Dente de Leite

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Por Adelmo Marques Luz

Quando eu era criança fui alvo de inúmeras agressividades. Verbais e físicas. Ocorreu-me uma delas quando ainda tinha dentes de leite. E foi justamente por causa da minha primeira dentição, que fui acompanhado de meus pais e de minha irmã mais velha, ao consultório odontológico do Dr. Dorival Lemos, localizado num prédio antigo de primeiro andar no Centro da cidade. Ignorava completamente a existência, a finalidade e a rotina daquele ambiente. Oportuno ressaltar que naquela época não se dava a devida atenção à odontopediatria, quiçá até a desconhecessem. Especialidade que modernamente trata da saúde bucal e do estado emocional dos pupilos, auxiliando-os a superar os transtornos no tratamento dentário sem paranoias, desmistificando a ideia de que o espaço reservado a esse segmento da saúde é uma coisa assustadora, capaz de ocasionar perturbações neuróticas a exemplo do que se deu comigo.

Conservo até hoje um sentimento de desconfiança em relação aos dentistas. Duvido da competência de todos eles no que diz respeito às suas habilidades terapêuticas para aliviar as dores e amainar as aflições dos pacientes. Sinto-me, portanto, irremediavelmente impossibilitado de suplantar esse distúrbio comportamental que evidencia haver em mim, de forma latente e incontornável, um trauma que fora originado na infância.

Não havia ninguém na sala de espera quando chegamos. Para mim, tudo ali era inédito. Pairava no ambiente a essência volátil e inebriante do éter. Logo, o olfato induziu-me a elaborar inconvenientes conjecturas. Para distrair-me e afastar os maus pressentimentos, apossei-me de um número aleatório da revista “O Cruzeiro”, por mim já conhecida, pois meus pais eram leitores e assinantes do mencionado veículo. Folheava-a em busca das charges do Péricles, tão disseminadas na época, sobre o “amigo da onça”. De repente varou o silêncio gritos lancinantes, emitidos por alguém que se submetia à extração de um dente estragado. A anestesia, segundo explicações posteriores que nos foram dadas pelo cirurgião-dentista, não havia pacificado a região infeccionada, nem refreado a sensibilidade do indivíduo. No afã de se livrar daquilo que há dias o mantinha insone e num estado de fraqueza, decorrente da falta de alimentos, o paciente recusava-se a atender ao aconselhamento do especialista para postergar o procedimento. E a dolorosa extração ocorreu à moda antiga, por intermédio de uma excruciante intervenção, sem o apoio dos lenitivos. O infeliz, homem de meia idade, após o espetáculo deprimente ao qual todos nós só tivemos acesso através das percepções auditivas, cruzou a sala, pálido, a passos hesitantes, emitindo gemidos que eram abafados por um lenço que levava à boca.

Chegou a minha vez. Entramos todos. Depois da cena que acabáramos de presenciar, mesmo que indiretamente, era natural que eu estivesse apreensivo e reticente. Um sentimento incontrolável e daninho aguçava-me os sentidos. Pisava leve, a respiração suspensa como se estivesse indo de encontro de uma tragédia. Ordenaram-me sentar numa cadeira em acentuado declive, o que me deixou ainda mais intrigado e à mercê de um homem que havia comprovado ser capaz de infligir maus-tratos sem ressentimentos. A parafernália composta por instrumentos pontiagudos, perfuro-cortantes, remeteram-me à uma cena que havia presenciado dias antes no açougue da Cambona. Seu Eugênio, o proprietário, vestido num avental branco e encharcado pelo sangue, fazia uso de facas afiadíssimas com as quais desossava, com uma habilidade incrível, um quarto bovino dependurado em ganchos. Aquilo atraiu-me a vista e prendeu-me a atenção, causando-me repulsa e medo. Via-me, agora, sugestionado, sendo fatiado ora pelo marchante, ora pelo dentista, que se posicionava impávido ali na minha frente.

Apesar da luz incandescente de um holofote incidir sobre os meus olhos, impossibilitando-me enxergar com nitidez o que se passava no entorno, e intimidado pelas determinações persuasivas da autoridade paterna que se mantinha vigilante no meu flanco, não capitulei:

– Abra a boca! Disse o doutor.

Após uma breve inspeção no dente problemático, sentenciou:

– Vamos extraí-lo! E não há necessidade de anestesia. O dente está bambo.

Besuntou-me a gengiva com uma pomada balsâmica, terrivelmente amarga e repugnante, e em seguida, apossou-se de um alicate:

– Aguente firme! Homem não chora!

