Mácleim Carneiro

Tempos Modernos

Tudo não passou de uma reles cópia do conceito já utilizado nas partituras de John Cage

 

Cena 1: Festival de Cinema de Penedo

O público começa a chegar. Terá início a avant-première do filme que, a partir dessa sessão, estará em cartaz nos melhores cinemas do ramo. Aparentemente heterogêneos, os cinéfilos merecem sim, sob o ponto de vista coletivo, o rótulo de ‘público cabeça’, cujo destaque vai para a individualidade excêntrica de cada expectador.

Cena 2: Nouvelle Vague Caeté

Começa o filme. Toca mais um celular. Espirros, tosses, pipocas ruidosas em bocas ávidas, tudo dentro da normalidade de uma sessão que se convencionou chamar de cinema de arte. Créditos na tela, trilha sonora apoderando-se do sistema sound round, personagens sendo apresentados em movimentos frenéticos da câmera estilosa do diretor. Lentamente, a atenção do público vai sendo capturada e, lá pelos vinte minutos de projeção, já não se ouve mais o barulhinho irritante dos sacos de pipoca sendo assediados por mãos gulosas. Talvez, os sacos já estejam vazios e descartados ou o filme finalmente conseguiu alimentar outros sentidos lúdicos/gustativos.

Cena 3: Choque

A exibição é interrompida abruptamente, com um corte seco de imagem e som. Aliás, mais do que seco, o corte foi sertânico, satânico, enfim… A tela ficou cega e muda. Por quase três minutos não se via nem se escutava absolutamente nada, a não ser um chiado intermitente, com pequenas e bruscas variações de frequência.

Cena 4: Suspense

Plateia passivamente calada e absorvida pela visão do nada, projetado na tela. Ligados no que não acontecia ou no que poderia acontecer, os cinéfilos, como que paralisados, vêm, ou melhor, apenas sentem os minutos passarem à revelia dos seus cérebros que, na condição pouco reveladora da sala escura, sabe-se lá o que pensavam.

Cena 5: Blá Blá Blá

Fim da sessão e burburinhos à saída do cinema. Comentários da plateia dividida em opiniões e expressões gestuais. Uns, procuram justificar uma modernidade forçada. Outros, estão perdidos entre a realidade e a fantasia, na procura da originalidade, o que provoca opiniões nonsense. Um senhor de barbicha, afaga-a dramaticamente e sentencia: “A anticontextual e pouco ortodoxa ideia do diretor, em expor nosso livre pensamento, propondo uma interação factual com o filme, durante a predominância do vazio, foi um avanço para a sétima arte caeté. Daqui por diante, a exemplo do cinema-novo, o cinema alagoano terá, definitivamente, o seu lugar no pódio das vanguardas pós-modernas”. De imediato, foi contestado pelo amigo: “Bobagem, tudo não passou de uma reles cópia do conceito já utilizado nas partituras de John Cage.” Enquanto isso, a mocinha moderninha e descolada desiste de procurar alguma coisa no mochilão e esclarece para a ‘thurma’: “Demorou mermão, foi chocante, tá ligado? Hiper irado e totalmente conceitual a ausência de imagem e som, tá ligado? Se liga aí, quebrou o barato da cena anterior, careta e entediante.”

Cena 6: Final(mente)

Cinema vazio. Copos de refrigerante e sacos de pipoca abandonados, secos, murchos, esquecidos, prontos para a reciclagem. Corta a cena para a sala de projeção e o técnico, meio que injuriado e resignado, comenta com olanterninha: “Assim não dá, pô! Já falei, se não concertarem logo a porcaria desse projetô (sic), daqui pra frente vai ser sempre essa merma fulerage (sic). Ainda bem que essa galera ficou pianinho e eu não acendi a luz”. Dito isso, deu um chute na velha maquina, pegou a revista Playboy de sempre, apagou a luz da cabine e foi embora.

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Por Mácleim Carneiro

SOLANGE E A AVENIDA

O jogo já não era lúdico, era uma roleta russa

 

 

Ela pareceu-me apreensiva e altamente fugaz. Nervosamente, esgueirava-se ao rés do chão, rente ao pé do muro, com passos curtíssimos, mas suficientes para estar sempre adiante de mim. Não foi minha intenção aparecer em sua vida, muito menos nesta bela manhã de sol do segundo dia do mês de novembro. De repente, lá estava eu, como coadjuvante de um epílogo nunca ensaiado. Nem ela nem eu nos esperávamos. Nem ela nem eu nos pretendíamos. Nem eu nem ela iríamos supor qualquer fim. Eu não tinha, não queria e nem pedi esse direito.

O que por curto tempo pareceu um jogo lúdico, uma brincadeira – como alguém que jamais alcança a própria sombra –, subitamente foi interrompido por ela. Talvez, sei lá, tenha achado que, de tão desproporcional era a minha presença, fugir aos poucos não seria mesmo a eterna solução. Talvez, por isso, me acenasse repetidas vezes tantos nãos. O fato é que, surpreendentemente, ela resolveu dar um fim ao nosso flerte e, num movimento inesperado, apartou-se da segurança ao pé do muro, cruzou a calçada e decidiu atravessar a avenida mais movimentada do Aquário.


