sábado 3 de dezembro de 2022

Utopias renovadas

2 de dezembro de 2022 6:25 por Mácleim Carneiro

 

 

Depois de merecidas férias, onde me permiti voltar ao Velho Continente e conhecer novos países, estou novamente na lida dos escritos, aqui no 082, com prazer renovado e deferência especial aos nossos 14 leitores. Então, a questão é: sobre o que escrever, diante de tantos e múltiplos temas e fatos ocorridos em pouco mais de um mês? Sobretudo, porque os meses de outubro e novembro não foram meses dentro do quadradinho, foram por demais efervescentes e singulares, para a vida do povo brasileiro e para os que, de longe, observam o Brasil em suas idiossincrasias políticas, ambientais, econômicas, culturais e etc.

Foram meses com grandes perdas artísticas e intelectuais, mas também de ganhos políticos. Novos rumos, no sentido da reconstrução de um país arrasado por quatro anos de desmontes e destruição, postos em prática por um governo de extrema-direita, que afinal se esvai rumo ao lixo da história, graças à base da pirâmide social brasileira. Portanto, temos de volta a esperança renovada, a crença em um tempo mais arejado, onde os ares democráticos serão respaldados pelas instituições e pela Constituição brasileira. Foi alvissareiro poder voltar ao Brasil sob essa nova perspectiva.

Trauma Colonial

Durante o segundo turno das eleições presidenciais, estávamos em Portugal e tínhamos o firme propósito de ampliar a nossa permanência na Europa, caso o resultado das eleições fosse outro, capaz de nos aprofundar no intragável, insuportável e fatídico recrudescimento do retrocesso democrático. Respiramos aliviados e comemoramos o fato de, ao menos, termos de volta a utopia e a única certeza de que as trevas não resistem à luz.

 

Porto

Seguramente, apesar do encanto arquitetônico, paisagístico e gastronômico, de regiões como o Algarve e cidades como Porto e Lisboa, dessa vez, tive a oportunidade de dialogar demoradamente com portugueses nativos. Acabei fazendo uma descoberta antagônica às minhas próprias referências e conceitos sobre Portugal. Descobri, por exemplo, o quanto o lusitano tem interesse pelas coisas e causas do Brasil, sobretudo, políticas. Por outro lado, percebi que não temos o mesmo interesse pelos fatos de Portugal. Se perguntarmos a qualquer brasileiro médio quem é o atual primeiro-ministro ou qual o regime político de Portugal, será fácil entendermos a dimensão do nosso trauma colonial.

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“Luzes para uma face no escuro”

21 de outubro de 2022 12:06 por Mácleim Carneiro

Em mais um texto substancioso da minha querida Ábia Marpin,A rede afroalagoana: as luzes para uma face no escuro”, publicado no suplemento Campus, encartado no semanário O Dia, nº 0140, ela ilumina os caminhos que, “numa espécie de extensão da invenção de Palmares”, aconteceu também a invenção de Zumbi.

Uma conquista, uma construção do movimento negro, que encontrou na gestão do Ronaldo Lessa, quando à frente do governo do Estado de Alagoas, um real interesse pela memória do líder negro.

E, assim, 8 ações efetivas tornaram-se realidade e vão desde a mudança do nome do aeroporto internacional e do palácio do governo, até a criação do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP), ao qual tenho a honra de pertencer e ter entrado pela porta da frente, por meio de concurso público.

Aliás, a gestão do Ronaldo Lessa foi o único momento de avanços nas questões culturais desse Estado. Antes e depois, somos o que fomos e temos o que temos.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!

PS: Nossos escritos estarão de volta em dezembro. Assim, os meus 14 leitores terão merecidas férias de mim por aqui. Voltaremos sob as luzes da mudança que queremos e merecemos para nosso país.

 

Big Bode

14 de outubro de 2022 11:35 por Da Redação

 

https://programadoresbrasil.com.br/

Ele malhava todos os dias e, mesmo com um sobrepesinho, era aluno aplicado nas escolas de balé do aquário. Visto de frente parecia um pirulito, porém, tinha que ser forte, para levantar a burguesia das bailarinas rechonchudas, nas pantomimas dos espetáculos de balé, no fim do ano. Além disso, frequentava a praia situada entre a Sereia e Riacho Doce, o que lhe garantia um bronzeado exclusivo, só possível com a combinação perfeita de mergulhos no mar e na água salobra do rio, que despeja sua solidez naquela praia.

Aliás, sair correndo do mar, driblando os banhistas calibrados, escalar a face leste da ponte, cruzar a rodovia em pleno tráfego de domingo e mergulhar no rio, pela face oeste da ponte, vestido apenas numa tanguinha com estampa de pele de zebra, era uma cena forte do material enviado para o reality da Rede Globo. Porém, nada disso adiantou. Contudo, ele sabia o que queria e tinha a arte e outras substâncias nas veias, merecia seus dias de fama.

Embora convicto do seu talento, ficou abalado com o fracasso na primeira tentativa. Tão abalado que não via mais sentido em continuar as aulas de interpretação teatral com a Preta Gil, nem as aulas de canto com o Otto. Entretanto, já pensa no próximo. Afinal, em um país como o nosso, essa praga não terá fim tão cedo e para o próximo ano já foram vendidas 8 cotas de patrocínio, cada uma ao preço de 100 milhões de reais.

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Propositor

7 de outubro de 2022 7:01 por Mácleim Carneiro

Essa sexta-feira, sete de outubro de 2022, é um dia no qual eu poderia até celebrar, caso me percebesse parte do seu efemérico significado. Porém, faz bastante tempo que não encontro mais cabimento nessa premissa. Exalto apenas aqueles que são os fiéis depositários dessa data. E não foi preciso muito esforço, nem qualquer sentimento de perda e muito menos qualquer viés de humildade hipócrita, para chegar a essa conclusão, estritamente pessoal e reflexiva. Eu, simplesmente, olhei para trás e observei os fatos friamente, sob um ponto de vista estritamente particular, conceitual e cronológico.

Daí, pareceu-me evidente que não faço parte dessa apolínea categoria. Não apenas pela magnitude implícita ao significado do Dia do Compositor, mas, sobretudo, pelo entendimento de que este é um mister onde criar, ser original, é preciso e faz toda diferença. Aliás, refiro-me ao verbo criar, tendo como referência, nos tempos atuais, o zero absoluto. Portanto, trata-se de uma tarefa impossível para mim, pois os que me precederam já criaram e já fizeram tudo. Destarte, restou-me tão somente reelaborar, ressignificar o que já foi inventado pelos grandes mestres basilares e alguns contemporâneos geniais, que pegaram o fio da meada e ampliaram as possibilidades alicerçadas pelos que lhes precederam.

Por isso, quando preencho a ficha de hospede em qualquer hotel, ou quando me é solicitado dizer qual a minha profissão primeira, escrevo/respondo “propositor”! Contudo, permanece em mim o mesmo sentimento de admiração e respeito aos que se percebem compositores e fazem desse dom algo sublime. Sendo assim, aos compositores e compositoras de ofício, parabéns em todos os tons, acordes e melodias!

