maré’ (Chico Torres e Raphaela Gomes) é a faixa que abre o álbum, com a imponência de um acorde cheio e maior, como a arrebentação das marés. Coisa que Dorival sabia e de alguma maneira chegou até Chico Torres, ao musicar a densa poesia praieira de Raphaela Gomes, que passa longe, muito longe de ukuleles e salobras musiquinhas escoradas em views e likes quantitativos. Há que se ressaltar a interpretação delicada e vigorosa da carioca Renata Chiquetto que, magistralmente, divide a refinada canção em dois belos momentos: graves e agudos. Então, “Por que confiar na onda, em ardor, mãos e joelhos”?

Encontro dos Timbres

Em ‘Retrato De Uma Jovem Em Chamas’ (Chico Torres e Lucas Litrento) temos uma balada cheia de referências Beatles and roll, com os staccatos do arranjo de cordas causando tensão suficiente para lembrar de Psicose, e só depois desaguar numa atmosfera relaxante, onde, mesmo assim, a interpretação de Barbara Castelões não deixa a mínima possibilidade de qualquer sonolência ou repouso, “Quando bate a vontade de demolir um penhasco”.

A próxima faixa é ‘Noite De São João’ (Chico Torres e Natália Agra) e o inusitado desse xote preguiçoso é a mudança de rumo melódico e harmônico, logo após os três ou quatro primeiros compassos do canto de May Honorato, cuja interpretação e timbre personalístico conferem sua identidade ao xote. Pela primeira vez aparece um instrumento solo e, claro, como signo do gênero, temos um belo solo de acordeon do Milla do Acordeon, que sai lá de cima dos graves e desce ao encontro dos timbres médios e agudos, já que nas teclas da sanfona o que desce sobe e o que sobe desce, enquanto “Ocupou com pequenas palavras as borboletas”.

A delicada canção ‘Máquinas Noturnas’ (Chico Torres e Amanda Prado) retoma o tema de símbolos praieiros ou aquíferos, recorrentes em boa parte das poesias que recheiam esse belo trabalho! É a faixa de arranjo mais minimalista e, portanto, formatada à perfeição para a belíssima interpretação ao piano e doce voz de Cláudia Castelo Branco. Os pequenos silêncios e as meigas sutilezas do excelente arranjo de cordas, do maestro Luís Martins, preenchem e traduzem os ‘se’ dos versos, “Se eu escrevesse os barcos sobrevoando a noite ainda triste e vazia de estrelas”, que introduzem esse belíssimo poema.

‘Canção’ (Chico Torres e Felipe Benício) tem acentuação de bolero, porém, escorregadio ao ponto de provocar uma inútil espera de mudança de ritmo, que não acontece e não teria mesmo que acontecer. Assim, pode ser “A paixão transfigurada em mentira, a verdade construída no som”, que Andréa Laís deu vida e cantou ao seu feitio e ao dizer: canto!

Latinidade Solar

Se Chico Torres tem uma porção baiana, no afoxé ‘Pois É’ (Chico Torres e Tazio Zambi) ele usou e abusou dessa prerrogativa, ao tirar uma onda com uma levada hibrida de salsa e afoxé, criando uma polirritmia bem interessante e revelando toda latinidade solar ao sul do Equador. Claro, para interpretar toda essa luminosidade, ninguém mais apropriado do que Cris Braum, até mesmo quando reverbera: “Não espero nada mais do sol nem do que secou”.

Na sequência, vem ‘Sísifo’ (Chico Torres e Milton Rosendo), que é como se saíssemos da Bahia e chegássemos às montanhas de Minas Gerais. Não consegui fugir dessa metáfora, um tanto pela estrutura melódica, outro tanto pelo timbre e interpretação mineira da paulista Iara Ferreira, e, também, pelo arranjo binário, com um quê de milonga, porém, de fácil similaridade em alguns álbuns dos mineiros. Como diz a poesia: “O que por delicadeza destruo, o que por perfeição me mata”.

Em ‘Colheita’ (Chico Torres e Karen Pimentel), Renata Peixoto empresta sua sensualidade de timbre quase pueril, para esse blues um tanto híbrido. Ela consegue ser doce mesmo quando canta “Os morangos mofados, não esqueça, são frutos podres, os que esquecemos de colher”.

‘Insígnias’ (Chico Torres e Ana Maria Vasconcelos) é a penúltima faixa e é também uma bossa ralentada, que carrega o peso da poesia nada leve, daquelas que jamais serão servidas como entrada e sim, como prato principal. Tem uma nostalgia que prenuncia o fim e a interpretação de Martha Brandão, de maneira bem peculiar, dá conta do recado nada fácil, diga-se de passagem. Aliás, concordo plenamente com a poesia: “Mapear é inútil, beber na concha das mãos é inútil, espalmá-las também”.