Roleta Russa

Eu jamais teria a coragem e ousadia dela. Foram momentos de tensão. Pensei em filmar aquela cena, não tinha como. Pensei em gritar, não tinha porquê. Ajudá-la, não daria tempo. Os automóveis passavam velozes e insensíveis ao nosso drama. Torcer, torcer, apenas torcer, para que a travessia insana desse certo, era o que me restava ao devir. Foram segundos em que tudo parou. A exceção dos carros e dela!

A larga avenida tem três faixas de rolamento. O jogo já não era lúdico, era uma roleta russa. Para minha surpresa, o que parecia impossível estava acontecendo. Mais uma vez, rápida e com passos curtíssimos, ela avançou decidida. Acabara de se livrar do primeiro automóvel – acho que por um golpe de sorte – e alcançara a segunda faixa de rolamento quando, bruscamente, parou. Como se fora um toureiro, por um triz, livrou-se do segundo, do terceiro e do quarto automóvel. Ela jamais saberá que naquele momento ilustrou um paradoxo pertinente à vida; ao que passa e permanece.

 


Terceira Faixa

Eu, embora paralisado, percebi que começava a sorrir de alegria, pois ela dava um show de agilidade e suspense. Sim, agora eu tinha certeza: ela iria completar a travessia. Chegaria ao canteiro central e seria bem capaz de olhar mais uma vez para mim, nem que fosse só para mais um aceno de nãos. Acho até que ela também pensou a mesma coisa que eu. Só não sabia que a Avenida não perdoa, nunca daria a chance de pensar durante o ato de sua travessia. Antes, talvez. Depois, só com a sorte dos sobreviventes. O fato é que ainda restava a terceira faixa a ser vencida, portanto, mais uma oportunidade para a avenida insensível. Foi o que bastou!

Todos nós teremos nosso dia de finado. Por ironia, o segundo dia do mês de novembro foi o de uma lagartixa ousada e tola, que largou o pé do muro e, num exibicionismo fatal, definiu seu tempo. No entanto, muito mais que o feriado nacional, foi ela quem me fez refletir sobre o inexorável. Sei lá, acho que nome dela era Solange.

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TRATO CUMPRIDO

Mesmo que parecesse ser tarde demais, não o era para mim

O poeta Gonzaga Leão

Quando tive a ideia de musicar poetas alagoanos, eu não sabia quase nada sobre a poesia caeté e seus autores. Com exceção dos ícones e de alguns poetas amigos e próximos, encontrava-me diante de um oceano de possibilidades, porém, como um navegador inexperiente numa boca de barra, que precisa saber o ponto certo para apontar a proa do barco e atravessar sem correr o risco de naufragar, antes de alcançar o mar. Diante da minha limitação, que impossibilitaria chegar aonde cheguei com o ‘Esses Poetas’, por sorte, tive a cautela dos que têm a apreensão da responsabilidade inerente ao manejo de algo tão intenso, delicado e precioso como são a poesia alheia e o mar. Assim, socorri-me da compreensão e generosidade de dois amigos e grandes poetas, Sidney Wanderley e Otávio Cabral, que me prestaram uma espécie de consultoria e foram quadrantes, astrolábios precisos, na aventura mar adentro da poesia alagoana!

Foi assim que fui apresentado à obra do grande Gonzaga Leão, cada vez mais querido em mim! Lembro-me, também, que o conheci pessoalmente de forma casual, na Iluminuras – uma agradável aventura empresarial do meu querido poeta viçosense! Para minha felicidade, logo soube que Gonzaga e eu dividíamos a beira do mesmo rio, o Mundaú, e só não éramos vizinhos fronteiriços, porque Branquinha, município equidistante entre Murici e União dos Palmares, delimitava, ao norte, o mestre com toda a tradição poética de sua terra natal, e, ao sul, um propositor sem tradição nenhuma, todavia afoito o suficiente para, humildemente, ousar despertar a música contida na poesia maravilhosa de um poeta maior.

Anjo Corré

De posse do delicioso e precioso ‘Casa Somente Canto Casa Somente Palavra’, além de alguns poemas inéditos, que o Sidney Wanderley me emprestou, nunca me pareceu tão justa a metáfora “um oceano de possibilidades”, bem como nunca foi tão cruel e difícil o processo da escolha. Li, reli, treli tudo até optar por Ao Meu Anjo da Guarda, que me fisgou pelos versos: “Só volta de madrugada / Asas debaixo dos braços / Cheirando a puta e a cachaça”. À época, era um soneto inédito, que só foi lançado no último livro do poeta, ‘Tijolo sobre tijolo, palavra sobre palavra’, coincidentemente, em 2012, mesmo ano do lançamento do álbum ‘Esses Poetas’. Até então, eu não fazia a menor ideia do que esse anjo torto, generoso e cúmplice, iria me proporcionar musicalmente e, posteriormente, toda felicidade e emoção que me ofertaria, já em conluio dadivoso com esse mero propositor. Assim, nasceu uma bossa matreira, com a malemolência de um anjo comparte e corré, além, claro, da minha honrosa parceria com o querido e saudoso mestre Gonzaga Leão.