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Fruição Brega

30 de setembro de 2022 9:54 por Mácleim Carneiro

 

Mergulhando em águas passadas encontrei uma matéria veiculada na edição do dia 16 de julho de 2004, no caderno B do jornal Gazeta de Alagoas, que enfocava o segmento da “música brega”. Nela, chamava-se a atenção para os números que esse segmento delineava no mercado fonográfico, à época. Esclarecia que, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Discos, ABPD, o segmento brega representava 23% do total de discos vendidos no Brasil, perdendo apenas para o segmento pop, com 29%. Bem, de lá pra cá, a indústria fonográfica, nos moldes que conhecíamos, praticamente acabou, porém, o consumidor não. Sendo assim, vou viajar um pouco mais nessa bagaça.

 

Deixando de lado o ponto de vista estético, é possível encontrar alguns indicadores socioculturais, capazes de explicar o bom desempenho do segmento breganejo, por exemplo, no mercado atual. Pois bem, o mais cruel deles, sem dúvida, é a mediocridade. Esses segmentos musicais utilizam-se de uma linguagem simplória, nivelando por baixo qualquer tipo de reflexão. Na maioria dos casos, e de forma premeditada, trata-se de música produzida e direcionada ao público apenas com o propósito comercial, feita a partir de fórmulas, descartáveis como uma lata de refrigerante qualquer.

 

Incompatibilidade Particular

 

Ainda sob o foco da mediocridade, engana-se quem pensa que o tal “consumidor” é apenas aquele habitante da periferia, das comunidades, que não teve a oportunidade de acesso à educação de qualidade. Não é mais! Ele facilmente será encontrado no substrato de padrão econômico e social elevado que, por aferição, é brega sim senhor! Apesar da desenvoltura estética, para o cultivo ao corpo apolíneo, pouquíssimos são os que costumam estimular o cérebro para algum tipo de fruição artística mais elaborada e, menos ainda, para emoções sutis. De nada adianta boa escolaridade e ótima situação financeira. Aliás, este é um assunto que tem sua gênese lá no passado, lá na ditadura militar e seu legado maléfico.

 

É evidente que a minha opinião revela uma incompatibilidade particular com esse tipo de música e, se o assunto é música, detesto hipocrisia! Mesmo achando que música não precisa necessariamente ser levada a sério. Portanto, minha ótica é delineada sob a mira de uma lupa crítica, que se estabelece para avaliação, sobretudo, dos critérios musicais. Sei da minha “perspectiva de rã” e ainda bem que eu nunca pretendi ser detentor de nenhuma verdade. Porém, ainda consigo distinguir o que é e o que significa música bem elaborada, em forma e conteúdo, sem que para isso deixe de ser popular. Sociólogos e teóricos de plantão, livres dessa visão específica, podem remoer a ponto de concluírem que a música brega não merece o carimbo da hegemonização, imposta pela indústria do entretenimento. Embora existam coisas ainda mais nocivas, os artistas desse segmento e seus respectivos produtos são manipuláveis sim, descartáveis sim, e nada vai além do entretenimento alienante, às vezes, preconceituoso e machista, cujo único ponto merecedor de destaque é a possibilidade de alertarem para o nosso impactante grau de precariedade cultural, sobretudo, num Estado ainda líder em analfabetismo.

Uma Arte Duvidosa

Recentemente, li trechos do livro Tábula Rasa, escrito pelo psicólogo Steven Pinker, no qual ele defende a seguinte teoria:

“O nosso gosto estético foi configurado pela evolução, com a função primária de nos atrair para ambientes e parceiros sexuais desejáveis. Gostamos instintivamente da harmonia. Artistas que fazem uma arte chocante e reclamam da ‘incompreensão do público’ estão enganados. Eles é que não compreendem o funcionamento da mente humana.”

 

Pode até ser, vejo certo fundamento nessa afirmação. Porém, jamais se enquadraria ao contexto da enorme afinidade popularesca que a música brega detém em nosso aquário e no Brasil contemporâneo, como um todo. Sendo assim, pelo prisma do “sucesso”, música é uma arte duvidosa!

 

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Respeito; em Madagascar

24 de setembro de 2022 6:39 por Mácleim Carneiro

 

Já andei ouvindo par aí se deve ser folclore ou cultura popular a denominação correta para a expressão artística do nosso povo. A meu ver, é pura masturbação intelectual, que acontece em tertúlias de quem não põe a mão na massa (como eu) e sabe muito bem que questões muito mais importantes e urgentes precisam ser pensadas e resolvidas nessa seara.

O dia 22, do mês passado, foi mais um Dia Mundial do Folclore. Mas, e daí? Tenho a impressão de que, se for feita uma avaliação histórica, pouca coisa deve ter mudado desde que em 1996 – também no Dia Mundial do Folclore –, assisti na TV a saudosa Maria Vitória, Mestra de Guerreiro, falando de suas agruras para manter viva uma das mais autênticas manifestações da nossa cultura popular. Ela dizia que todo paramento do seu Guerreiro era comprado com a sua minguada aposentadoria, e que ninguém lhe ajudava com uma fitinha colorida sequer. Se, pelo menos, ela tivesse uma aposentadoria do nababesco poder judiciário (tipo aquelas que os magistrados recebem como punição pelas falcatruas cometidas no exercício da função), vá lá, estaria reclamando de barriga cheia. Infelizmente, Mestra Vitória já partiu fora do combinado, porém, os mestres e mestras, que ainda estão na lida, vivem à míngua e sendo explorados. De pires nas mãos, tornam-se presas fáceis e são ferramentas de grande utilidade para demagogia política que, não é de hoje, detectou o quanto essas pessoas são vulneráveis, por possuírem em si a pureza e a transparência do clamor contido no propósito da alma: exercer a arte que lhes foi transmitida. São manipuláveis, apesar da força arrebatadora do trupe, nos ritmos marcados por instrumentos não sofisticados. São indefesos, apesar dos cantos e loas vigorosos, nas vozes ásperas e expressionistas daqueles que, de berço, trazem a cultura popular pululando em suas veias.

Credores Meritórios

A penúria deles pode estar perversamente conectada ao nosso bem-estar. Por isso, chamem como quiser: assistencialismo, paternalismo, seja lá o que for; o fato é que os poucos mestres e mestras contemplados pela Lei de Registro do Patrimônio Vivo (Lei dos Mestres) são mais do que credores meritórios, são dignos de algo ainda mais substancial e tão necessário quanto o respeito. Isso me faz lembrar um fato que aconteceu comigo e pode ilustrar com clareza o que deveria ser regra, para os nossos artistas do folclore ou cultura popular, como queiram.

Estávamos em turnê pela Europa, quando tive a oportunidade de assistir a uma apresentação do grupo folclórico de Madagascar, Feo-Gasy. Após o show, fui convidado para jantar com eles e aproveitei para pedir o autógrafo de cada um, no disco que eu havia comprado. Um por um foi perguntando meu nome e autografando, nas respectivas páginas em que havia suas fotografias, no encarte do disco. Quando, finalmente, cheguei ao líder do grupo, Rakoto Frah, um velhinho que, suponho, tinha mais de 80 anos, ele não perguntou meu nome e apenas fez um rabisco, em forma de zig-zag horizontal. Intrigado com aquilo, perguntei a outro componente do grupo se realmente era assim a assinatura dele. Ele então me respondeu que não era uma assinatura, pois Rakoto Frah era analfabeto. Na seqüência, pegou sua carteira porta-cédula, retirou uma nota, dinheiro de Madagascar, e me mostrou. Na cédula estava impresso o rosto de Rakoto Frah, um mestre da cultura popular em Madagascar.