Por fim, e para finalizar esse belo trabalho, ‘Regresso’ (Chico Torres, Lee Flores e Jéssica Nucci) não precisa de introdução para abrir uma roda de samba característica das tardes de sábado em algum botequim festivo, ao som do cavaquinho, pandeiro, tamborim e o canto fácil e malemolente de Jéssica Nucci, como quem sai por aí cantarolando aos ventos: “O tempo tem seu tudo, seu nada, alento de flores que pairam no ar”.

Timoneiros e Poetas

‘Segunda Navegação’ é o álbum de um jovem compositor, que soube erguer e apontar velas para mares impossíveis de serem alcançados pela mesmice mediocrizante do que se autointitula novo e tão em voga nos tempos atuais. Por isso, tive novamente o prazer de resenhar um trabalho que mereceu ser esmiuçado faixa por faixa. Chico Torres, com seu álbum de estreia, nos ratifica que navegar não é preciso e sim surpreendente, como de certo sabem timoneiros e poetas!

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Segunda Navegação, Chico Torres
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Um Dia de Cão

2 de março de 2025 8:21 por Geraldo de Majella

Reinaldo e Silva em 1973. Foto/ Museu dos Esportes.

 

Por Mácleim Carneiro

Recentemente, em um dos supermercados do aquário, tive a adorável experiência de reencontrar minha juventude e ter uma reação de fã, ao reconhecer um ídolo da época em que eu ia ao estádio Rei Pelé, para assistir aos jogos do CRB.

Enquanto esperava a minha vez de passar no caixa, percebi um senhorzinho franzino, de cabelos brancos, bem quietinho e discretamente posicionado próximo de onde eu estava.

Olhei-o mais atentamente, a procura de características que confirmassem ser quem eu imaginara que era. Sim, era negro, magrinho e tinhas as pernas fininhas e tortas, exatamente como o maior ponta esquerda que eu já vi jogar em todos os tempos.

Ali estava, a alguns passos do meu alcance, o jogador de futebol praticamente inalcançável dentro das quatro linhas, um ídolo do futebol alagoano, cujo apelido era Cão, de tanto infernizar as defesas adversárias, com seus dribles desconcertantes e arrancadas fatais pela lateral do campo. Sim, era ele, o grande Silva, de um CRB dos velhos e bons tempos de glórias.

Logo eu que, até então, não sabia ainda ser possível em mim a reação que tive, pois imaginava ter aprendido a desmitificar as personas que admiro.

Silva. Foto: Ailton Cruz/Gazeta de Alagoas

Eu, que me compreendia um iconoclasta convicto, sobretudo, das imagens que construí em retrospecto, não resisti mais do que alguns segundos para me aproximar daquele senhorzinho e confirmar ser ele quem eu imaginava que seria e, sem titubear, lhe render frases e palavras de admiração, respeito e agradecimento, pelos momentos de alegria e glória, que o seu futebol maravilhoso havia me proporcionado, no tempo de geraldino, com um copo de raspadinha vermelha na mão e um cachorro-quente recheada de batata inglesa amassada e nada de salsicha.

Pois bem, devo ter me empolgado nos elogios e agradecimentos ao grande Silva, pois, quando dei por mim, as pessoas em volta – até então alheias ao grande ídolo do futebol alagoano e maior artilheiro dos clássicos até hoje – estavam todas com olhares curiosos voltados para ele.

Talvez, pelo jeito quieto e discretíssimo, ele seja tímido e não quisesse ser reconhecido por ninguém, isso jamais saberei. O fato é que, ao me despedir, deixei-o com um sorriso no rosto e fui embora feliz, pois, naquele exato momento, além de um ídolo do passado, eu também havia encontrado a minha alegria espontânea e incontida, como os gols e cruzamentos perfeitos do extraordinário Silva Cão.

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Legado a Nós

16 de fevereiro de 2025 11:23 por Da Redação

 

Por Mácleim Carneiro

O compositor que tem a dádiva de ter DNA musical marcante e perceptível ao ouvinte atento, é um ser privilegiado! Por mais que tenha influências de outrem, saberá e terá recursos para não cair na mediocridade mimetizante dos que não se encontraram em si e procuram, o que lhes falta, em outros. Como uma frondosa árvore, seu cerne será preservado e reconhecido. Mesmo que cada galho seja diferente dos demais, o cerne será próprio e lhe garantirá singularidade. Ricardo Mota é um compositor com DNA, para o qual o tempo não é exatamente retilíneo porque gira, e só por uma questão cronológica poderemos saber o seu ponto de partida. ‘NÓS’, seu mais recente álbum, embora tenha um conceito único, que lhe deu origem, traz todas as características do compositor Ricardo Mota, já apresentadas desde o seu primeiro álbum ‘Vício e Verso’, lançado em 1997.

De lá para cá, ‘NÓS’ é o quinto álbum de um compositor que prioriza a palavra como elemento chave das canções. Certamente, por ser jornalista de ofício e compositor por diletantismo, Ricardo Mota sabe lidar com as metáforas, verbos, predicados, adjetivos, pontos e vírgulas…, com a intimidade e maestria de quem, certa vez, afirmou que as letras são mais importantes do que as melodias, para o contexto geral das canções. Há controvérsias, é bem verdade, porém, a discografia de Ricardo Mota é bastante coerente com o seu ponto de vista um tanto singular, já que, sem a melodia, ninguém sai por aí assoviando letras.

