27 de março de 2025 2:21 por Da Redação

Por Maurício Sarmento*
A Braskem encerrou o ano de 2024 alegando enfrentar uma crise financeira profunda: prejuízos bilionários, endividamento crescente e um coro de apelos por incentivos estatais. Enquanto isso, em Maceió, dezenas de milhares de pessoas seguem vivendo o luto e o abandono provocados por um crime socioambiental de proporções inéditas. O colapso geológico causado pela exploração predatória de sal-gema destruiu cinco bairros inteiros e deslocou mais de 60 mil pessoas diretamente afetadas.
Também fazem parte desse contingente comunidades como Flexais, Quebradas, Marquês de Abrantes e Bom Parto, que, embora ainda não reconhecidas oficialmente como áreas atingidas, enfrentam os mesmos problemas estruturais já diagnosticados nas regiões evacuadas. Essas populações vivem sob grave isolamento social e econômico, e lutam com urgência pela realocação e pelo reconhecimento de seus direitos enquanto vitimas do desastre.
Além disso, mais de 140 mil pessoas que vivem nas áreas do entorno chamada “borda do mapa” também sofrem com os efeitos indiretos e continuos desse desastre tecnológica criminoso. A correlação entre a alegada crise da indústria petroquímica e a tragédia humana em Maceió escancara a falência de um modelo produtivo que prospera às custas do sofrimento coletivo da maioria e da concentração de lucros nas mãos de poucos acionistas.
A trajetória da Braskem foi marcada por lucros expressivos desde sua fundação. A empresa se beneficiou de politicas de incentivos fiscais, monopólios de mercado e amplo apoio institucional. No entanto, todo esse crescimento se sustentou en modelo que privatiza os lucros e socializa os prejuizos. O caso de Maceió é a expressão mais cruel dessa lógica: uma empresa que lucrou bilhões com a extração de sal-gema, mas que não assumiu integralmente os custos humanos, sociais e ambientais do desastre que causou.
O contraste é gritante. A mesma Braskem que hoje clama por ajuda pública e proteção de seus interesses continua sem garantir reparação integral às vítimas. Impôs um programa de compensação marcado pela coação económica, social e psicológica, desconsiderando a complexidade da perda coletiva e territorial. A reparação tem ocorrido por meio de processos unilaterais, sem participação efetiva das comunidades atingidas, sem transparência e sem compromisso com a justiça.
Acredito, como sindicalista que sempre pautou sua atuação pela via do diálogo e da negociação, que a solução para as vitimas também deve passar por esse caminho. Contudo, é fundamental que a negociação se dê com quem realmente detém o poder de decisão dentro da empresa e, principalmente, que haja uma negociação direta com as vitimas. São elas que conhecem a extensão dos danos, os impactos cotidianos e as necessidades urgentes. Negociar, sim mas com as pessoas atingidas no centro do processo, com respeito à sua autonomia, escuta ativa e compromisso genuino com a reparação integral.
A indústria petroquímica é estratégica para o desenvolvimento do Brasil. Mas estratégia não pode ser confundida com conivência. A Braskem não pode ser o símbolo da reindustrialização que o país necessita. Precisamos de um novo pacto industrial, fundado na responsabilidade socioambiental, na preservação dos territórios e na centralidade da vida. Não é aceitável que um setor que se diz voltado para o futuro se apoie em práticas que destroem cidades inteiras e deixam rastros de dor
O modelo atual revela sua falência quando precisa da destruição social para crescer e de apoio estatal para sobreviver. Uma indústria que não é capaz de garantir reparação integral, que enfraquece a democracia ao perseguir judicialmente suas vitimas e que busca blindagem diante de seus crimes não pode continuar operando sob as mesmas regras.
Não há futuro possivel para a indústria sem justiça para o passado. Reindustrializar o Brasil exige uma transição justa. com reparação plena às vítimas, responsabilização das empresas e políticas públicas que coloquem a vida e o território no centro das decisões. A reconstrução do pais começa com o reconhecimento e a reparação plena dos seus escombros.
*Membro da Diretoria do MUVB (Movimento Unificado das Vitimas da Braskem)