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Presente do Rei

Ilustração de Dom João VI

Exatamente no dia 16 de setembro, do ano passado, publiquei aqui o meu ponto de vista sobre o que resultou da Emancipação Política de Alagoas. Ao reler o escrito ‘Dia de Praia’, percebi que as coisas não mudam mesmo, a não ser pelos novos índices vergonhosos, ratificando que a não ruptura com o nosso passado colonial, com a elitização do poder político e a falta de educação descente para o nosso povo, não nos permite avanços e nem consciência política e social. Eis a construção igualitária que nos foi legada e imposta, nos atrelando ao início da nossa gênese emancipatória, pelo o que de pior poderia resultar.

Por isso, como a maioria dos alagoanos não deve saber mesmo, essa efeméride soma agora 205 anos de establishment. O simbolismo da data já diz tudo. Principalmente, quando descobrimos ser irrefutável o fato de que ao sermos emancipados por Dom João VI, e desde então eximidos da tutela de Pernambuco, estamos até hoje reféns das maldades e estripulias políticas da elite alagoana, seus postulantes e asseclas.

As eleições majoritárias estão aí, batendo a nossa porta, e sempre haverá alternativas capazes de aliviar um pouco o estigma desse fardo atávico, que nos foi legado como herança maldita. Sou daqueles que ainda crê no exercício do voto sensato, como um importante instrumento de cidadania e mudança, sem fisiologismo ou ardores ideológicos e passionais. As cartas estão na mesa e não vale trapacear com o nosso povo.

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Sem prorrogação

9 de setembro de 2022 11:42 por Mácleim Carneiro

Moacyr Barbosa no gramado do Maracanã. Crédito: El País.

Mesmo sem eu ser um acumulador consciente, volta e meia é preciso desentulhar coisas acumuladas ao longo do tempo. Recentemente, nesse processo fengshuiano, encontrei uma prova feita no meu tempo de estudante de jornalismo, para a matéria Cinema, ministrada pelo querido e saudoso professor Elinaldo Barros, do qual tive imenso prazer e sorte em ter sido seu aluno, em aulas memoráveis sobre a sétima arte.

A minha nota na prova foi um dez, porém, o comentário do mestre é que foi tudo. Escreveu ele: “Gostei da viagem” (foto). Pelo o que eu deduzi, ao ler a prova depois de tanto tempo, assistimos o filme Barbosa, do cineasta Jorge Furtado, para depois comentá-lo. Ousarei transcrever a minha “viagem”, como classificou o querido professor Elinaldo.

“Em 1950 eu tinha oito anos antes de nascer. Embora, ao nascer, tenha nascido campeão do mundo, nasci ainda sob o signo da frustração, da humilhação e da derrota que ‘Barbosa’, o filme, e Barbosa, o goleiro da seleção brasileira, engendraram, antes de mim, para toda uma nação.

Mácleim Carneiro

Silenciar sobre o enredo de 1950 nunca foi possível e nunca será, pois o silêncio esgotou-se, engoliu a si mesmo e foi engolido pelos milhares de cada um, que foram a alma de um país gigante que, naquela tarde, coube inteiro dentro de outro gigante chamado Maracanã.

No filme de Jorge Furtado, o passado e o futuro se encontram pela ficção. Na alma do torcedor brasileiro, esperança e frustração se encontram e se renovam pelas possibilidades que o filme propõe. A quem cabe a culpa na crença inabalável do que pode acontecer? Essa reflexão, proposta por ‘Barbosa’, o filme, poderia ter perpassado Barbosa, o goleiro, ao apito final do sonho de 1950. Contudo, qual de cada um de nós, brasileiros, poderia responder ou defender essa penalidade máxima? Barbosa, Jorge Furtado, professor Elinaldo, eu, você, brasileiros e uruguaios, não temos mais prorrogação nem prerrogativa.”

Fim!

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Crédito: Ludopedio.org.br

 

Maricenne Costa, A Cantora de Voz Colorida

2 de setembro de 2022 12:07 por Mácleim Carneiro

 

Na imensa maioria das vezes, os livros sempre me revelam algo que eu desconhecia até então. Pode ser um fato, um acontecimento histórico, teorias mirabolantes, pontos de vista exclusivos e singulares, enfim, uma infinidade de possibilidades ao conhecimento e aprendizado. Porém, quando se trata de uma biografia, sobre uma personagem que eu deveria conhecê-la, pois construiu sua carreira e sua obra no universo artístico, no qual eu também trafego, então, o fato de desconhecê-la foi mais do que uma revelação da minha ignorância, foi de uma incompreensão inédita, porém, reflexiva e esclarecedora. Só por essas possibilidades, o recém lançado livro ‘MARICENNE COSTA, A Cantora de Voz Colorida’, escrito a quatro mãos por Elizabeth Sene-Costa – irmã caçula da biografada – e pela jornalista e escritora Vitale de Castro Laís, com pitadas generosas dos depoimentos transcritos da própria Maricenne Costa, já valeria a pena e tornou-se um imensurável achado para mim.

O livro, que me foi enviado pelo querido Beto Previero e reforçada a sua importância pelo não menos querido Moisés Santana (ambos, personagens citados e atuantes nessa obra biográfica), foi como uma grande janela que se abriu à minha ausência de conhecimento sobre a vida, trajetória artística e obra de uma grande cantora brasileira, uma das pioneiras da Bossa Nova e pioneiríssima ao gravar Chico Buarque pela primeira vez, num compacto simples lançado em 1964, com a canção ‘Marcha Para Um Dia de Sol’.

Biografia Imprescindível

Ao ler sua biografia, soube que Maricenne Costa começou muito jovem, ganhando o concurso A Voz de Ouro ABC, da extinta TV Tupi, no início da década de 1960. Rapidamente, tornou-se conhecida em todo o Brasil, à época, pela sua voz afinadíssima e límpida, como uma fonte pura e translúcida, que despertava admiração e provocou o comentário do mestre João Gilberto: “Que mensagem linda tem a sua voz, ela tem cores…”

‘MARICENNE COSTA, A Cantora de Voz Colorida’ também é um livro iconográfico, posto que repleto de fotografias, recortes de jornais e inúmeras capas de discos lançados pela artista, que também foi atriz de teatro muitíssimo bem-sucedida. Além disso, o livro traz depoimentos significativos de pessoas que foram importantes e acompanharam de perto a carreira e trajetória de Maricenne Costa. De tudo isso foi feito ‘MARICENNE COSTA, A Cantora de Voz Colorida’, uma biografia imprescindível à história da música popular brasileira, além de uma deliciosa leitura, repleta de aprendizados e lição de vida, para os dias frios do mês de agosto de uma era nada comum.

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Senhora dos Prazeres

26 de agosto de 2022 5:28 por Redação

Reprodução

Neste mês de agosto celebra-se o Dia de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira de Maceió. A imagem da santa apareceu pela primeira vez sobre uma fonte em Alcântara (Portugal), na Quinta dos Condes da Ilha. Desde então, essa fonte foi chamada de santa, porque sua água passou a curar várias enfermidades. Nossa Senhora dos Prazeres é a mesma Nossa Senhora das Sete Alegrias, devoção de origem franciscana.