Conceito Basilar

Lançado apenas nas plataformas de streaming, o álbum ‘NÓS’ tem uma distância cronológica bem considerável do anterior, ‘Quando Eu Digo Samba’, lançado em 2004. Portanto, são duas décadas entre um álbum e outro, tempo suficiente para o amadurecimento do conceito basilar desse novo trabalho, cujas letras, melodias e arranjos equilibrados trabalham em prol da funcionalidade das canções. As 14 faixas atestam a delicadeza que permeia cada canção e ratificam o pensamento e emoção de Ricardo Mota, para com o seu núcleo familiar (filhos e netos), seus amigos, a cidade de sua preferência e outras questões, como a saudade, por exemplo.

De acordo com o próprio Ricardo Mota, esse foi um trabalho pensado e conceituado para consumo interno, para o seio familiar e os amigos mais próximos e seletos, porém, pelo visto, o artista e o competente produtor musical Félix Baigon tomaram gosto e ampliaram infinitamente o universo pensado anteriormente. Agora, ‘NÓS’ está para eles e para todos, ao alcance do mundo, nas plataformas digitais. Foi, portanto, a opção mais acertada, uma vez que o resultado final desse trabalho é tão satisfatório, que merece ser apreciado e fruído pelo naco da humanidade que ainda desfruta da possibilidade de sentir a música, a boa música, como canal direto e assertivo às sensibilidades e densas emoções.

Afetuosos Momentos

O álbum começa com uma evidente interpretação emocionada de Ricardo Mota, arriscando falsetes difíceis de serem sustentados em paralelo à emoção, para a quase canção de ninar, ‘Pedro” (Ricardo Mota), em duo com o piano de Luiz Assis, numa bela homenagem póstuma ao seu filho, que dá título e doçura a esta candura de canção. Na sequência, à capela, Ricardo Mota canta os primeiros compassos da balada ‘Camila’ (R.M.), sua filha, a quem declara: “Camila eu te amo, prá lá de prá lá”. Depois, a homenagem é para o seu filho ‘Luiz’ (R.M.), aos moldes dos mais belos moldes do Renato Teixeira. ‘João Vicente’(R.M.) e ‘Joaquim’(R.M.), netos do compositor, completam os primeiros e afetuosos momentos desse álbum que, como um livro estruturado em capítulos, parece ter sido dividido em momentos distintos, seja pelas homenagens do compositor aos filhos e netos, seja pela atmosfera das canções, como é o caso das dedicadas aos netos, ambas na mesma toada, que deve ter um significado pessoal para o compositor, no mínimo, equidade.

Finda a primeira parte, ‘Pedra’ (R.M.) é bem mais solar e despretensiosa, anunciando um novo momento para a audição, como um barco a velas no velho Chico, com um vento em popa a favor, onde os floreios do soprano do Everaldo Borges tecem paisagens que desembocam noutro rio da ‘Saudade’(Ricardo Mota e Paulo Max.), uma toada de águas mansas e mornas ao acordeon do grande Xameguinho, que não sai de cena e segue a ‘Estrada’(R.M.) xoteando num “clarão de lua sem fim”, com cheiro de chuva fininha no chão de terra batida, que até dá vontade de sair cantarolando o lê lê lê, ad libitum. ‘Natural’ (Ricardo Mota e Luiz Mota.), é um reggae praieiro, porém, sabiamente, imune aos enjoativos ukuleles. É, também, a faixa mais radiofônica desse trabalho e tem a participação especial do Luizinho Mota mandando super bem, em duo com o seu pai. Entendo que aqui se encerra o segundo capítulo deste álbum.

Último Capítulo

‘Tardinha’(R.M.), traz de volta a introspecção das canções, às vezes até dolentes, da lavra ricardiana. A bossa ‘Possesso’(R.M.) aparece como um encadeamento natural do que me parece ser o último capítulo desse belo trabalho e, claro, fala de amores sazonais. ‘Amigos’(R.M.) abre um generoso espaço na introdução, para Everaldo Borges, novamente, pontuar e frasear com seu soprano encantador de serpentes! A letra já fala em fim da jornada, prenunciando a reta final da nossa audição. Claro, antes do fim, nada melhor do que um samba tipo ‘anel de doutor’, para animar a despedida. ‘Legado’(R.M.) cumpre brilhantemente essa função, com direito a coro no refrão e um laiá laiá em fade out. ‘Nós’(R.M.), que dá título ao álbum, ‘ao invés’ do começo está no fim e não é à toa. Tem arranjo minimalista, apenas Ricardo Mota e o cello de Aldair Tomé, que em menos de um minuto funciona como um belo e delicado invólucro para a obra toda! E diz: “Serei começo e fim, prá você gostar de mim”. Pois bem, eu gostei! Aliás, não se fazia necessário um hiato de 20 anos, para Ricardo Mota legar a todos ‘nós’ esse gostinho.

