O DIABO E A TERRA DE SANTA CRUZ (1)

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Por Gilvan Gomes

 

Fonte: www.companhiadasletras.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

1. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo:

Nas minhas pesquisas bibliográficas, no campo de imaginário e religião do povo, guardo nos meus arquivos a leitura da obra O diabo e a Terra de Santa Cruz de Laura de Melo e Souza, historiadora, foi docente da USP, onde constrói uma excelente análise dos numerosos relatos deixados por cronistas, viajantes e missionários que retrataram a terra “descoberta” pelo Ocidente entre o final do século XV e início do século XVI.

A autora utiliza os registros dos viajantes, religiosos e os processos inquisitoriais para mapear e desnudar o chamado processos do “nascimento do Brasil”. Trabalho de relevante contribuição acerca da religião do povo e o cotidiano colonial. Na referida obra o imaginário, a magia, as crenças, a medicina alternativa foram analisadas a partir da ótica da construção das identidades a partir do sincretismo e que estiveram constantemente sob a suspeição do olhar regulador do Tribunal do Santo Oficio.

No capítulo I: O novo mundo entre Deus e o diabo, Souza procura tecer a partir do universo simbólico do mar, como lugar do “medo” que chegou até nós, através das grandes navegações. O mar desde a antiguidade era o lugar em que o imaginário satânico configurava as relações travadas entre viagens imaginárias e o mundo real. O medo do desconhecido alimenta as crenças em monstruosidades.

No desenrolar da narrativa, o contato com o “novo mundo” é estereotipado pela edenização (2) do desconhecido. A natureza é elevada a verossimilhança do paraíso através das primeiras narrativas do navegadores e viajantes. A edenização do novo mundo é construída a partir do imaginário dos europeus que voltaram seus olhares ao novo, relacionando-o a priori as belezas naturais e os nativos habitantes do paraíso.

Laura de Melo e Souza engendra sua análise baseada no pensamento de Jean Delumeau (2) que analisa o medo como “um componente maior da experiência humana”. O medo impulsiona e alimenta o imaginário. Os primeiros contatos com a natureza e os habitantes no século XVI foram relacionados a narrativas bíblicas sobre o paraíso.

O fato de os indígenas andarem despidos foi vista como certa inocência pelos colonizadores. Isso começou a provocar nos conquistadores do velho mundo uma inquietação motivada e alimentada pelos tabus religiosos. A visão edenizada, construída passa por uma transformação e o paraíso toma feições do inferno em virtude das asperezas e astúcias dos nativos.

A literatura produzida sobre a América portuguesa passa por um processo de gradação, primeiro a edenização e, posteriormente estereotipa-se os nativos como luxuriosos e pecadores. O novo mundo assume então conotações do purgatório e ao mesmo tempo de inferno.

As práticas antropofágicas disseminadas em algumas tribos indígenas alimentaram a indignação dos colonizadores. O modelo que edenizou o novo mundo passa por um processo de transformação. Se no começo a simplicidade, a inocência e a nudez eram vistas como atributos valorativos dos nativos, percebe-se que essa imagem vai sofrendo mutações. A permanência dos colonizadores e o aprofundamento das relações vai se tornar complexa e conflituosa. A descoberta da luxúria e do canibalismo por parte dos europeus construiu no imaginário dos conquistadores a demonização do outros (os indígenas).

A colonização no Brasil foi caracterizada segundo a autora por uma bifrontalidade “por um lado incorporavam-se novas terras, sujeitando-as ao poder temporal dos monarcas europeus; por outro, ganhavam-se novas ovelhas para a religião e para o Papa” (p. 48). A empresa colonizadora foi sustentada pela fé e pelo desejo expansionista de um poder temporal do Estado. Se por um lado ocorreu o culto da natureza e das terras (caráter valorativo), por outro o processo de colonização foi sustentado na demonização da humanidade. O processo de marginalização geográfica, os degredos, a vida distante do velho mundo “civilizado” alimentaram no imaginário colonial, principalmente dos portugueses a ideia de um purgatório no novo mundo.

NOTAS:

1- Voltar ao estado edênico.

2-Jean Léon Marie Delumeau (Nantes18de junho de 1923 — Brest13 de janeiro de 2020) foi um historiador francês especializado em estudos sobre a história do Cristianismo e autor de vários trabalhos relacionados com a temática (cf. História do Medo no Ocidente, São Paulo: Cia. Das Letras, 1989).

REFERÊNCIAS:

DELUMEAU, Jean.História do medo no Ocidente: 1300-1800). São Paulo: Cia. Das Letras, 1989.
SOUZA, Laura de M e.,O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Cia. Das Letras, 2009.

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