A imagem é representada tendo em suas mãos o menino Jesus e em volta de seus pés sete cabeças aladas de anjos, simbolizando suas sete grandes alegrias. As maiores alegrias, ou os maiores prazeres de Nossa Senhora, foram enumerados por um noviço franciscano e são os seguintes: a anunciação do anjo; a visita à sua prima Isabel; o nascimento de Jesus; a visita dos Reis Magos; o encontro de Jesus no templo; a ressurreição de Jesus e, finalmente, a sua coroação no céu.

Já deu para perceber que acabo de poupar uma visita ao Google. Pois bem, prazerosamente compartilhando os meus recentes conhecimentos, saberemos que no Brasil, além de Maceió, Nossa Senhora dos Prazeres é padroeira de Lages (SC), do Estado do Espírito Santo e do Santuário de Nossa Senhora da Penha (Vila Velha). Existem igrejas dedicadas a ela em Minas Gerais (Diamantina e Lavras Novas) e em São Paulo (Piracicaba). Porém, o templo mais famoso fica aqui pertinho, do nosso lado, em Recife, nos Montes Guararapes.

Ano Propício

Fiz questão de fazer esse rápido histórico, para tentar embasar uma teoria que me parece pertinente, ao saber que Maceió não é a única cidade privilegiada em ter Nossa Senhora dos Prazeres como padroeira. Assim, como conclusão imediata, suponho que Nossa Senhora tem muitos outros compromissos e deve pairar bastante atarefada. Portanto, há de querer que os viventes desempenhem com mais zelo e sentido comunitário as suas funções de cidadania. Por isso – tão ou mais importante do que preces e demonstrações de fé –, bom mesmo seria se nos dispuséssemos a auxiliá-la no zelo pelo o nosso aquário.

Aliás, este ano é bem propício para isso. Podemos começar tendo clareza na escolha do nosso futuro, sob a égide dos políticos e governantes, sempre tão servis e prestimosos na TV. Além disso, que tal uma postura cidadã, em prol da coletividade e, sobretudo, uma efetiva colaboração para que a nossa cidade seja melhor, mais fraterna, com mais justiça social, enfim, uma cidade digna de sua padroeira?

São sete os prazeres e alegrias de Nossa Senhora dos Prazeres. Sete, também, poderia ser o número de atitudes positivas que cada um de nós deveria ter para que Maceió volte a sorrir – usando o velho e surrado bordão. Para mim, seria muito simples exemplificá-las. Eu não teria nenhum grau de dificuldade. Contudo, provavelmente, não significariam nada para qualquer outra pessoa, a não ser eu mesmo. Atitudes transformadoras são de foro íntimo, são concebidas na individualidade da consciência pessoal e, quando consistentes, podem sensibilizar uma coletividade. Como disse Maurice Duguit (filósofo francês), “as transformações do mundo são feitas a partir de uma minoria determinada, não de uma maioria conformada”. Cada indivíduo deve ser capaz de saber quais as transformações pessoais que, repito, podem fazer jus à padroeira que temos.

Acho que tudo não passaria de retórica, se agora mesmo eu não começasse a prática da minha argumentação. Para isso, aproprio-me de uma nova consciência, porque sei que é o primeiro passo para novas atitudes. Aproprio-me da poesia, porque sei do que a poesia é capaz. E, também, sei que: “Rainha de terra e mar / Senhora do azul do céu / Iara da Mundaú / Sereia das enseadas / Mãe d’água de Maceió / Sua graça é dos prazeres.” *

* Trecho da poesia Senhora dos Prazeres, de Ronaldo de Andrade

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Era de peixes

19 de agosto de 2022 11:20 por Mácleim Carneiro

Fonte: IG Saúde

Estão cada vez mais raras homenagens sem hipocrisia, sem usofruto político, retornos econômicos e segundas intenções. No caso dele, não. Não mesmo! Tratava-se de uma singela homenagem que um colega de ofício, um amigo, iria lhe prestar. Por isso mesmo a homenagem era digna de toda a sua atenção e respeito. O próprio amigo o havia avisado, com bastante antecedência, que uma de suas músicas estaria no repertório do show e contava com a presença do ilustre compositor. Tudo, absolutamente tudo, poderia acontecer: menos sua ausência ao show e, por tabela, à homenagem.

Habitar um reino, ser o king absoluto, tem lá suas vantagens e desvantagens também. As vantagens são inúmeras, ainda mais quando a latitude deste reino o situa à beira-mar e equidistante do centro neurótico do aquário e do acarajé da Dona Bau. As desvantagens, paradoxalmente, também são as mesmas. Principalmente, pela distância do reino em relação à periferia, ou seja, qualquer outro ponto do planeta. Assim, o King Sauaçuy, o homenageado, precisaria sair cedo, com a antecedência necessária para não perder o compromisso.

Molhadinha e Suculenta

Uma vez fora do reino, nada mais seria previsível, tudo poderia acontecer. Portanto, aquela bela Arabaiana (sei que é um peixe, mas, nos permita a liberdade “poética”), ainda com um brilho nos olhos, lustrosa, molhadinha e suculenta, se mostrou irresistível à cognição imperiosa da cadeia alimentícia, que falou mais alto. Mesmo contra toda dificuldade logística, que aquele approach poderia acarretar; pimba; foi gula à primeira vista.

Daí, já bem acompanhado pela Arabaiana, o King chegou ao local do show sem atraso e sem a desconfortável possibilidade de, enquanto platéia, ser a única testemunha da sua própria homenagem. Embora cada vez mais restrita, ele sabia que essa possibilidade poderia acontecer. Afinal, o show era de um artista local, habitante do aquário que, naquela noite, uma quinta-feira, tinha a concorrência de outros “colegas” dividindo o que já lhe era escasso.

Elegantemente vestida, num modelito de folhas de jornal, mais pós do que qualquer criação pós-pós da Fashion Week, digna da primeira página do Caderno B, do jornal Gazeta de Alagoas e seus modernosos jornalistas, a Arabaiana, discretamente aconchegada em seus braços, tentou honrar o compromisso do King. Tudo envão. Preconceituosamente, não escapou aos olhos e olfato do porteiro do teatro e foi barrada. O King poderia entrar. Ela, não!

Freezer Vip

Passado o constrangimento inicial, a solução encontrada foi conduzir a Arabaiana para, digamos assim, um clima mais propício. Contrariado, mas cedendo aos apelos da direção da casa, o King permitiu que sua acompanhante fosse confortavelmente instalada no bar do teatro, dentro de um freezer. Afinal, aos que perguntassem por ela, ele simplesmente poderia responder: está na ‘frisa’ ao lado…

O show começou, a homenagem foi prestada, mas o King se mostrava impaciente e frequentemente saia do Teatro de Arena. Tal comportamento gerou curiosidade e certos comentários de alguns amigos, tipo: “ele deve estar com incontinência urinaria”, dizia um, “coisas da idade”, dizia outro. O que ninguém sabia era que, ao deixar sua acompanhante no freezer vip, o barman o avisara que encerraria o expediente antes do final do show. Por isso, sua preocupação e saídas intercaladas rumo ao bar.