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Nós, Ricardo Mota
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Trilogia Imaginada

Salomão Miranda

Essa resenha marca o retorno à lida, pós férias da Depois do Play (carregando pedras, é bem verdade). Começo com uma questão tão em voga e até normatizada nos tempos atuais, sobretudo, pelo universo cibernético das redes sociais. Ou seja, terei que começar o ano e os trabalhos apelando para o achismo, na maior desfaçatez, como é inerente a todo ‘achista’ per si. Sinceramente, não me é confortável explicitar o achismo profissionalmente, tampouco convicções absolutas sobre nada. Porém, como não fazê-lo se o título do novo álbum do cavaquinista Salomão Miranda é ‘Verde-Cavaquinho’? Explico: o título do primeiro álbum dele é ‘Cavaquinho Azul’, portanto, tirando a mudança do predicativo, temos um claro indício de uma colorida trilogia em andamento. Resta-nos saber: qual será a próxima cor? Eis, destarte, o achismo em sua mais simplória e irrelevante exposição pública.

Depois desse parágrafo totalmente achista, vamos ao que de fato interessa: ‘Verde-Cavaquinho’ é o resultado de um único show feito pelo músico pernambucano Salomão Miranda, em junho de 2024, no Teatro de Arena. Embora pernambucano, Salomão está radicado no aquário há 19 anos e sua afinidade com a nossa latitude e musicalidade foi declarada nesse novo trabalho, realizado com alguns dos melhores músicos locais. Assim, Salomão Miranda garantiu meio caminho andado, para que o resultado final fosse bastante satisfatório! Com isso, deu um salto de qualidade em relação ao álbum anterior. Anderson Almeida (contrabaixo), Dinho Zampier (teclados) e Rodrigo Sarmento (bateria) formam o power trio escolhido por Salomão Miranda. Porém, ele engrossou o caldo verde, com as participações especiais de Ana Gal, atuando competentemente, GB Lyra, ao violão inodoro e, visualmente, a bailarina Débora Amaral, para os que tiveram o privilégio do show ou queiram acessá-lo no Youtube, devidamente editado.

Ponto Cego

Em 2018, ao resenhar o álbum ‘Cavaquinho Azul’, pontuei algumas questões técnicas mal resolvidas na captação e mixagem. Contudo, ficou claro ser um trabalho cuja criatividade era evidente nas boas ideias musicais de um compositor sensível. Pois bem, desde então, são seis anos de notória evolução de Salomão Miranda, facilmente perceptível neste novo trabalho. Entretanto, o que me deixou muito feliz foi perceber que, para este álbum, Salomão teve o cuidado técnico necessário aos itens citados, livrando-o do ponto cego que tanto prejudicou o resultado final do seu primeiro álbum.

‘Matuto na Festa’ (Salomão Miranda) abre os trabalhos num clima de suspense, para depois cair num baião agalopado, tipo: ‘é um, é dois, é três, é mil’, se letra tivesse, e logo precipitar-se numa levada de frevo. Ou seja, fica bem claro que teremos festa das boas! ‘Boi Vagaroso’ (S. M.) tem a pegada dos Bois de Parintins ralentados, como o título prenuncia. De bônus, tem uma melodia que, embora seja quase monocórdica, encanta pelo jogo sutil da variação harmônica, que a conduz para caminhos sensíveis à emoção. Sem dúvida, um dos bons momentos desse álbum! Na sequência, vem ‘Choro Alagoano’ (S. M.), um tanto hibrido é bem verdade, mas retrata o apreço do compositor por Alagoas, como ele mesmo declarou: “Essa música é minha singela homenagem ao Estado nordestino onde vim morar para fazer faculdade, e fui ficando, ficando… Se em Pernambuco, onde nasci e fui criado, alicercei meu conhecimento musical, em Alagoas eu ampliei minhas vivências e percorri a maior parte da minha trajetória como músico profissional”.