Gonzaga Leão

O tempo passou e não tive mais nenhum contato presencial com o poeta, apenas por telefone, durante a fase de liberação dos poemas para a gravação do ‘Esses Poetas’. Porém, mesmo por telefone, sempre foram momentos de extrema gentileza e profunda generosidade dele, sobre tudo, ao dar o seu aval para a nossa parceria, demonstrando um sincero consentimento de felicidade e aprovação, após ouvir a gravação de Ao Meu Anjo da Guarda. Mas o poeta e seu anjo ainda me reservavam um momento de extrema emoção e, dessa vez, ao vivo e em cores.

Emoções na Ribalta

Quando do lançamento do ‘Esses Poetas’, no Teatro Deodoro, fiquei sabendo, por meio da minha querida conterrânea Edilma Bomfim, que o poeta se encontrava bastante debilitado e, certamente, não poderia comparecer ao show de lançamento. No entanto, prestes a entrar no palco, fui informado que ele estava na plateia e que fizera o sacrifício de se fazer presente ao lançamento do álbum, que sequer ele havia recebido ainda, pois embora tivéssemos marcado algumas vezes para a entrega, até a sua morte isso nunca aconteceu! Lembro-me, nitidamente, que fiquei bastante emocionado ao saber do seu comparecimento e tamanha deferência e generosidade para comigo. Então, após apresentar Ao Meu Anjo da Guarda, com a participação mais que especial da minha diva Leureny Barbosa, pedi que a luz de plateia fosse acesa, para que o público e eu visualizássemos o poeta e pudéssemos aplaudi-lo e agradecê-lo pela honrosa presença e pelo tanto da sua obra ali ofertada.

Mas a história não acaba aqui! Continuamos a marcar encontros, que nunca aconteceram, para que eu pudesse lhe entregar o ‘Esses Poetas’, devidamente autografado. Até que, seis anos após o lançamento do álbum e da minha emoção no Teatro Deodoro, outros sentimentos se fizeram em mim, também de maneira marcante. Dessa vez, postumamente! Mesmo que parecesse ser tarde demais, não o era para mim! Foi quando, finalmente, reencontrei o poeta pela última vez, placidamente adormecido e cercado de suas poesias, sonetos e pessoas que lhes foram queridas em vida. Sim, eu estava no velório do Poeta Luiz Gonzaga Leão, para minha última homenagem particular, sincera e silenciosa. Enfim, pude cumprir o nosso trato tantas vezes combinado. Entreguei o ‘Esses Poetas’ à sua companheira, absolutamente convicto de que o poeta se tornara imortal!

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Por Mácleim Carneiro

180 GRAUS

Um cheiro insuportável de fezes, que lembrava uma pocilga ou o que tem na cabeça de alguns produtores

Lembro-me que nas vezes em que participei do Montreux Jazz Festival Off, percebi que a mesma estrutura de som, que havia nas salas principais do festival, também era disponibilizada para os palcos onde aconteciam os shows do Montreux Off. Ou seja, artistas de menor expressão tinham, no palco e no back stage, as mesmas condições técnicas que as estrelas do festival.

Corta! Voltemos à nossa dura e cruel realidade.

Recordo-me, também, que numa sexta-feira, 31 de março, do ano de 2006 do calendário cristão, um dia antes do primeiro de abril, ou seja, ainda não era o dia da mentira, os artistas que faziam o show Alagoas de Corpo e Alma foram convocados para uma apresentação na Praça dos Martírios. Aliás, nome mais que apropriado ao que lá aconteceu.

Diferenças Perniciosas

Nos foi dito que faríamos a abertura da noite para o carioca Jorge Aragão. Até aí tudo bem. Chegando lá, no horário combinado, descobri que havia dois palcos (o que já era estranho) com enormes diferenças entre eles. Diferenças gritantes, que iam muito além da música que foi apresentada em ambos. Ao menos, para mim, ficou evidente a diferença maldosa, resultante da conceituação de valores errôneos, que ainda se repetem hoje em dia, e que são estabelecidos no trato ao artista de fora em detrimento ao artista local.


Um palco ficava de frente para o outro. Um, a zombar do outro! Um, de tão despreparado, chegava a ser desrespeitoso com quem fosse utilizá-lo. O outro, era imponente, tinha camarim e era equipado com toda estrutura para o bom desempenho de qualquer artista. Chegava a ser pernicioso vê-lo, lá, intocável, literalmente intocável, para os pobres artistas locais. Fiquei imaginando o que se passava na cabeça tosca desses produtores a serviço da gestão pública. Que tipo de indelicadeza e insensibilidade permite que artistas como Nelson da Rabeca, Tororó do Rojão (de saudosa memória), Leureny, Wilma Miranda, só para citar alguns, com uma longa lista de serviços prestados à cultura de Alagoas, não merecessem sequer um camarim e ficassem ao relento, expostos ao público, antes de suas apresentações, sentados em uma arquibancada suja, num local infecto, com um cheiro insuportável de fezes, que lembrava uma pocilga ou o que tem na cabeça daqueles tais produtores?