O fato é que os deuses aquáticos regam certo por linhas áridas. Parecia que tudo estava escrito no zodíaco, pelo signo de peixes, claro. Assim, sincronizadamente, no início da última música do show, o King voltou para o seu lugar na platéia. Dessa vez, sorridente e com um semblante de alívio, tendo sua acompanhante a tiracolo. Exatamente no momento em que Basílio Seh atacava de ‘Carapeba’, música de Luiz Gonzaga – “ei lá vem esquenta muié / é som, é gente, é vida, é pó…” –, como se fora uma homenagem, um encontro pescado para uma emocionada Arabaiana e seu feliz acompanhante. Enfim, como escreveu Mia Couto, “a pessoa amada nunca se encontra, ela se constrói numa paciente obra a dois.”

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Dia do Apêndice

12 de agosto de 2022 2:47 por Mácleim Carneiro

 

Resisto aos reclames da mídia para os dias comemorativos de apelos sentimentais, que só se concretizam, de fato, por meio da prenda. O Dia dos Pais é um deles. Aliás, resisto, mas acabo caindo na arapuca e fazendo igualzinho a todo mundo. É claro que eu sempre tive um ótimo motivo para ficar vulnerável aos tais apelos, para o segundo domingo de agosto.  E era por causa dele que, desde que me dei conta da minha frágil autossuficiência, eu desfrutava a possibilidade de, ano após ano, ter o privilégio da dialética criada pela dúvida e seu conceito antagônico.

A batalha era desencadeada dias antes do dia D, e sempre acabava com a derrota do raciocínio pragmático para o apelo comércio-sentimental, desembocando sistematicamente na seguinte questão: o que comprar de presente para o meu pai? A dificuldade não residia apenas na escolha do objeto. Tudo começava quando eu dava o pontapé inicial, no que parecia ser um processo investigatório, e tentava saber da minha mãe e da minha irmã o que é que ele gostaria de receber de presente. Elas nunca sabiam! Isso me deixava perplexo e ainda mais confuso, pois não sei de onde tirei a idéia de que elas tinham que saber disso.

Fiel da Balança

 

Talvez, por sorte ou ironia, não sou pai biológico. Portanto, tenho uma visão unilateral dessa data. Partindo do ponto de vista de ser apenas filho, clichês tipo: “para mim, dia dos pais são todos os dias”, faziam sentido e reforçavam a minha rejeição à questão comercial, que explora o sentimentalismo sugerido nessas efemérides. O jogo do toma-lá-dá-cá, imposto pelo consumismo, transforma datas como estas em focos mercadológicos que, ao menos, de quebra, proporcionam dividendos afetivos, os quais sempre foram suficientes para determinar o fiel da balança para mim.

Do ponto de vista do pai homenageado, pela ótica da experiência, não sou a pessoa mais indicada para arriscar qualquer comentário. Porém, pela intromissão do palpite, imagino que deve ser um bom momento para refletir sobre a dádiva recebida, se merecida ou não. Embora nossa estrutura social, apesar das mudanças, ainda tenha bases sólidas no patriarcado bíblico, se eu fosse pai, me perceberia apenas como um apêndice, com toda ou nenhuma complexidade que resume tal conceito.

Compreensão do Óbvio

 

E antes que a revolta paterna caia sobre mim, quero deixar bem claro que um apêndice, embora apêndice, é de importância fundamental e não secundária, como citam os dicionários. Um apêndice atua como facilitador e auxiliar das possibilidades, é acréscimo e instrumento que podemos contar com ele todas às vezes que necessário for, atua como gancho forte o suficiente para suportar e cumprir sua missão e, numa visão mecânico-sociológica, uma vez externo, é apoio e ponto de orientação.

Quem nunca se viu diante de uma xícara fumegante e percebeu o quanto é fundamental contar com a asa? Portanto, resumo minha reflexão na compreensão do óbvio: fui um sujeito de sorte! Tive um Pai que possibilitou o conteúdo ser sorvido pela importância do que, apenas aos olhos, aparentava ser exterior. Já são 5 anos sem a sua presença física, portanto, partilho este sentimento com todos que, assim como eu, tiveram ou têm a felicidade de ter o porquê para comemorar esse dia.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

COMUSA (Picuinhas de uma época)

5 de agosto de 2022 12:40 por Redação

 

Ao revisitar velhos escritos, tenho encontrado registros de uma época na qual foram factuais, mas agora tornaram-se ainda menos importantes do que antes, porém, com bastante benevolência, ganham um tantinho de viés histórico. Pois bem, um desses escritos foi sobre a cooperativa criada por alguns artistas do aquário, dentre os quais eu também fiz parte, lá pelos idos de 2010. O tema era polêmico e foi desenvolvido assim:

“A Cooperativa da Música de Alagoas, COMUSA, começou 2010 mostrando a que veio. O artigo 2ª, do seu estatuto, diz: “A Cooperativa tem por objeto social o fornecimento comum de serviços prestados pelos cooperados em qualquer área de execução musical”. Pois é o que a Comusa está fazendo, ao assumir a ‘curadoria’ das atrações musicais para a ARTNOR 2010 – Feira de Artesanato do Nordeste.

Parabenizo-os, pois, ao que parece, a Comusa foi além e dobrou o número de participantes solicitados pelo SEBRAE. Suponho que o cachê divulgado, 1.500 reais, foi mantido para cada artista. Não quero crer que o cachê tenha sido reduzido, em função do acréscimo de participantes. Do contrário, do que adiantou a interferência da Comusa nessa parada? Para continuar tudo como antes no aquário de Abrantes, onde a prática sempre foi: se tem onde cortar, então tira dos músicos, dos artistas? Aliás, prática comum à SECULT, que será responsável pelos contratos e pagamento dos cachês. Reitero: não quero crer que a Comusa pactue com isso! Particularmente, reconheço a importância de termos artistas locais sendo prestigiados em um evento como a Artnor. No entanto, não me iludo e acho que não cabe mais a velha e tão explorada desculpa da oportunidade, do espaço, e todas essas balelas, que só fortalecem um dos lados numa relação comercial. Isso mesmo! Se existe um contrato, está caracterizada uma relação comercial. Enfim, espero que ainda não seja a hora da Comusa acrescentar um novo artigo em seu estatuto.

Memória Afetiva

Já que, provavelmente, serei apontado como um dissidente reclamão, devo esclarecer alguns pontos:

1) Não é porque não estou entre os artistas selecionados para a Artnor, que tenho essa postura interrogativa, sobre a atuação da Comusa. Reconheço a importância do evento, porém, sequer me inscrevi.

2) Não tenho o intuito de polemizar. Pelo contrário, apenas abordei um ponto de vista, sobre uma questão que considero bastante pertinente e a qualquer um caberia fazê-lo.

3) Se a COMUSA conseguiu manter o cachê original para cada artista, ou ao menos negociou de maneira que não fosse diminuído, então, perfeito! Tiro o chapéu, pois, finalmente, estaremos no caminho certo.

4) Por fim, considero o exercício da minha consciência crítica uma forma de agir. E mais, uma forma de agir honestamente, posto que às claras, sem subterfúgios, pois os argumentos advêm dos fatos. Além disso, o único bem que realmente possuo é a minha liberdade de expressão. Acredito, piamente, que somos o que defendemos.”

A título de contextualização, o escrito acima foi um post que eu publiquei no blog Quiproquó, que eu alimentava, à época. A COMUSA não existe mais, porém, foi uma bela tentativa de cooperação e espírito participativo, para um segmento importante e atuante da nossa produção cultural e de entretenimento. Nem lembro se os questionamentos feitos foram respondidos, porém, essas “picuinhas”, em prol da nossa classe, habitarão sempre a minha memória afetiva.