Cerrei os dentes, travei a mandíbula e nem as admoestações do meu genitor ralhando comigo, os beliscões, puxavantes, cocorotes e as promessas de retaliações foram suficientes para que eu transigisse. Deliberaram, então, realizar o procedimento à força. Meu pai, ocupou-se em segurar-me um dos braços; minha mãe, mesmo a contragosto, o outro. Minha irmã, por sua vez, prendeu-me a cabeça, e para neutralizar os membros inferiores contaram com a ajuda de um camelô convocado ali mesmo nas cercanias. Debalde foram os esforços no sentido de vergar o ânimo de um garoto aterrorizado, ofegante e à beira da loucura. Após a desordem que se instalou após o corpo-a-corpo, desistiram, mas mantiveram a ameaça de retomar, num futuro próximo, a investida. Felizmente, não levaram adiante tal propósito, até porque não houve tempo.

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A solução encontrada por tio Cleto, irmão de meu pai, um democrata e conselheiro da família, deputado federal à época, foi chegar ao meio-termo entre dois extremos. Um ato moderado que, de acordo com aquela circunstância, exigia equilíbrio e comedimento.
Projetara seu nome no cenário político regional, onde ficara conhecido por suas características conciliatórias e pacifistas. Magnífico tribuno, quem o ouvia discursar no parlamento, nos tribunais ou nos comícios encantava-se com a lepidez do seu raciocínio sucessivo, concatenado e convincente. Desportista apaixonado e grande causídico, tinha como princípios inarredáveis respeitar as diferenças ideológicas, e a livre manifestação do pensamento.

Ao tomar conhecimento do episódio humilhante ao qual eu fora submetido, apressou-se em conclamar a família para uma reunião reservada. Desejava definir de forma consensual as ações que seriam adotas ao meu caso dali em diante. Compareceram ao encontro, além dos meus pais, tios e tias. Logo na abertura do evento, que se deu na casa de meus avós paternos, ocorreu a falação do meu pai que se mostrava desassossegado, pois excogitava ser alvo de reprovação por parte dos parentes. Daí a sua premente necessidade em defender-se das críticas que não chegavam a ser explícitas, mas subtendidas. Sustentou desarrazoadamente, a tese de que a questão deveria ser resolvida a muque, sem rodeios nem panos quentes. Recorreu às ilustrações da época em que era criança, valorizando a colheita dos frutos por um homem maduro, íntegro e excelente pai de família, graças à exatidão e eficiência do regime inflexível em que fora criado. Via-se a emoção estampada em seu rosto, a voz embargada, ao discorrer sobre fatos e experiências vivenciados em um passado longínquo que compunham o enredo da sua história.

Tio Cleto, então, intercedeu. Admitiu a pertinência do alegado por meu pai no que dizia respeito às reprimendas outrora adotadas por meus avós, mas contestou a conveniência e a oportunidade das mesmas, pois entendia estarem obsoletas, já que o momento era outro, e que os costumes, vigentes em determinada época, caducam com o passar do tempo.

Completou seu libelo apelando no sentido de que decisões daquele tipo deveriam ser revestidas de bom senso. Afinal de contas, toda criança, em qualquer etapa da existência humana, sentiu medo. E que a forma adequada dos pais lidarem com o pavor de suas crianças seria encará-lo com naturalidade, o que não significaria ignorá-lo:

– Atentemos para o contexto em que se insere o pavor do menino, por mais absurdo e imponderável que seja para a nossa cognição adulta. Só assim ajudá-lo-emos a derrotar definitivamente seus fantasmas. O medo, reiterou, é uma resposta natural de todo ser humano que se encontra ameaçado, seja ele originário de uma situação real ou fictícia. E finalizou seu arrazoado apelando para a seguinte reflexão: “A injustiça que se faz a uma criança é feita a todas as crianças, porque todas as crianças podem ser essa criança”. E a famigerada extração, que já havia virado folclore e servido de escárnio no seio da família, ocorreu dias depois.

Empreendemos, eu e tio Cleto, tratativas sadias e em pé de igualdade. E chegamos a conclusões interessantes. Celebramos um acordo no qual ambas as partes teriam de cumprir obrigações recíprocas. Para granjear a minha confiança e estima, fez-me presente um revólver de brinquedo que disparava quando municiado com espoletas. E com direito a um brinde extra, mas esse, só após da realização do que fora combinado: passaria uma manhã inteira tomando sorvete na Gut-Gut, sob suas expensas. Proposta sedutora e que logo foi aceita. Acompanhou-me ao consultório, no dia previamente agendado, meu padrinho Antonio, que sempre foi meu protetor e amigo, e que me serviu de arrimo na empreitada que ainda me fizera sonhar na noite anterior com coisas sinistras. Como se deu a extração? Ora, com o revólver que me fora presenteado senti-me confiante, destemido feito o general Aníbal que derrotou sucessivamente legiões do poderoso império romano, até então consideradas invencíveis. Resolvi pôr fim à história que haviam propagado injustamente: a de que eu era um “homem” covarde e indeciso. Matei o medo com um tiro…! Confesso, entretanto, que o seu espectro continua a atenazar-me o juízo, sobretudo quando me vem à memória que ainda possuo trinta dentes.

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