Mico Pela Última Vez

Enquanto isso, no outro palco, um enorme camarim irretocável e intocável, certamente, com todo o conforto necessário para qualquer artista se sentir respeitado. Como se não bastasse tanta humilhação pública, as condições técnicas do nosso palco eram surreais. Por exemplo, eu já estive em festinhas de aniversário de crianças, onde a iluminação era mil vezes melhor do que a que tínhamos naquele palco.

É fato que o público alagoano tem uma resistência natural aos artistas locais, coisas do umbigo, historicamente explicável, atávica e etc, etc, etc… Porém, o fato é que essa situação foi reforçada, naquela noite, e num raio de apenas 50 metros, a exata distância entre um palco e outro. Afinal, era perfeitamente lógico que o público fizesse uma comparação imediata entre a penúria dos pobres artistas locais em contraponto ao palco do artista de fora. Para tanto, bastava apenas uma rotação de 180 graus. De um lado, à visão do desrespeito, da ignorância e da nossa submissão. Do outro, tudo perfeito, tudo como deve ser, com a dignidade necessária para que qualquer artista brasileiro pudesse trabalhar. Daí, imagino qual deve ter sido a conclusão e avaliação do público, ao comparar o nosso show ao show do Jorge Aragão…

Sim, à época, admiti minha culpa. Estive lá e, mais uma vez, resolvi cumprir com a palavra empenhada. Fiz a minha parte! Porém, prometi a mim mesmo que pagaria aquele mico pela última vez.

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A Dimensão de uma Gota

Gosto da metáfora da água, como instrumento de transformação

 

 

O mundo contemporâneo, sobretudo nos tempos atuais, com essa catástrofe epidêmica que se abateu indiscriminadamente, mas de efeitos socialmente relativados, parece retroceder ao descuidar dos valores básicos ao bem-estar da humanidade. Assim, o carinho deixa de ser importante e a solidariedade não se faz frequente. A fraternidade parece coisa do passado e o amor ao próximo torna-se quase um desconhecido da era moderna. De tal forma que a paz entre os povos e entre nós parece ser sempre ameaçada e frágil, quando deveria ser um agasalho protetor.

Se perdermos o olhar atento aos sentimentos puros de sublimação espiritual, então, para onde caminhar e o que fazer para que a nossa consciência e particularidade imaterial contribuam e tenham o efeito borboleta que sabemos ser, para projetarmos a partir de nós, da nossa paz interior, uma paz planetária?

Gosto da metáfora da água, como instrumento de transformação, pois a água fertiliza, lava, leva e purifica. É espelho e também contemplação. Reflete e propaga nossa imagem e pensamentos e não se deixa aprisionar pelas mãos nuas. Tem volume, quando carece de força; tem leveza, quando é banhar. Façamos, pois, como as águas livres de represas, que chegam à imensidão do mar em comunhão com o universo. Cada gota é imprescindível e tem uma força imensa de transformação, posto que unidas pelo mesmo propósito criam outra dimensão.

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Colcha de Retalhos

Temos uma juventude talentosa e ávida de conhecimento musical

 

 

 

 

 

Certa vez, escrevi uma espécie de balanço sobre a cena musical alagoana, que foi publicado em 2003, no Caderno de Debates do Conselho de Comunicação N.02. Relendo o escrito percebi que, apesar de passado tanto tempo, a cena aquariana mudou pouco ou quase nada. Continua correndo atrás do próprio rabo, num moto-contínuo circular, que nos coloca uma hora com um pé na lama ancestral, outra hora com os dois pés no limo de sempre, que ceva o velho conceito da corda de caranguejos alagoanos, soltos ao pé da escada.

Resolvi começar o escrito fazendo uma analogia: Imagine um trem com vários vagões, cada um com a sua característica, sonoridade e criatividade próprias. No entanto, esse trem tem circulado em uma espécie de ferrorama, que o leva do nada a lugar nenhum. Eis a visão pessimista da macroestrutura na qual se encontra aprisionada a música contemporânea produzida em Alagoas. Porém, se tivermos (agora já com uma visão mais otimista) como perspectiva a noção de que cada um desses vagões é uma célula particular, e que a qualquer momento poderá se desvencilhar do maquinista e seguir outra trajetória, então, temos pontos positivos a ressaltar, com alguns avanços individuais, mas que pouco ou nada contribuem para o coletivo.

