
Por Dilson Ferreira*
A discussão de um empreendimento de grande porte na Lagoa da Anta, em Maceió, tem sido fruto de intenso debate em Maceió. Este artigo visa mostrar os impactos de toda ordem que ultrapassam a área de sua implantação. Sua localização estratégica, caso construído pressionará diversas regiões da cidade, afetando mobilidade, infraestrutura, saneamento, meio ambiente e qualidade de vida da população. Além claro de desrespeitar o que foi definido em audiências no novo plano diretor e no projeto orla, de que área deve ser de uso público.
Sem um planejamento urbano eficiente, esse projeto pode agravar problemas urbanos já existentes. Um empreendimento deste tipo, além de causar impacto, induz novos empreendimentos similares na região comprometem a infraestrutura e a riqueza ambiental de Maceió. Estamos assistindo isso na Josefa de Melo, com desmontes de morros, aterros de grotas e toda uma grotesca cena diuturna de desrespeito as leis ambientais transtormada em milhões de reais em lotes e m² de apartamentos. O Parque Shopping, induziu todo o mercado imobiliário ao seu redor. É o que chamamos de empreendimento “HUB” ou empreendimento satélite, que impacta não só sua área de implantação, mas bairros inteiros.
1. Impactos Urbanos e Infraestruturais
1.1. Mobilidade Urbana e Circulação Viária
A implantação desse empreendimento na Lagoa da Anta, se construído aumentará a demanda por deslocamentos, sobrecarregando o sistema viário com fluxos é estacionamento nas vias. Se não for planejado adequadamente, pode resultar em:
- Ampliação do já crônico estacionamento nas principais vias de acesso, afetando a fluidez do trânsito e aumentando o tempo de deslocamento da população;
- Redução da eficiência do transporte público, tornando ônibus mais lentos e sobrecarregados devido à competição com o tráfego de veículos particulares, motos e etc;
- Dificuldades para pedestres e ciclistas, pois o crescimento imobiliário desordenado muitas vezes não é acompanhado pela melhoria da infraestrutura para mobilidade ativa, Maceió não é uma cidade que cuida de suas calçadas, maior vetor de deslocamento nessa região que possui uma população que usa muito as calçadas e ciclovias para ter acesso a praia, a área da lagoa e a própria orla da Jatiúca e Cruz das Almas.
Da forma como se vem debatendo, esse empreendimento pode gerar tráfego intenso em áreas já saturadas, criando gargalos viários e prejudicando a conectividade urbana na Jatiúca, Mangabeiras e Cruz das Almas. Com toda certeza a mobilidade já insuficiente irá piorar muito.
1.2. Pressão sobre o Corredor Vera Arruda e o Crescimento no Stella Maris
A construção desse empreendimento pressionará ainda mais o Corredor Vera Arruda, que já sofre com demandas e pressão para a abertura de suas vias. Com a construção do projeto na Lagoa da Anta, a tendência é que haja um impacto direto nessa área, provocando:
- Aumento da pressão para abertura de ruas no Vera Arruda, alterando a dinâmica viária. Ambiental e social da região do Stella Maris;
- Indução de novos empreendimentos no Stella Maris, uma vez que essa região ainda possui grandes e diversas glebas disponíveis para grandes projetos imobiliários e hoteleiros, que a infraestrutura local da Jatiúca não comporta mais.
- Sobrecarregamento da infraestrutura do Vera Arruda, que poderá ser utilizado como alternativa de fluxo viário, aumentando a circulação e a degradação urbana da área do corredor;
- Expansão urbana acelerada sem contrapartidas adequadas dos empreendedores e da própria prefeitura, comprometendo ainda mais a mobilidade e a infraestrutura local que já sofre com saturação, alagamentos de via, insuficiência na coleta de esgoto. Além problemas de abastecimento e manutenção em sistemas de água e esgoto em alguns pontos e momentos do ano.
Caso esse empreendimento seja construído, a região do Vera Arruda será diretamente impactada, tornando-se um novo polo de desenvolvimento imobiliário desordenado como é a Jatiúca e Ponta Verde. Esse efeito multiplicador poderá pressionar o uso e a abertura de novas vias e sobrecarregar ainda mais a infraestrutura viária do Corredor Vera Arruda e adjacências.
1.3. Pressão sobre as Vias Já Saturadas
Além do impacto no Vera Arruda, o empreendimento aumentará a circulação de veículos em vias que já operam no limite da capacidade, como:
Avenida Álvaro Otacílio – uma das principais vias da orla, que já sofre com congestionamentos em horários de pico;
Avenida Álvaro Calheiros – rota importante para acesso à Jatiúca e ao Litoral Norte, que pode ser sobrecarregada pela nova demanda de tráfego;
Avenida Gustavo Paiva – via essencial para a ligação entre diferentes regiões da cidade, que já enfrenta dificuldades de fluidez;
Avenida Dona Constança – com função de suporte ao tráfego local, poderá ser impactada pelo desvio de fluxo da nova demanda;
Avenida Brigadeiro Eduardo Gomes (Avenida Litorânea da Cruz das Almas) – via estratégica para o litoral, que sofrerá ainda mais impactos na mobilidade, acessibilidade e circulação, já que estará ao ado do empreendimento.