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Meu Guru (Parte II)

29 de julho de 2022 12:04 por Mácleim Carneiro

 

 

 

 

 

Dos meus 14 leitores, tem um, apenas um, que cobrou o desfecho final e trágico da personagem central do escrito ‘Meu Guru’, o Bob Nelson, um fox terrier de dons premonitórios, na Copa de 2010. Para mim, ter 14 leitores é um grande privilégio! Sobretudo, em contraponto ao universo virtual, onde a régua usada é tão somente quantitativa e é por ela que tudo é avaliado, mensurado, consumido, endeusado, engolido ou descartado, de acordo com a quantidade de visualizações ou likes. Certamente, a minha peneira deve mesmo ter malha muito fina e, claro, tem a ver com o que eu sou e o que produzo. Então, sendo eu um artista que, recentemente, tive o meu novo álbum recusado por uma gravadora, porque no dia em que eles pesquisaram meu desempenho no streaming eu só tinha 35 visualizações no Spotify (a plataforma que paga a fortuna de US$ 0,00397 por play), é uma honra poder atender ao pedido do meu querido leitor e amigo Alex Santana.

Pois bem, ocorre que a minha história com o cãozinho Bob Nelson teve uma sequência evolutiva, baseada na conquista mútua, passo a passo, até o fim trágico provocado por ambos, como suponho ter sido, na vã tentativa de aliviar a minha culpa cristã. Acontece que, quando nos conhecemos, não houve a menor empatia por parte do arisco Bob Nelson para comigo. Só me recebia, na casa dos meus pais, rosnando e com latidos desaforados, que sempre foram interpretados por mim como: “você não é bem-vindo em meu território!”. Na maioria das vezes eu ignorava ou, no máximo, respondia: “Pra você também!”

Pequeno Amigo

Um belo dia, resolvi mudar de estratégia e decidi que iria conquistar aquele pequeno e resoluto ser. Prometi a mim mesmo trazê-lo para a minha capacidade afetiva, onde sempre cabe uma nova possibilidade de compreensão, apego e afeição. Daí, a estratégia usada foi de uma eficácia paulatina e visivelmente evolutiva a cada nova abordagem. Simplesmente, pensei: peixes, homens e cães são fisgados e até morrem pela boca. Sim, cooptei Bob Nelson dessa maneira e nos tornamos amigos fraternos, do tipo que sempre tem um sorriso a cada reencontro. Não se espante, Bob Nelson sorria para mim, escancarando os dentes e balançando freneticamente seu cotoquinho de cauda.

No escrito ‘Meu Guru’, publicado anteriormente aqui, encontraremos os seguintes trechos: “do alto dos seus 70 anos” e, também: “se as vias respiratórias do Bob Nelson ajudassem…”. Pois bem, são indícios sobre a saúde já um tanto debilitada do pequeno amigo. Talvez, por isso, fui eu o escolhido por ele para o seu rápido e trágico fim. Para amenizar o sentimento de responsabilidade, já pensei até que foi um ato de suicídio canino. O fato é que Bob Nelson morreu com um frágil gemido, uma espécie de ui, sob uma das rodas do meu carro. Até hoje não sei por que razão, naquele dia e nunca antes nem depois, estacionei o meu carro na garagem da casa dos meus pais. Quando ia embora, ao dar a ré, não imaginei que ele havia escolhido o seu próprio fim e a mim como executor; não imaginei que eu teria tamanha incapacidade emocional, a ponto de não conseguir tirá-lo, já sem vida, debaixo do carro; muito menos imaginei que a minha última homenagem e castigo seria cavar uma cova e sepultá-lo no quintal da casa Nª 192, da Rua Herman Soares Torres.

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Vamos comer Nachtergaele

22 de julho de 2022 12:02 por Mácleim Carneiro

 

Posto que ao teatro é permitida toda liberdade criativa e de imaginação, certa vez, no palco do Teatro Deodoro, foi traçada, com fita crepe, a marcação de um poço. Um poço profundo. Como era de se esperar, os convidados para festa não perceberam que esse poço ia além do palco e avançava pelo proscênio até à plateia, frisas e camarotes. Enfim, era mais que uma marcação cênica. O tal poço, crescia não em profundidade, mas em sintomático estabelecimento de uma nova premissa: os contrários não se atraem. À medida que o espetáculo acontecia, o que parecia ser um poço transformava-se em abismo, com a capacidade que os abismos têm de aprofundarem distanciamentos. No caso, o inevitável distanciamento entre o texto da peça Woyzeck Desmembrado e a mente do estranho público ali presente.

Era a abertura do Festival Todos Verão Teatro, com o Teatro Deodoro lotado de convivas. Percebia-se que era gente pouco afeita à apreciação de espetáculos teatrais, enquanto arte e mídia alternativa. Provavelmente, gente que, normalmente, não deixaria de assistir à novela das oito, hegemônica e alienante, para estar ali, não fosse pelas condições oferecidas pela produção do Festival: entrada 0800, boca livre após o espetáculo e um global no palco (ainda bem que era um ator de verdade).

Usufruto Político

Por mais que eu tente entender, não consigo deixar de achar que essa coisa do usufruto político em um acontecimento cultural, além de ser pouco meritório, é uma atitude provinciana. Lembro-me que foi totalmente desnecessário ter que ouvir o então governador, Ronaldo Lessa, dizer que embora a saúde, a educação e etc. eram prioridades, ele não poderia dar as costas para cultura. Sinceramente, não acredito que ele desconhecesse que os problemas sociais têm na sua origem embrionária exatamente a desatenção e o descaso com a formação educacional e cultural de um povo. Como cultura não é – e certamente nunca será – prioridade para os governantes do terceiro mundo, essa desatenção, além de histórica, é usurpadora e perpetua-se desde os nossos primeiros colonizadores. Suas raízes profundas chegaram ao século atual, arraigadas e fortalecidas pelas elites. Portanto, não era apenas uma questão de não dar as costas e sim muito mais que isso. É preciso parar de fingir que não vemos, ou não queremos ver, a falta da prioridade que deveria ser dispensada à nossa produção cultural e as mídias alternativas, em detrimento das hegemônicas. Não foi à toa que o Teatro Deodoro permaneceu fechado por tanto tempo.

As universidades estão formando advogados, médicos, engenheiros, arquitetos, jornalistas, enfim; profissionais que nunca leram um clássico, nunca assistiram a uma peça, nunca ouviram uma sinfonia, nunca fruíram uma exposição de artes plásticas e desconhecem o que seja mídia alternativa, por exemplo. São cidadãos e cidadãs, cujo objetivo primordial é o apartheid social. São vítimas de um modelo educacional que prioriza o adestramento para a produção. Assim, fica realmente difícil o entendimento de um texto como o do autor alemão George Büchner, mesmo que desmembrado.

 

Público Perfumado

Passado o incômodo dessas reflexões, lembro-me que me concentrei no espetáculo e não entendia por que, lá pras tantas, o que era uma peça de teatro parecia mais um show musical, onde, aí sim, seria normal aplaudir ao final de cada música. Pois bem, era esse o comportamento do “respeitável público”, que aplaudia a atuação do Matheus Nachtergaele, ao final de cada um dos curtíssimos atos. Não que ele não merecesse, porém, tal comportamento só fazia martelar em minha cabeça uma pergunta para aquele seleto público: por que não compareceu ao espetáculo Ensaio Número Dois, do Lael Correia? À época, o espetáculo do Lael (tão bom ou melhor que Woyzeck Desmembrado) não tinha nenhum global e, provavelmente, aquele público perfumado, mais uma vez, não entenderia nada.