Mercado Pueril

A cena da música alagoana tem sido uma verdadeira colcha de retalhos, feita de alguns acertos e tantos outros desacertos. Música sempre foi, e nos tempos atuais mais ainda, um produto segmentado. Não podemos, para uma melhor compreensão, chegar aos detalhes que formam o todo sem nos determos em alguns pilares básicos dessa complexa estrutura. Então, tomemos como primeira referência os compositores. Afinal, é deles que sai a matéria-prima.

A realidade do pueril mercado alagoano, infelizmente, obriga a grande maioria dos compositores a dependerem de atividades paralelas, para que possam sobreviver financeiramente. São advogados, professores, jornalistas, funcionários públicos, militares, e etc. O paradoxo dessa situação está exatamente no fato de que, na medida em que alguns resolvem não desperdiçar seus talentos, ótimos discos foram lançados no decorrer do tempo. A diversidade destes lançamentos é tão ampla, que vai desde álbuns de proposta totalmente regional e comercial, passando pelo samba, rock, pop, até chegar ao canto coral e ao gospel.

A rapaziada jovem agrupa-se em tribos diferentes e criam bandas e produzem EPs numa quantidade inversamente proporcional à qualidade musical, com algumas exceções, é claro. Os talentosos, certamente, irão permanecer no ofício, chegando até às raízes da nossa cultura musical, para estabelecer uma linguagem que poderíamos chamar de ‘som alagoano’. Temos alguns bons exemplos de bandas que já demonstraram ter o entendimento de que somos um povo de muita musicalidade e, acima de tudo, somos capazes de propor e não simplesmente mimetizar.

 

 

 

 

Cobertor Curto

O fato é que a produção dos nossos artistas tem sido importante para gerar um mercado, ainda que pueril, mas que vinha se expandindo e se profissionalizando a cada disco gravado, a cada show, abrindo novas oportunidades para a contratação de músicos, técnicos de som e luz, artistas gráficos e produtores que, certamente, será reativado após essa pandemia nos dar uma trégua definitiva. Alagoas já dispõe de pelo menos dois bons estúdios de gravação, cuja qualidade técnica é compatível com o que se produz no mercado nacional. Então, o que falta? Simples: falta o escoamento de toda essa fértil produção.

Bem, em rápidas pinceladas, pudemos ver que a música popular tem tido pano para as mangas, mesmo remando contra a maré, mesmo sendo seus artistas tratados com uma desatenção discriminatória, com raríssimas exceções, é claro. Não obstante, e os outros segmentos? O que dizer da música erudita e do folclore (aqui compreendido como o conjunto de manifestações da cultura popular), por exemplo? Somos, talvez, o único Estado do Nordeste que, vergonhosamente, não tem um conservatório de música, apesar de termos uma juventude talentosa e ávida de conhecimento musical. Somos, talvez, um dos poucos Estados do Nordeste que não tem uma Orquestra Sinfônica da qual possamos nos orgulhar. E somos, com certeza, o único Estado que não valoriza na medida exata, com o devido respeito, os nossos verdadeiros artistas da cultura popular, nossos mestres e mestras do folclore alagoano. Se todo balanço tem que apresentar um resultado, então, o da música contemporânea alagoana é este: como cobertor; essa colcha de retalhos é curta demais.

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Por Mácleim Carneiro

Atos e Trilhas

Em qualquer expressão artística híbrida, cada elemento não é uno e sim parte do todo

 

 

 

Foi pelos bastidores que saí da condição privilegiada de fruidor e profissionalmente o teatro amalgamou-se em minha vida. Precisamente, no Teatro Vanucci, Rio de Janeiro, no final dos anos 80. Fui conduzido pelo mestre Antônio Adolfo, que me convidou para trabalhar como sonoplasta do musical infantil “Passa Passa Passará”, com músicas dele e texto da Ana, sua esposa. Naquela época, eu não poderia supor, nem tinha a menor noção, que a partir dali o teatro iria exercer uma significativa importância em minha parca verve criativa e, sobretudo, em minha trajetória profissional. Foi um encontro feliz e inesperado! Fiz toda a temporada do musical e depois continuei como sonoplasta do Teatro Vanucci, em várias montagens que por lá passaram.

De volta ao aquário, os deuses da ribalta, através dos discípulos de Linda Mascarenhas, sob a sigla ATA (Associação Teatral das Alagoas), me proporcionaram o que seria de fato a experiência mais fantástica e inesquecível, só possível pelo contato direto com a essência da nobre arte: a interpretação. De quebra, antes do início de cada espetáculo, pude entender o significado das batidas de Molière. Ao lado de atores talentosos, pacientes, generosos e consagrados na cena alagoana, ousei, morrendo de medo, aceitar o convite do Ronaldo de Andrade, do Otávio Cabral e do Homero Cavalcante, para pisar o palco do Teatro de Arena, interpretando dois personagens do clássico de Maquiavel, A Mandrágora.