Malemolência do Mestre

As agradáveis surpresas vão se sucedendo, como é o caso da faixa 4, ‘O Que Sai de Mim’ (S. M.), com um que de samba swingado, de fazer inveja aos mestres do gênero. ‘Xote Inofensivo’ (S. M.) é uma pegadinha, a começar pelo título, pois de xote tem nada ou quase nada tem; os russos que o digam. Chegamos a metade do álbum em ‘Aurora’ (S. M.), que nos presenteia com a sensibilidade de um Salomão compositor madurado, daqueles que sabe dos caminhos que escolheu para trilhar. Especificamente, nessa faixa, proporciona ao ouvinte atento um belo diálogo de fraseados com o teclado de Dinho Zampier. Na sequência, ‘Para Um Encontro de Estudantes’ (S. M.) é uma marcha rancho bem confortável, para a participação do convidado GB Lyra ao violão, sem maiores prejuízos para ninguém! Daí, passamos pelo sambinha ‘Rio Grande do Norte’ (S. M.), onde Salomão abre espaço para improvisação do power trio, sobressaindo-se o competente solo de contrabaixo de Anderson Almeida. Na faixa seguinte, chegamos em mais uma concentrada e viva participação especial da Ana Gal, na marchinha ‘A Luz do Por do Sol’ (S. M.), com a cancha para um scat singing um tanto comportado demais, levando-se em conta o potencial da protagonista. Como prenúncio do fim, temos o afoxé ‘Balança Menina’ (S. M.) e, na sequência, um galope arretado, ‘Arrasta-Pé da Alegria’ (S. M.), retoma a festa anunciada na primeira faixa e brilhantemente acontecida ao longo do álbum, até chegarmos à décima segunda e última faixa, ‘Lagartixa’ (Zé do Cavaquinho), com toda a malemolência do saudoso mestre de Viçosa, numa bela e justíssima homenagem a um dos ícones do cavaquinho caeté. E como não poderia deixar de ser, tudo o que é bom acaba em festa!

Pois que venha a suposta trilogia, seja em que cor vier, para consolidar a maestria de Salomão Miranda, que sabe compor com a simplicidade que ressalta o belo, priorizando o que há de mais sublime na música: a melodia! ‘Verde-Cavaquinho’ é um álbum sem firulas desnecessárias e sem o virtuosismo malabarista dos excessos de notas irritantes, que desafiam músicos, mas não dizem nada! Que venha sim, até para que eu não fique apenas no achismo inconsequente e tenhamos mais um ótimo trabalho, para o acervo e os parcos e bons ouvintes da música instrumental aquariana.

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Verde – Cavaquinho, Salomão Miranda
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Dos livros que li – CARLOS MOURA: todas as madrugadas em que me fiz canção (Luciano José)

2 de janeiro de 2025 2:09 por Da Redação

Só o fato de alguém ter a clareza de que era preciso registrar literariamente a trajetória de um dos mais significativos artistas de Alagoas, já merece nossos aplausos e agradecimentos! Sobretudo, levando-se em consideração nossa latitude árida, tórrida e de uma imensa carência e defasagem, quando o assunto são livros biográficos, que documentem a vida e a obra de alguns dos nossos artistas populares, que tanto fizeram para o fortalecimento da identidade cultural alagoana e traduzem, por meio de suas obras, nossas idiossincrasias poéticas, melódicas, sociais e políticas. Só por isso, as 252 páginas do livro ‘CARLOS MOURA: todas as madrugadas em que me fiz canção’(foto), já seriam dignas e merecedoras de apreciação e respeito.

O escrito foi dividido em tomos, que apresentam desde a vida e o percurso artístico-musical do querido e saudoso Carlos Moura, passando pelas letras de sua discografia e também das canções inéditas, nunca gravadas por ele, até chegar aos depoimentos de pessoas que, em algum momento, tiveram transversalidade na vida profissional ou pessoal do Carlinhos. Ao cabo, temos algumas fotos que fazem um registro iconográfico bastante interessante, sobretudo, de uma época onde a cena musical no aquário era bastante efervescente.

Extensão do Ontem

O fato do autor desse importante livro/documento ‘CARLOS MOURA: todas as madrugadas em que me fiz canção’, o também alagoano, poeta e professor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Luciano José, no capítulo sobre a vida e a trajetória musical de Carlos Moura, não ter fechado o foco unicamente sobre a personagem basilar, preferindo ir um tanto além, ao abrir uma angular sobre a cena musical aquariana e suas personagens, numa janela de tempo que vai dos anos 1970 até a contemporaneidade do século atual, a princípio, pode até confundir um pouco o leitor afeito às biografias absolutamente personalísticas. Entretanto, só assim, pudemos ter uma abreviada noção e recorte das bandas de rock e personagens da nossa recente história musical. Sim, se hoje temos o que temos e somos o que somos, coube a essas personagens, descritas no livro, capinar, abrir trilhas e passarelas para os de agora, que não veem o hoje como uma extensão do ontem e julgam só existir o agora.

Particularmente, como fui contemporâneo de boa parte daquela cena musical descrita no livro, esse retorno a um passado ainda em brasas, vivo em memórias adormecidas, foi uma grata surpresa acessá-lo e descobrir lembranças prazerosas e o riso fácil, nas páginas do tempo e da boa pesquisa do autor. O riso fácil vem, por exemplo, dos nomes sugestivos e criativos das bandas do rock caeté, que Luciano José trouxe à tona em comentários bem peculiares: “A partir de 1986, começaram a surgir shows coletivos em teatros, ginásios, colégios e festivais”. O autor, cita os nomes das bandas: Corrente Sanguínea, Fechadura Emperrada, Aviso Prévio…, e discorre sobre a formação das bandas e a quem elas tentavam mimetizar, no rock internacional. E não para por aí, ele cita, também, a Sangue de Cristo e a Diarreia Cerebral, que antes tinha o nome nada favorável de Vermes Podres. Todas, evidentemente, como revela o livro, sobreviveram por pouco tempo.

