AGOSTO? SEXTA-FEIRA 13? CRENDICE OU PRECONCEITO?

0
Por Gilvan Gomes

 

Fonte: www.artecult.com

Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

Cresci no interior do estado de Alagoas ouvindo dizer que o mês de agosto é o mês de azar (1) . Muita gente prefere não casar em agosto. Até se diz: casar em agosto: traz desgosto. E o pior: é quando uma das sextas-feiras do mês coincide com o dia 13 do corrente, e o ano for bissexto. Diz a poesia: “Número treze é bichão / para trazer complicação! /Treze pessoas à mesa / vem por aí tristeza!”(FLORA, 1945, p.194).Pronto, cardápio ideal para nada dar certo. Por que será? Qual seria a origem dessa crença, na nossa cultura?

Segundo alguns autores, as matanças da Noite de São Bartolomeu (2), em 24 de agosto de 1572, na França, causaram o medo de azar nesse mês. Na nossa cultura ocidental, é o dia próprio para algumas cerimônias contra a má sorte. São feitas defumações com guiné (3) ou num chifre queimado. Algumas pessoas tentam explicar isso lembrando as 13 pessoas presentes na última ceia (Jesus e os 12 apóstolos) e o dia da morte de Jesus, numa sexta-feira. Mas, porém, esta ligação parece pouco provável. A última ceia aconteceu numa quinta-feira e o número treze provavelmente já era agourento antes da era de Cristo.

No tarô, conhecido como “máquina da imaginação” ou “escada da sabedoria”, cuja origem é obscura, mas, reúne antigos ensinamentos da cabala judaica e da tradicional astrologia da Caldeia e da Índia (URS VON BALTHAZAR, 1989), a carta treze é a morte.

Também na mitologia nórdica (4) – conjunto de lendas pré-cristãs do povo da Escandinávia que viveram seu apogeu durante a Era Viking, entre os séculos VIII e XIII – faz parte das inúmeras teorias que tanta gente tenta explicar a associação dessa data a coisas negativas.

“Treze raios do sol e treze raios da lua, te arrebenta satanás que esta alma não é tua” compõe a última das “treze palavras” da oração do Anjo Custódio (5) . No dia 13 de junho, morreu Santo Antônio. Daí a trezena das treze terças-feiras.

Cada vez mais fico embevecido com a nossa riqueza cultural, sobretudo aquela criada e vivida por pessoas e grupos populares. Suas tradições vêm da história do povo, até hoje não escrita ou precariamente escrita. Já nos alertava Ayala (1987, p. 53) que a cultura deve ser pensada no plural e no presente. Por isso, as manifestações da cultura do povo são dinâmicas e passam constantemente pelo crivo do grupo ou da comunidade portadora desta cultura.

Portanto, devemos evitar termos pejorativos e preconceituosos como “crendice” usado pela cultura dominante e na Teologia tradicional, segundo a qual diversas manifestações da fé popular seriam formas de fé desqualificadas. Para os que pensam assim, a religião do povo seria um conjunto de crendices pré-cristãs, mal batizadas.

1-Má fortuna ou má sorte. Mal irracional e difícil de ser evitado.

2- O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu, foi um episódio da história da França, na repressão ao protestantismo, arquitetado pelos reis franceses que eram católicos.

3- O mesmo que pipi ou amansa-senhor, tipuana. Planta medicinal, mas federonta.

4- Segundo alguns relatos da mitologia Nórdica, 12 deuses se reuniram em um banquete em Valhalla, o paraíso, quando o Loki, o deus da discórdia e do fogo apareceu sem ter sido convidado e ao se juntar ao grupo passou a ser o 13º participante, criando um conflito que levou à morte, o bondoso Balder.

5- É uma oração muito popular e conhecida, para se livrar do mal e das armadilhas dos inimigos

REFERÊNCIAS:
AYALA, Marcos et al. Cultura Popular no Brasil. São Paulo: Ática, 1987.
BALTHAZAR, URS VON. Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô. São Paulo: Paulinas, 1989.
FLORA, Eliana. Crendices populares. Guaratinguetá: Papelaria Vieira, 1945.

 

Banner

Deixe uma resposta