Seres Apolíneos e Dionisíacos

É claro que não tive a noção de como eu já havia sido cooptado pelo teatro e de como poderia desbravar novos caminhos pelos urdimentos dessa arte. Porém, logo percebi que como ator teria vida limitadíssima. Tal qual uma hiena faminta, a mediocridade estaria sempre rondando a minha ousadia, porquanto esse não era o meu ofício. O meu papel não estava no palco, talvez, nos bastidores. A temporada da Mandrágora acabou e eu fiquei quieto no meu canto, com a minha música, mais uma vez. No entanto, me sentia realizado, pela sensação de ter vivido um sonho formidável, dentro de um universo mágico, que acabou lentamente, como a cortina que desce ao final de cada espetáculo. Mal sabia eu que o melhor ainda estava por acontecer. Outra vez, generosamente, os deuses da ribalta fizeram chegar um convite tão inesperado quanto o que me havia feito o Antônio Adolfo, lá no começo dessa história. Aliás, foi muito mais do que um convite, era um desafio daqueles que, antes de qualquer decisão, da vontade mesmo é de fugir, e a primeira pergunta que vem à mente é: por que eu?

Pois bem, o meu querido Sávio de Almeida, aquele da Igreja Verde, de Comeram o Bispo Dom Pero Fernando Sardinha… Sim, ele mesmo, o grande dramaturgo alagoano, do nada, me convidou para compor a trilha sonora daquela que viria a ser uma das peças mais premiadas e de maior sucesso do teatro alagoano. Assim, nasceu a nossa primeira parceria, com A Farinhada. Assim, nasceu a descoberta de um espaço onde ouso trafegar, convicto de ter encontrado a possibilidade privilegiada de propor sonoridades capazes de intuir signos sensoriais à nobre arte. Assim, nasceu a minha compreensão da importância que tem a trilha sonora, como elemento construtor no fazer teatro, onde, como em qualquer expressão artística híbrida, cada elemento não é uno e sim parte do todo. Portanto, agora, em mim habita um devir que se estende além do proscênio e se ilumina todas às vezes que, humildemente, tenho a honra de emparelhar o diálogo entre seres apolíneos e dionisíacos.

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Por Mácleim Carneiro

REALIDADE DA REALIDADE

Vamos dar ao povo a cultura do jabá

Sou daqueles que costuma ler os classificados dos jornais, mesmo sem ter motivo ou objetivo definidos. E foi justamente por causa dessa mania (cuja prática ainda não consigo entendê-la como normal) que, lá pelos idos de 2004, li um anúncio no qual o inusitado me chamou atenção. Estava lá: “RÁDIO COMUNITÁRIA. Vende-se todo equipamento de uma rádio comunitária em funcionamento. Uma mesa de 6 canais, 2 microfones, 1 transmissor de 25w…” Era uma extensa relação, tinha até uma bicicleta de som, seja lá o que isso signifique. Suponho ser daquelas bicicletas que circulam pelo centro da cidade, fazendo aquele marketing barulhento.

Resolvi ligar para o telefone do anúncio e obtive a informação de que a rádio em questão era a Realidade FM, ficava no bairro do Feitosa e ainda não havia sido vendida. Pois bem, a que ponto chegou a nossa “realidade”. Para começar, uma rádio comunitária é uma concessão pública, cuja regulamentação, no seu artigo 1º, dispõe sobre o Serviço de Radiodifusão Comunitária, RadCom, instituído pela Lei n.º 9.612, de 19 de fevereiro de 1998, como um Serviço de Radiodifusão Sonora, com baixa potência e com cobertura restrita, para ser executado por fundações e associações comunitárias sem fins lucrativos, com sede na localidade de prestação do serviço.

Distorções Evidentes

Deturpada a forma da lei, o que se vê, com raríssimas exceções, é a proliferação de rádios comunitárias que de comunitárias, de acordo como que reza a regulamentação, têm pouco ou quase nada. Sem ser necessário qualquer tipo de aprofundamento investigativo, observando-se apenas o que determina o RadCom, no capitulo VIII, que diz respeito à programação das rádios comunitárias, basta sintonizá-las para que as distorções fiquem evidentes. Lá, no tal capítulo VIII, está estabelecido: “As emissoras do RadCom atenderão, em sua programação, a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas, em benefício do desenvolvimento geral da comunidade”. Mas, como? Se, a começar pelos comunicadores (E essa observação não tem qualquer tipo de preconceito), percebe-se que eles não conseguem articular corretamente uma concordância verbal sequer.

Diz ainda, o tal capítulo: “É vedada a cessão ou arrendamento da emissora do RadCom ou de horários de sua programação bem como é vedado o proselitismo de qualquer natureza na programação das emissoras de radiodifusão comunitária”. Mas, como? Se, pelo menos um terço delas são emissoras evangélicas-doutrinárias, no mais tradicional estilo xiita. E mais; no mesmo capítulo, está lá: “As prestadoras do Serviço de Radiodifusão Comunitária só podem transmitir patrocínio sob a forma de apoio cultural, desde que restritos aos estabelecimentos situados na área da comunidade. Sendo permitido apenas veicular mensagens institucionais da entidade apoiadora, sem qualquer menção aos seus produtos ou serviços”. Mas, como? Se até propaganda de casas de strip, e seus respectivos produtos, era veicula normalmente em algumas dessas rádios comunitárias.