Juízo de Valor

Como toda biografia que se prese, o biógrafo não se eximiu em escrever e revelar temas mais obscuros, tristes e determinantes para a trajetória profissional e o ocaso de vida do nosso singularíssimo e querido Carlos Moura. Por fim, e não menos importante, o livro traz alguns depoimentos de pessoas que, de alguma maneira, estiveram presentes em momentos da vida profissional ou pessoal do artista. São opiniões! Portanto, de absoluto cunho pessoal, que têm implícita a responsabilidade para cada ponto de vista. Caberá ao leitor, certamente, perceber e fazer o seu juízo de valor. O óbvio é que ‘CARLOS MOURA: todas as madrugadas em que me fiz canção’ é uma ótima pedida para começarmos 2025, do ponto de vista literário, em sintonia com o lado bom da nossa identidade cultural.

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Poesia etc. (Sidney Wanderley)

13 de outubro de 2024 12:28 por Da Redação

Sidney Wanderley. Foto: Ailton Cruz

O resumo da ópera poderia ser: nunca acredite no que revela um poeta! Sobretudo, quando o poeta é, de fato, um poeta. Em outras palavras, não acreditei quando o poeta e pensador da megalópole da Zona da Mata apregoou, aos quatro cantos alhures de Viçosa, que havia, deliberadamente, decretado sua aposentadoria da poesia como ofício. Por outro lado, Sidney Wanderley, em seu mais recente lançamento, “Poesia etc.”, ratifica seu propósito, porém, apenas quanto à forma, pois fica evidente que um poeta como ele não vai à prosa sem a poesia.

Em “Poesia etc.” o bardo da ‘Atenas alagoana’ estabelece um grau intermediário entre a prosa e a poesia, nas proporções em que o budismo tibetano define o bardo como um estado intermediário entre a vida e a morte. E como o poeta Sidney Wanderley jamais terá o prefixo ex em sua biografia, ele trata de esclarecer, em ‘A Hora do Recreio’, que, em “Poesia etc.”, “tudo gira em torno do universo da poesia, sugerindo leituras e autores”.

Profundidade Assertiva

Da Pedra Centenária ao Anjo e Poeta Gonzaga Leão, “Poesia etc.” foi urdido em 48 tomos, que não permitem a mínima possibilidade da sombra de uma linearidade enfadonha, pois o roteiro traçado nessa viagem proposta por Sidney Wanderley vai do riso fácil à reflexão imprescindível, passando pelo altruísmo do autor que, além do foco nos poetas de sua refinada preferência mundo afora, dedica um tantinho do seu olhar e escólios a artistas apolíneos, como Belchior e John Coltrane.

Aliás, como o autor afirma em ‘Janela de Ônibus, Janela de Trem’, “as grandes viagens são aquelas que fazemos para dentro de nós mesmos”. E Sidney Wanderley nos faculta toda a profundidade dessa assertiva. Ou ainda, “os melhores versos são aqueles sonhados e não escritos; eles nos garantem uma hipotética imortalidade”. Então, o meu convite não poderia ser outro: embarquemos nessa viagem, com todo etc. e tal, que o grande Sidney Wanderley nos oferta.

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O Silêncio e o Aquário

17 de agosto de 2024 12:42 por Mácleim Carneiro

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Não lembro quando comecei a denominar Maceió e suas idiossincrasias pelo epiteto ‘aquário’. No entanto, desde então e ao longo do tempo, tento elaborar uma espécie de tese particular, sem qualquer pretensão sociológica, que seja capaz de embasar e conectar coerentemente o meu ponto de vista aquariano à realidade que nos habita. Sobretudo, ao mirar as duas partes do todo: a Maceió rasa e maquiada da orla marítima, e a Maceió profunda e não menos bela da orla lagunar e periferias. Socialmente, são coisas distintas, apartadas por políticas públicas ou a falta delas, que constituem o admirável e contraditório ‘aquário’ das minhas elucubrações.

É evidente que não se trata de um aquário comum, a começar pelas dimensões de 509,6 Km², onde coabitam quase um milhão de seres em castas arrogantes ou genuflexas, desconexas entre si, porém, perceptíveis a olho nu, pelos estereótipos de peixinhos, peixões e tubarões vorazes. É certo, que essa estrutura social é atávica aos idos de 1815 e tem sido robustecida e sedimentada desde então, à medida que as garras do capitalismo impõem valores excludentes e estabelecem fossos abissais. Então, por que fazer referência a um aquário, como epiteto a Maceió, se, aparentemente, um aquário transparece um ambiente harmônico e de paz, apesar da convivência entre espécies desiguais, endotérmicas ou não?

