Tempos Modernos

Tudo não passou de uma reles cópia do conceito já utilizado nas partituras de John Cage

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Por Mácleim Carneiro

 

Cena 1: Festival de Cinema de Penedo

O público começa a chegar. Terá início a avant-première do filme que, a partir dessa sessão, estará em cartaz nos melhores cinemas do ramo. Aparentemente heterogêneos, os cinéfilos merecem sim, sob o ponto de vista coletivo, o rótulo de ‘público cabeça’, cujo destaque vai para a individualidade excêntrica de cada expectador.

Cena 2: Nouvelle Vague Caeté

Começa o filme. Toca mais um celular. Espirros, tosses, pipocas ruidosas em bocas ávidas, tudo dentro da normalidade de uma sessão que se convencionou chamar de cinema de arte. Créditos na tela, trilha sonora apoderando-se do sistema sound round, personagens sendo apresentados em movimentos frenéticos da câmera estilosa do diretor. Lentamente, a atenção do público vai sendo capturada e, lá pelos vinte minutos de projeção, já não se ouve mais o barulhinho irritante dos sacos de pipoca sendo assediados por mãos gulosas. Talvez, os sacos já estejam vazios e descartados ou o filme finalmente conseguiu alimentar outros sentidos lúdicos/gustativos.

Cena 3: Choque

A exibição é interrompida abruptamente, com um corte seco de imagem e som. Aliás, mais do que seco, o corte foi sertânico, satânico, enfim… A tela ficou cega e muda. Por quase três minutos não se via nem se escutava absolutamente nada, a não ser um chiado intermitente, com pequenas e bruscas variações de frequência.

Cena 4: Suspense

Plateia passivamente calada e absorvida pela visão do nada, projetado na tela. Ligados no que não acontecia ou no que poderia acontecer, os cinéfilos, como que paralisados, vêm, ou melhor, apenas sentem os minutos passarem à revelia dos seus cérebros que, na condição pouco reveladora da sala escura, sabe-se lá o que pensavam.

Cena 5: Blá Blá Blá

Fim da sessão e burburinhos à saída do cinema. Comentários da plateia dividida em opiniões e expressões gestuais. Uns, procuram justificar uma modernidade forçada. Outros, estão perdidos entre a realidade e a fantasia, na procura da originalidade, o que provoca opiniões nonsense. Um senhor de barbicha, afaga-a dramaticamente e sentencia: “A anticontextual e pouco ortodoxa ideia do diretor, em expor nosso livre pensamento, propondo uma interação factual com o filme, durante a predominância do vazio, foi um avanço para a sétima arte caeté. Daqui por diante, a exemplo do cinema-novo, o cinema alagoano terá, definitivamente, o seu lugar no pódio das vanguardas pós-modernas”. De imediato, foi contestado pelo amigo: “Bobagem, tudo não passou de uma reles cópia do conceito já utilizado nas partituras de John Cage.” Enquanto isso, a mocinha moderninha e descolada desiste de procurar alguma coisa no mochilão e esclarece para a ‘thurma’: “Demorou mermão, foi chocante, tá ligado? Hiper irado e totalmente conceitual a ausência de imagem e som, tá ligado? Se liga aí, quebrou o barato da cena anterior, careta e entediante.”

Cena 6: Final(mente)

Cinema vazio. Copos de refrigerante e sacos de pipoca abandonados, secos, murchos, esquecidos, prontos para a reciclagem. Corta a cena para a sala de projeção e o técnico, meio que injuriado e resignado, comenta com olanterninha: “Assim não dá, pô! Já falei, se não concertarem logo a porcaria desse projetô (sic), daqui pra frente vai ser sempre essa merma fulerage (sic). Ainda bem que essa galera ficou pianinho e eu não acendi a luz”. Dito isso, deu um chute na velha maquina, pegou a revista Playboy de sempre, apagou a luz da cabine e foi embora.

No +,MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

 

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