Vala Comum

À época, tive a pachorra de contar quantas rádios comunitárias eu conseguiria sintonizar em Maceió. Foram onze! Em cada uma delas, no mínimo, uma das normas regulamentadoras era completamente ignorada. Porém, o que mais me deixou desanimado foi perceber que a grande maioria das rádios procurava ter a mesma cara das emissoras comercias de péssimo gosto e relativa audiência. Tentavam copiar a programação, principalmente musical, daquelas que primam pela máxima do quanto pior melhor, cujo lema é: Vamos dar ao povo a cultura do jabá! Dessa forma, o que deveria ser, por lei, um veículo capaz de proporcionar inclusão cultural, para uma parcela da população excluída de tais práticas e oportunidades, esse mesmo veículo, sob a orientação da ignorância e pobreza de espírito, atuava ou atuam na vala comum do mau gosto e da mesmice. Que me perdoem se eu estiver errado, mas, acho que tudo o que você acabou de ler, por certo, continua a ser a realidade da nossa realidade surreal.

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Por Mácleim Carneiro

MALHAR EM FERRO FRIO

Não é da China que vem essa pandemia, que atinge os verdadeiros defensores da nossa cultura

 

 

 

 

A frase “a felicidade mora ao lado” cai como uma luva, quando se trata do reconhecimento do público aos artistas locais e suas produções culturais. Aqui ao lado, a capital do frevo fervilha ao som do baque do maracatu. É a força da cultura pernambucana oxigenada pela juventude, que descobre suas raízes e canta, conectando-se com o mundo através de sua arte popular. É tamanha essa força, que já cai por terra a barreira burra e preconceituosa de que santo de casa não faz milagre.

Grupos como o Maracatudo, Cabra Alada, Mestre Ambrosio, Cordel Do Fogo Encantado ou Dona Selma do Coco e Silvério Pessoa, não precisaram sair de Pernambuco para serem reconhecidos e conquistarem o respeito e a admiração de sua gente. Nesse cenário, novos personagens não param de aparecer. Emergem do caldeirão borbulhante que Chico Science deixou fervendo, a partir do Movimento Mangue. São inúmeras vertentes, que vêm das comunidades, onde os índices de criminalidade caíram na proporção exata em que cresceu o interesse dos jovens pelos tambores de alfaia. Canais são abertos, por meio da música, dando-lhes o direito de expressão e a possibilidade de serem reconhecidos e, mais do que isso, compreendidos.

Foco Principal

Algumas figuras são importantes neste contexto e sabem que Mário de Andrade tinha razão: para uma expressão cultural se tornar universal é preciso ser autêntica e falar a linguagem de sua aldeia. Essas pessoas têm um compromisso sério com a cultura a qual pertencem. Participam de maneira especial desse universo, incentivam, valorizam e, acima de tudo, abrem as portas para o novo. Mas o que dizer de nós, aqui do aquário, que estamos tão perto e não conseguimos sair da condição de espectadores das realizações alheias?

Aos artistas alagoanos, cabe criar, propor, conhecer nossa cultura e fortalecê-la. Não basta alardear sua riqueza e ao mesmo tempo fechar os olhos para suas fraquezas e deixá-la debilitada, sempre dependente das pessoas que assumem cargos, mordomias e esquecem o dever. Certamente, não é da China que vem essa pandemia, que atinge os verdadeiros defensores da nossa cultura, deixando-os sempre de recaída, debilitados, pedindo socorro permanentemente. De alguma forma, ainda existe aquela luz no fim do túnel. Tudo bem, está apagadinha, mas acho que podemos e devemos acendê-la. Este é um dos pontos. Entretanto, o foco principal está na própria sociedade alagoana, que é preconceituosa e confunde qualidade cultural com os padrões duvidosos da mídia comercial e depois, felizes e mais ignorantes ainda, arrotam o lixo que lhes é enfiado goela abaixo.

Olhar atento

Malhar em ferro frio é o que os artistas alagoanos, de quase todas as áreas, vêm fazendo ao longo dos anos. E como é triste chegar a essa conclusão. Mas o que pensar, quando artistas comprometidos com a qualidade cultural de sua arte, depois de esforços gigantescos, para produzirem espetáculos dignos de qualquer palco do mundo, são preteridos pelo público que, antes da pandemia, preferia lotar espaços que mais parecem currais e assistir a grupos que moram dentro dos programas de televisão e acham que os nossos ouvidos são pinicos? E o que dizer do pensamento equivocado, no qual é preciso primeiro fazer sucesso fora, para só depois ser reconhecido com o devido valor por sua gente? Chega dessa história do não vi e não gostei! E isso não se aplica apenas ao grande público.

