16 de fevereiro de 2025 11:23 por Da Redação
Por Mácleim Carneiro
O compositor que tem a dádiva de ter DNA musical marcante e perceptível ao ouvinte atento, é um ser privilegiado! Por mais que tenha influências de outrem, saberá e terá recursos para não cair na mediocridade mimetizante dos que não se encontraram em si e procuram, o que lhes falta, em outros. Como uma frondosa árvore, seu cerne será preservado e reconhecido. Mesmo que cada galho seja diferente dos demais, o cerne será próprio e lhe garantirá singularidade. Ricardo Mota é um compositor com DNA, para o qual o tempo não é exatamente retilíneo porque gira, e só por uma questão cronológica poderemos saber o seu ponto de partida. ‘NÓS’, seu mais recente álbum, embora tenha um conceito único, que lhe deu origem, traz todas as características do compositor Ricardo Mota, já apresentadas desde o seu primeiro álbum ‘Vício e Verso’, lançado em 1997.
De lá para cá, ‘NÓS’ é o quinto álbum de um compositor que prioriza a palavra como elemento chave das canções. Certamente, por ser jornalista de ofício e compositor por diletantismo, Ricardo Mota sabe lidar com as metáforas, verbos, predicados, adjetivos, pontos e vírgulas…, com a intimidade e maestria de quem, certa vez, afirmou que as letras são mais importantes do que as melodias, para o contexto geral das canções. Há controvérsias, é bem verdade, porém, a discografia de Ricardo Mota é bastante coerente com o seu ponto de vista um tanto singular, já que, sem a melodia, ninguém sai por aí assoviando letras.
Conceito Basilar
Lançado apenas nas plataformas de streaming, o álbum ‘NÓS’ tem uma distância cronológica bem considerável do anterior, ‘Quando Eu Digo Samba’, lançado em 2004. Portanto, são duas décadas entre um álbum e outro, tempo suficiente para o amadurecimento do conceito basilar desse novo trabalho, cujas letras, melodias e arranjos equilibrados trabalham em prol da funcionalidade das canções. As 14 faixas atestam a delicadeza que permeia cada canção e ratificam o pensamento e emoção de Ricardo Mota, para com o seu núcleo familiar (filhos e netos), seus amigos, a cidade de sua preferência e outras questões, como a saudade, por exemplo.
De acordo com o próprio Ricardo Mota, esse foi um trabalho pensado e conceituado para consumo interno, para o seio familiar e os amigos mais próximos e seletos, porém, pelo visto, o artista e o competente produtor musical Félix Baigon tomaram gosto e ampliaram infinitamente o universo pensado anteriormente. Agora, ‘NÓS’ está para eles e para todos, ao alcance do mundo, nas plataformas digitais. Foi, portanto, a opção mais acertada, uma vez que o resultado final desse trabalho é tão satisfatório, que merece ser apreciado e fruído pelo naco da humanidade que ainda desfruta da possibilidade de sentir a música, a boa música, como canal direto e assertivo às sensibilidades e densas emoções.
Afetuosos Momentos
O álbum começa com uma evidente interpretação emocionada de Ricardo Mota, arriscando falsetes difíceis de serem sustentados em paralelo à emoção, para a quase canção de ninar, ‘Pedro” (Ricardo Mota), em duo com o piano de Luiz Assis, numa bela homenagem póstuma ao seu filho, que dá título e doçura a esta candura de canção. Na sequência, à capela, Ricardo Mota canta os primeiros compassos da balada ‘Camila’ (R.M.), sua filha, a quem declara: “Camila eu te amo, prá lá de prá lá”. Depois, a homenagem é para o seu filho ‘Luiz’ (R.M.), aos moldes dos mais belos moldes do Renato Teixeira. ‘João Vicente’(R.M.) e ‘Joaquim’(R.M.), netos do compositor, completam os primeiros e afetuosos momentos desse álbum que, como um livro estruturado em capítulos, parece ter sido dividido em momentos distintos, seja pelas homenagens do compositor aos filhos e netos, seja pela atmosfera das canções, como é o caso das dedicadas aos netos, ambas na mesma toada, que deve ter um significado pessoal para o compositor, no mínimo, equidade.
Finda a primeira parte, ‘Pedra’ (R.M.) é bem mais solar e despretensiosa, anunciando um novo momento para a audição, como um barco a velas no velho Chico, com um vento em popa a favor, onde os floreios do soprano do Everaldo Borges tecem paisagens que desembocam noutro rio da ‘Saudade’(Ricardo Mota e Paulo Max.), uma toada de águas mansas e mornas ao acordeon do grande Xameguinho, que não sai de cena e segue a ‘Estrada’(R.M.) xoteando num “clarão de lua sem fim”, com cheiro de chuva fininha no chão de terra batida, que até dá vontade de sair cantarolando o lê lê lê, ad libitum. ‘Natural’ (Ricardo Mota e Luiz Mota.), é um reggae praieiro, porém, sabiamente, imune aos enjoativos ukuleles. É, também, a faixa mais radiofônica desse trabalho e tem a participação especial do Luizinho Mota mandando super bem, em duo com o seu pai. Entendo que aqui se encerra o segundo capítulo deste álbum.
Último Capítulo
‘Tardinha’(R.M.), traz de volta a introspecção das canções, às vezes até dolentes, da lavra ricardiana. A bossa ‘Possesso’(R.M.) aparece como um encadeamento natural do que me parece ser o último capítulo desse belo trabalho e, claro, fala de amores sazonais. ‘Amigos’(R.M.) abre um generoso espaço na introdução, para Everaldo Borges, novamente, pontuar e frasear com seu soprano encantador de serpentes! A letra já fala em fim da jornada, prenunciando a reta final da nossa audição. Claro, antes do fim, nada melhor do que um samba tipo ‘anel de doutor’, para animar a despedida. ‘Legado’(R.M.) cumpre brilhantemente essa função, com direito a coro no refrão e um laiá laiá em fade out. ‘Nós’(R.M.), que dá título ao álbum, ‘ao invés’ do começo está no fim e não é à toa. Tem arranjo minimalista, apenas Ricardo Mota e o cello de Aldair Tomé, que em menos de um minuto funciona como um belo e delicado invólucro para a obra toda! E diz: “Serei começo e fim, prá você gostar de mim”. Pois bem, eu gostei! Aliás, não se fazia necessário um hiato de 20 anos, para Ricardo Mota legar a todos ‘nós’ esse gostinho.
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
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Nós, Ricardo Mota
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