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Vice-versa

15 de julho de 2022 3:09 por Mácleim Carneiro

 

Certa vez, um juiz federal do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas, ao acatar uma ação impetrada pelo PSDB, determinou a retirada do ar de uma peça publicitária da Central Única dos Trabalhadores em Alagoas (CUT/AL), veiculada na TV, que apontava as mentiras do governo da época, em relação à segurança pública em Alagoas. De acordo com o presidente da CUT, à época, Izac Jackson, a CUT nada fez além de cumprir o seu papel em alertar à sociedade, para as mentiras veiculadas pelo governo do PSDB, e prometeu recorrer da decisão judicial, que considerou como censura.

Pois bem, o imbróglio repercutiu em todos os sites de notícias e em grande parte dos blogs, principalmente, de jornalistas. Porém, foi no blog Etc e Tal que apareceu a versão mais pitoresca, que apenas demonstrava como tudo depende do lado do balcão em que se está: oprimido ou opressor. Lá, no tal blog, do “Leal” escudeiro do governador, tinha o seguinte ponto de vista: “O que se questiona: Pode a CUT usar dinheiro da entidade para fazer campanha eleitoral? Teria a CUT de Alagoas recursos suficientes para bancar o custo das peças nas emissoras de televisão em horário nobre. Se não tem, quem bancou? Se tem, por que nunca usou esse dinheiro para promover campanhas desse porte em favor dos pleitos dos trabalhadores, seja na iniciativa privada ou poder público?”

Oprimido e Opressor

Agora, vejamos o que poderia ser o lado do oprimido, do ponto de vista de um servidor público do Estado de Alagoas que, à época, não tinha reajuste salarial há quatro anos. Então, parafraseando o tal blogueiro: O que se questiona: poderia o governo do PSDB usar dinheiro público para fazer campanhas mentirosas de cunho eleitoral? Teria o Governo de Alagoas recursos sobrando, para bancar o custo das peças nas emissoras de televisão, em horário nobre? Se não tinha, de onde desviou? Se tinha recursos, e sabíamos que tinha, para onde ia o dinheiro que deveria ser utilizado no saneamento dos graves problemas de responsabilidade daquele governo, para promover o bem-estar do povo alagoano? À época, sabíamos que em Alagoas a saúde, educação, segurança e os servidores públicos, só para citar questões básicas, estavam à míngua, com índices de precariedade nunca vistos antes.

Portanto, tudo não passou do ponto de vista de cada um. Só acrescentei o meu. Um servidor público, sob as agruras impostas por aquele governo neoliberal. O do blogueiro do Etc e Tal, sabíamos da real motivação em forma de um confortável salário em cargo comissionado, nos gabinetes leias ao governo da época, e muito longe de ser e do ser público.

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Meu Guru

8 de julho de 2022 12:58 por Mácleim Carneiro

 

Na Copa de 2010, por vários motivos, torci pela Holanda. Por vários motivos, não palpitei sobre o fracasso da seleção brasileira. Por vários motivos, nunca gostei de chutar cachorro morto! Aliás, é justamente um cachorro bastante esperto que, do alto dos seus 70 anos (supondo que cada ano de vida canina equivale a sete de vida humana), me faz rabiscar algo sobre aquela Copa e suas curiosidades.

Pois bem, se na Alemanha tinha o Paul (aquele polvo adivinho) acertando quem ficava e quem era eliminado da Copa, na casa dos meus pais tinha o Bob Nelson; um cachorrinho especialista em resultados da Seleção Brasileira. Com exceção do jogo Brasil X Costa do Marfim, os demais eu assisti na casa dos meus pais. Em todos eles, nem bem começava o jogo, Bob Nelson sumia embaixo de qualquer cama, desde que fosse bem longe da TV. Durante o tempo que durasse o jogo, nada, absolutamente nada, o fazia sair de lá. A explicação, até então, era bastante óbvia: Bob Nelson, assim como eu, não suportava fogos. Já em seu aquário na Alemanha, Paul, assim como eu, adorava petiscos. E o Brasil foi passando por seus adversários, enquanto Bob Nelson, resoluto e determinado, se recolhia – quem sabe em preces – ao seu esconderijo.

Comportamento Atípico

Chegamos às quartas-de-final, ao jogo contra a Holanda. Para surpresa de todos, Bob Nelson não saiu da sala da TV. Não foi para o seu esconderijo predileto. E mais, ansiosamente, tentava se comunicar com um e com outro, mas ninguém lhe dava atenção. Ficou lá, rodeando um, rodeando outro, apesar dos fogos, antes do início da partida. Contra qualquer prognóstico, após o ilusório gol brasileiro, no primeiro tempo do jogo, ele não arredou pé da sala durante o foguetório. Aí também já era demais! Começamos a desconfiar que algo realmente sério estava acontecendo ou iria acontecer. Apesar do bom primeiro tempo e de estarmos ganhando por 1×0, para mim, era evidente que o Bob Nelson queria comunicar algo importante, com aquele comportamento atípico ao de todos os jogos anteriores.

Levantei a hipótese de que iríamos perder o jogo e que os holandeses iriam fritar a canarinho e comer com suco de laranja. Era isso o que Bob Nelson estava tentando nos dizer. Todos concordavam que havia algo errado no comportamento do Bobinho (como era carinhosamente chamado por nós), porém, depois de um bom e glorioso primeiro tempo, não perderíamos de jeito nenhum, apesar do Dunga como técnico. Além disso, minha mãe lembrou que um guru do Vasco da Gama tinha previsto, no jogo de búzios, que as grandes seleções cairiam logo no começo da Copa (foi assim com a Itália, França e Inglaterra) e que o Brasil iria disputar a final com uma seleção do continente africano. Argumentei que a previsão estava furada, pois só restava Gana, do continente africano. Porém, se Gana conseguisse chegar às semifinais, pelo cruzamento de grupos, enfrentaria o Brasil. Além disso, guru do Vasco, ora bolas, faça-me o favor…

Para resumir, mais uma vez, o hexa foi adiado. Eu, desisti dos meus estudos sobre nefelomancia e encontrei um novo guru. Prometi a mim mesmo que, se as vias respiratórias do Bob Nelson ajudassem, em 2014 eu prestaria mais atenção às suas previsões. Passei a torcer pela Holanda, por afinidade a Amsterdam, cidade que sou fã. De resto, não vi novidades naquela “Copa televisiva”. Nada que o Canal 100, lá nos anos 1960/70, já não o fizesse, com uma vantagem considerável: tinha o futebol-arte para mostrar. Já o meu guru Bob Nelson, esse, teve um trágico fim e não conseguiu chegar a 2014. Até hoje, não me perdoo em ter sido eu o causador. Contudo, essa é outra história…

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Crime anunciado (Parte II)

1 de julho de 2022 12:03 por Mácleim Carneiro

 

 

Eu era criança, lá em Murici, e lembro bem da catástrofe que se abateu sobre São José da Laje em 1969. Todas as cidades ao sul da Laje, no curso do rio Mundaú, sofreram enchentes que provocaram perdas e danos. E o que foi e é feito preventivamente nessas cidades desde então? Nada! Absolutamente nada! Portanto, o que vimos em 2010 foi mais um crime anunciado. É evidente que, se existe crime, há que haver vítima(s) e malfeitor. Faz-se desnecessário dizer a quem cabe os respectivos papeis em Alagoas. Aliás, como sempre acontece nesses casos, é bem mais fácil apontar a natureza e os fenômenos naturais, como cangaceiros celestiais a serviço de um Deus entrópico. Mas não é bem assim. Como mostrou uma nota pública da Associação dos Geógrafos Brasileiros, AGB, seção Recife, à época.

