8 de março de 2025 1:59 por Da Redação

Em 2012, quando lancei o álbum ‘Esses Poetas’, com poemas musicados de 13 dos mais significativos ícones da poesia caeté, eu sabia que não estava inventando a roda e nem seria o primeiro a usar desse argumento; muito menos que seria o último. Portanto, 12 anos depois, não me passou despercebido o álbum ‘Segunda Navegação’, do compositor alagoano Chico Torres, destemido o suficiente para encarar esse tipo de desafio que, por experiência própria, não é nada fácil. Ele musicou 10 poemas de poetas alagoanos contemporâneos e, para cada faixa musicada, convidou intérpretes femininas daqui e de alhures. De cara, digo que o resultado desse trabalho é tão satisfatório, que não merece passar despercebido ao público local, como passou o Esses Poetas. Então, sem mais delongas, vamos ao que interessa.
‘Porque Ignorar a Maré’ (Chico Torres e Raphaela Gomes) é a faixa que abre o álbum, com a imponência de um acorde cheio e maior, como a arrebentação das marés. Coisa que Dorival sabia e de alguma maneira chegou até Chico Torres, ao musicar a densa poesia praieira de Raphaela Gomes, que passa longe, muito longe de ukuleles e salobras musiquinhas escoradas em views e likes quantitativos. Há que se ressaltar a interpretação delicada e vigorosa da carioca Renata Chiquetto que, magistralmente, divide a refinada canção em dois belos momentos: graves e agudos. Então, “Por que confiar na onda, em ardor, mãos e joelhos”?
Encontro dos Timbres
Em ‘Retrato De Uma Jovem Em Chamas’ (Chico Torres e Lucas Litrento) temos uma balada cheia de referências Beatles and roll, com os staccatos do arranjo de cordas causando tensão suficiente para lembrar de Psicose, e só depois desaguar numa atmosfera relaxante, onde, mesmo assim, a interpretação de Barbara Castelões não deixa a mínima possibilidade de qualquer sonolência ou repouso, “Quando bate a vontade de demolir um penhasco”.
A próxima faixa é ‘Noite De São João’ (Chico Torres e Natália Agra) e o inusitado desse xote preguiçoso é a mudança de rumo melódico e harmônico, logo após os três ou quatro primeiros compassos do canto de May Honorato, cuja interpretação e timbre personalístico conferem sua identidade ao xote. Pela primeira vez aparece um instrumento solo e, claro, como signo do gênero, temos um belo solo de acordeon do Milla do Acordeon, que sai lá de cima dos graves e desce ao encontro dos timbres médios e agudos, já que nas teclas da sanfona o que desce sobe e o que sobe desce, enquanto “Ocupou com pequenas palavras as borboletas”.
A delicada canção ‘Máquinas Noturnas’ (Chico Torres e Amanda Prado) retoma o tema de símbolos praieiros ou aquíferos, recorrentes em boa parte das poesias que recheiam esse belo trabalho! É a faixa de arranjo mais minimalista e, portanto, formatada à perfeição para a belíssima interpretação ao piano e doce voz de Cláudia Castelo Branco. Os pequenos silêncios e as meigas sutilezas do excelente arranjo de cordas, do maestro Luís Martins, preenchem e traduzem os ‘se’ dos versos, “Se eu escrevesse os barcos sobrevoando a noite ainda triste e vazia de estrelas”, que introduzem esse belíssimo poema.
‘Canção’ (Chico Torres e Felipe Benício) tem acentuação de bolero, porém, escorregadio ao ponto de provocar uma inútil espera de mudança de ritmo, que não acontece e não teria mesmo que acontecer. Assim, pode ser “A paixão transfigurada em mentira, a verdade construída no som”, que Andréa Laís deu vida e cantou ao seu feitio e ao dizer: canto!
Latinidade Solar
Se Chico Torres tem uma porção baiana, no afoxé ‘Pois É’ (Chico Torres e Tazio Zambi) ele usou e abusou dessa prerrogativa, ao tirar uma onda com uma levada hibrida de salsa e afoxé, criando uma polirritmia bem interessante e revelando toda latinidade solar ao sul do Equador. Claro, para interpretar toda essa luminosidade, ninguém mais apropriado do que Cris Braum, até mesmo quando reverbera: “Não espero nada mais do sol nem do que secou”.
Na sequência, vem ‘Sísifo’ (Chico Torres e Milton Rosendo), que é como se saíssemos da Bahia e chegássemos às montanhas de Minas Gerais. Não consegui fugir dessa metáfora, um tanto pela estrutura melódica, outro tanto pelo timbre e interpretação mineira da paulista Iara Ferreira, e, também, pelo arranjo binário, com um quê de milonga, porém, de fácil similaridade em alguns álbuns dos mineiros. Como diz a poesia: “O que por delicadeza destruo, o que por perfeição me mata”.
Em ‘Colheita’ (Chico Torres e Karen Pimentel), Renata Peixoto empresta sua sensualidade de timbre quase pueril, para esse blues um tanto híbrido. Ela consegue ser doce mesmo quando canta “Os morangos mofados, não esqueça, são frutos podres, os que esquecemos de colher”.
‘Insígnias’ (Chico Torres e Ana Maria Vasconcelos) é a penúltima faixa e é também uma bossa ralentada, que carrega o peso da poesia nada leve, daquelas que jamais serão servidas como entrada e sim, como prato principal. Tem uma nostalgia que prenuncia o fim e a interpretação de Martha Brandão, de maneira bem peculiar, dá conta do recado nada fácil, diga-se de passagem. Aliás, concordo plenamente com a poesia: “Mapear é inútil, beber na concha das mãos é inútil, espalmá-las também”.
Por fim, e para finalizar esse belo trabalho, ‘Regresso’ (Chico Torres, Lee Flores e Jéssica Nucci) não precisa de introdução para abrir uma roda de samba característica das tardes de sábado em algum botequim festivo, ao som do cavaquinho, pandeiro, tamborim e o canto fácil e malemolente de Jéssica Nucci, como quem sai por aí cantarolando aos ventos: “O tempo tem seu tudo, seu nada, alento de flores que pairam no ar”.
Timoneiros e Poetas
‘Segunda Navegação’ é o álbum de um jovem compositor, que soube erguer e apontar velas para mares impossíveis de serem alcançados pela mesmice mediocrizante do que se autointitula novo e tão em voga nos tempos atuais. Por isso, tive novamente o prazer de resenhar um trabalho que mereceu ser esmiuçado faixa por faixa. Chico Torres, com seu álbum de estreia, nos ratifica que navegar não é preciso e sim surpreendente, como de certo sabem timoneiros e poetas!
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
SERVIÇO
Segunda Navegação, Chico Torres
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