Conjecturas. Metafóricas

Pois bem, quero começar pelo o que entendo ser fundamental à minha “tese”. Ou seja, metaforicamente, Maceió é um espantoso aquário, a partir das óbvias simbologias, nas quais deduzo consequências, suposições e conjecturas. Então, indubitavelmente, apesar das belezas aquíferas, marítimas e lagunares, que nos cercam, emolduram e contextualizam, o silêncio é a ideia central, o grande cerne, o núcleo e a personagem principal que motiva a alcunha! Por óbvio, os peixes e peixinhos são silenciosos. Fazem movimentos com a boca e o corpo, mas não “dizem” nada além de frágeis bolhas, que se desfazem no instante seguinte. No nosso aquário “Maceyorkino” o silêncio também se estabelece de maneira genuflexa, imposto pelos peixes graúdos e tubarões, que mantêm aceso o caldeirão do homem cordial, definido por Sergio Buarque, como um artifício ou ardil psicológico e comportamental.

Além disso, tal como os aquários ornamentais, temos o que há de mais belo e inegável à imensa maioria dos olhares, sensíveis ou não. A parte Leste do nosso admirável aquário concentra encantos naturais comparáveis aos de algumas cidades costeiras detentoras de fluxos turísticos invejáveis. A enseada da Ponta Verde e Pajuçara, com o mar cristalino e cromático, nos tons verde e azul, de tão bela aos olhos de quem a desfruta, talvez seja invisível aos peixinhos locais, posto que no dia a dia apenas transitam apressados em seus contornos asfálticos. Porém, basta um atento olhar analítico, pelos pontos de vista social e econômico, que toda aquela belezura se torna de fato glamorosa, quase uma tela exclusiva, uma espécie de dádiva oblata aos peixões e tubarões dos estratos e status superiores da pirâmide. Esses, permanentemente, usufruem do que a natureza criou, em várias escalas da visão: ao nível do mar ou das varandas gourmets, a trinta ou quarenta metros de altura, de onde o horizonte é infinito para eles.

Reprodução

Silêncio Ensurdecedor

Do lado Oeste, o nosso aquário tem sido negligenciado e criou lodo, à medida em que só os peixes pequenos o habitam. Sem domínio transformador, submissos ao silêncio imperioso à sobrevivência, acuados pelo braço armado do poder dos tubarões e peixes grandes, manipulados, explorados e enganados por falsas promessas, que jamais se realizam. Assim, toda essa penúria é relativa ao bem-estar e usufruto do lado costeiro, bronzeado e insensível à dialética. O bem-estar de um está intrinsicamente ligado à penúria do outro, embora a parte salobra do nosso aquário também contribua para eleger os peixes grandes e tubarões. O voto é a única opinião pública que eles têm, porém, no momento seguinte, tornam-se invisíveis aos reclames midiáticos, às opiniões publicadas e aos projetos festivos, que o tempo todo tentam incutir que a lama lagunar não combina com o perfume da maresia e salto alto nas passarelas estendidas sobre o asfalto costeiro.

Como epílogo, contextualizando tudo o que foi escrito até aqui, lembro-me da história de um peixinho que vivia num pequeno lago, cuja estrutura social era semelhante à do nosso aquário. Pois bem, um belo dia, o peixinho conseguiu chegar até ao mar. Reza a lenda que, diante da visão de tantas e infinitas possibilidades, o peixinho ficou fascinado e, entusiasmado, resolveu voltar ao pequeno lago, para anunciar as boas novas, a partir das referências que o imenso oceano lhe mostrara serem possíveis realizar. Entretanto, o peixinho esqueceu que os tubarões e peixes grandes, que dominavam o laguinho, não estavam nem um pouco interessados em novidades que pudessem alterar o status quo e os privilégios que desfrutavam por lá. Resultado, o audacioso e altruísta peixinho foi expulso do laguinho, a toque de caixa, e para sempre!
Portanto, assim como no laguinho, temos “um silencio ensurdecedor”! Como certa vez disse Lêdo Ivo, ao ser perguntado sobre a reação dos alagoanos, quando do lançamento do seu livro ‘Ninho de Cobras’ aqui no aquário.

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Abrigo das Canções

13 de agosto de 2024 3:48 por Mácleim Carneiro

Em 2016, fiz parte do júri do festival de música Em Cantos de Alagoas. Na ocasião, dentre tantas mimetizações e bobagens musicais, apareceu um jovem compositor defendendo uma ciranda, que fugia da obviedade de tudo que já havia sido apresentado até então. Nada do outro mundo, nada tão genial assim, porém, fez a diferença, sobretudo, pela sutileza de um simples detalhe criativo na solução harmônica encontrada pelo compositor, para o repouso da harmonia na volta ao A da singela ciranda.

Robson é o compositor que fez a diferença! Sim, apenas o prenome Robson e nada mais. Tempos depois, ao ter em minhas mãos e escutar o álbum Lar de Viajante, entendi que a assinatura Robson, apenas Robson (que agora assinaria como Robson Cavalcante), era mais que suficiente para personalizar a musicalidade do seu álbum de estreia.