Pernambuco tem conseguido dar a infraestrutura básica para alavancar setores da cultura popular que, a partir de um certo momento, tomam fôlego e vão em frente. Isso tem que ser cobrado aqui! É obrigação dos que estão à frente dos órgãos responsáveis pelo fomento à cultura alagoana. Não podemos ter medo de aprender o que está dando certo além fronteiras, principalmente, se for por questões provincianas ou por achar erroneamente que se trata de outra realidade ou coisas do gênero. É preciso um olhar mais atento e cuidadoso às nossas raízes. Só assim, poderemos construir nossa caixa de ressonância para o mundo. Aos artistas, por enquanto, resta o ferro frio para malhar e jamais se deixar abater. Quanto ao público, este fica com a melhor parte: basta abrir os olhos e o coração para a nossa singular, autêntica e excelente produção cultural.

Mácleim Carneiro é jornalista, músico e compositor

 

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Por Gilvan Gomes

Aridez Paradoxal do Aquário

 

 

A função de programador musical, em uma rádio onde não existe a ingerência perniciosa do Jabaculê, vai muito além da simples escolha das músicas. Na verdade, é uma função muito interessante, pois permite propor uma estética musical a uma parcela significativa da comunidade. Assim, a cada música que escolho, implicitamente, estou dizendo: – Ei, eu acho esse som legal, gostaria que você ouvisse! Partindo desse princípio e com total liberdade de expressão, tenho no meu horário de programação, a cada bloco musical de 30 minutos, evidenciado a produção musical dos artistas locais, no mínimo, com um deles em cada bloco. Perdoe-me por esse extenso preâmbulo, mas se fez necessário a um melhor entendimento do que vem a seguir.

 

Pois bem, certa vez, resolvi fazer uma experiência um tanto infantil, cujo resultado foi decepcionante e desestimulador, por mais que eu admitisse a possibilidade de acontecer. Cansado de perceber a passividade e permissividade da nossa classe artística (especificamente a musical) e dos alagoanos “boanas”, decidi experimentar na prática uma forma de corroborar a teoria do efeito avestruz, que todos já conhecem. Daí, simplesmente, durante todo o mês de abril de 2008, no meu horário de programação, não programei nenhuma música dos artistas locais. Nenhuma! Absolutamente nada! E olha que estou me referindo ao universo de 57 artistas que, repito, à época, democraticamente, tinham e têm até hoje suas músicas executadas na programação que faço. Na pior das hipóteses, qualquer pessoa poderia supor que ao menos um deles, ou até mesmo alguns ouvintes, telefonaria para saber o que estava acontecendo. Qual o porquê da Educativa FM, de repente, no referido horário, não executar mais as músicas dos artistas locais. Ou então, numa atitude altruísta, em prol da coletividade, algum deles protestar pela exclusão da música alagoana na programação da única emissora que acolhe de braços abertos a nossa produção musical.

 

Não quero ser precipitado, rápido no gatilho, indo direto ao cerne da questão, onde adjetivos tipo passividade, leniência, permissividade, alienação e etc, etc., poderiam ser amplamente usados, para definir tal comportamento coletivo. Não! Antes, prefiro entender através de alguns vieses dessa questão. Todos, lamentáveis, é bem verdade.

 

Um deles, é que ninguém mais ouvia a Educativa, principalmente, no referido horário. Daí, sem audiência, não há questionamentos, e ponto. Outra hipótese, é de que qualquer um dos artistas, ao sintonizar a emissora e não ouvir mais a sua música, nem às músicas dos colegas, simplesmente, poderia ter pensado: foi obra do acaso, não dei sorte, foi o horário…E que se lixe o trabalho dos outros. Já o público ouvinte, este, prefiro deixar fora desse imbróglio. Afinal, não era e acho que jamais será parte tão interessada assim. Além do mais, na programação da Educativa, o artista alagoano, até pela qualidade da música que produz, não é segregado e entra na programação de igual pra igual com os grandes nomes da música brasileira, sem quebra de padrão. Portanto, nem sempre o ouvinte irá saber se é um artista local ou não, que está sendo executado.

 

O fato é que, durante todo aquele mês, não recebemos sequer um telefonema, e nas oportunidades em que estive pessoalmente com vários dos artistas que estão na playlist da Educativa, nenhum deles fez absolutamente qualquer tipo de comentário ou menção ao fato. Se atinaram para o que aconteceu, de tão silentes, coniventes e genuflexos aos fatos contraditórios à própria classe, já não reagiam mais, nem ao menos pela preservação da individualidade.

 

Desde a última vez em que preenchi a ficha de um hotel, não mais me considerei um compositor e sim um “propositor”. Descobri isso em audições e audições das obras daqueles que já fizeram tudo de bom nessa seara. Portanto, meu exercício é de propositor e, como tal, explicitei-o ao questionar nossos artistas, por meio da ausência de suas músicas na minha programação musical, na Rádio Educativa FM. Porém, descobri o que no meu íntimo não pretendia, embora já soubesse: de que adianta ser propositor na aridez paradoxal de um aquário?

(*) Mácleim Carneiro é jornalista, músico e compositor.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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Por Mácleim Carneiro
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Por Redação