2 de abril de 2025 9:36 por Da Redação

Por Moacir Rocha Santana Filho
Realizou-se nesta segunda-feira, 31 de março de 2025, em Maceió, com a sala 2 do Arte Pajuçara lotada de espectadores, o Cine Memória, a primeira mostra de cinema realizado pelo Comitê Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia de Alagoas, organização fundada em 14 de setembro de 2019. A realização do evento contou com uma importante parceria com a Especialização em História de Alagoas do Instituto Federal de Alagoas (Ifal), verificando-se a presença de muitos jovens alunos deste instituto, além de alagoanos que viveram o contexto instaurado pelo Golpe Militar de 1964.
A programação do Cine Memória foi iniciada com o clássico e premiado “Jango” – Festival de Gramado (1984) e Festival de Havana (1984) –, documentário do diretor Sílvio Tendler, sobre o conturbado governo de João Goulart, presidente do Brasil entre 1961 e 1964, contendo importantes depoimentos de políticos e militantes da época, como Brizola e Aldo Arantes.
Na última sessão foi exibido o filme “Zé” (2023), inédito em Alagoas, com direção de Rafael Conde, inspirado no livro homônimo de Samarone Lima, trata da trajetória do estudante universitário José Carlos Novais da Mata Machado (“Zé”) – interpretado por Caio Horowicz –, militante do movimento estudantil brasileiro, perseguido e assassinado pela Ditadura Militar em 1973, em Recife.
No intervalo dos filmes, o público acompanhou a formação de uma mesa de debates, contando com os jornalistas João Marcos e Ésio Melo, o advogado Moacir Rocha, membros do Comitê de Memória, Verdade e Justiça do estado, o professor e coordenador da Especialização em História de Alagoas, Amaro Hélio Leite, e o aguardado depoimento da professora e militante da época – Maria Alba Correia.

João Marcos apresentou o contexto histórico e político da época de “Jango”, e destacou a presença dos dois mais antigos presos políticos de Alagoas, Eliezer Lira – “no alto dos seus 90 anos”, e Petrúcio Lages – “era um estudante de filosofia e bancário do Banco do Nordeste”, ambos presentes na primeira fileira da sala do cinema. Ésio Melo lembrou a luta de alagoanos como Manoel Lisboa, Gastone Beltrão e Jayme Miranda, mortos pela Ditadura Militar, apontando que, “o Estado brasileiro reconhece oficialmente 434 mortos e desparecidos políticos, entretanto, são milhares de pessoas que a ditadura matou, indígenas, trabalhadores rurais, nas favelas, o povo preto do Brasil; só no Cemitério de Perus, em São Paulo, numa vala comum tinha mais de mil ossadas de militantes assassinados pela ditadura”, assim, “é preciso que a gente continue esse processo de luta pela verdade para que de fato a gente avance para uma democracia real, onde o povo possa estar no poder”.
Em sua fala sobre memória política, Moacir Rocha destacou que “se não houvesse todo esse processo histórico de memória e discussão política, e fôssemos hoje ao acervo Arquivo Público de Alagoas, ao pegar um jornal de 1º de abril de 1964, veríamos estampados termos como ‘revolução’, ‘vitória da democracia’, Maceió comemorando o golpe, e não saberíamos interpretar criticamente essa versão. Perceba o poder da construção da memória, da verdade e justiça, de cada discurso, ação, cada movimento e pessoa que lutou, morreu e viveu dizendo ‘isso não foi uma festa da democracia’”.
O professor Amaro Hélio Leite ao apresentar Maria Alba Correia destacou sua “força guerreira” e uma “história de luta incrível”, “essa baixinha esteve na organização do movimento sindical rural, na luta contra a Ditadura Militar, foi da Ação Popular (AP), do MEB, e não mediu esforços para organizar os trabalhadores e o povo aqui em Alagoas, organizar a esquerda em Alagoas. Então, se hoje nós estamos aqui, vendo esse filme, discutindo, nos organizando de certa forma contra a anistia desses golpistas, contra a Ditadura Militar, e em memória dos mortos, nós devemos muito a história dessa baixinha, nós devemos muito a esses grandes guerreiros e guerreiras”.

Em seu depoimento, Maria Alba Correia lembrou que sua luta começou ainda nos anos 1960, quando jovem, mas que ainda continua, mesmo com quase 90 anos de idade (“faltam só três anos”). Sobre sua trajetória, destacou que “minha atuação vem da Igreja Católica, uma igreja ainda atrasada, mas que depois do Papa João XXIII passou a ver a religião na vida real da humanidade, então, é uma igreja que cuida e participa da qualidade de vida, por melhores condições e união de todos”. Alba ressaltou que seu depoimento representa também um regaste de outras pessoas que lutaram com ela, como “Lúcia Souza, uma figura com onze anos de clandestinidade e que hoje ainda apresenta os efeitos dessa clandestinidade e das pressões e torturas por prisões que passou”. Sobre as perseguições, apontou os “momentos que a gente também correu da repressão, fazendo um movimento de buscar a participação popular para que todos venham juntos caminhar pela transformação social no mundo, não só em Alagoas”.
Sobre a sua militância, lembrou a professora que, “já fui muitas vezes chamada de comunista, minha mobilização começou na Igreja Católica, começa rezando, pedindo a Deus para que acabe com tudo, para depois a gente descobrir que a igreja se volta chamando a gente para sermos nós os militantes de uma transformação da sociedade”. Sobre essa transformação, complementou, “transformar a sociedade é querer tudo em comum para todos, então queremos a igualdade, a liberdade, e a qualidade de vida para todos. Isso é comunismo? É colocar tudo em comum para todos. Sou comunista do Partido Comunista do Brasil porque tenho essa compreensão”, neste momento foi aplaudida por todos na sala.
No final de sua fala, Maria Alba Correia fez um convite: “eu conclamo a todos para nos unirmos e fazermos isso em favor da humanidade toda”, e refletiu, “de vez em quando eu digo, eu estou fazendo noventa anos e o povo ainda está me chamando para falar, tanto novo nessa sala, vamos jogar essa tropa para falar também, não só falar, agir na transformação desse mundo igual para todos”.