A nota esclareceu que:

“Ao longo de vários anos, a monocultura da cana de açúcar transformou o espaço da Zona da Mata do Nordeste, em um espaço de “confinamento da pobreza” e degradação das relações sociais. O latifúndio da cana, não só deteriorou as condições sociais dos trabalhadores ao longo de vários anos, como também causou graves crimes ambientais, dentre eles, a completa destruição da Mata Atlântica e das matas ciliares, alteração de leitos de rios e seus afluentes, construções de barragens e diques, poluição dos cursos d´água, corte de encostas e muitos outros crimes. Assim, o resultado é uma desigual ocupação do espaço, aliado aos fatores sociais, a falta de investimentos nas cidades da Zona da Mata, bem como a não existência de uma articulada rede de prevenção de catástrofes naturais no território nacional.”

Bom Exemplo

Abro aqui um parêntese, para uma historinha na qual suponho ser um bom exemplo, que poderia ser seguido Mundaú acima. Certa vez, eu e os músicos que estavam em turnê comigo, ficamos alojados em um abrigo antiaéreo, construído durante a Segunda Guerra Mundial, em Montreux, Suíça. Os hotéis estavam lotados e iríamos fazer duas apresentações no Montreux Jazz Festival Off. Pois bem, fiquei impressionado com o estado de conservação do abrigo e seus equipamentos. Perguntei se era usado com frequência. Disseram-me que não, só em casos especiais como aquele. Tinha sido uma solicitação da organização do festival, que é um evento significativo para a cidade de

Mas, como esse fato pode servir de exemplo? A princípio, pode parecer que absolutamente nada se encaixa com a tragédia de 2010. Porém, levando-se em consideração que uma nova guerra mundial independe de fatores climáticos sazonais, que uma guerra é algo bastante cognitivo e que o fim da Segunda Guerra Mundial foi em 1945, ou seja, há 77 anos, podemos concluir que: a manutenção em perfeito estado de conservação daquele abrigo, em um país que se manteve neutro durante as guerras, é um admirável exemplo de organização preventiva. Exatamente o oposto do que acontece aqui, com as nossas catástrofes anunciadas, ano após ano.

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Crime anunciado

24 de junho de 2022 11:56 por Mácleim Carneiro

Enchente em Murici | Cortesia

Não! Ninguém pode ter a noção exata do que aconteceu nas cidades devastadas pela tromba d’água que atingiu as populações ribeirinhas dos vales do Mundaú e Paraíba, em 2010. Não! Ninguém pode ter a percepção física do sofrimento sem ter visitado as ruínas, os escombros, a desgraça, a tristeza e o desconsolo daquele povo.

A solidariedade dos que estavam de longe e ajudaram com donativos foi muito, extremamente, muito importante. Foi o que manteve de pé a esperança para aqueles que viram a moradia, negócio, pertences significativos, veículos, pessoas amigas, parentes, planos, coisas de uma vida inteira ruírem à sua volta. Diante de tanta destruição, a solidariedade se eleva e retroalimenta-se a um grau do sofrimento interior. Aconteceu com quem teve o interesse de ver bem de perto, in loco (com todos os cinco sentidos), o tamanho da tragédia. A não ser que a criatura não tivesse o mínimo de sensibilidade e, como víamos nos noticiários, encontrasse na desgraça alheia uma oportunidade de auferir vantagens em ano eleitoral.

Mundaú Inclemente

Quando as águas do Mundaú baixaram e deram condições de acesso a quase todas as ruas da minha cidade natal, fui ver o que de fato havia acontecido com o cenário e personagens de uma época importante da minha história de vida. Voltei ao berço, à minha incubadora, fui a Murici. Era domingo e chovia forte, como se fosse prenuncio de que ali ainda não se permitia o passado, tudo era o momento cruel, real e duradouro, que, a contragosto daquela gente, tatuava para sempre um futuro incerto e duvidoso. Ainda à beira da pista, a cena periférica antecipava o conteúdo interior. Centenas de desabrigados, misturados a restos de mobílias encharcadas e lixo, cercavam, sôfregos, as pessoas solidárias, que levavam pão e leite, para acontecer, digamos assim, o café da manhã.

Enchente em Murici | Cortesia

Não tentarei descrever o que vi e vivenciei ao chegar ao ponto crítico, ao coração bombardeado e esfacelado de Murici. Em resumo, diria que as águas destruíram quase tudo. Não foram seletivas! Assim, desde os mais pobres aos mais remediados, rio abaixo, o Mundaú foi inclemente e inundou de perdas imensuráveis inúmeras pessoas. Algumas, amigas de outrora. Outras tantas, não. Particularmente, levou a casa em que nasci e fui feliz. Levou prédios e signos que habitei e habitaram a minha infância interiorana. Levou, também, uma saudade que insiste em recriar rastros impossíveis de perceber onde há lama.  Enfim, rio abaixo, também deságua no mar a minha memória afetiva.

Por mais espaço virtual que essa mídia ofereça, não suportaria tanto tempo tendo que ter páginas e páginas onde a dor e o relato de penosas perdas se acumulariam e, ad infinitum, chegaríamos à próxima catástrofe anunciada que, infelizmente, sabemos, virá e deu uma mostra disso, com as chuvas intermitentes, que provocaram enchentes em Murici, durante esses dias molhados de junho, 12 anos após a tragédia de 2010. Portanto, não que eu seja anódino ao virar o foco para o outro lado do rio, porém, alguns questionamentos são pertinentes, ainda factuais e cabíveis aqueles cujos atos implicam em responsabilidades na dimensão de tais calamidades. Até para que (eis uma utopia) se levados a sério e a cabo, sejam desnecessários num futuro bem próximo.

Assim sendo, sem mais delongas, no próximo escrito, continuarei com esse miolo de pote.

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Universo em movimento

18 de junho de 2022 2:22 por Mácleim Carneiro

 

Quando o escritor português José Saramago, único Prêmio Nobel da língua portuguesa, foi cremado, no dia 20 de junho de 2010, em Lisboa, um grande vazio não se fez apenas na literatura mundial. Esta, um dos legados de Saramago, estará sempre ao nosso alcance, por meio dos seus livros e escritos, porém, o Saramago pensador contemporâneo, de extrema e ácida lucidez, sem papas na língua, sem medo de por os pingos nos is, este, faz uma falta eterna, principalmente, num mundo regido pela hipocrisia e múltiplas intenções.
Não há mais nada que eu possa dizer, além do meu sentimento de perda, que persiste até agora. Por isso, trago para os nossos 14 leitores um dos legados deixado por ele: o discurso que proferiu ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, na Academia Sueca.

José Saramago

“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: “José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira”. Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava… No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: “E depois?”. Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: “Não faças caso, em sonhos não há firmeza”.

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.”

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!!