Sem infraestrutura adequada, a mobilidade nessas vias pode ser comprometida, agravando os congestionamentos já existentes e tornando os deslocamentos mais difíceis para moradores e visitantes.
2. Impactos Ambientais e no Microclima Urbano
2.1. Alteração da Paisagem Natural e Supressão de Áreas Verdes
A remoção de vegetação nativa e paisagística, já que estão perdendo alterações viárias, compromete a função ambiental da região, resultando em:
- Destruição de ecossistemas naturais, prejudicando espécies nativas e alterando o equilíbrio da fauna e flora locais da lagoa.
- Aumento da temperatura urbana, devido à substituição da vegetação por superfícies de concreto e asfalto, que retêm mais calor em todo entorno.
- Grandes sombras na orla, comprometendo a lagoa e a vegetação nativa na faixa costeira.
- Intensificação da erosão costeira, reduzindo a proteção natural contra o avanço do mar e eventos climáticos extremos, pois com certeza irão tentar criar eixos alternativos de escoamento do tráfego do empreendimento pela orla, hoje as entradas e saídas do Hotel não comportam o atual fluxo, imagina 5 a 6 torres , hotéis e infraestrutura para veículos?
A perda dessas áreas não pode ser compensada apenas com pequenos reflorestamentos urbanos, pois o impacto na biodiversidade e na estabilidade ambiental é permanente.
2.2. Risco de Poluição Costeira e Aumento de Línguas Sujas
A expansão desse empreendimento, associada a outros projetos na região, pressionará o sistema de esgotamento sanitário, aumentando o risco de ligações clandestinas e despejo irregular de efluentes, como hoje já acontece na região. Atualmente, a Praia de Cruz das Almas e Jatiúca já contam com diversas “línguas sujas”, e a falta de infraestrutura adequada pode resultar em:
- Ampliação do número de línguas sujas ao longo da faixa de praia, comprometendo a balneabilidade e a qualidade ambiental da região;
- Contaminação da água do mar por esgoto não tratado, prejudicando a fauna marinha e representando riscos à saúde pública;
- Desvalorização da orla como espaço de lazer e turismo, afetando a economia local e reduzindo a atratividade da cidade.
Sem o devido planejamento, a poluição costeira pode comprometer de forma irreversível um dos principais ativos naturais e turísticos de Maceió.
3. A Necessidade de Planejamento e Compensações Urbanas
Diante dos impactos urbanos e socioeconômicos desse empreendimento, torna-se fundamental que o desenvolvimento imobiliário da Jatiúca esteja condicionado a um planejamento estruturado e a medidas de mitigação efetivas, o que chamamos no urbanismo de “operações urbanas”, com estudos consistentes de mobilidade, estudos de impacto ambientais e de vizinhança, estudos de densidade urbana, estudos de expansão de infraestrutura local, dentre outros estudos técnicos inerentes a grandes projetos urbanos.
3.1. Medidas Necessárias para Mitigar os Impactos do mercado imobiliário na região:
- Expansão e modernização da rede viária, garantindo que o aumento da circulação de veículos não comprometa a mobilidade urbana;
- Ampliação da infraestrutura de transporte público, com novos corredores exclusivos e reforço na oferta de ônibus e outras alternativas planejadas de transporte de massa
- Investimentos em saneamento básico, assegurando que a demanda extra não sobrecarregue a capacidade da cidade e destes bairros. Hoje já está no limite e não é raro ver esgoto saindo nas ruas.
- Reforço na rede elétrica e de serviços urbanos, prevenindo sobrecargas ou quedas e garantindo estabilidade no fornecimento de energia.
- Criação de espaços públicos e áreas verdes compensatórias, minimizando os impactos ambientais e garantindo a preservação da biodiversidade como principal ativo da região.
- Políticas para controle da especulação imobiliária e proteção do comércio local, evitando o deslocamento da população tradicional e a substituição forçada do comércio. Isso vem acontecendo na Jatiúca em uma espécie de “gentrificação silenciosa”.
- Projetos ambientais para inter-bairros, ampliando a preservação na região.
Crescimento Urbano Planejado ou Crise Estrutural?
O empreendimento na Lagoa da Anta não deve ser analisado de forma isolada. Seus efeitos ultrapassam a área do projeto e impactam diretamente a infraestrutura da cidade, a qualidade ambiental e a organização socioeconômica.
O crescimento urbano de Maceió precisa ser conduzido de maneira ordenada, planejada e equilibrada, garantindo que novas construções não comprometam a mobilidade, os serviços urbanos e a qualidade de vida da população.
Sem um planejamento adequado e contrapartidas urbanísticas proporcionais, o projeto pode replicar os problemas já observados em outras regiões, agravando congestionamentos, sobrecarregando a infraestrutura e elevando os custos de vida sem benefícios reais para a coletividade.
Portanto, o debate sobre esse empreendimento precisa ser ampliado para incluir toda a cidade. O futuro de Maceió deve ser definido com critérios técnicos sólidos, garantindo um desenvolvimento urbano que favoreça toda a população e não apenas setores específicos da economia.
A lagoa precisa ser devolvida ao poder público e a população. O Hotel já cumpriu sua função socioeconômica induzindo o turismo. O momento é de devolvemos ao maceioense e aos turistas que nos visitam, um grande e belo parque urbano.
*É arquiteto e urbanista.