quinta-feira 3 de abril de 2025

O futuro urbano de Maceió (Parte 2)

Urbanismo não é maquiagem de redes sociais, nem asfalto pintado de verde. É ação no território — com e para quem vive nele
Ciclovia da Fernandes Lima tem 5 km de extensão. Foto: Ascom Seminfra

Por Dilson Ferreira*

A mobilidade urbana de Maceió está em pleno colapso. A cada dia entram, nas ruas, mais carros e motos e menos pessoas usam ônibus. O uso do transporte coletivo por ônibus no Brasil caiu 25,8% desde 2019, segundo o anuário da associação nacional das empresas de transportes urbanos (NTU, 2023-2024). Isso significa que, em quatro anos, um em cada quatro passageiros deixou de utilizar o serviço nas principais capitais do Brasil. O sistema público está sendo abandonado por falta de gestão e infraestrutura  adequada de mobilidade urbana.

Maceió não é diferente e ainda não possui plano de mobilidade faz 13 anos!

Segundo dados do IBGE de 2024, Maceió possuía 213.836 automóveis e 105.012 motos, muitos destes veículos usados em lotações e mototáxis. A resposta não está apenas em mais ônibus com ar-condicionado, mudanças de itinerário, ciclovias, faixas verdes, vias, duplicações e viadutos. Precisamos de uma mudança estrutural, pois, o colapso da mobilidade é uma realidade em Maceió, sem falar da quantidade de acidentes diários no nosso trânsito, ampliando as estatísticas de morte e mutilações nos hospitais.

Um metrô leve e novas soluções

Proponho a implantação de um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), no sentido Norte-Sul, conectando os movimentos de rotas no sentido Leste-Oeste que, inclusive, poderia usar a rodoviária, que virou mais um centro de autarquias públicas do que rodoviária.

Claro, tudo financiado com os recursos da reparação da Brtaskem — a mineradora que destruiu cinco bairros da capital e deixou marcas profundas na mobilidade, no custo dos imóveis, na vida das pessoas e na dinâmica urbana, expulsando 60.000 pessoas para bairros e cidades distantes. Isso impactou, severamente, a mobilidade de Maceió, sobrecarregando as principais avenidas com rotas com velocidade média de menos de 10km/h.

Além disso, os projetos de duplicação realizados e em obras, foram propostos na década de 1980 pelo Grupo de Estudos para Integração da Política de Transportes (GEIPOT) do governo federal. Não há nada de inovador nas novas obras.

Avenida Fernandes Lima | Foto: Divulgação

Resumindo MACEIÓ FAZ MOBILIDADE DE 40 ANOS ATRÁS, sem um plano de mobilidade urbana previsto em lei, sem discutir com a população e sem interagir com especialistas. E quando a sociedade questiona projetos ou pede mudanças, os gestores públicos buscam a justiça, ignorando demandas da população. Esse é o modelo urbano.

Bem, voltando ao VLT, defendemos, inicialmente, uma atualização cadastral e uma análise criteriosa de toda a malha urbana. Muitas vezes, pequenas intervenções bem planejadas podem destravar o trânsito e poderiam conectar novas rotas ao VLT. promovendo mobilidade interbairros. Só que isso exige profissionais qualificados e estrutura técnica mínima. E isso não se faz com indicações políticas e comissionados sem perfil técnico especializado.

Hoje, vivemos um apagão técnico. Concursados são substituídos por comissionados. Em Maceió, serão 1.215 novos cargos comissionados, com salários de até R$ 16 mil — um custo de R$ 40 milhões por ano anunciado, recentemente, pela prefeitura da capital.

Ciclovias, calçadas e transporte hidroviário

Defendo ciclovias arborizadas, calçadas acessíveis em todos os bairros, tarifa zero para quem mais precisa (sim mais de 100 cidades já implementam no país  a tarifa zero). É preciso conectar modais, e a integração com bicicletas e o resgate do transporte hidroviário na Lagoa Mundaú e Manguaba se faz urgente, podendo, inclusive, impulsionar o turismo de municípios lagunares. Esse modal hidroviário, tradicional em Alagoas, desapareceu pela ineficiência dos governos municipais e estaduais ao longo do tempo. O transporte público nas lagoas pode ser resgatado, modernizado e tornar-se símbolo de uma nova forma de fazer mobilidade, ecológica, agradável e acessível.

A periferia quer dignidade, não apenas asfalto, luz de led e areninhas

Inspirados por Medellín (Colômbia), proponho a criação de centros culturais multifuncionais nos bairros populares, com biblioteca, estúdios de música, Wi-Fi gratuito, cursos e atendimento social. Uma espécie de centros sociais urbanos do passado, mobilizando a sociedade a viver seu bairro, discutir, usufruir de espaços públicos e desenvolver esse senso urbano de pertencimento da cidade.

Esses centros devem conviver com praças arborizadas, escadarias acessíveis, rampas seguras e rotas culturais. A cultura periférica  e urbana— do reisado ao rap, do coco ao grafite — precisa de política pública, não só de aplauso ou de emendas de políticos.

Movimentação no Terminal Rodoviário de Maceió | Divulgação

O futuro urbano será verde — ou não será?

Precisamos aprender a conviver com a água, não combatê-la. Defendemos a criação de parques alagáveis em bairros que alagam, corredores ecológicos urbanos conectando grotas e áreas de preservação e o plantio sistemático de árvores nativas na cidade, com medidas de compensação de taxas públicas para quem arborizar.

Também proponho hortas urbanas e compostagem comunitária em terrenos públicos ociosos, gerando alimento, renda, aprendizado e vida, isso conectado à busca de revitalização de nascentes e riachos, como vem sendo feito em São Paulo.

Justiça fiscal e função social da cidade

O solo urbano deve cumprir sua função social. Propomos IPTU progressivo para imóveis ociosos e abandonados, incentivando o uso para habitação popular e cultura. Por outro lado, defendemos IPTU regressivo ou isenção para projetos comunitários, cooperativas, centros culturais, negócios ecológicos, projetos sustentáveis e famílias de baixa renda.

Segurança pública é presença do Estado

Uma cidade segura é aquela que cuida de suas calçadas, ilumina suas ruas, protege suas crianças e idosos e permite que mulheres caminhem sem medo. Segurança urbana começa com urbanismo humano — e se estende aos animais, que também habitam as cidades e convivem com a população.

O exemplo está perto: Medellín, Bogotá, Salvador

Cidades latino-americanas estão ensinando que o urbanismo pode nascer da periferia. Parques-biblioteca, muralismo, escadarias coletivas, teleféricos, mirantes turísticos, mercados públicos e culturais e economia criativa periférica são apenas alguns exemplos. O que deu certo lá pode dar certo aqui! Com ação e não com marketing!

Um convite coletivo

Este texto é um chamado à imaginação coletiva. Sugestões para transformar a realidade de Maceió. A cidade é nossa e ela deve ser construída com gestão pública, participação popular e justiça social. Basta de políticos que se acham “Gênios do Urbanismo” querendo transformar cidades em “Disneylândias para Turistas” escondendo o caos da cidade real com imagens coloridas e iluminadas em redes sociais.

Urbanismo não é maquiagem de redes sociais, nem asfalto pintado de verde. É ação no território — com e para quem vive nele. É interação, planejamento coletivo e participação das pessoas na construção da cidade.

*Arquiteto urbanista e professor doutor da CAU/Ufal

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