Criatividade Harmônica

Dito isso, cabe agora a prazerosa missão de justificar a premissa do meu ponto de vista. Então, comecemos exatamente pelo princípio de tudo. E como que para justificar o sentido da primeira impressão, o princípio é justamente àquela ciranda do festival. É ela que também abre o álbum Lar de Viajante, é ela que lhe dá título e foi ela que despertou minha curiosidade, para o trabalho de um Robson que não carecia de complementos nominais, pela dimensão e qualidade da sua obra.

E o que tem demais nessa ciranda? Tem a criatividade harmônica, que foi muitíssimo bem explorada pelo compositor! Não por ser algo totalmente inovador, mas pela magia do inusitado e redundância do insólito. É como se estivéssemos diante de vários caminhos e escolhêssemos aquele que intuímos ser, lá na frente, muito mais iluminado, feliz e nada óbvio. Embora, no momento da escolha na encruzilhada, os caminhos pareçam iguais a todos os olhares. É por isso que temos um início de audição sem arroubos, guiado que somos pela aparente singeleza de uma ciranda sofisticada.

Hibridismo Permanente

Logo na faixa dois, Aprendiz de Samurai, Robson demonstra outra faceta bem interessante: o intérprete. Ele explora, de maneira bem peculiar, sem forçar a barra, a região grave de sua extensão vocal e timbre. Isso, deixa no ar um hibridismo permanente entre um ser tenor e outro barítono, que se acomodam e dialogam sempre que necessário e por todo o repertório. Em algumas situações, como no dolente samba-canção, Traços, até parece que a tonalidade não foi bem resolvida, com os graves sendo içados lá do fundo do diafragma. No entanto, logo em seguida, ele sai dessa região movediça e, naturalmente, ensolara a melodia e vai para uma atmosfera onde o quase tenor aparece, resolvendo muitíssimo bem o que à primeira vista aparentava ser um equívoco.

Lar de Viajante, o álbum, é um trabalho de MPB bem resolvido! A começar pela substância musical das composições e pela correta percepção do artista em atinar para a importância de se ter um produtor capacitado: o guitarrista Ricardo Lopes. Este, por sua vez, arregimentou excelentes músicos, que deram cor e personalidade às canções do compositor. Embora estreante no métier das gravações, Robson soube escolher a dedo todos os elementos e fatores que proporcionaram um resultado mais que satisfatório em sua estreia fonográfica. E tudo foi arrematado com perfeição, pela indiscutível e muitas vezes premiada competência do engenheiro de som Marcelo Sabóia, que assina a mixagem e masterização deste belo trabalho. Um disco que, em outros tempos, estaria sendo executado em todas as boas rádios, aqui e alhures.

O álbum tem apenas oito faixas e resulta em pouco mais de meia hora de boa música. Aliás, tempo que, por analogia, me parece traduzir bem o título Lar de Viajante. Ou seja, rápido, objetivo e transitório, sem precisar de firulas para deixar saudades e àquele gostinho de quero mais.

Serviço:
Lar de Viajante, Robson
Plataformas digitais: Spotify, Deezer, iTunes, Bandcamp e YouTube

 

Dos livros que li – O Corpo tem suas razões: Antiginástica e Consciência de Si

17 de julho de 2024 10:30 por Mácleim Carneiro

 

Por Mácleim Carneiro é jornalista, cantor e compositor.

Tive e acho que ainda terei sérios problemas de coluna, com dores quase insuportáveis. Em uma das crises recentes fiquei fora de combate por mais de um mês, praticamente sem mobilidade e com dores terríveis. De fisioterapia à quiropraxia, passando por quilos de corticoides e praticamente morando naquelas maquinas de ressonância magnética, tentei de tudo. Agora, estou fazendo antiginástica e, obviamente, comecei a me interessar por esse tipo de literatura.

 

O incrível é que, preconceituosamente, achei que seria uma leitura daquele tipo “crânio sacal” (risos), repleta de termos científicos e coisa e tal. Lêdo Ivo engano! Trata-se de uma leitura que flui naturalmente e desperta uma curiosidade genuína, não apenas por conhecimento em si, mas pela narrativa leve e coloquial dos acontecimentos abordados. As autoras descrevem casos de pessoas com as mais diversas dificuldades físicas e até psicológicas, que foram solucionadas tendo a antiginástica como terapia corporal.

 

Preliminares

Além das experiências de cunho pessoal, relatadas pela fisioterapeuta francesa Thérése Bertherat, criadora da antiginástica, que dedicou boa parte da sua vida a observar o corpo e entender tanto o potencial que ele tem, quanto os obstáculos que criamos, o livro ainda traz a descrição dos 15 movimentos denominados de “preliminares”, embora as autoras ressaltem que “a consciência do corpo não se dá. Não há movimento nem método que a conceda. A consciência do corpo, conquista-se. É de quem resolve procura-la”.

 

Então, particularmente, minha procura começou por aqui e indico esse livro para quem ainda tem a mente aberta, coluna ereta e o coração tranquilo. Quase parafraseando a bela canção do Walter Franco.

 

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