Dos Arraiás aos Santos Juninos -1

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Por Gilvan Gomes

Santo Antonio. Fonte: www,nossasagradafamilia.com.br

 

No mês de junho de 2020 escrevi um artigo neste blog sobre as origens das nossas festas juninas: suas raízes pagãs e sua cristianização e seu deslocamento para a nossa terra e como o nosso povo as celebram: na alegria das danças, no calor das fogueiras, no brilho dos fogos de artificio e na nossa fé herdada pelos nossos colonizadores.

Nesse mesmo mês iremos apresentar os três santos que festejamos no decorrer do mês de junho.

1. SANTO ANTÔNIO:

“Que seria de mim, meu Deus sem a fé em Antônio” (J. Veloso).

O culto a Santo Antônio de Lisboa implantou-se no Brasil com a vinda dos primeiros portugueses. Um sermão de Padre Antônio Vieira no Maranhão em 1656, já considerava Santo Antônio, “o primeiro valido de Deus”, descrevendo-o com as mãos cheias de “memórias” ou pedidos que eram logo atendidos: “Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge o escravo, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se perdeis a menos miudeza de vossa casa, Santo Antônio” (1).

Fernando de Bulhões e Taveira nasceu em Lisboa no dia 15 de agosto de 1195 e faleceu em Pádua na Itália, no dia 13 de junho de 1231. Entre as inúmeras representações do santo, geralmente, ele aparece com o menino Jesus no colo e vestindo o hábito franciscano, ele abençoa com a mão esquerda e traz, na direita, a Bíblia e um lírio. Também é muito representado com o Menino Jesus, sentado ou em pé sobre a Bíblia sagrada, que o santo milagreiro tanto estudou em sua vida para se tornar o grande pregador em que sua ordem tanto necessitava, à época em que foi fundada.

O seu rosto, nas imagens, é geralmente o de um moço imberbe. Mostra na cabeça a coroa ou tonsura, o corte de cabelo dos clérigos e monges.

Dos seus 36 anos de vida, 25 anos, ele viveu em Portugal, e 11 na Itália e na França. Apenas 11 meses após a sua morte, foi declarado santo pelo Papa Gregório IX.

Aos 15 anos, ingressa na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e, aos 25 anos, ordena-se sacerdote em Coimbra. Fascinado pela coragem dos primeiros mártires dos franciscanos no Marrocos, ingressa na Ordem Franciscana Menor, em 1220, no Convento dos Franciscanos em Coimbra, onde recebe o nome de Antônio em homenagem ao eremita do Egito, Santo Antão, que viveu entre o século III e o século IV da era cristã.

Em 1221, partiu para o norte de África, mas, ficou doente e quando regressava a Portugal, uma tempestade desviou o navio para a Itália, onde acabou ficando e foi professor de Teologia para os frades franciscanos.
Tornou-se popular como pregador aguerrido, merecendo os títulos de “trombeta do Evangelho” e “martelo dos heréticos”. De acordo com o franciscano José Clemente Müller,

Seu público era o mais variado possível, abrangendo todas as classes sociais, desde o sumo pontífice com seu sacro colégio, passando pelos governantes e magistrados até ao rústico camponês. O santo da devoção popular era um tipo prático. Mais do que um pensador dogmático, era um mestre intuitivo (MÜLLER, 1995, p.22).

Em Rimini, fez um burro ajoelhar-se diante do Santíssimo e convenceu o chefe o chefe dos Valdenses, Bonvillo, a submeter-se a Roma. Na mesma localidade, com seu famoso sermão aos peixes, surpreendeu o povo. Morreu aos 36 anos no convento de Arcela, perto de Pádua, era 13 de junho de 1231. No dia do seu enterro – uma terça-feira, 17 de junho – aconteceram vários milagres. Os portugueses o chamam de Santo Antônio de Lisboa (onde nasceu) e os italianos preferem chama-lo de Santo Antônio de Pádua (onde morreu).

Em sua vida de teólogo e pregador, aparentemente não há motivo que explique sua popularidade de santo casamenteiro, sobretudo no mundo urbano. Mas, em várias festas e danças rituais da religião do povo, a sexualidade é celebrada comunitária e religiosamente.

Haroldo Lobo e Milton de Oliveira compuseram o xote-baião:

“Santo Antônio exagerou: em matéria de amor / eu nunca brigo / Pedi um casamento / Santo Antônio arranjou cinco.// Tenho a Luísa, tenho a Elisa / e também a Leonor / Tenho a Luzia, tenho a Maria,// Santo Antônio exagerou”(Festa Junina, 1984).

Os devotos fazem trezena porque ele morreu no dia 13. Desde 1617, existe suas devoções às terças-feiras. Santo Antônio é invocado para encontrar objetos perdidos. No Responso de Santo Antônio, hino escrito pelo italiano frei Julião de Espira (+ 1250), logo depois da morte do Santo (+1231): “Quem milagres quer achar / contra os males e o demônio, / busque logo a Santo Antônio,/ que aí os há de encontrar.// (…) tira os presos da prisão, ao doente torna são/ e o perdido faz achar” (GOFFINÉ, 1900, p. 802).

Na cidade de Igaraçu (PE), Santo Anto Antônio e vereador desde 23 de novembro de 1754, com a autorização do rei Dom José I. Nas sessões das terças e das quintas-feiras, um funcionário acende uma vela junto à imagem do santo. Recebeu o título de vereador perpétuo, ganhando 27 mil réis. Até hoje, o salário é entregue ao convento do Santo para a manutenção de uma creche e distribuição de pães para os pobres. Desde 1890, existe o pão de Santo Antônio.

É por toda essa grandeza que esse santo é dos mais populares no Brasil e faço coro com Maria Bethânia:

Antônio querido / Preciso do seu carinho / Mostre-me novo caminho/ Se ando perdido/Se ando perdido / Mostre-me novo caminho / Nas tuas pegadas claras/ Trilho o meu destino / estou nos teus braços, como se fosse / Deus menino. (J. Veloso).

Gilvan Gomes das Neves é mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

REFERÊNCIAS:

1- PRECE MILAGROSA. Jornal do Brasil, 11/07/1986. Classificados 5.

GOFFINÉ, Leonardo. Manual do Christão. Rio de Janeiro, Colégio da Imaculada Conceição, 1900, p. 802.

MÜLLER, José Clemente. Santo Antônio e as Sagradas Escrituras. In: OITAVO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SANTO ANTÔNIO. São Paulo, nov/1995, p. 22.

 

 

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